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sábado, 18 de maio de 2019

Aforismos de Criminal Minds 14ª Temporada

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14ª Temporada

14x01 – 300

A única coisa nova no mundo é a história que você não sabe.
Harry Truman

A Família. Aquele querido polvo cujos tentáculos não conseguimos escapar, nem no fundo do coração desejamos escapar.
Dodie Smith

14x02 – Starter Home

A memória é uma mulher maluca que coleciona trapos coloridos e desperdiça comida.
Austin Omalley

Sem família, sozinho no mundo, o homem estremece no frio.
Andre Maurois

14x03 – Rule 34

O fascínio da fama é tão grande, que queremos associar tudo a ela, até mesmo a morte.
Blaise Pascal

As crianças nunca foram boas em escutar os mais velhos, mas não falham em imita-los.
James Baldwin

14x04 – Innocence

Vivemos num mundo de fantasia, um mundo de ilusão. A grande missão da vida é encontrar a realidade.
Iris Mudoch

Quando as feridas são curadas com amor, as cicatrizes são lindas.
David Bowles

14x05 – The Tall Man

A pergunta mais importante que se pode fazer a si mesmo: Em qual mito estou vivendo?
Carl Jung

Há tempos em nossas vidas quando temos que perceber que nosso passado é exatamente isso e não podemos muda-lo, mas podemos mudar a história que contamos a nós mesmos. E fazendo isso, podemos mudar o futuro.
Eleanor Brown

14x06 – Luke

Sou um lutador. Acredito na lei do olho por olho.
Muhammad Ali

14x07 – Twenty Seven

.......

14x08 – Ashley

Quando você tem uma criança, o mundo tem um refém.
Ernest Hemingway

A vontade de ter um lar vive em todos nós, o lugar seguro que podemos ir como somos sem ser questionados.
Dra Maya Angelou

14x09 – Broken Wing

Se não conhece alguém que teve problema com algum vício, você conhecerá.
Dana Boente.

O elo que liga sua verdadeira família, não é de sangue, mas o respeito e alegria na vida um do outro.
Richard Bach

14x10 – Flesh and Blood

O que é passado é prólogo.
William Shakespeare

A história nunca se repete, mas frequentemente rima.
Mark Twain

14x11 – Night Lights

Vingança, o pedacinho mais doce à boca já cozido no inferno.
Sir Walter Scott

Todos vão morrer, todos nós. Que circo. Só isso deveria fazer amarmos uns aos outros, mas não faz. Somos aterrorizados e achatados por trivialidades. Somos devorados por nada.
Charles Bukowski

14x12 – Hamelin

Há sempre um momento na infância em que a porta abre e deixa o futuro entrar.
Graham Greene

Não é o que eles falam sobre você, é o que eles sussurram.
Errol Flynn


14x13 – Chameleon

As coisas mais importantes são as mais difíceis de dizer.
Stephen King


14x14 – Sick and Evil

O medo me fez cruel
Emily Brontë

Como alguém não sente medo, me pergunto? Como você dispara um tiro através de seu coração, corta sua cabeça, pega pela sua garganta?
Joseph Conrad


14x15 – Truth or Dare

Todos temos um monstro dentro de nós. O que difere é o grau, não o tipo.
Douglas Preston

Tudo o que você precisa, é amor.
John Lennon

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Aforismos de Criminal Minds 13ª Temporada




13x01 – Wheels Up

Aguente firme. Quando não há mais nada em você, exceto aquela vontade que diz: Aguente Firme!
Rudyard Kipling

13x02 – To a Better Place

Acredito que o único jeito de reabilitar alguém é matando.
Carl Panzram (Serial Killer)

Não é possível ligar os pontos olhando para a frente. Você só consegue liga-los olhando para trás, então tem que esperar que de alguma forma eles conectarão o seu futuro.
Steve Jobs

13x03 – Blue Angel

Crueldade, como qualquer outro vício, não precisa de motivo além de si mesmo. Só precisa de oportunidade.
George Eliot

O homem viaja pelo mundo para buscar o que precisa, e volta para casa para encontrar.
George Moore

