segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Entrevista concedida ao site Arca Literária - Danny Marks


http://www.arcaliteraria.com.br/danny-marks/
Entrevista
1.       Fale-nos um pouco de você.
Puxa começou difícil rsrs. Acho mais fácil falar dos personagens ou das tramas que de si mesmo, mas vamos lá. Sou formado em ADM e LETRAS, pós-graduado em Alfabetização e Letramento. Aposentado da indústria metalúrgica. Escrevo desde criança, mas profissionalmente só mais recentemente, sou péssimo com datas, mas não faz mais que dez anos. Sou considerado um Ciêntista Mistico, bruxo tecnológico na variante mais comum, mas estou afastado da psicobiofísica há mais de trinta anos, portanto o título é apenas uma concessão.
2.       O que vc fazia/faz além de escrever? De onde veio a inspiração para a escrita?
Como disse, atualmente estou aposentado. Já dei aulas particulares e no Estado sobre técnicas de redação, já fui organizador de antologia e editor, mas me desliguei porque gosto de uma certa tranquilidade, cansado de batalhas infrutíferas. Minha inspiração para a escrita vem das pessoas e situações que acompanho, do olhar para o mundo e dos conhecimentos de análise de padrões que desenvolvi na época em que era místico. Minha habilidade em construir cenários a partir de indícios já foi muito elogiada por administradores, mas sempre procurei usa-la mais para o lado da escrita literária.
3.       Qual a melhor coisa em escrever?
Difícil dizer isso. Meu relacionamento com a escrita é na base de que não a comando. Aceito uma ideia e a desenvolvo no estilo e no modelo que ela exigir. Já escrevi FC, Terror, Horror psicológico, Psicologia, Policial, Comédia de Costumes, Fantasia, Fábula, Literatura fantástica, distopia e por aí vai. Gosto de misturar alguns estilos, fazer uma intersecção entre realidades possíveis e imagináveis. Quando estudo um autor, tento criar algo usando o estilo dele para alguma ideia que me surgiu, contos especialmente. Isso cria um sério problema na definição da minha literatura, mas recentemente escrevi um texto sobre isso e conclui que escrevo sobre qualquer coisa que gostaria de ter lido, mas não havia sido escrito, até então.
4.       Você tem um cantinho especial para escrever? (envie-nos uma foto)
Não tenho, qualquer lugar serve, até porque eu “vejo” as cenas que escrevo. Acompanho a história na minha cabeça para poder ver o seu desenvolvimento, seu ritmo, suas conexões. Depois tento transpor o “filme” para a escrita, mas antes pensei bastante a respeito, investiguei todos os ângulos. Qualquer lugar server, e alguns lugares acabam servindo de cenários também.
5.       Qual seu gênero literário? Já tentou passear em outros gêneros?
Rsrs, como falei. Não tenho um gênero específico, escrevo o que gostaria de ler e ainda não fizeram. Pode me chamar de um escritor de transgênero rsrs, ou algo pior uma mistura de gêneros e estilos que se submetem a ideia que querem contar para realiza-la da melhor forma que puder. Terror/Ficção Científica/Policial? Fantasia/Medieval/retrofuturista? Qualquer coisa serve, desde que o resultado seja algo que faça o leitor sentir satisfação e sou o meu primeiro e mais exigente leitor.
6.       Fale-nos um pouco sobre seu(s) livro(s). Onde encontra inspiração para título e nomes dos personagens?
Na maioria das vezes os títulos e personagens se nomeiam a partir das próprias narrativas. Aquela coisa de que tinha que ser aquele nome, naturalmente. Não forço em nenhum momento a ideia, no máximo a questiono sobre onde está querendo ir, mas procuro deixar que me conduza e me apresente coisas novas. Publiquei em antologias de poesia, medieval, terror, ficção científica, literatura fantástica. Tenho livro de literatura policial, livros de contos, dois volumes com filosofia existencialista sob uma abordagem dialógica no formato de romance intermodal, tenho uma autobiografia mística em forma de romance. O que você quiser, pode acreditar que escrevi ou vou escrever em algum momento. Gosto do desafio de fazer o novo e me surpreender. Gosto do inusitado que surpreende pela sua complexidade simples, aquela coisa da pessoa ver algo totalmente novo e falar “como não pensei nisso antes?”. Esse é o meu objetivo, fazer o meu leitor amar o inesperado e aproveitar cada momento que estiver lendo uma de minhas viagens ao universo do possível.
