sexta-feira, 19 de junho de 2015

Circe - Danny Marks


          Otto foi meu parceiro durante muitos anos na Homicídios, até que uma bala na tíbia o deixou incapacitado para o trabalho. Passou a mancar no departamento de pessoas desaparecidas.
Até se tornar mais um registro de ocorrência.
          Existe essa coisa de trabalhar em parceria, você acaba conhecendo mais do seu parceiro do que de sua própria família. Eu sabia que Otto nunca deixaria de ser um detetive, estava no sangue dele, tão presente quanto o álcool que lhe dava impulso para se manter vivo ou quase isso. Todos nós temos uma rota de fuga dos problemas que não podemos desviar e que normalmente nos leva ao inferno. E as vezes traz o inferno até nós.
          Ele devia estar atrás de alguma coisa quando desapareceu, cheguei a ver indícios na sua mesa, conheço o padrão em que arruma as pistas, o roteiro investigativo onde medita sobre as possibilidades. Não falei para ninguém.
          Se havia algo que o Otto farejava a quilômetros era a podridão humana, nunca falhara em descobrir onde se escondia, mesmo que estivesse enterrada sob camadas de “comportamento irreparável”. Nesse inferno ele era um demônio.
          Quando percebi que estava falando dele no passado, saquei que alguém tinha dado cabo dele e precisava descobrir quem e por quê. Medo de que alguma coisa pudesse ser mais poderosa que os demônios de Otto, e se tinham acabado com ele, o que fariam comigo?
          Um endereço grifado em vários lugares nas anotações me chamou a atenção. Tratava-se de uma bela casa nos subúrbios, nenhum registro de ocorrência policial, bem poderia ser uma casa de repouso ou um prostíbulo de luxo. Qualquer das duas coisas poderia chamar a atenção de Otto nos últimos tempos, e precisava descobrir qual. Somos movidos por respostas sem pensar direito nas perguntas, impulsivamente arrancando a verdade.
          Fui até lá e descobri que havia um canil na propriedade. Adestramento era o negócio. Será que o meu antigo parceiro estava precisando de um novo amigo? Me senti ressentido com isso de alguma forma.
          Uma bela dona de olhos de gelo verde recebeu-me na porta. Dava para ouvir o latido do velho perdigueiro que forçava uma corrente em sua fúria que chegava a lhe arrancar tufos de pelo do pescoço. Nunca havia percebido tal fúria em um animal daquele tipo, mantive a mão próxima a arma, para o caso de necessitar dela. Mostrei a foto do Otto e perguntei se tinham visto aquele homem pelas redondezas, fingi que era mais um caso de pessoa desaparecida. Não poderia forçar a barra, não tinha nada que justificasse uma investigação.
          O cão finalmente arrancou o suporte da corrente e veio para cima da gente como se fosse o guardião do inferno. Por algum motivo hesitei ao sacar a arma.
          Dona Circe, era o nome que tinha dado ao receber-me, apenas olhou para o cão que me pareceu bater em uma parede invisível. A besta furiosa ganiu baixinho e voltou resignadamente para o lugar de onde havia saído, totalmente vencido.
Já tinha ouvido falar do poder de adestramento de animais, mas nada se assemelhava aquilo. Tive a impressão tardia de que era a ela que o sabujo queria atacar, não a mim. Também tenho o meu faro.
          Uma empregada veio correndo sem ser chamada, colocou o cão em outra corrente e o levou dali. O pobre animal devia estar ferido, mancava da perna esquerda, a cabeça baixa ganindo, olhando para mim enquanto se afastava. Não pude ver o que estava escrito na coleira, um nome talvez.
          Dona Circe de repente me convidou para entrar, achei estranho porque não era essa  a intenção dela antes do incidente. Alguma coisa me dizia para correr, mas a arma de volta ao coldre me dava uma falsa segurança. Todos temos um urso no qual nos agarramos para dormir, fingindo que ele será capaz de nos proteger do desconhecido.
          Uma bela casa por dentro e por fora, objetos caros, obras de arte, coisa da frescura de decorador. Depois buscaria saber de onde vinha o dinheiro para a manutenção, talvez o negócio de adestramento fosse bem lucrativo, ou a fachada para algo ilegal. Algo não me cheirava bem ali.
          Conversamos por horas enquanto ela me servia uma bebida exótica muito boa, semelhante a um vinho de ervas. Aquela dona sabia ser envolvente de uma forma esquisita, tinha uma segurança que transbordava pela pele bem cuidada. Não se abalou quando deixei descuidadamente meu olhar se prolongar no decote, na curva das coxas. Em algum momento eu já havia esquecido por que estava ali e me esforçava para evitar pensamentos que envolviam uma intimidade maior com aquela senhora.
          Circe vendia cães adestrados para vários clientes, não era casada, o que me alegrou, mas não gostava de homens que segundo ela “eram todos uns cachorros” (com as devidas desculpas a minha pessoa, embora o sorriso zombeteiro).
Esse conhecimento jogou um balde de gelo no meu entusiasmo. Se eu era um cão nunca tinha visto uma vaca tão desgraçada quanto aquela, mas me contive nos pensamentos e voltei ao que havia me levado até aquele muquifo.
          Não, eu não estava investigando oficialmente. Era apenas uma pista de um desaparecimento de um amigo e estava preocupado com a ausência dele. Não, ninguém sabia que eu estava ali.
          Droga, esse vinho e aquele olhar estavam arrancando mais de mim do que gostaria, tinha que sair dali e me recuperar.
          Claro que eu poderia voltar a qualquer hora, mas não queria ficar mais um pouco? Parecia não estar passando bem.
          Nem pensar, preferia pegar o carro e procurar um médico. Estava suando frio. Algo me dizia para correr, e comecei a alucinar gargalhadas, precisava sair dali antes que fosse tarde demais. De alguma forma a desgraçada me drogara, ia voltar com a Narcóticos e dar cabo da vagabunda e seu bando. A fúria me mantinha em pé.
          Arranquei com o carro dando uma ultima olhada para o portão gradeado. O perdigueiro manco me olhava com um ar triste, pude ler o nome na coleira: Otto.
          Meus pensamentos estavam cada vez mais confusos, mas consegui chegar na estrada principal. Foi quando olhei para o retrovisor e vi um enorme cão sentado no banco do motorista.
          O carro de alguma forma avançou mais rápido e o caminhão à minha frente estava reduzindo a velocidade para entrar na marginal. O choque foi inevitável.
          Dizem que nossa vida inteira passa diante dos olhos no instante da morte. Isso é uma bobagem. Eu apenas pensava no pessoal da delegacia. No Otto e seu triste fim. Mas não pude deixar de rir pela ironia.
          O que pensarão meus colegas ao encontrarem só um cão dentro do meu carro, no banco do motorista?

          Maldita bruxa.

(31/01/2007)
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