segunda-feira, 22 de maio de 2017

Dividir. Para. Entender. Conquistar. Verdade (Alternativa). – Danny Marks


          Toda narrativa bem construída tem, necessariamente, que responder claramente a cinco perguntas básicas: Quem? Onde? Como? Por quê? Quando? A forma como isso é feito é que representa as variações de estilo, de técnica, de talento e, acima de tudo, intencionalidade. E como isso fica na era da pós-verdade? É o que tentarei demonstrar neste texto. Acompanhe. Acredite. Pense. Discuta. Se quiser.
          Vou usar como base algo totalmente fora dos contextos literários. Algo realmente inédito (?) nos livros e nas imaginações de todos que estão em contato com a realidade no século XXI e suas projeções, e tentar construir uma narrativa coerente apresentando (ao menos) dois cenários diferentes que se interligam em uma trama complexa comandada (?) pelos atores inseridos nelas como personagens ficcionais.
          Em primeiro lugar é importante destacar o conflito. É um fato constatável facilmente que as pessoas só se interessam por uma narrativa quando sabem que haverá uma ruptura da harmonia. O desequilíbrio, controlado ou não, é o que faz qualquer coisa se movimentar no universo. Então, qualquer narrativa interessante partirá de um estado de harmonia (tensa ou não), ou saltará diretamente, para a Crise. Sem crise, não há interesse na narrativa.
          O Brasil de 2017 é um palco prolífico para crises, elas nascem de brechas e rachaduras, e de brecas e rachaduras dentro das outras. E é importante descobrir o motivo disso estar acontecendo, porque o segundo ponto de uma boa narrativa é ser inteligível. Se o conflito se apresentar de forma tão complexa que não possa ser apreendido, capturado pela percepção do público, ele deixa de funcionar como algo tratável e passa a ser endêmico (algo que faz parte da característica central).
          Como se pode apresentar a crise de forma que ela possa ser manipulável em uma narrativa coerente e que sirva à intencionalidade discursiva do seu autor? Simples, basta empregar em doses estudadas fatos e versões, utilizando verdades amplamente aceitas, arquetípicas, junto com interpretações particulares que omitem ou ressaltam em uma determinada ordem uma linha de raciocínio orientado que provocará uma resposta emocional (e isso é importante, porque a razão tem que ser driblada de forma eficiente) que endossará a totalidade pela parte já aceita e reconhecida como verdade, e que faz parte do próprio discurso interno do indivíduo a quem se destina.
          Ficou muito complicado isso? Tudo bem, vou ser mais didático. Ao utilizar meias-verdades em um arranjo bem elaborado, é possível mentir descaradamente sobre fatos comprováveis, de forma que a sensação emocional do que está sendo apresentado é de uma verdade completa, condicionando a interpretação do leitor pelo pareamento (sincronização) de sentimentos acerca de fatos semelhantes já absorvidos anteriormente e que justificam a narrativa construída que, em uma análise sóbria, levaria a conclusões completamente diferentes das alcançadas emocionalmente apenas.
          A emoção sempre antecede a razão. Sentimos primeiro para justificar depois. Isso é algo natural do ser humano, uma forma que a evolução da espécie encontrou para nos dar agilidade de resposta a uma situação de crise que a razão não poderia conseguir. Reagimos diante de um sorriso de forma amigável, porque somos condicionados pela evolução a perceber que dentes cerrados não mordem. Portanto exibir dentes cerrados em um sorriso é sinal de que não vamos morder nosso interlocutor, um sinal de paz.
          E o que isso tem a ver com o tema central? Basicamente, tudo. É através do entendimento dos elementos fundamentais da manipulação da informação que podemos desenvolver uma narrativa coerente de uma crise (conflito) de forma a perceber racionalmente como é possível que agentes vítimas dessa crise se aliem aos agentes causadores da própria crise em detrimento de seus próprios interesses, haja vista que serão os maiores prejudicados; ao ponto de defender os algozes como se estes fossem, também, vítimas dos acontecimentos.
          Então voltando ao cerne da questão, a polarização política (no sentido mais estrito da palavra: a arte ou ciência de governar grupos relacionados à Pólis, também chamada de Cidade-Estado, ou seja, grupos organizados em torno de regras que beneficiem a todos os integrantes - cidadãos). Ao criar “polos” estou na verdade separando em partes aquilo que deveria funcionar em conjunto harmônico criando uma tensão entre os opostos de forma a desenvolver um efeito controlado. Isso pode ser bom ou ruim, dependendo da intencionalidade que se deseja alcançar.
