sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O Pé de Vento - Rogério Camargo


Estava o poeta poetando suas poetices quando um pé de vento penetrou seus pensamentos, sua caverna, suas folhas de papel.
O que é isso?!, perguntou, à beira do espanto e da indignação.
É meu! É meu! Pega ele pra mim, poeta. Mas não esmaga, cuidado.
Ele quem, diacho? Só vi passar por mim um pequeno vendaval.
Mas é dele mesmo que estou falando. Pega pra mim meu pé de vento.
Raios!, resmungou o resmungão de si para si mesmo. E levantou o corpanzil que uma capacidade de estar presente às coisas fazia parecer ainda maior.
Mas eu nem vi direito para onde foi aquele estrupício!
Ah, não diz assim! Tão bonitinho que ele é!
Bonit...?! Tá bem, há gosto pra tudo. E agora, onde está aquele... tão bonitinho?
Ai, mas que má vontade, poeta! Deixa que eu mesma procuro, então.
Não, não, pára aí. Não vai desarrumar minhas coisas. Tá vendo isso aqui,? Pisa com cuidado, é uma ode. Não vai derrubvar aquilo ali também, é um epigrama. Não te encosta naquilo que... Olha só, já encostou!
Que manchas são estas?
São madrigais. Agora vais ter que esperas noite de lua cheia pra lavar.
Por que?
Senão eles choram. Aí, derretem toda a tua blusa.
Que coisa!
Tô dizendo. É complicado aqui dentro. E tu ainda me soltas este canalhinha aqui!
Eu não soltei, foi ele que se soltou!
Não entendo muito bem qual é a diferença, mas vá lá que seja. Vamos até os fundos, mas olha bem onde pões os pés, por favor.
Não precisava me repetir. Madrigais de lua cheia já são suficientes pra mim.
Ele rosnou alguma coisa que ela não ouviu e continuou entrando caverna adentro, pensamento adentro, folha de papel adentro.
Passou por aqui, ó.
Como sabes?
Os sonetos estão todos retorcidos, não foi assim que deixei.
Não podiam se retorcer sozinhos?
Um pé de vento talvez se solte sozinho, mas um soneto não se retorce sem que algum desastrado passe por ele.
Não concedes mesmo ao pobrezinho, né?
Conceder? Eu estava trabalhando, menina!
Eu sei disso, ora. Claro que eu sei disso. Queres que eu me sinta culpada?
Não. Quero que me ajudes a achar o... tão bonitinho. Andaram ainda vários minutos por aquele labirinto até que num canto um redemoinho de papéis dava conta de que o pé de vento estava presente.
Olha só o estrago! Chama aquele diabrete, vamos ver se ele te atende.
Claro que atende. Ele é da mamãe, não é, filhinho? Vem cá, vem.
A papelada caiu ao chão, mansamente, e o cabelo da moça começou a espalhar-se pelos ombros, pelo ar, pela vida, denunciando que ao colo já lhe subira o “filhinho”.
Que alívio, hein, “mamãe”?
Pára de implicar! Olha que eu solto o queridinho de novo, hein?
Ué, mas não é ele quem se solta?
Pra vir aqui foi ele que se soltou.
Eu sou mesmo bastante cheio de atrativos – continuou brincando o poeta.
Bobão. Quer que eu dê uma arrumada em tudo isso aqui?
Não, deixa comigo. Vocês dois jamais descobririam a ordem que eu quero dar às coisas.
Mas eu posso deixar ele lá fora e...
O poeta foi de uma ternura descabida quando deu um beijo na testa dela e disse simplesmente não.


(Rogério Camargo)
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