domingo, 26 de fevereiro de 2012

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Ela fazia todo mundo pensar que estava certa.
Fazia caras e bocas e no auge dos seus 16, ainda brincava de boneca.
Cortava todos os cabelos delas, pintava as unhas e o corpo, pintava os labios e depois deixava-as num canto, onde ficavam e acabavam sendo esquecidas.
Fumava escondido da mãe e saía cantando pelos cantos da casa, até que se deitava e dormia no sofá, como rotina.

Ela tinha planos pro futuro, que incluíam fazer uma tatuagem, viajar pro Texas e fazer mais alguns furos.
Ela tinha sonho de criança, alma de artista e desejos de prostituta, mas não saía, não bebia, não se abria.....
Juntando tudo isso, algo mais normal hora ou outra apareceria.

Ela gostava de mentir. Mentia pra todo mundo por puro prazer de fazer os outros acreditarem. E não voltava atrás não. E ai de você se duvidasse de uma palavra dela. Ela te convencia até que você levantasse da cadeira batendo o pé pelo que antes você negava com a maior certeza que poderia haver.
Ela tinha olhos penetrantes e era bem inteligente, embora eu nunca tivesse a visto com um único livro na mão. Sabia de tudo e de todos e, impressionantemente, ela (quase) sempre estava certa.

Bom, agora ele deve ter seus cinquenta e muitos anos, mora sozinha em uma casa que não tem nada além de uns lençóis empoeirados, um guarda-roupa caindo aos pedaços e alguns retratos velhos e mofados dentro de gavetas emperradas (ou trancadas).

Nas janelas ela tem roseiras lindas, as quais ela cuida como se fossem o maior amor de sua vida. E talvez até seja. Depois que ela terminou seu último relacionamento, nunca mais a vi com ninguém. Ela, que já não gostava de sorrir, nunca mais expressou qualquer sentimento, a não ser quando abria suas janelas pra cuidar de suas belas roseiras.

Ninguém a conhece tão bem quanto eu, creio que nem ela mesma. Sua casa não tem espelhos e nem luz, apenas algumas velas espalhadas pelos cantos da sala vazia.

Uma vez, estava debruçada na janela, quando um homem que passava pela rua arrancou uma de suas rosas. Lembro-me que na hora pensei em correr na floricultura e comprar outra pra repor antes que ela visse, mas alem dela perceber, iria ficar mais furiosa ainda. Quando ela viu, manteve-se em frente à janela imóvel e pálida. Nenhuma marca em seu rosto, nenhum nada. Parecia que sua alma havia escapado por aquela janela, tentando encontrar sua rosa, mas saiu tão rápido que esqueceu que sustentava um corpo.
Cansei-me da situação e fui deitar. No dia seguinte, quando olhei pela janela, a roseira não estava mais lá. Bati na porta que estava entreaberta, mas ela havia ido. Segundo sua vizinha, ela nunca esteve ali. Talvez ela não fizesse muito barulho... talvez, quem sabe, a vizinha era meio maluca... mas insistiu, tirando uma chave do molho e pedindo que eu a acompanhasse. Ela abriu a porta da casa e a única coisa que havia ali era um piano branco de cauda velho e trancado. A mulher então sentou-se ao piano, virou-se pra mim e explicou que uma mentira contada mil vezes, torna-se uma verdade. Eu continuava achando que ela era louca. E continuou a conversar, dizendo que há anos ela morava ao lado desse apartamento e que todos que iam comprá-lo não gostavam, até que olhavam pela janela e se apaixonavam mas sentiam-se incomodados de ter um piano tão lindo ocupando metade da sala. Teriam que tirar, mas não queriam.
Ninguém chegava perto desse piano, só ela. E aprendeu a tocar o piano e fez da casa um refugio, pra onde ia quando precisava descarregar toda sua angustia. Mas ela não desenvolvia... que angustia era essa? Mas eu não queria mais saber.

Então, pedi que tocasse uma musica pra mim. Ela sorriu e disse: "você não se cansa, né?"
Fui pra casa, me beliscando o caminho inteiro. Cheguei em casa e passei rápido pela minha janela, mas percebi de canto de olho, que as flores estavam na janela novamente. Voltei e olhei e elas realmente estavam lá. Não só elas, mas ela também estava. Sai de casa, atravessei a rua e fui correndo até sua casa, quando abri a porta. Não havia ninguém além da vizinha, tocando piano, com a janela aberta, sem flores ou vestígio delas.

Sentei-me em um canto e fiquei escutando a musica, até que adormeci. Acordei com meus dedos doendo, abri os olhos e o chão branco estava com alguns pingos de sangue e havia uma rosa. Corri até a porta da vizinha, mas ninguém atendia. Havia me deixado um bilhete na porta: “Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade.”
Desci as escadas que davam para a rua, voltei ao meu quarto, olhei em volta e tudo estava em ordem: as bonecas estavam ali, meu cinzeiro, como sempre cheio, meu violão e meu baú cheio de livros, dentro do armário. Não faltava nenhum. tudo parecia estar no lugar.

Mas havia algo faltando no quarto. Eu sabia que havia, só não sabia o quê. E fiquei pensando por horas e horas e intermináveis horas.

Dessa vez, eu estava sozinha com ninguém em volta, partilhando comigo mesma a dor de ser uma mentira.

Eu sabia, eu entendia, mas não conseguia me contentar com só um pouco daquilo tudo.
Uma mentira contada mil vezes torna-se uma verdade. Se a mentira tem pernas curtas, então......

Sonja Szenkier
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