7.       Qual tipo de pesquisa você faz para criar o "universo" do livro?
Depende. Sempre vou atrás do que é preciso para realizar a ideia. Faço pesquisa histórica, científica, estilística, o que for. A construção de uma narrativa é como se fosse uma investigação, alguns fatos são apresentados, mas existem lacunas imensas e uma indefinível linha de tempo que precisa ser traçada para poder fazer algum sentido. É preciso mergulhar na história sem uma ideia pré-concebida, sem expectativa, seguir os rumos para onde ela levar e ver o que é importante e o que é melhor deixar de lado. As ideias são sempre prolixas em apresentar pistas falsas, tergiversar. Tem que segui-las, mas tem que pressiona-las para que digam o que importa, fazer com que revelem mais do que gostariam, então acaba descobrindo coisas incríveis, se estiver atento.
8.       Você se inspira em algum autor ou livros para escrever?
Em todos rsrs. Digo que na minha escrita estão não apenas todas as pessoas que conheci ou de quem ouvi falar, mas todos os autores que amei e todos que odiei. Não se pode deixar nada de fora se o objetivo é ser o mais verdadeiro possível. Cada detalhe é importante na composição do quadro, mesmo que não apareça em primeiro plano. Você não vai pintar o vento soprando, mas a forma como as folhas estão vão falar sobre o vento, sobre a luz, sobre aquele animal que passou por ali e comeu algumas delas, amassando outras. Quanto mais você conseguir apresentar sem dizer, mais belo será o seu texto, e mais fácil levar o leitor junto.
9.       Você já teve dificuldade em publicar algum livro? Teve algum livro que não conseguiu ser publicado?
Não, na verdade não procuro editoras. Todo material que publiquei foi por convite ou oportunidade. Recentemente publiquei em eBook porque queria verificar como era essa mídia e só estando dentro. Já notei algumas coisas interessantes que vão me conduzir para os próximos passos.
10.   O que você acha do novo cenário da literatura nacional?
Essa é uma equação complexa porque há várias frentes. Ainda estamos presos a muito preconceito. Os leitores brasileiros não gostam de autores brasileiros, a menos que tenham sido “aprovados” lá fora. As editoras não investem em autores novos porque não possuem público e muitos são fracos em termos de técnica, mas não há uma aposta na construção de um público ou de formação de autores mais qualificados. São raros os cursos de escrita criativa, a grande maioria não passa do básico. Ser autodidata em algo tão complexo quanto a escrita não é um caminho fácil e a maioria dos autores ou sobrevive porque pode pagar pelo hobby das auto publicações ou desiste.
11.   Recentemente surgiram várias pessoas lançando livros nacionais, uns são muito bons, outros nem tanto, outros são até desesperadores, o que você acha sobre este boom?
Acho que é importante no aspecto de que é preciso diversidade para poder criar um espaço para a qualidade. Quando os importados chineses invadiram o Brasil todos temeram que iam acabar com o mercado nacional por venderem produtos de baixa qualidade e baixo preço. Anos depois vemos que a grande maioria dos produtos vendidos nessas lojas são de marcas nacionais desconhecidas, que não possuem um grande marketing, mas que possuem qualidades mínimas regulamentadas pela legislação e um preço acessível. Quem pode comprar qualidade melhor, vai procurar uma loja diferente, mas ambas sobrevivem em fatias diferentes de mercado, cada qual com seus objetivos e público. O mesmo vale para o mercado literário, o problema é que, ao contrário dos importados, não temos o desenvolvimento da produção nacional com qualidade.
12.   Qual sua opinião sobre os preços elevados dos livros nacionais?
Poderiam ser menores se fosse feita uma pesquisa e desenvolvidas tecnologias na produção e distribuição dos livros. O mercado literário está preso a produção importada, a leis que regem esses livros. Fica complicado baixar o preço quando você depende de restrições que quase equalizam o valor local com o do estrangeiro e ainda tem que compor royalties para os detentores do direito de publicação. Se investirem em autores nacionais, em produção local, em tecnologia digital para imprimir livros por demanda eliminando estoques, os preços cairiam para os livros nacionais, mas isso desestabilizaria todo o mercado do livro importando. Não é tão simples assim. Aquela coisa que só há mudança por dois motivos: necessidade ou interesse.
13.   Qual livro você falaria: "queria ter tido esta ideia"?
Na verdade, nenhum. Tem livros que adoro, autores que me encantam, mas não diria que gostaria de ter alguma ideia que eles realizaram, não seria a mesma coisa. Adoro ser surpreendido por um autor, isso fica cada vez mais difícil rsrs, mas perderia esse prazer se ficasse pensando que poderia ter escrito aquilo. Não, prefiro pensar que posso escrever algo que daria o troco a esses autores, surpreendendo-os e fazendo-os sentir como me sinto ao ler o que escrevem.
