quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O Sábio da Montanha - Danny Marks

 Ele chegou com seu carro importado perseguido por uma nuvem de poeira. O terno bem cortado não era problema naquele sol. Parou ao lado do homem que estava sentado à sombra de uma arvore e lançou-lhe uma baforada fresca e perfumada quando abriu o vidro para perguntar:
            — Meu velho, sabe onde fica a casa do “Sábio da Montanha”?
            — Sim, senhor. Claro que eu sei onde fica.
— E pode me dizer aonde fica?
            — Claro, senhor. Essa informação não vai lhe custar nada não. Está vendo aquela montanha – disse apontando para um lugar próximo, fora da estrada.— No alto dela verá a casa do Sábio da Montanha. É só ir reto que vai chegar lá.
            Ele fez uma careta. Seu carro seria destruído se fosse enfrentar aqueles buracos e pedras na planície sem estrada.
Como se conseguisse ler os pensamentos do estranho o velho disse suavemente. — Com esse carro não dá pra ir por ai não. Precisa de um jipe. Posso lhe alugar um se quiser.
— Sim, vou deixar o carro aqui e pego o seu jipe, então.
Depois de acertada a estadia do carro e o aluguel do jipe, o homem segue em direção a montanha.
Quando estava próximo do sopé o carro parou, tinha acabado a gasolina. O homem olhou em volta e avistou uma cabana, foi até lá pedir alguma ajuda.
Um velho homem arrumava em uma enorme cesta alguns mantimentos.
— Senhor, preciso de gasolina, tenho que subir a montanha e o meu jipe está sem combustível. O Senhor teria algum para me vender?
— Claro! Mas deste lado da montanha as trilhas são estreitas e somente um cavalo consegue subir o primeiro trecho do terreno.
Ele já estava ficando irritado com o calor e o cansaço.
— Droga, onde eu vou arrumar um cavalo?
— Eu alugo o meu pro senhor, faço um preço bem baratinho. Pode deixar que tomo conta do jipe também.
Ele pagou o combustível para o jipe e o preço do aluguel do cavalo.
Subiu durante algum tempo até que a trilha ficou mais íngreme, e o cavalo se recusou a continuar. Com sede começou a praguejar com o cavalo que não saia do lugar não importava o que fizesse. Foi quando viu um velho se aproximando com um burrico.
Sentiu um cheiro delicioso de comida e só então percebeu que estava morrendo de fome. Parou o velho e lhe perguntou.
— Senhor, estou com sede e fome, poderia me dar um pouco dos seus mantimentos? Meu cavalo se recusa a subir a montanha e tenho que chegar a casa do Sábio.
— Pode se servir a vontade, não vou cobrar-lhe a comida. Mas se quer subir a montanha vai precisar de um burro. Nenhum cavalo subiria isso não.
— E, por acaso, o senhor pode alugar o seu burro, para mim?
— Porque não? Posso alugar o burro e o senhor leva também a comida. Levo o cavalo para baixo e o coloco no estábulo.
Acertado os valores Ele subiu outro trecho, estava quase no topo quando se deparou com um paredão de rocha.
— E essa agora? Só com um equipamento de alpinismo consigo subir isso.
— O Senhor quer equipamento de alpinismo? Eu posso alugar um...
Foi quando pode perceber um velho sentado em um tronco de arvore meio caído. Ao seu lado um equipamento de alpinismo.
Depois de algumas horas de escalada, chegou ao topo. Cansado, suado, com as roupas destroçadas, mas satisfeito. Tinha conseguido superar as dificuldades e alcançado o topo.  Agora era só procurar o Sábio.
Olhou a volta e viu um carro importado se aproximando. No volante um velho bem vestido. O carro parou ao seu lado e abriu a porta. Só então ele reconheceu o carro.
— Ei! Esse é o meu carro, e você... É o velho do jipe....
— Sim! Isso é verdade.
— Espere. Também foi você que me alugou o cavalo, o burro, o equipamento de alpinismo...
— Vai entrar ou vai continuar a pé?
Entrou rapidamente como carona de seu próprio carro.
— Mas... Como chegou aqui?
— Pela estrada do outro lado da montanha. De onde estava bastava seguir em frente mais meia hora e pegar a pista a esquerda.
— E porque não disse isso logo?
— Porque não me perguntou. Queria saber onde era a casa do Sábio da Montanha e lhe mostrei. Depois decidiu pegar o caminho mais curto e eu lhe ajudei. Veio disposto a encarar qualquer dificuldade para adquirir a sabedoria e foi o que lhe dei. Em qualquer ponto da jornada teria sido mais fácil voltar e começar de novo, mas você preferiu insistir. Superou as dificuldades e merece o mérito por isso. Mas, isso é persistência; Sabedoria é escolher o caminho correto.
— Agora vai me dizer que não existe esse Sábio da Montanha, não é?
— Claro que existe. Eu sou o Sábio da Montanha. Já fui um empresário muito rico, mas por achar que a persistência venceria qualquer dificuldade fui perdendo os bons conselhos que os sábios a minha volta me davam. Não demorou para os sábios irem embora também, até só restar esta montanha e algumas terras ao redor. Não produzia nada, não tinha valor algum. Fui obrigado a vir morar aqui e passei a repensar tudo o que tinha feito de errado. Descobri que havia sempre duas formas de encarar um problema, com coragem ou com sabedoria. Ao aprender isso resolvi meu problema, construí um hotel no alto da montanha e uma estrada de acesso que fica do outro lado. Dei o nome ao hotel de Sábio da Montanha, e espalhei algumas histórias sobre quem encontrasse o segredo da montanha teria o mesmo conhecimento do Sábio que morava lá no alto.
— Seu trapaceiro. Isso é enganar as pessoas....
— Não, isso é propaganda! O segredo da montanha é que existem dois caminhos que levam ao topo, um fácil e um difícil, mas você só aproveita o fácil corretamente se tiver pego o caminho difícil ou já for um sábio.
— Deixa pra lá. Dê-me o carro e vou embora.
— Já que está por aqui, porque não toma um banho e descansa? Temos uma excelente hospedagem, uma loja de roupas, um bom restaurante...
Ele pensou um pouco e acabou aceitando. Então lhe veio a cabeça uma coisa que deixara escapar...
— Espere ai! Como você conseguiu chegar sempre antes de mim em todos os lugares?
— Isso não é obvio? Se não conseguisse fazer isso, não seria o Sábio da Montanha, não é mesmo?
E os dois foram rindo o resto do caminho.
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