quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Inferno Passado - Danny Marks


 
            Ela olhava pela janela enquanto as chamas consumiam o tapete feito à mão. Tapete antigo que nas chamas azuis passavam do branco alvo ao negro.
            Seu rosto ficou impassível enquanto as chamas consumiam a mobília lentamente, subindo pelas cortinas e alcançando as paredes pintadas com esmero.
            Soltou um sorriso mordaz ao ver as fotos nos quadros ficando amarelas e desaparecendo, fotos de um passado que se consumia, destituído de seu antigo poder que a dominara tão profundamente.
            Deus, como pudera se deixar levar assim por tantos anos?
            Agora era ela, a Deusa mortal, que assistia a tudo com uma frieza distante, que assustava até a si mesma.
Então era assim que os Deuses se sentiam? Esse poder de vida e morte que possuíam era inebriante a ponto de deixá-los indiferentes ao destino que aplicavam a outros?
            As chamas pareciam ter vida própria, uma vida faminta de tudo a sua volta, consumindo e correndo, crescendo e se multiplicando.
            Já subiam as escadas e alcançavam os quartos. Sobre a cama de dossel o vestido de noiva, amarelado pelo tempo, repousava como mortalha de uma mártir que logo seria entregue ao seu ultimo suplicio.
            Quantos sonhos tivera com aquele vestido, com aquela casa, com aquele que descansava sentado no quarto ao lado, alheio ao seu destino.
            Em breve não sobraria mais nada daqueles momentos antigos, ressequidos e empoeirados. Já podia ver as chamas consumindo os corpos que se dissolviam em uma pasta amorfa, em cinzas e fumos tóxicos.
            Talvez fosse a fumaça que, agindo sobre os seus olhos, provocaram lágrimas. Talvez. Queria acreditar nisso.
            Não poderia admitir que aquilo ainda a afetasse. Não depois de sua decisão tomada, da necessidade de exterminar aquela vida parasitária que poderia destruir tudo a sua volta.
            Engraçado que, olhando a casa de bonecas que tanto amara na infância, com o casal outrora apaixonado, hoje roto e quebrado, que a habitava, onde construíra sonhos de felicidade infantil, pensava na sua vida.
            Guardara com tanto empenho aquele ícone de felicidade, apenas para descobri-lo infestado pelos cupins, mofado pelo tempo, destruído pelo abandono, supostamente guardado seguro quando na verdade era descaso e esquecimento.
            Teria sido assim que a sua vida ruíra? O descaso disfarçado de segurança? O pensar-se e não fazer-se?
Quanto daquilo era sua vida, e quanto havia sido sonho.
            Obrigou-se a olhar as chamas que já declinavam, seu trabalho quase concluído, transformando sonhos em cinzas, esperanças em fuligem que o vento sopraria para longe.
            Um banho de água fria a exterminar de vez o trabalho, uma pá para recolher os restos e um saco preto como ataúde.
O inferno que consumira o seu passado não poderia contaminar o seu futuro. Não poderia permitir-se isso.
            Ajeitou as roupas, secou as lágrimas, limpou a fuligem do rosto e respirou fundo o ar puro que a cercava.
            Depositou o saco preto dentro da lata e tampou definitivamente aquela sombra que tentara se agigantar.
            Deu uma olhada na porta de sua casa, trancada, segura. Sorriu.
            Decidiu que compraria uma outra casa de bonecas, maior e mais linda para a sua filha, e desta vez seria diferente. Desta vez seria melhor.
            Precisava acreditar nisso.
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