domingo, 13 de dezembro de 2009

O Elevador - Danny Marks



          As portas abriram e ela precipitou-se para dentro, lágrimas amargas a queimar-lhe os olhos. Pela segunda vez entrava em um elevador, desde que ficara claustrofóbica em uma brincadeira ruim, na infância. Com o temor infantil progredindo para o pânico adulto, resolvera procurar ajuda profissional.
          Dois anos de terapia e um romance com seu psicólogo haviam feito milagres e caminhava para a cura. Ainda subia os dois lances de escada que a conduziam aos seus encontros no divã, até que ele comunicou sua mudança para o nono andar e que indicaria outro profissional para atendê-la. Não queria que ela sofresse, disse, e ela aceitou. Sempre aceitava tudo o que ele mandasse, sempre querendo agradá-lo. Dois meses de desencontros a obrigaram a enfrentar o cubículo macabro.
Algumas horas de sistemática preparação de corpo e alma e suportou a subida pelos nove andares, olhos fechados e coração pulsando entre o medo e a alegria de superar-se e comunicar-lhe a novidade do seu progresso, queria que a visse renovada.
          Ninguém na recepção, porta do consultório fechada, não trancada.
          Uma brecha pequena e um olhar furtivo, o sorriso definhando no rosto ao ver e ouvir os sons que denunciavam previamente o tratamento que era dado no divã. A visão de corpos nus entrelaçados e o riso medonho em sua mente.
          Ali no “seu divã” viu o monstro ressurgir e abraça-la em suas paredes fechadas, o mundo girou e escureceu à sua volta. Correu entrando na primeira porta que se abria e o elevador tragou-a em sua descida automática.
          Quando se apercebeu onde estava as luzes apagaram e o elevador parou. Um simples fiapo de luz iluminando o seu medo vindo de alguma brecha acima, queria morrer, mas já estava enterrada.
          — Não se preocupe, deve ter sido uma falha nos geradores, mas logo arrumam e vai ficar tudo bem.
          Ficou paralisada, muda pelo medo, trancada no escuro solitário com um estranho e com imagens a suceder-se na mente. Chorou soluçando, desabando completamente como as paredes de sua fortaleza.
          — Por favor, não chore. Vai manchar o seu lindo vestido. — disse-lhe a voz.
          Sentiu o toque suave de um lenço em suas mãos, dedos fortes e ásperos o sustentavam em oferta, pegou-o rapidamente, limpando o rosto sem saber o que mais fazer.
          — Eu queria tanto... Estava disposto a obrigá-lo a dar-me o seu nome e endereço e depois... castigá-lo por trair você. Tinha que a ver ainda que ao longe, mas o destino a trouxe assim, tão linda, e me permitiu poder falar-lhe sem medo uma última vez. Não, não fique com medo... não vou lhe fazer mal algum.
          Ela sentiu o hálito suave, o carinho nas palavras e soube que ele a amava. Estranhamente sentiu-se segura com a insegurança dele, se identificando com aquele ser de quem só podia ouvir a voz emocionada.
          — Quando abrirem as portas desaparecerei de sua vida. Nada posso lhe oferecer, sou pobre, feio, mas... Eu amo você. Desde que a vi no consultório dele, não consigo pensar em outra coisa, só em vê-la, sentir o seu riso.
          Ela sentiu o apelo desesperado na voz dele fundir-se às suas próprias necessidades. Todos os seus sentidos e sentimentos em um turbilhão em meio à escuridão e num impulso sua boca procurou a dele nas sombras. Desejo reprimido, desespero, caos de sentidos e memórias fundindo corpos em êxtase frenético com a urgência de condenados. Luz, movimento, realidade superando fantasias. Roupas arrumadas às pressas quando a luz voltou, olhar furtivo para o dono daquela alma incomum.
Uma arma guardada às pressas, portas que se abrem e uma fuga prometida. Ela ainda levou alguns segundos para se recompor e sair atrás dele gritando:
— Vilma! Meu nome... é Vilma.

Ele parou e voltou a olhar para ela, deslumbrante em seu vestido amarrotado. Ela o alcançou e capturou-o novamente em seus braços, as bocas coladas sem importar quem olhava a cena. Nunca mais precisaram de psicólogos, apenas elevadores.
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