segunda-feira, 21 de abril de 2014

Decadência da Musa Fragmentada – Danny Marks


            Houve um tempo em que reunia todo poder de vida e mistérios de morte. De si brotava toda sabedoria, estratégias de destino, sentidos, ilusões e sentimentos.
Era a Deusa Virginal, a Consorte Celestial, Mãe de toda humanidade e de todas as artes, motivo e consequência de todos os atos concebíveis, com os cabelos irradiando estrelas e os pés enraizados na terra.
            Sob o seu manto a vida simples e natural, ao seu olhar os caminhos eram de busca pela beleza em todas as coisas.
            Mas os filhos crescem, em tamanho e numero e espalhados pelos ventos, habitam em outros lares. Ela fragmentou-se para acompanha-los.
            Foi virginal para alguns, mãe acolhedora para outros, sábia idosa em santos lugares e, sacerdotisa de si mesma, era rainha de todos.
            Na quantidade de papeis necessários distribuiu-se em força e fragilizou-se. Tomou então o complementar como seu protetor.
            Mas esqueceu de ensinar sobre o todo aos seus filhos e filhas, e com o tempo o peso dos múltiplos papeis recaiu sobre seus ombros e ela, na servidão.
De inspiração para a beleza maior, tornou-se necessidade de ideal menor.
            Tornou-se motivo para conquistas, para acúmulos, para excessos. De provedora de paz, tornou-se sombria dama de guerra conclamando seus soldados para a batalha em troca de prazeres e luxúria. E, com o tempo, de prêmio passou a espólio.
            Sua força acorrentada na servidão, sua multiplicidade condicionada a necessidades dos dominadores, sua sabedoria desfeita em pedaços impossíveis, em luta contra o si mesmo, descartada da unicidade.
            Quebrado o vinculo com o supremo, tornou-se terrena. Um corpo a seduzir e a servir, um espírito a doar a luz e a penar na escuridão.
            E de fragmento em fragmento, de pedaços que se partiam, foi perdendo o entendimento de si e buscando-o cada vez mais no que lhe faltava.
            O guerreiro que lhe daria a sua vida, tornou-se o poeta que cantava a saudade e a perda. Do consorte se tornou amante, às vezes dona, às vezes objeto.
E tornou-se mulher, sacerdotisa, prostituta, mãe, filha, estranha, corpo cristalino em frágil beleza, molde, motivo, horror, amor, desejo, dor, esteio, corrente, sangue e suor.
            Enclausurada, exposta, armazenada e servida na necessidade, na ansiedade de alcançar glórias do passado, através da reconquista de si através do outro, perdeu-se novamente.
E de inspiração para o sublime tornou-se reprodutora do poder estabelecido.
Revoltou-se contra a natureza de si projetada no mundo e em virulenta corrupção de seu ideal, voltou-se contra suas partes lançando-se em embates que valorizavam o que possuía e desmereciam o que poderia se tornar.
            Destituída do que lhe parecia virginal, em sua essência de amante, deixou de ser mulher, não por abrir mão de vaidades ou compartilhar o pouco que possuísse com seu consorte, mas por deixar de acolher em si o amor que elegesse na busca pelo possuir que pudesse alcançar através do que lhe pertencia na troca que se fizesse.
            Valorizou a sedução e o sexo como fonte de conquista e caiu na armadilha de ensinar aos que deveria resgatar, para ser resgatada, a vilania da posse, a corrupção do todo na busca da satisfação imediata pela parte.
            Cada vez mais separou-se de si mesma, adotando por vezes a parte que lhe era menor como estandarte de luzes, e lançou-se a luta com as mesmas armas que a subjugavam e a partiam em pedaços.
            E mesmo o corpo deixou de ser inteiro e passou a ser rosto, cabelos, seios, bundas, pernas e pele. Deixou de ser natural e estendeu-se na confecção cosmética da suposta perfeição, vencida no discurso das vencedoras fabricadas.
            Despiu-se da inteligência para se refugiar em fragilidades, despiu-se de valores para se tornar desejável, despiu-se da sensualidade para se tornar objeto, despiu-se para encontrar-se.
            E por não conseguir, incorporou a busca pela igualdade ilusória que lhe roubaria definitivamente a pluralidade de ser múltipla.
            Violentada por si mesma, voltou-se contra si em fúria cada vez mais injusta, reduzindo-se ao extremo.
E o poeta que tanto tempo levou para entendê-la, chorou os pedaços que restaram e na montagem imaginária, tenta restabelecer a dignidade que, decadente, ameaça desaparecer para sempre.

            Nesse suspiro é que resiste a inspiração da humanidade e a esperança de que a Musa, ao ouvi-lo, retorne a Ser.
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