segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Homem de Barro - Danny Marks


— Pedra? Você tem certeza?
— Claro! Não há dúvida alguma, sou um profissional.
— Mas isso não é impossível?  Alguém teria notado antes, eu poderia ter notado, não?
— Claro que não! Essas coisas não acontecem assim como as pessoas acreditam. É um processo, começa pequenininho e vai se consolidando aos poucos, sem que ninguém note, e quando se vê, já está feito!
— Pedra, então... E agora? O que eu vou fazer?
— Ora, não faça essa cara de fim de mundo. Quê é isso? Não é o primeiro e, com certeza, não vai ser o último. Com o tempo você se acostuma.
— Não sei. Sempre achei que deveria ser diferente. De um outro tipo, sabe?
— Você não está vendo as vantagens, esse é o problema.
— E quais seriam?
— Imagine que você não vai ter essa coisa de piedade. Isso atrapalha o progresso profissional, por exemplo. Ficar com pena dos outros é o “Ó”. Você acaba se podando, perdendo as oportunidades porque está preocupado com aquele “coitadinho” que nem merece estar ali competindo com você e de repente, o que acontece?
— O quê?
— Ele passa a perna em você. Se dá bem e você ó...
— É, pensando bem...
— E a dor? Imaginou jamais ter que sentir dor? Essa coisa de dor é bobagem romântica daqueles que não sabem o que é sofrer. Quem escolhe sentir dor hoje em dia? Ninguém!  É dor da perda, é dor de pena, é dor de frustração. Você está livre disso tudo.
— Será? É que...
— E o amor? Isso é o pior, nem pensar. Você vai se iludindo, se envolvendo, se entregando e então, puft! Acaba tudo, você fica sem nada. Aquele vazio no peito, aquele mal estar. Você quer morrer, mas não consegue nem fazer isso. Falta a dureza necessária para fazer o que é preciso ser feito. A coragem e a força da...
— Pedra.
— Exatamente! Tá vendo? Já está se acostumando com a idéia. Essas coisas levam um certo tempo, mas quando você percebe está lá. Firme, forte, duro.
— É, estou me sentindo assim agora.
— Pois é, não tem erro não. Acredite em mim, sua vida vai mudar completamente depois dessa percepção. Você vai ver.
— Tá bom então. Obrigado... eu acho.
— Não tem o que agradecer não! Pedra! Lembre-se disso.
— Sim, desculpe, ainda não me acostumei. Pedra, então...
Ele foi embora, seu corpo maleável se deformando a cada passo. As tristezas eram perigosas, mas o coração de pedra jamais iria permitir que houvesse lágrimas.

Postar um comentário

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...