terça-feira, 26 de novembro de 2013

Pobre Diabo – Danny Marks


               Tem aquela hora especial pouco antes do dia amanhecer, enquanto a noite deliciosamente cochila, que sinto vontade de andar por ai.
                Já me disseram que não é uma boa hora de vagar pela insônia, hora de ladrão, roubada do sono da realidade como tantas coisas. 
Como se fosse perigoso algo além de estar vivo.
                Nesse universo inventado, entre uma nota que ainda não se fez e outra que está deixando de existir, há muita vida que escorre preguiçosa: O jornaleiro arrumando as revistas com as manchetes que farão o dia, o pão assando o seu perfume no ar, a circulação dos veículos carregando glóbulos vermelhos, a primeira limpeza...
                São poucos os que percebem o encanto luscofusco de fresta entreaberta.
                Sou interrompido violentamente pelo cano da arma, o metal cinzento gritando para que passe os pertences que pertencerão a outro, em breve.
                O homem me olha com medo por traz da fúria que pretende improvisar como um músico ruim de jazz. Seu instrumento desafinado se estendendo em círculos concêntricos.
                Os seus lábios se movimentam em sons que quase não entendo, ordenando as sequências aleatórias, estragando o meu momento com sua estúpida existência.
                — Ei amigo, você pode me ceder um cigarro?
                O pobre diabo caminhava em nossa direção com os cascos ferindo o calçamento em staccato, a pele avermelhada e febril, os chifres apontando para algum lugar que gostaria de estar, mas que abandonou por algum motivo há tempos.
                O maço salta da minha mão para a dele em movimento magnético, enquanto o ladino habitante dos esgotos se encolhe como uma mola que se estendera para além do limite.
                — Leve... leve tudo... nada disso me pertence.... leve... leve tudo, mas não me leve...
                Eletrificado em convulsivos movimentos o sujeito deixa cair a arma, o relógio arrancado ao pulso novamente, as carteiras coletadas em becos, o casaco se seguindo a todas as outras roupas. Nem mesmo os sapatos permaneceram em seus devidos lugares. Como se despindo os pecados carregados pudesse santificar a sua nudez adiposa e cinzenta, viciada diversidade.
                Observo nádegas sujas se afastando rapidamente pela avenida, já ganhando traços avermelhados para suas sombras. Todos fugimos de alguma coisa que, quando muito, imaginamos ser nossa. Recolho o maço ao bolso com um a menos, sem me importar em acender na boca do outro. Ele tem o seu próprio fogo.
                Pego a arma no amontoado de vidas furtadas e disparo cinco peças de chumbo por entre a fumaça, a morte é azul metálica.
                Alguns dentes penetram-lhe na boca enquanto estranhamente o cigarro permanece intocado nos lábios.  Um sorriso a menos, talvez. Ou algo que esperava não conseguir, obtido de forma inusitada.
                Amanhã tabloides vão estar cheios de histórias com justificativas para a tragédia inventada.  Mentiras sempre vendem mais que qualquer realidade alternativa. Estamos sempre dispostos a consumir aos bocados histórias alheias para justificar insignificâncias próprias.
                Abandono o cano fumegante no bolso e guardo memória do pobre diabo.

Nem consumiu o cigarro desejado na inferência que fizera em alma alheia. Descanse em paz... Por enquanto basta. 
               Volto a dormir. Antes que o dia se faça. 
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