sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O Homem e o Muro - Danny Marks


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Segundo uma antiga lenda que agora vou contar, existiu em algum lugar, uma cidade cercada por um muro altíssimo que não poderia ser escalado e nem derrubado. Ninguém sabia quem havia construído o muro ou qual o motivo dele estar lá, mas como conviviam com ele desde que nasciam ninguém se importava.
Ou melhor, quase ninguém, porque entre eles nasceu um dia O Incorformado.
O Inconformado era uma pessoa comum, passou sua infância e sua juventude convivendo com o muro, sorria e brincava, trabalhava e pagava suas contas, sofria por amor e tinha lá seus gostos e opiniões como todos. Mas havia uma coisa que o tornava diferente: Não aceitava o Muro que o limitava.
Tudo ia bem, até que um dia o Inconformado decidiu dar um basta na situação: Iria vencer o Muro.
Armou-se de todas as ferramentas necessárias para vencer a barreira e lá foi ele com toda a coragem de que dispunha.
Primeiro tentou escalar o muro, mas provou apenas que isso era mais difícil do que parecia. Resolveu golpea-lo e abrir um buraco nele, mas o muro parecia ser feito de diamante de tão duro. Pouco a pouco suas tentativas foram se frustrando.
Como não podia deixar de ser o boato correu pela cidade e todos foram ver o “Louco do Muro” que dizia iria atravessa-lo custasse o que custasse.
E a multidão delirava a cada fracasso do Inconformado. Alguns o incentivavam a continuar até a morte, e que esta sobreviesse rápido. Outros sorriam balançando a cabeça diante de tamanha estupidez. Moleques mais perversos lhe atiravam pedras e insultos. Mas o Inconformado não desistia.
Não podia mais suportar a ideia de ter que conviver com o muro.
Pouco a pouco as pessoas da cidade foram perdendo o interesse e voltando às suas vidas normais, cercadas pelo Muro.
O Inconformado ficando cada vez mais triste e sozinho.
Um dia percebeu que restava apenas um estranho ao lado dele.
Não o conhecia, o que era impossível. Sendo o Muro intransponível como poderia aquele ter vindo de outro lugar que não a cidade onde todos se conheciam?
— Interessante como quando estamos tão próximos de um problema não conseguimos ver a solução — disse o Estranho.
— De onde é você?
O Estranho apenas sorriu e foi andando para longe do muro e o Inconformado o seguiu, curioso.
— Barreiras foram criadas para nos proteger enquanto não estamos aptos para vencê-las — disse o outro sem ver se o Inconformado o acompanhava — mas elas podem se tornar uma prisão quando nos conformamos em ficar presos dentro delas. As mesmas paredes que o guardam, também podem prende-lo. A menos que você as compreenda e as use corretamente.
— E como farei isso?
— Observe...
Tinham se afastado suficientemente do muro para vê-lo quase por completo e o Inconformado, pela primeira vez, notou que havia uma irregularidade. Uma parte do muro parecia se diferenciar do resto, a poucos passos do local onde havia protagonizado suas frustradas tentativas de escapar.
— Seu instinto o conduziu até um caminho possível, confie nele, mas apenas a sua razão pode compreender um problema e soluciona-lo, confie nela também. Usando os dois vai aprender sobre o funcionamento do problema e aprender como usar os caminhos que descobrir.
De volta ao Muro o Inconformado empurrou a parte que se diferenciava ao longe e esta gentilmente cedeu mostrando uma porta por onde se via uma linda planície. Ele estava livre.
— Sempre soube que havia uma saída! Ah, quantos me chamaram de louco, mas aqui está. Vou esfregar essa porta na cara deles....
— E a perderá para sempre. O que ganha ao mostrar a porta para pessoas que não estão preparadas para atravessa-la? Por que tirar a segurança daqueles que possuem apenas isso, sem nada dar em troca? Quando estiverem preparados para ir além, encontrarão a saída para longe de sua antiga proteção e poderão trilhar a próxima etapa. Somente então deverão fazê-lo. É assim que se tornam mais fortes, vencendo os limites quando estão preparados. Usando seus limites para ficarem confortavelmente seguros enquanto se preparam para os desafios que virão.
— Quem é você? De onde Veio?
— Vim de um lugar onde havia limites que superei. Não resisti em oferecer ajuda a um irmão de caminhada. Podemos andar por um tempo juntos mas logo nossos caminhos se afastarão e cada qual irá buscar o novo limite e tentar supera-lo, Talvez nos encontremos de vez em quando, mas quando o fizermos poderemos nos reconhecer, trocar informações e confiar um no outro.
E dizendo isso o estranho atravessou a porta e foi embora.
O Inconformado soube então que tinha que tomar uma decisão difícil. Fechar a porta e permanecer em território conhecido e seguro? Ir além e arriscar-se ao desconhecido enfrentando o próximo obstáculo? Ficar e tentar ajudar os outros a superar os seus próprios limites e tornar-se um guia na busca pela porta? Em cada decisão um rumo diferente, um desafio a ser enfrentado, um novo Muro.
Compreendeu finalmente que os Muros eram construídos dentro de cada um e que serviam sempre para proteger ou aprisionar, conforme fossem usados.
Com um sorriso tomou a sua decisão. Sentia-se livre para ser feliz e encontrar com alegria o próximo obstáculo que lhe indicaria uma nova fase de crescimento.

E assim o fez...
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