          Por exemplo: A polarização de uma análise discursiva apresenta tanto os fatos sólidos e comprováveis, quanto os fatos que são sustentados apenas por argumentações, criando um debate que pode esclarecer, ampliar, ou mesmo reformular conceitos através de uma análise mais minuciosa. Por outro lado, um discurso polarizado pode servir para arregimentar sectários contra um discurso opositor, manipulando os fatos narrados em um arranjo que justifique argumentações que não podem ser comprovadas, a não ser emocionalmente.
          Como foi apresentado anteriormente, temos em uma crise uma necessidade evolutiva de uma resposta rápida, emocional, que anula em parte a racionalidade, obrigando-a a encontrar justificativas posteriores para os atos realizados. Então, por afinidade, escolhemos um lado para defender e outro para atacar. Quanto maiores as afinidades, maior o empenho em defender e vice e versa. Eis como se torna fácil manipular a verdade através de um discurso em crise, bastando para isso acionar os mecanismos emocionais entranhados nos ouvintes, insuflando com palavras chaves (também conhecidas como “palavras de ordem”, porque direcionam) essas reações emocionais.
          Ok, acho que isso dá a base necessária para apresentação dos cenários, que como dito anteriormente, serão basicamente dois, mas expansíveis a outros que se queiram demonstrar ou analisar segundo a tese apresentada. O primeiro cenário é a “Crise Política” e o segundo a “Crise do Mercado de Livros Nacionais”. E por que resolvi apresentar esses dois temas em conjunto se não parecem estar diretamente relacionados? Pelo fato de que são, em sua base, criados por ações de seus organizadores dentro de um planejamento particular que, quando se tornam insustentáveis, apresentam como justificativa para a Crise, não os erros de gerenciamento que as criaram, mas os próprios destinatários finais e necessários dos resultados dessas ações, o público.
          Se for aplicado o conceito fundamental da construção narrativa (Quem? Onde? Como? Por quê? Quando?), a qualquer lado polarizado da “crise” apresentada, seja política, ou a do mercado literário, veremos que, não importando de que lado se encontre, os argumentos são basicamente os mesmos. Verdade. Faça o teste. Retroaja no tempo e alinhe os argumentos elencados e os tons discursivos e vai observar que são os mesmos, que ora defendem, ora atacam o lado opositor. Como isso é possível? Como não é visto? Porque não estamos acostumados a interpretar narrativas da forma correta, como não estamos acostumados a desenvolver narrativas da forma correta.
          As generalizações, adjetivações, as palavras de ordem, as cenas arrumadas para provocar e evocar sentimentos de identificação, são comuns a ambos os lados pelo simples fato de que funcionam, criando por sua vez, a polarização que impede uma racionalização necessária de que a solução é comum a ambos, bastando identificar o “Por Quê?” da crise. É afastando o leitor da objetividade do “por quê?” que se consegue induzir uma interpretação de fatos (narrativa) que beneficia o “quem” que provocou a crise de fato, eximindo-o de responsabilidade que será lançada sobre o lado opositor, a quem se deve emocionalmente destruir como solução única do conflito. Sem o lado “oposto” a crise deixa de existir. Ao menos de forma emocional e imediata.
          Ok, políticos fazem isso desde os tempos dos gregos e romanos, dividindo para conquistar. Mas o que isso tem a ver com o mercado literário? Não vou me estender mais que o necessário, então vou resumir bastante e deixar que o leitor possa alcançar, ou não, o entendimento posterior com as ferramentas apresentadas. Mas vou revelar de imediato o cerne da questão, dando um spoiler enorme (se não quiser, não leia a partir daqui) sobre o assunto.
          É mais fácil manipular discursivamente aqueles que não estão habituados a perceber as tramas argumentativas que são criadas por autores especializados em descobrir maneiras geniais de esconder as intenções em suas narrativas. Mais fácil ainda quando se desloca ao menos UM desses elementos de forma que se possa reger a apresentação dos fatos de forma desejável. É no “onde” que se esconde essa manipulação, haja vista que as culturas, os povos, são diferentes. Portanto o que funciona em um lugar, em outro é totalmente o oposto, e quando nos colocamos na polarização “nós x eles” podemos facilmente criar afinidades ou antagonismos justamente a partir dessas diferenças desejáveis ou repudiáveis (de acordo com as intencionalidades) que se quiser criar.
          Pior que um povo que lê, é um povo que lê sobre suas mazelas, sobre sua sociedade, que se reconhece e se reinterpreta diante dos olhares clínicos das soluções de longo prazo descritas em uma narrativa. Esse tipo de povo é muito mais difícil de manipular emocionalmente, a menos que seja manipulado também através da racionalização, que exige um conhecimento mais profundo e técnico. Sim, não há uma vacina contra a manipulação, mas pode-se torna-la mais difícil de ser feita, o que já é um bom avanço.
