sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Ponto de Vista do Autor – Danny Marks


                O elemento mais fundamental, e muitas vezes o menos considerado na análise ou na construção, de uma narrativa é o Ponto de Vista do Autor. Consideremos que quando um autor produz a sua obra, parte de si mesmo passa a impregnar a mesma. Sua visão de mundo, seus valores, sua construção psicológica e idealização dos personagens e cenas, seu desejo de desvelar, revelar ou encobrir verdades, etc.
                Algo como na mecânica quântica, onde a simples observação do fenômeno, altera o seu resultado, ocorre na leitura e na produção textual de autoria. O ponto de vista do autor, pode alterar significativamente a trama a ser elaborada, pode fornecer pistas ou ocultar eventos, pode impor ritmos, condicionar ideias, criar interpretações e, até mesmo, originar uma narrativa extratexto, que se fecha no leitor e não na observação direta das palavras narradas.
                É preciso considerar também que o autor, embora presente na sua obra, não é a pessoa real, imediata, que a produziu. Ele se transforma em uma construção própria de si mesmo, transposta diretamente ou indiretamente para o texto através da criação do Eu-Lírico, que pode ou não estar diretamente envolvido com os fatos narrados, mas que se presentifica sempre na “voz” narrativa intermediando a real personalidade do autor e a Personificação criada para ser o narrador.
                Portanto é fundamental que se dedique alguns momentos a análise desse elemento narrativo para que a produção ou análise seja o mais correta possível, desvelando não apenas a trama narrada, mas também o autor que está por trás dessa narrativa.
                Quando se fala em Ponto de Vista, considera-se o elemento da narração que compreende a perspectiva através da qual se conta a história. Basicamente é a posição da qual o narrador articula a narrativa. Embora existam diferentes possibilidades de Ponto de Vista em uma narrativa, e até mesmo algumas intersecções e entrelaçamentos entre eles, considera-se dois pontos de vista como fundamentais: O narrador-observador e o narrador-personagem.

                Narrador-Observador é aquele que conta a história através de uma perspectiva externa da história, não se confunde com os personagens. É aquele que conta o que foi observado por ele, fora dele, portanto possui o foco narrativo predominantemente em terceira pessoa (de quem se fala). Pode ser dividido em duas formas padrão:

                NARRADOR-OBSERVADOR ONISCIENTE – que, como o nome já diz, tem a capacidade de saber tudo sobre o enredo, os personagens e seus pensamentos e sentimentos, e sobre o enredo. Essa onisciência pode se estender a todos os personagens ou se limitar apenas a um na história. Sua principal função é revelar ao leitor fatos ou interpretações que de outra forma ficariam complexas demais para serem desenvolvidas na narrativa. Apesar disso, por manter sempre o foco unilateral do Observador, pode, ao mesmo tempo que revela fatos obscuros, encobrir outros, condicionando o olhar do leitor, dirigindo as suas interpretações e descobertas.
               
                NARRADOR-OBSERVADOR CÂMERA – Neste aspecto o narrador não tem ciência do que se passa nas mentes dos personagens da história, mas conhece qualquer fato sobre o enredo, em qualquer tempo e lugar da narrativa, desde que não sejam informações que sejam intimas da psique dos personagens. Sua principal função é desvelar para o leitor fatos que estão ocorrendo de forma simultânea, paralela, ou em qualquer sequência anterior ou posterior na narrativa, antecipando ou resgatando informações que podem alterar, para o leitor, a sua interpretação do que está sendo narrado. Oferece, desta forma, uma maior liberdade interpretativa para o leitor dos fatos que está acompanhando, sem limita-lo a um evento em particular, mas dando um panorama mais amplo e complexo. Porém, esse artifício pode ser utilizado pelo autor para surpreender o leitor ao revelar eventos que questionam a sua interpretação inicial, ou ampliam ainda mais o seu envolvimento com os personagens.

