terça-feira, 10 de março de 2015

Do Contra - Danny Marks


            Gosto não se discute, todo mundo tem direito a uma opinião, mesmo que contrária à maioria.
            Mas Do Contra não tinha gosto, era sempre contra tudo, tinha pavor do lugar comum e choque anafilático de qualquer coisa politicamente correta.
            Não tinha amigos, tinha inquisidores, constantemente tentando provar que havia algo de errado com ele, misoginia, misandria, misantropia, sociopatia, retardamento mental, qualquer coisa. Não conseguiam.
            Tratava a todos com respeito e cordialidade, se preocupava com as pessoas e tentava ajudá-las, convivia com grupos com a mesma tranquilidade com que ficava sozinho. Era eficiente no trabalho, inteligente, de bom caráter e coração. Tinha que ter algo de errado com ele.
            — Gatos, todo mundo gosta de gatos...
            Não, detestava pelos grudando em tudo, aquele olhar traiçoeiro de quem só espera e quando não consegue, abandona. Cachorros mordem, se sentem donos, fieis ao que lhes pertence. Peixes, pássaros, nenhum animal de estimação. Só eram estimados ao longe, de passagem. Uma carícia, um afago, um olhar, algum alimento lançado, a observar se o comiam e ia embora.
            — Ah, mas de mulheres tem que gostar.
            Mulheres querem sempre estar com a razão, não aceitam críticas embora as peçam, mas querem apenas opiniões favoráveis. Mentem naturalmente; querem ser consideradas fortes e resolvidas, mas adoram um homem que as trate como dependentes, paguem as contas, dividam o trabalho delas (não o dos dois), sejam afeminados e másculos. Mulheres não conseguem viver nem consigo mesmas, por isso vivem procurando um culpado, que invariavelmente é o homem e, as vezes, outra mulher.
            — Então é gay, não saiu do armário.
            Nada, achava ridículo essa coisa de homossexual querer ser tratado de forma privilegiada para ser considerado “igual”. Gente é gente e pronto, não tem que ser igual. A genética já diz que ninguém é igual a ninguém, a opção sexual, o sexo, a cor, nacionalidade, qualquer bobagem que tente agrupar as pessoas é um desrespeito a individualidade, a especificidade de cada um. As pessoas se agrupam por interesses, mas não são iguais, é um desrespeito querer forçar a serem uma coisa em comum. Era contra a discriminação enrustida nas pré-definições artificiais que alguns queriam impor a todo custo.
            Era impossível, tinha que ter algum gosto em comum com os outros, organizavam listas, bolões de aposta para descobrir. Novelas, filmes, livros, autores, teatro, dança, música, esporte, lazer, ciência, religião, filosofia.
            Dava sempre confusão. Gostava de alguma coisa, mas não a ponto de se interessar profundamente. Não odiava nada, não amava nada, apreciava algumas coisas, não se interessava por outras, respeitava quem tivesse prazeres diferentes. Não parecia humano.
            — Deve ser extraterrestre. Só pode...
            Acreditava em vida fora da Terra, mas duvidava que algum dia nos encontrássemos com eles ou pudéssemos trocar informações.
            Do contra parecia flutuar pela superfície da vida, não parecia feliz, mas não tinha razões para ficar triste.
            — O governo, todo mundo está contra o governo atualmente.
            Também não. Achava que o governo era ruim, mas representava o povo que o votara, povo infantil que quando as coisas ficavam feias chamavam o irmão mais velho, forte. Queriam democracia e quando não funcionava como achavam que devia, pediam a volta da ditadura.Precisavam era amadurecer, assumir responsabilidades. Nem mesmo os militares queriam a volta da ditadura, eram mais inteligentes que isso, estudavam a história.
            Não participava de manifestações a favor ou contra nada, não gostava de festas gerais, de homenagens, de imposições que determinassem previamente como deveria se sentir naquele dia, naquele momento. Tinha a sua opinião e, se a pedissem, oferecia com tranquilidade ou então a guardava silenciosamente para si.
            Tinha senso de humor, ajustado de acordo com o público, mais grosseiro para os menos instruídos, mais perspicaz para os rápidos de raciocínio. Se dava bem com todo mundo, e ninguém conseguia odiá-lo por muito tempo. Não era Do Contra para aparecer ou para impor algo, apenas era refratário a definições que viessem de fora. Definia-se a si mesmo, ninguém sabia exatamente como, embora todos tivessem alguma opinião a respeito.
            Um dia começou a namorar, contrariando todos os prognósticos.
            A moça era bonita, amável, alegre, engajada em várias causas, trabalhadora, decidida. Não tinha como durar algo assim, não com Do Contra. Fizeram apostas. Quanto tempo dura? Vai ficar arrasado depois ou vai ser indiferente? Criou-se inúmeras guerras entre os conhecidos, torcidas a favor ou contra praticamente tudo. Parecia coisa de novela das oito, a expectativa aumentando a cada situação. Vão ao cinema. Vão ao restaurante. Foram dançar naquele clube. Foram viajar juntos. Deus, ficaram noivos. Se casaram!!!
            Contrariando a tudo o que previssem o casal parecia dar certo de alguma forma sobrenatural. Não era possível. Logo arrumava uma amante, ou ela arrumava um. Teria que haver brigas. Os filhos seriam uns esquisitos.
            Ninguém entendia a dinâmica que movimentava os dois, eram tão opostos e ainda assim... Do Contra estava escondendo alguma coisa para que ninguém soubesse. Só podia ser mentira aquilo. Não parecia feliz, conformado, triste, amaldiçoado. Havia uma harmonia impossível, criada só para contradizer a todos.
            Provavelmente, quando morresse, Do Contra seria examinado pelos maiores especialistas do mundo, sua vida dissecada por historiadores, psicólogos, médicos, geneticistas, cientistas. Até a NASA deveria estar de olho, os extraterrestres deveriam estar aguardando para raptar o corpo, e só não o faziam antes porque em algum momento, algum deslize iria ocorrer.
            Mas, conhecendo Do Contra, alguns sussurram que, provavelmente, vai sobreviver a todos e ter uma vida muito longa. Isso porque se formos pensar, a morte é uma consequência final e unânime para todas as formas vivas. Do Contra daria um jeito de ser eterno. 
Quem quer entrar nesse bolão?

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