sábado, 8 de março de 2014

Encontro às Escuras – Danny Marks


— DEUS!!!
— Oi, está tudo bem por aqui?
— Quê? Porra, velho, quem é você?
— Não me reconhece? Sou eu...DEUS! Você me chamou...
— Não chamei não. Foi a luz que apagou. Que barulheira é essa? Como entrou aqui?
— Não ouviu antes? Sou... DEUS! As trombetas são...efeito sonoro, pra dar dramaticidade.
— Como assim... DEUS!???
— Tipo assim, o criador de todas as coisas. O pai supremo. Aquele que concede graças...
— Criador de todas as coisas... Ah, fala sério, você é um empresário! Saquei, isso é algum golpe publicitário da sua empresa e daqui a pouco a luz acende  e vai ter um monte de gente, as câmeras...
 — Não, ainda não entendeu... Meu... EU! Onde foi que errei ao criar essa espécie?
— Se não é da TV, então é ladrão. É, porque entrar assim na minha casa... meu, se arrombou a minha porta vai ter que pagar!
— Não arrombei a porta... Surgi aqui na sua sala. Eu sou Deus, lembra? Não é do meu feitio ir por ai arrombando portas...
— Velho, de boa, se for o figura que falam por ai, cara, cê é um tremendo de um mau caráter.
— Epa! Olha lá como fala, cadê o respeito?
— Respeito? Você é o principal causador das guerras no mundo. Seguido de perto pelo dinheiro, mas tudo bem, porque o conceito é o mesmo. Tudo o que é cultuado acaba virando motivo de guerra, de imposição e...
— Não, há um engano nisso. Eu tenho sido mal interpretado e...
— Ah, claro. Agora vem com esse papo de político. Os desvios de verbas, as falcatruas por baixo dos panos, sociedades secretas e coisa e tal... foi um erro de interpretação... sei.
— As coisas são mais complicadas do que parecem.  Posso sentar?
— Ah, sim, pode... Quer uma cerveja?
— Não tem vinho? Sabe, é que eu prefiro.
— Eu posso te dar água e você transforma, quer? Tipo assim, aquela vez...
— Não, esse foi o meu filho...
— Tá vendo? Eu sempre disse que esse lance de protecionismo era a sua pior característica. Por que pra ele você deu poderes enormes e pra todo o resto nada?
— O que você queria? Crucificar a todos? Quem iria me adorar?
— Ah, mas é muita hipocrisia, fazer com que um carregue a culpa de todos. Depois tem gente reclamando dos políticos que sacrificam os inocentes para pagar os próprios pecados.  Esse é o seu exemplo...
— Quer saber...? Me traz a cerveja mesmo.
— Não tá muito gelada, acabou a luz, lembra? E é daquela marca...
— Tudo bem! Traz logo essa mesmo. Que se dane.
— Tipo assim, você não poderia fazer um milagre de multiplicação?
— Da cerveja?
— Não, de uns dólares que tenho escondido. A coisa tá feia pro meu lado e... sabe como é...  o lance de família...pra ajudar nos momentos difíceis...
— Mas vocês me abandonaram...
— Não, nada disso! Até onde sei foi você que expulsou a gente de casa. Tava tudo muito bem no paraíso, com sexo, comida, boa vizinhança...  
— Mas eu dei a Terra para vocês...
— E nunca veio nos visitar... Agora não vem não que já é usucapião...
— Tá... tudo bem, não vamos falar do passado...
— Legal, vamos falar do futuro. Quais  números que vão ser sorteados na Mega-Sena acumulada?
— Mas você só pensa em dinheiro?
— Claro que não. Também penso nas coisas que o dinheiro traz. Esse lance de dar a vida é fácil, mas quem sustenta? Aí, toma a cerveja.
— Nossa, é muito ruim mesmo.
— É o que deu pra comprar. Já falei, a coisa tá feia pro meu lado. Se tivesse mais grana...
— Acho que vou acabar com o mundo.
— Por mim tudo bem... pode ser na terça feira? Quero saber o final daquela série...
— O assassino é o Jorge, estava devendo para os mafiosos e armou o plano do sequestro, mas deu tudo errado e...
— Beleza! Acabou de ferrar o único prazer que eu tinha. Vai, acaba com o mundo...  Ao menos não vou ter que pagar as contas no próximo mês.
— Está tudo errado, não deveria acontecer assim.
— Ei, não olha pra mim não, o DEUS! aqui é você.
— E você deveria ser meu profeta. Anunciar ao mundo a minha palavra...
— E por acaso tenho cara de publicitário? Velho, se enganou de apartamento...
— Aqui não é o 2024?
— Claro que não, é o 2014.
— Droga, errei na queda, desculpe. Bem, então vou indo... obrigado pela cerveja.
— Já que tá aqui, quer mais uma?
— Bem... pode ser... Um milagrezinho não faz mal, né?
— Opa!!! Agora sim! Essa é da boa.
— Eu sei, andei pesquisando na internet enquanto falávamos.
— Valeu! Até que você não é tão mal quanto dizem por ai... tem essas coisas das sete pragas e tal, mas quem é perfeito, né?
— EU sou perfeito.
— Oh cara, na boa, não está acostumado a beber, não é mesmo? Vai, chega pra lá. Quer ver alguma coisa na TV? Tem canal de sexo, de esportes... Ah, droga, a luz ainda não voltou...
— Podemos apenas ficar conversando. Trocar umas ideias e tal, tenho todo o tempo do mundo...
— Sem problemas, também não curto muito beber sozinho, e tem umas coisas que eu queria lhe dizer...
— É mesmo? O quê?
— Ah, nada demais... Só umas curiosidades e... sei lá, sugestões para melhorar o mundo...
— Tranquilo... Quer um queijinho? Esse é do bom, acabei de fazer.
— Pai... posso te chamar de pai, não é? Afinal...
— Pode sim. Diga meu filho...
— Acho que esse será o início de uma grande amizade...


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