sexta-feira, 10 de julho de 2015

Oceano – Danny Marks

 

          Tem esse oceano, no sonho que acontece, não sei, algumas vezes.
          É um oceano de águas límpidas, refletindo o céu. Dá para ver as nuvens passando lentamente, embaladas pelas ondas que amortecem. O tempo. O tempo não dá pra ser medido, para onde se olha só tem as águas, as nuvens, o céu límpido. O sol está sempre lá, em algum lugar, iluminando, aquecendo, não dá pra ver o sol, não ofusca, não aparece. Mas está lá em algum lugar.
          Não tem quase nada nesse oceano, onde se pode perceber, só uma imensa e distante igualdade. E no meio disso tudo, um corpo.
          O corpo está flutuando de costas. Os braços meio que afundados, as pernas. A água cobre os ouvidos que escutam apenas o som distante.
          Fecho os olhos. Ainda sinto a luz. Ainda sinto a leveza que sustenta como poderosa mão invisível, intocável, penetrante.
          E aos poucos vou afundando. Não há medo. Não sei se respiro. Oceano.
          Continuo a descida de costas respirando oceano sem me preocupar com a luz que se esvai em noite eterna; há um certo frio que agasalha a pele delimitando o corpo, definindo, definitivo.
          E quanto mais afundo, mais percebo a atividade insaciável que jaz embaixo dessa colcha liquida gelada.
          Há movimento a minha volta, cercando, vigiando, contorcendo-se em um balé fluido. Quase posso sentir um cheiro que atravessa metálico o meu peito.
          Será a morte? O nascimento? Não, nada tão simples assim. Não um dissolver-se no absoluto, não um confronto que obriga a desprender-se do que não é mais você. Nada tão simples. E ainda breve, cristalino, como uma certeza que está antes e além da construção do pensamento. Não é paz, não tem nome.
          A sombra mais perfeita é a que sobrevive a escuridão, nasce na ausência da luz e se movimenta no espaço entre os fótons, brincando de não ser vista, como se não existisse. Matéria. Escura. Energia.
          Anterior a tudo e depois de tudo. Engolfando criaturas que voam no ambiente espesso que respiram sem asas. Alguns criam suas próprias luzes, não porque temem a escuridão, apenas para se divertirem, para iluminarem suas vítimas que devoram com dentes longos, aguçados, sem culpa à mesa.
          Em algum lugar deve haver um solo brotando sulfúreas nódoas de silicatos e metálicos grãos que servem de base para uma complexa cadeia de eventos. Só então me sinto preso.
          A liberdade não é a ausência de laços que o segurem, mas a capacidade de ignorar esses laços, transforma-los em algo que sustenta mais do que prende; que impulsiona mais que paralisa. A liberdade é uma mentira que aceita-se com gratidão e que se luta para manter enquanto não se percebe.
          E quando se percebe, acorda. O sonho se esvai. E só retorna quando as coisas ficam difíceis demais. Loucas demais. Violentas demais. Reais demais para se suportar todas as coisas que se escondem nas almas e nas mentes.
          Então o oceano fica recorrente. E a cada noite ele chama para depositar os ossos no leito profundo do berço da vida que poderia ter sido tão linda e perfeita, e acabou apenas vida. Até o próximo despertar.

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