sábado, 9 de março de 2013

Lagartas de Fogo – Danny Marks



                Minha mãe dizia que nunca havia encostado a mão nos filhos para os repreender, e isso era verdade.  Sempre usava uma varinha de goiabeira que açoitava com destreza nas pernas que alcançasse, enquanto a raiva estivesse fervendo por dentro.
                Nunca fui inteligente de correr tanto quanto meus irmãos, quando ela ia buscar o ramo no fundo do quintal. Ficava e apanhava como merecido castigo por ter desagradado de alguma forma, ainda que tantas outras houvessem me desagradado.
                Correr era o meu mundo. Batendo pernas para ir buscar o pão, imaginando dirigir um carro veloz ou mesmo cavalgando por entre as nuvens de reinos cheios de perigo que existiam logo depois da cerca de madeira coberta de plantas.
                Correr era o mais perto de voar que consegui e servia para tudo. Nas brincadeiras com os colegas da rua, de esconder, de empurrar pneu velho na terra seca que formava a rua entre as valas a céu aberto.  Corria para me jogar nos buracos e me esconder; corria para fazer a pipa, construída com trabalho e bambu velho, subir e ganhar os céus. Corria para a escola, corria dos garotos maiores, cheios de violência.
                Só uma coisa me fazia parar de correr, os galhos da goiabeira que se elevava mais alta que a casa. As cascas soltas parecendo com o reboque caído, mas sempre tinha um galho forte para deitar e ler um bom livro, emprestado da biblioteca volante; comer a fruta arrancada ainda verde, que madura era para pássaros que já sabem voar.
                O vento embalava os galhos e farfalhava em folhas, que marcavam o livro, secas, quebradiças. E o sono vinha gostoso, de conforto, sem medo do chão que ficava longe, amparado nos braços, no berço vegetal, vegetando.
                Mas quando galhos ligeiros se abatiam sobre as pernas que não corriam, dava raiva. Traição do desamparo; violência que não dava para fugir, sem explicação.
               Se cometia o erro não era por falta de conhecer o certo feito, mas por não saber o que tornava errado o que podia ser feito.  
               Raiva é algo que precisa ser colocado para fora ou envenena mais forte. Feito a cobra que expele o veneno para não morrer.
                E toda vez que as espadas de goiabeira vergavam sobre as pernas, vingativamente ia a forja que as criara e urinava em suas raízes a quente e fétida raiva. Por dias não voltava lá.
                Um dia, vindas de algum lugar no infinito, feito caravana de mortos, elevaram-se pelo tronco marrom com suas costas peludas se movendo lentamente. Cobriram toda a extensão do tronco grosso, escalando até as mais altas folhas, deixando um rastro gosmento de nojo. Era uma invasão nascida do fogo urinado, da raiva que se elevava sem pudor algum, imperativas em sua marcha.
                Em apenas meia hora de espanto a ira encarnada em vermes conquistara completamente os ramos, cobrindo as folhas com uma teia espessa que lembrava algodão doce. 
                Lagartas de fogo — disse-me a vó em temeroso respeito — se tocar nelas, queima.
                Não houve clemência, antes que se espalhassem mais ainda para outras plantas à volta, a horta frágil que ficava logo abaixo na sombra, tudo foi regado com muito álcool que naquele tempo ainda era líquido de se jogar. E a chama vaporosa foi comendo tudo que encontrava na frente.
                A maior fogueira que já havia visto em arvore morta ou viva, os bichos caindo assados no chão como chuva bíblica de tragédia.
                Quando meu pai chegou a goiabeira era um tição fumegante, a horta crestada, a parede da casa preta da fuligem e nos sacos, ódios chamuscados, cada qual maior que meus dedos e muito mais grossos, empilhados em um canto.
                Sem dizer nada, meu pai foi buscar cal e cola para pintar a parede que pretejara. E sem que ninguém me pedisse ou impedisse, fiquei espalhando aquele branco todo, de costas para as cinzas do lugar dos meus sonhos.
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