domingo, 25 de janeiro de 2009

Altas Esferas - Danny Marks


          Era exótica aquela figura. Por várias vezes havia dado entrevista para a televisão. Era uma celebridade no folclore local: Um Profeta de Rua. Desde sempre estivera na cidade, no coreto da pracinha, a sua moradia. Vestia as roupas que lhe deixavam, a comida que preparavam e, em troca, lhes dava a voz das Altas Esferas.
          Qualquer um que se aproximasse poderia ser agraciado com uma profecia, meio presságio, meio enigma, recitada em repente de cordel e deixada no ar para que cada qual a interpretasse por si só. Logo se calava dançando ao som da música que, das esferas vindo, só ele ouvia.
          O repórter lhe perguntara, certa vez, que esferas eram essas. Ao que ele lhe respondera sério com o dedo em riste apontado para o céu:
          — Ouvir estrelas? De certo me dirás que perdi o senso, e te direi no entanto; não só poeira delas recebes e, nem esta, tu percebes. Quem é o néscio, portanto?
          Quis o destino que um dia o governador do estado, em plena campanha pela reeleição, por ali passasse e desgostasse da figura folclórica. Mandou seus assessores removerem o “lixo” da praça do coreto, pois ali pretendia discursar. E o que parecia caso fácil para tão nobres senhores se tornou algo complicado, frente à ação popular.
          Os primeiros a comprar a briga na defesa do profeta das estrelas esféricas, foram os moleques que, com suas atiradeiras, deitaram pedras nos capangas de terno, pagando com isso velha dívida adquirida com o mestre, nas dicas dadas à moda de cordel sobre matéria de prova por fazer.
          Veio a polícia, relutante, para ajudar a restabelecer a ordem pública. O governador haveria de desculpar, homens bravos e fieis no cumprimento do dever, podem enfrentar sem medo qualquer bandido foragido e perigoso matador, mas não há nenhum homem neste mundo capaz de enfrentar a própria mãe, esposa e sogra unidas em defesa do profeta cantador.
          Quando a imprensa local se juntou ao tumulto, o governador, político renomado que era, aproveitou para desfazer o engano. Anunciou que ordenara aos assessores, demitidos sumariamente, apenas a remoção do lixo que pudesse haver na praça, morada do distinto cidadão, a quem viera consultar em sua sabedoria sobre os desígnios reservados para a eleição.
          O Ilustríssimo profeta não se fez de rogado, aceitou de pronto o que lhe foi solicitado e, em particular, no coreto da praça, encontrou-se com o governador. Antes tivesse sido decretado feriado, o povaréu amontoado com olhos e ouvidos bem abertos, compareceu.
          O profeta foi logo jogando na cara do governador, a sua moda costumeira, seus desígnios que recebia em primeira mão do alto. Aquele homem, que o povo anteriormente escolhera em boa fé, e que novamente ao povo recorria, haveria de receber o prêmio que merecia se no dia do pleito em questão, viesse até o coreto, antes que o dia clareasse completamente, e acendesse uma vela no lugar marcado, em prece ao Santo Padroeiro da Cidade. Ainda havia mais um pedido a fazer, este escrito em papel para somente os olhos do governador ver.
          Ao ler o dito cujo, o governador empalideceu e abriu a boca, mas o profeta já estava a anunciar ao povo que, cumpridas todas as exigências feitas, naquele mesmo lugar, haveria de cair uma rica chuva que traria fortuna a todos na cidade, mas que apenas quando a poeira das estrelas abaixasse é que poderiam tocar no que caíra.
          Cada qual interpretou a sua maneira o tal desígnio, todos cientes que tudo dependia apenas do governador para a tal riqueza surgisse. Este, encurralado entre o papel que exigia vultosa soma a ser entregue com instruções detalhadas no dia do pleito, ou a perda dos votos certos de todos ali presentes, decidiu que haveria de embarcar nessa encenação para depois dar cabo do canastrão.
          No dia marcado, logo ao nascer do sol, quando as últimas estrelas ainda podiam ser vistas, lá se foi o governador, com os volumes arrumados, para o local combinado. Tão logo chegou no coreto, encontrou vela e fósforo prontos para homenagear o Santo Padroeiro Protetor das Virtudes Simples.
          Tão logo o fósforo foi riscado, a explosão se fez, sacudindo todas as casas das redondezas. Do coreto tão somente pedaços miúdos, que caíram antes mesmo que a poeira baixasse, mas qual não foi a surpresa de todos que acudiram ao lugar, ao ver a chuva de dinheiro que descia lentamente.
          Analisada a causa da explosão, ficou-se sabendo que sob as propriedades havia um imenso bolsão de gás natural que escapara por uma fissura na terra se acumulando sob o piso do coreto. Do pobre governador só sobraram os benditos pedaços em meio ao concreto.

          Venceu a eleição, postumamente, mas não pode levar o cargo para onde foi mandado. Do curioso profeta, não se teve mais notícias, uns dizem que o vento levou sua voz como leva poeira para longe, para onde outros necessitados aguardavam. No íntimo, muitos acreditam que nas estrelas fez sua morada e juram de pés juntos, portanto, que quando chamado em prece de noite, na lua cheia, altas esferas respondem, piscando.


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