          Essa é a justificativa para que não haja incentivos a livros nacionais CONTEMPORÂNEOS (de hoje), porque é mais interessante para os governantes que os que se dedicarem a ler, o façam sobre outras realidades deslocadas no tempo e/ou no espaço e não sejam rapidamente identificadas pelos leitores que ficarão mais atentos à manipulação discursiva.
          E o que o mercado literário ganha ao impedir um acréscimo de leitores locais de literatura local? Se deixarmos de lado os fabulosos incentivos fiscais que rendem fortunas para relançamentos de livros clássicos, com vendas garantidas pelo governo em “campanhas de incentivo à cultura” que mais afastam os novos leitores que os incentivam. Também há o fato de que não é preciso fazer boa parte do trabalho de captação, preparação, divulgação de autores e originais de qualidade. Basta pagar royalties para um autor consagrado pelas mídias internacionais e vender a preços (caros devido ao custo dos mesmos royalties) no mercado ou nem pagar direitos autorais para autores já mortos há décadas e consagrados na literatura. Ou seja, são revendedores, não produtores. Os outros tem o trabalho pesado e os daqui, apenas surfam a onda, sem ter que se preocupar com o trabalho efetivamente ou com a oposição do governo a uma clareza melhor da população.
           Isso funciona em países que consideram, culturalmente falando, os livros como objetos de consumo supérfluo e que não estão em crise econômica. Assim “ler o livro da moda” é sinal de status, e pode-se manipular até mesmo o que vai ou não estar na moda, auferindo imensos lucros a partir de trabalho algum. O problema aparece quando há uma crise econômica, em que os “supérfluos” deixam de ser possíveis de ser adquiridos. Mas todos sabem que crises econômicas são resolvidas no tempo, de uma forma ou de outra, e livros, realmente são perigosos nesses momentos porque dão ideias demais, algumas contrárias às que se deseja que sejam vistas. Embora possa-se sempre alavancar vendas com os tipos de publicação certas, aquelas que endossam um determinado tipo de narrativa e que serão vistas superficialmente por leitores emocionalmente motivados e preparados pelos discursos corretos, embasando as superficialidades com “tratados” consagrados no imaginário popular.
          Então de quem é a culpa? Se chegou aqui com essa ideia, é porque não entendeu nada do que foi dito anteriormente, retorne e leia novamente ou desista, este texto não é para você, apenas aceite isso porque o “tio” está dizendo, ok? Não há culpados, genericamente falando, em uma narrativa que se baseia em fatos e construções argumentativas. Da mesma forma como não há heróis, não há vilões, apenas sobreviventes ou vítimas. Heróis, vilões, culpados, inocentes, são elementos utilizados pela literatura de fantasia para formação do caráter, e quando cumprem bem o seu papel, são essenciais e necessários para balizar um padrão de conduta socialmente aceito pela coletividade. Isso não pode se aplicar a construção de narrativas que tentam desmistificar (tirar o mito, a fantasia) a realidade. Ou seja, o tipo de literatura que não é para criar sonhos, causar emoções elevadas, moldar os sentimentos morais. A realidade não tem uma moral implícita, ela é uma construção social, e deve ser vista com todos os nuances possíveis e imagináveis para ser a melhor que se pode alcançar.
          A solução para qualquer crise, em especial para a Política e para a do Mercado Literário Brasileiro, é perceber a necessidade de mudar a narrativa e criar, com base em fatos, algo que atenda aos interesses de quem, tanto políticos como agentes do mercado literário devem servir: a população. E como é possível isso ser feito? Utilizando as ferramentas apresentadas, identificando em primeiro lugar “Quem? Onde? Como? Por quê? Quando? ” e a partir daí entendendo qual o seu papel nessa trama e posicionando-se de forma que ela realmente o satisfaça ao final. Só assim é que se consegue superar uma crise e avançar em um sentido benéfico e desejável. Senão, o que se constrói é uma tragédia anunciada que terá como consequência a necessária reestruturação de todo o tecido narrativo na contenção de danos, na contagem dos prejuízos e vítimas e na vergonha das próximas gerações de ter que lidar com os erros visíveis para todos, depois que os fatos foram consumados.
          Quer ajudar a resolver a crise política e do mercado literário nacional? Então leia, converse, analise, discuta racionalmente os seus argumentos, e acima de tudo, ouça os argumentos contrários e verifique se não são os mesmos que está usando. Fale sobre aquilo que gosta e sobre o que não gosta com argumentos verificáveis racionalmente. Apresente os autores e agentes nacionais para os seus amigos e comente com eles sobre os pontos fortes e fracos das narrativas que estes apresentam, observe o que os seus amigos podem acrescentar sobre o assunto. Dessa forma estará construindo uma história que figurará em muitos livros, ficcionais ou históricos, que serão objetos de estudos para as novas gerações, provocando sentimentos e reflexões duradouros e necessários. Eu tenho certeza que nos veremos nelas.  
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