13x04 – Killer App

Não é muito prudente ter muita certeza de sua própria sabedoria.
Mahatma Gandhi

O Assassino sobrevive à vítima somente para aprender que era ele mesmo que desejava se livrar.
Thornton Wilder

13x05 – Lucky Strikes

Gosto de virar as coisas do avesso para ver situações de outra perspectiva.
Ursus Werhli

Pessoas gostam de dizer que a batalha é entre bem e mal. A batalha de verdade é entre verdade e mentira.
Don Miguel Ruiz

13x06 – The Bunker

É assim que o mundo acaba, não com um tiro, mas com uma lamúria.
T. S. Elliot

Se soubesse que o mundo se desintegraria amanhã, ainda assim plantaria minha macieira.
Martin Luther.

13x07 – Dust and Bones

Quando há dor, não há palavras. Toda dor é igual.
Toni Morrison

Somos nossa própria dor. Somos nossa própria felicidade, e somos nosso próprio remédio.
Huseyn Rasa

13x08 – Neon Terror

O espetáculo é o capital a um tal grau de acumulação que se torna imagem.
Guy Debord

13x09 –  False Flag

Quando você elimina o impossível, o que sobra por mais improvável que pareça, só pode ser a verdade.
Sir Arthur Conan Doyle

Todos têm direito à sua própria opinião, mas não às suas próprias ações.
Daniel Patrick Moynihan

13x10 – Submerged

Não fale do mal, pois ele desperta a curiosidade no coração dos jovens
Provérbio Lakota

Onde houver ruina, haverá a esperança de um tesouro.
Jalaluddim Rumi

13x11 – Full-Tilt Boogie

Meus segredos obscuros ameaçam a vida. Uma infelicidade que guardo, que cria e cria.
Sue Townsend

Acho que o espirito humano dentro de todos nós é que tem uma capacidade enorme de sobreviver.
Amanda Lindhout

13x12 –  Bad Moon on the Rise

É efeito do desvio da lua; ela aproxima-se agora mais da Terra do que de hábito e deixa os homens loucos.
William Shakespeare

Mesmo aquele de coração puro e diz que ora à noite, pode se tornar um lobo quando a acônito floresce e a lua está cheia e brilhante.
Curt Siodmak

13x13 – Cure

É impossível sofrer sem fazer alguém pagar por isso. Cada lamento já contém vingança.
Friedrich Nietzsche

13x14 – Miasma

Minha ferida é geografia. É também meu ancoradouro, meu porto de escolha.
Pat Conroy

Todos nós, nascidos no caos, temos problemas antes de vir ao mundo.
William Faulkner

13x15 – Annihilator

Brigas em família são coisas amargas. Não são como dores ou feridas, são mais como rachaduras na pele que não querem curar porque não há material suficiente.
F. Scott Fitzgerald

13x16 – Last Gasp

A morte é a mãe da beleza, portanto, ela sozinha, deve vir como satisfação de nossos sonhos e desejos
Wallace Stevens

13x17 – The Capilano’s

Mascaras são um paradoxo maravilhoso. Enquanto podem esconder a realidade física, podem mostrar como uma pessoa quer ser vista.
Joanna Scott

Não cabe a nós amar ou odiar, pois sob nossa vontade prevalece o destino
Christopher Marlowe

13x18 – The Dance of Love

Talvez quando nos encontramos querendo tudo é porque estamos perigosamente perto de não querer nada.
Sylvia Plath

Então vem, vamos juntos os dois, a noite cai e já se estende pelo céu, parece um doente adormecido a éter sobre a mesa
T.S. Eliot

Não importa quão longe viajamos, as memórias seguirão no vagão de bagagem.
August Strindberg

13x19 – Ex Parte

A violência não é um catalizador e sim um desvio.
Joseph Conrad

Não presumas o dia de amanhã, porque não sabes o que ele trará
Provérbios 27:1

13x20 – All You Can Eat

Segurar a raiva é como beber veneno e esperar que a outra pessoa morra.
Anonimo.