14.   Se tivesse que escolher uma trilha sonora para seus livros qual seria? (nome da musica + cantor)
Complicado rsrs. Sou eclético também no estilo musical. Minha playlist é uma miscelânea absurda de músicas nacionais e estrangeiras. Tenho instrumental, épico, clássico, rock, heavy metal, lírico, world music, mantras e por aí vai.  Não sou o mesmo em todos os momentos, então a música pode me acompanhar ou eu acompanho a música. Se algo não me satisfaz no momento, pulo para a faixa seguinte e tento sintonizar com o som que me conecta de alguma forma a realidade que estou vivendo. Não obrigo meus personagens a nada, não os obrigaria a serem tão loucos quanto eu rsrs
15.   Já leu algum livro que tenha considerado "o livro de sua vida"?
Já, vários. Dependendo da fase da vida em que estou, algum me pega de jeito. Quando as coisas mudam, outro assume o lugar, mas aqueles que passaram e me tocaram profundamente sempre ficam e de vez em quando ainda sinto o seu toque suave e sei que não estou sozinho, nunca.
16.   Você tem novos projetos em mente? Se sim, pode falar sobre eles?
No momento o meu maior projeto é ficar vivo rsrs. Estou escrevendo um romance complexo chamado Fome de Viver, é a quarta tentativa de realizar essa ideia, nenhuma das anteriores ficou satisfatória e comecei tudo de novo.  Algumas ideias são complicadas e não aceitam que as deixe de lado ou que passe adiante para outro realizar. Há quatro anos venho tentando me livrar desta, já escrevi um monte de coisa durante esse período, mas ela está lá só observando. Quando fica brava, me deixa acordado a noite, só revirando uma cena que vai ficar em algum lugar da narrativa ou será descartada, mas que até uma coisa ou outra acontecer, não vai sumir. Fome de Viver fala sobre sobrevivência, estou testando a vontade de viver dessa ideia e ela está testando a minha. Espero que ambos cheguemos vivos ao final.
17.   Você acompanha as críticas feitas por blogueiros nas redes sociais? O que você acha sobre isso?
Vejo algumas coisas, as pesquisas e as escritas tomam bastante tempo. Quando uma crítica é bem-feita, não vejo problema algum, mesmo que sejam negativas são importantes para apontar onde o autor pode aprimorar o seu trabalho. Quando as críticas são apenas opiniões, acho que entra no direito de cada um apresenta-la, se não for ofensiva, não vejo problemas, mas ignoro. Sou órfão de críticas, algumas opiniões favoráveis, acho que meus leitores tem medo de mim, nunca se sabe o que se passa na cabeça de um autor como eu, não é mesmo? Rsrs
18.   Se pudesse escolher um leitor para seu livro (escritor, alguém que admire) quem seria?
Olha, adoraria que Isaac Asimov, Frank Herbert, Robert Heinlein, Arthur Clark ou Dean Koontz dessem uma lida no que escrevi e me oferecessem uma crítica. Mas acabei ficando com outros autores muito bacanas que foram inclusive meus mestres em alguns estilos, como o Marcelino Freire (contos/crônicas) e Sérgio Couto (literatura policial). Devo ter sido lido por outros autores nacionais com quem publiquei ou que publiquei quando era editor, mas não recebi críticas.
19.   Qual a maior alegria para um escritor?
A minha é poder criar uma história que possa ler milhares de vezes e anos depois ainda continua a deixar a mesma emoção. É algo indescritível porque você gerou, viu crescer, superar todas as dificuldades e depois vencer no mundo e se realizar. É o mais próximo de um filho que se pode criar com palavras.
20.   Deixe uma mensagem a nossos leitores e para aqueles que estejam iniciando no mundo da escrita literária.
A melhor mensagem que posso deixar para os leitores é que devem dar oportunidade para o novo, devem olhar para os autores nacionais como olham para os estrangeiros, são pessoas iguais a você que merecem uma oportunidade de serem ouvidos e lidos, nada além disso. E se gostarem, que continuem fazendo; e se não gostarem, apenas deixem de lado e peguem o próximo e deem uma oportunidade também. Pode ser que o momento e o clima não sejam propícios, mas pode ser que se surpreenda e se apaixone.
Aos autores nacionais eu digo, resistam. Se não conseguirem superar-se nas próprias dificuldades, como pensam ensinar os seus personagens a ser melhor? A criatura nasce como fruto da matéria do criador, e desenvolve-se depois no mundo apenas com as ferramentas que lhe forem dadas por este, ou morrem. Seja responsável pelo que faz e faça o melhor que puder em cada momento, nada mais pode ser pedido de forma justa.

Agradeço pela oportunidade, nos vemos em algum lugar por ai.


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