                Narrador-Personagem – é aquele que conta a história através de uma perspectiva interna, isto é, de alguma forma ele participa do enredo sendo personagem da própria narrativa, portanto usa a primeira pessoa (aquele que fala) para contar os eventos. Usa-se a classificação de:

                NARRADOR-PERSONAGEM PROTAGONISTA – quando o narrador é a personagem principal da história, narrando-a de um ponto de vista fixo, o seu. Todos os eventos são filtrados pelos olhos e interpretações do narrador-personagem protagonista, portanto, sempre deverá estar presente aos eventos e somente serão transmitidas as suas percepções, eventos anteriores estarão ainda condicionados à sua memória. Embora crie um efeito de intimidade com o leitor, produzindo um efeito de que é o próprio leitor quem está vivenciando os fatos através da mente de um dos personagens, há um condicionamento da perspectiva que pode alterar significativamente a narrativa, de acordo com as revelações que vão sendo feitas. Não há deslocamentos antecipatórios, a não ser os que sejam extrapolação das conclusões do próprio narrador personagem; não há possibilidade de alterar-se a cena a menos que o narrador esteja presente a ela.

                NARRADOR-PERSONAGEM TESTEMUNHA – neste caso o narrador vivencia os acontecimentos como personagem secundária, seu ponto de vista é o mais limitado de todos, só consegue levantar os aspectos narrativos a partir de uma visão periférica dos eventos centrais, suas interpretações são sempre secundárias aos eventos centrais e não tem conhecimento do que se passa na mente dos outros personagens. Esse modelo narrativo é muito utilizado em histórias de mistério e em narrativas míticas onde se pode valorizar os feitos do personagem principal e acompanhar seus progressos ao longo da história como um leitor interno e semi participativo.

                Em ambos os casos de foco narrativo, há a possibilidade de o narrador comentar temas paralelos, como a sua própria vida, sua interpretação do enredo, a vida dos personagens, o cenário, etc. Quando isso é feito, considera-se que o narrador é INTRUSO, na narrativa, acrescendo elementos que podem modificar as interpretações do leitor. Quando isso não ocorre o narrador é NEUTRO, e todos os elementos secundários à narrativa tem que ser identificados e/ou inseridos pelo próprio leitor.

                Dois casos clássicos de como um narrador pode alterar a forma com que uma narrativa se desenvolve estão presentes na obra de Machado de Assis.
                Em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” o narrador é um cadáver que resolve contar a sua história e apresenta-se como um anacronismo: não um autor defunto, já que em vida nunca se dedicou a escrever; mas como um defunto autor, haja vista que após a morte resolveu fazê-lo e já de partida condiciona tudo o que será narrado à sua condição futura (de morto) na narrativa. Essa perspectiva “atualizada” dos eventos que são rememorados, dão o “tom” da narrativa, permitindo ao NARRADOR-PERSONAGEM PROTAGONISTA, a capacidade de ser mais crítico em relação a tudo e a todos, já que se coloca além de qualquer julgamento dos envolvidos, porém, condiciona a perspectiva à visão pessoal, da forma como ficou fixada na memória e como foi reinterpretada diante de fatos que, então, não haviam ocorrido.
                Outro exemplo é de “Dom Casmurro” em que o NARRADOR-PERSONAGEM PROTAGONISTA se apresenta como alguém extremamente ciumento e nitidamente, através da forma como narra os fatos, paranoico e através da forma como se apresenta (Casmurro) alguém extremamente difícil de se lidar pela sua obstinação, teimosia, irredutibilidade, ensimesmado, desconfiado. Isso permite ao autor desenvolver um dos mais intrigantes mistérios literários, a traição ou não, da personagem Capitu com o melhor amigo de Bentinho (narrador), Escobar. Embora esta seja a parte que mais salta a vista nesta história, através da particularidade narrativa do texto, Machado de Assis, consegue dar vazão a sua habilidade de questionar de forma inflexível os valores morais e sociais da época sem, diretamente, fazer julgamentos de valor (atribuídos no máximo aos seus personagens, não ao próprio Eu-Lirico presente) desenvolvendo uma estilística genial conhecida como Ironia Machadiana.

                Desta forma pode-se perceber que, dentro de uma narrativa, algo que pode inicialmente parecer supérfluo e até mesmo superficial, pode na verdade se revelar a parte fundamental, a chave de leitura, que revela toda a intencionalidade oculta pelo autor e demonstra que para a habilidade criativa, não há limites ou caminhos pré definidos, embora pareçam estar perfeitamente delimitados.
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