segunda-feira, 19 de julho de 2010

Ghost Writter



Deus! O que o mundo fez a esse pobre Diabo?
Esse foi o primeiro pensamento que me veio à cabeça quando o vi.
Não, na verdade eu devo ter pensado algo do tipo: de onde esse cara veio? Ou algo assim.
Ah, eu logo vi quem era. Qual escritor que não conhece o Diabo? Há uma vasta literatura sobre ele, as coisas que fez, pactos que firma com escritores, enfim, uma fonte inesgotável de pesquisa e idéias.  Claro que nem todas as coisas que são escritas seguem uma linha lógica, coerente, embora possa supor que se deva a arte de editores sombrios que alteram o que foi escrito e publicam como querem.
O fato é que eu sabia quem ele era só não imaginava que um dia o veria daquele jeito, ainda mais no meu escritório.
Ele foi logo dizendo sem cerimônias como cabe a um bom diabo.
— Preciso que escreva por mim.
— Olha, cara, vai me desculpar. Eu não quero fazer um pacto com você, sabe? Essa coisa de vender a alma para fazer sucesso... Sinceramente acho um péssimo negócio. Além do mais eu até que estou me saindo bem e...
— Quem falou que eu quero a sua alma, quero que escreva em meu nome. Você não é um escritor? Então? Quero que escreva por mim, como se tivesse sido eu.
—Eu um Ghost Writter do Diabo? Realmente é algo original. Não sei... Talvez fosse melhor você procurar alguém mais experiente, sei lá, um bispo ou um papa...
— Eu já fiz isso antes, não deu certo. Na verdade a coisa ficou pior. Quero alguém que não siga uma linha tendenciosa.
O cara estava realmente nervoso, não parava de andar para lá e para cá espalhando o cheiro de enxofre por todo lado. Apliquei um pouco de desodorizador no ar que ficou pior.
— Tudo bem, eu escrevo. Estou precisando de uma grana mesmo, acho que podemos chegar a um acordo, não é? Afinal você deve ter bastante dinheiro e...
— Sim, peça o que quiser, mas escreva por mim.
— Perfeito, já estamos começando a nos entender. Sobre o que você quer que eu escreva? Não sou muito bom com essas coisas de religião, sabe?
— Não!! Nem deve tocar no assunto de religião!!
O cara realmente estava transtornado, o que me deixava curioso. Sempre achei que o diabo queria mais era que se falasse de religião, ou contra ela, sei lá.
— Então o que você quer que eu escreva?
— Quero que escreva sobre como os jovens deveriam ser. Dar conselhos aos pais para que ensinem os seus filhos a serem pessoas normais.
Era só o que me faltava. O Ghost Writter do Diabo escrevendo sobre auto ajuda?
— Espera, acho que você realmente precisa de um cara mais experiente nisso, um psicólogo talvez, ou...Ei!! Você deve conhecer muito sobre essas coisas, porque simplesmente não escreve e pronto?
— Você não entende? Eu não consigo. Essa juventude de hoje é incompreensível até mesmo para mim. Você tem filhos...
— Sim, eu tenho dois aborrecentes em casa...
A gargalhada era um misto de sofrimento e ironia, antes de me assustar me fez sentir pena do cara.
— Dois? E acha que isso é um problema? Experimenta ter alguns milhões deles. Estão cada vez mais terríveis, mais odiosos, mais depravados...
— Epa! Mas eu sempre achei que isso era bom para você, afinal quanto mais gente no inferno melhor, não é?
— Essas...coisas... não são gente. Sabe o que está acontecendo? Fizeram um fã clube de jogadores de Doom e saíram caçando todos os demônios dos três primeiros círculos infernais. Isso sem falar na passeata que organizaram pelo CyberHades pedindo para ampliar os castigos nas fases iniciais, disseram que não tinha graça ter a eternidade para jogar se não aumetava o nível de dificuldade.  Eles simplesmente tornaram a minha casa um inferno.
— Grupos de jogadores de vídeo game heim?!!
— Sem falar nos depravados que seduziram os bestiais, nos pestinhas que roubaram as ordas infernais, nos moleques desnaturados que bagunçaram toda a ordem infernal e desrespeitaram demônios milenares com seus dialetos loucos. Sabe do que me chamaram? Velho!!
Não pude conter a risada. Realmente devia ser um inferno a vida do cara com tantos aborrecentes para cuidar, ou melhor, para lidar.
— Bem, mas eu sempre achei que era isso que você queria. Afinal essa história de corrupção da moral, perda de valores familiares, etc, é coisa sua...
                — Uma coisa é corromper os adultos, ver como resistem antes de cair nas minhas garras e depois como tentam fugir dos castigos infernais, mas essa juventude não está sendo corrompida. Eles buscam porque gostam, não há nenhum mérito. Pior, eles já chegam dizendo que está tudo errado, que estamos ultrapassados, que agora é eles que vão assumir as coisas. Eu não agüento mais isso, você precisa me ajudar. Não me faça implorar...pelo amor de....
                A coisa era mesmo séria. Porra, eu não podia deixar o cara ficar naquele estado, isso não era coisa que se fizesse com o cara.
                — Tá bom, vou ver o que eu posso fazer, mas olha, não prometo nada, heim?  Essa coisa de educar os filhos é difícil para caramba, que o diga o seu Pai...
                Ele nem ficou para escutar o resto, foi só falar no Pai que sumiu.  Eu pensei um pouco e resolvi que estava na hora de fazer a minha parte.
                Sentei na frente do micro e comecei o tal do livro:
               
“Deus! O que o mundo fez a esse pobre Diabo?”
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