quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Homem Invisível - Danny Marks


          Quem não conheceu o Jorge Armando de Souza?
          Aquele moleque remelento que andava com a bermuda, dada por algum parente, caindo e mostrando parte da bunda. O boleiro destemido, armador das melhores jogadas nas peladas da várzea, um craque não descoberto, terror das menininhas. Terror mesmo, preferiram as bonecas. Nem aquele olheiro que o descobriria para o mundo chegou a olhar para ele.
          Quem viu quando Jorge virou Armandinho? Esse garoto experto que escrevia longos textos que encantava até mesmo seus professores. Discursava seus trabalhos escolares fazendo grandes congressos para uma audiência cativa, não podia sair até que o sinal tocasse. Quando tocou, ninguém sobrou.
          Vida de poeta, belos poemas para encantar as mulheres de sua vida. Mulheres que ele conquistava com a mesma facilidade com que as via partir. Armando, que não conseguia descobrir o seu grande amor e que enfim passou a duvidar que existisse. Foi Armando aqui, Armando ali até que se sobreviveu.
          Feirante e entregador de jornal, Office Boy e Cafetão, usuário e entregador de pizza, quando percebeu tornou-se o Sr Souza.
            Ah! O Souza, esse grande exemplo, homem trabalhador, um cara legal estimado pelos amigos de cerveja, pai de família, marido fiel e honesto.
          Foi apertando parafusos, assinando papeis, curvando espinha e engolindo sapos que driblou as dificuldades como fazia com a bola na várzea.
          Discursos vazios, palavras elaboradas para satisfazer a audiência, aplausos desgarrados de idéias, dias sonhados em camas de gato, arquiteto de projetos futuros, nunca presentes.
          Falta, algo lhe fala lá de dentro, fantasmas que o atormentavam mas que ele exorcizava na cachacinha antes do trabalho e na cerveja do fim da tarde no bar do Osvaldo, que pendura para o final do mês. Esse bêbado nunca lembra quanto bebeu, se ele não bebe, como eu.
          Vai seu Armando, ajusta esse parafuso, aperta esses calos, olha as contas para pagar, precisa comprar material escolar. Precisa, precisa, precisa, isso vai ter que dar, melhor essa colar.
          E de sonhos e idéias, de dias vazios como bolsos e dispensas, de tanto ajustar e aceitar, acabou sendo aceito e ajustado, incorporado e carimbado.
          Homem invisível, cidadão desprezível, força na mão, caráter vencido. Comido e mastigado, cuspido fora em caso de necessidade. De quem a necessidade? Necessário se faça então.
          Seis dias, dois fora, quem nota? Quem faltou? Alguém viu porque o trabalho não saiu? Cabeças vão rolar, melhor se apressar, entregar no prazo.
          Ajustem a máquina, apertem os botões, acertem o compasso, o passo.Um, dois, um, dois. Um, apenas um, para fazer por dois.
          Olha no espelho não vê ninguém, desespero insano. Coitado, é da idade. Culpa do governo, sistema, estratagema, síndrome do pânico, sei lá.

          Melhor assistir a novela e ver que a vida é bela, até empregado tem vez nela. Apartamento bacana dessa dona que nunca trabalha, não tem marido e ainda tem jóia pra ser roubada. Que coisa. Quem foi que morreu mesmo? Nem manchete deu.

(08/06/2007)
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