sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Imagens Acústicas e Metáforas - Danny Marks



               A menina, tomada pelos sentidos e sentimentos na música, repete e inventa gestos que viu fora e dentro de si, dirigindo os tons e os ritmos dos sons. A arte inspirada que se exala no processo de ser.
                Se precisasse de uma metáfora para descrever as Imagens Acústicas, este vídeo seria a melhor que conseguiria, porque a língua nasce da espontaneidade do falante ao tentar traduzir em sons inteligíveis os sentidos e sentimentos que estão dentro e precisam ser exteriorizados na fala, estabelecer a comunicação.
                Os padrões de oralidade, as retextualizações que fazemos para traduzir a fala em texto são instrumentos que manipulamos na tentativa de capturar um instante e torna-lo eterno apesar de sua efêmera e volátil natureza.
                Letras são simplesmente códigos que desenvolvemos e alinhamos para representar sons, não são os objetos capturados, apenas metáforas destes objetos.
                E o que são metáforas então? Palavras ou expressões que possuem no seu bojo sentidos figurados, múltiplos, daquilo que queremos transmitir e que as formas convencionais não alcançam. São como o inconsciente das palavras que absorvemos ou não, por afinidade, por conhecimento prévio, por relações de sentido que são anteriores. Mas também são reforçadas pela forma sonora da reprodução, pelos tons e pelos silêncios que produzem.
                Freud dizia que tudo o que ele falava o poeta já havia dito antes. Porque a poesia é a arte que mais tenta aproximar o que é indizível, invisível, intangível, da realidade perceptiva dos sentidos através das imagens acústicas que transcendem  o objeto descrito.
                Nascem dele, como que brotando da fonte e tornam-se rio com vida própria que  corre solto e livre para o mar que une a todos.
                Como falar de sentimentos quando não conseguimos explicar como surgem, por que existem, para onde vão, que são tão íntimos e sem duplicidade e no entanto nos dão a percepção de estarmos vivos mais do que qualquer autoconsciência  que possamos desenvolver?
                As imagens acústicas são a poesia implícita nas artes, a música que ouvimos ao ver uma tela, as imagens que vemos ao ler ou ouvir um poema, a fotografia arrancada da memória que nos surpreende no sentir da música.
                Um  exemplo é a musica Solidões , de Osvaldo Montenegro.  Como assim “solidões”?  Uma antítese conceitual? Se solidão é o sentimento de vazio, isolado, que causa sofrimento emocional.; diferente de solitário que representa, muitas vezes, uma escolha pessoal de afastar-se das pessoas para obter uma paz e tranquilidade; como pode ser plural?
                Essas diferenças sutis que existe em um sentir é que o poeta tenta capturar com metáforas e imagens acústicas.
               
A Solidão é uma cidade abandonada
É uma carroça numa estrada que vai dar na Escuridão
É a feiura da Mulher, toda arrumada
Passeando na calçada sem ninguém dar atenção
            Note que a construção da imagem vai do macro para o micro universo. Da cidade para a pessoa, trabalhando com a antítese. Uma cidade pressupõe gente, população. Uma mulher toda arrumada pressupõe a beleza. Um passeio em uma calçada pressupõe o contato com o outro. Mas os pressupostos são derrubados ao demonstrar o vazio anti natural, contrário ao que está implícito no conceito de que o ser humano evoluiu como um ser que precisa de contato com o outro.
A Solidão é como um pássaro ferido
Que voou, mas está perdido, sem saber a direção
É como mão, sem outra mão, para bater palma
Como um Deus que perde a calma, se ninguém pedir perdão
            Neste segundo momento a imagem volta-se para o sentir. A dor da ferida que desorienta. A ausência da contraparte que dá sentido. A raiva da incompreensão que vem de fora e invade o ser. Do natural ao divino, a solidão pode afetar a todos.
A Solidão é como um nome que se esquece
Como um homem que envelhece, sem viver o que sonhou
É como um transito em plena madrugada
É o poeta na calçada que ninguém, nunca, escutou
            Agora o poeta descreve a perda, o vazio, a ausência impalpável. Um nome que poderia resignificar; a desconstrução do sentido de viver, o vazio existencial;  a força inusitada que acaba com o momento de paz que deveria haver, põe fim ao descanso que seria natural; o isolamento imposto.
A Solidão é uma atriz, sem a plateia
É abelha sem colmeia, é barco à vela no sertão
É a promessa do político, sem ética
É a conta aritmética onde o Zero é a solução
A Solidão é uma bola, sem chuteira
É a vizinha fofoqueira, sem vizinhos no portão
A Solidão é o rebolado da mulata
Quando a festa já está chata e ninguém quer mais sambar, não
            Nestes trechos o poeta tenta demonstrar a antinaturalidade avassaladora, que rouba o sentido do viver. Lembra que é preciso o outro para resignificar a nossa existência e nessa interdependência, a ausência do outro em nós gera um vazio lógico, porém insuportável à nossa existência.
A Solidão é quando o Tempo vai embora
Quando a gente perde a hora, e o compasso da canção
A Solidão é quando o filme fica bobo
Quando a gente perde jogo, por que alguém fez 'gol de mão'
                Finalmente o poeta nos coloca diretamente a insatisfação contra a injustiça da solidão que transgride as regras estabelecidas pela própria existência. Se evoluímos como espécie para viver em sociedade, a solidão é algo que precisa ser combatida como um câncer que nos rouba a humanidade e que afeta a todos, enquanto sociedade, embora, pela própria antítese dos sentimentos, seja sofrida de forma individualizada.

            Desta forma queremos demonstrar que as metáforas, enquanto imagens acústicas, servem para estabelecer a comunicação entre as singularidades das identidades individuais provocando o SENTIR antes do compreender, porque os sentimentos antecedem a linguagem, antecedem a comunicação formal da palavra oral ou escrita, nascem da necessidade natural da humanidade de dividir com o outro os seus sentimentos. O que, muitas vezes, se faz através da arte naquilo que podemos chamar de poética do ser.


Solidões - Osvaldo Montenegro
Letra da música disponível em http://letras.mus.br/oswaldo-montenegro/solidoes/ (acesso em 28/02/2014)
Videos Youtube.
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