Perdão é a fragrância que o galho de violeta deixou no calcanhar que o esmagou.
Mark Twain

13x21 – Mixed Signals

Convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que mentiras.
Friedrich Nietzsche

Esperar é acreditar que só o passado existe, seguir em frente é saber que há um futuro.
Daphne Rose Kingma.

13x22 – Believer

Uma coisa não é necessariamente verdade porque um homem morre por ela.
Oscar Wilde

terça-feira, 3 de abril de 2018

O escritor Fernando Pessoa expõe-nos as suas ideias


O escritor Fernando Pessoa expõe-nos as suas ideias sobre os vários aspectos da arte e da literatura portuguesas.
Entrevistar Fernando Pessoa não é fácil. Só é fácil entrevistar os que não pensam, os que não se importam de jogar palavras, ao acaso, atirando-as impudicamente ao vento.
Fernando Pessoa, quer como Fernando Pessoa, quer como Álvaro de Campos - o engenheiro alucinado que comporta o seu segundo eu, e que aparece em toda a parte, enchendo a voz de louvores e raios para a Vida - raios partam a Vida e quem lá ande! -é sempre um voluptuoso do raciocínio, um amante da inteligência, podemos dizer: um criador duma nova Razão. Paradoxal? Sem dúvida. Mas há tantas maneiras de ser paradoxal!
A entrevista que se segue, toda escrita por Fernando Pessoa - nem podia deixar de ser, visto Fernando Pessoa possuir uma sintaxe própria para a lógica própria dos seus pensamentos, misto de seriedade e de ironia, vai decerto prender o espírito dos leitores...
Atenção! Fernando Pessoa vai responder às perguntas que lhe fizemos:
- Que pensa da nossa crise? Dos seus aspectos - político, moral e intelectual?
- A nossa crise provém, essencialmente, do excesso de civilização dos incivilizáveis. Esta frase, como todas que envolvem uma contradição, não envolve contradição nenhuma. Eu explico.
Todo povo se compõe de uma aristocracia e de ele mesmo. Como o povo é um, esta aristocracia e este ele mesmo têm uma substância idêntica; manifestam-se, porém, diferentemente A aristocracia manifesta-se como indivíduos, incluindo alguns indivíduos amadores; o povo revela-se como todo ele um indivíduo só. Só colectivamente é que o povo não é colectivo.
O povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo. Ora ser tudo em um indivíduo é ser tudo; ser tudo em uma colectividade é cada um dos indivíduos não ser nada. Quando a atmosfera da civilização é cosmopolita, como na Renascença, o português pode ser português, pode portanto ser indivíduo, pode portanto ter aristocracia. Quando a atmosfera da civilização não é cosmopolita - como no tempo entre o fim da Renascença e o princípio, em que estamos, de uma Renascença nova - o português deixa de poder respirar individualmente. Passa a ser só portugueses. Passa a não poder ter aristocracia. Passa a não passar. (Garanto-lhe que estas frases têm uma matemática íntima.)
Ora um povo sem aristocracia não pode ser civilizado. A civilização, porém, não perdoa. Por isso esse povo civiliza-se com o que pode arranjar, que é o seu conjunto. E como o seu conjunto é individualmente nada, passa a ser tradicionalista e a imitar o estrangeiro, que são as duas maneiras de não ser nada. É claro que o português, com a sua tendência para ser tudo, forçosamente havia de ser nada de todas as maneiras possíveis. Foi neste vácuo de si próprio que o português abusou de civilizar-se. Está nisto, como lhe disse, a essência da nossa crise.
As nossas crises particulares procedem desta crise geral. A nossa crise política é o sermos governados por uma maioria que não há. A nossa crise moral é que desde 1580 - fim da Renascença em nós e de nós na Renascença - deixou de haver indivíduos em Portugal para haver só portugueses. Por isso mesmo acabaram os portugueses nessa ocasião. Foi então que começou o português à antiga portuguesa, que é mais moderno que o português, e é o resultado de estarem interrompidos os portugueses. A nossa crise intelectual é simplesmente o não termos consciência disto.
Respondi, creio, à sua pergunta. Se V. reparar bem para o que lhe disse, verá que tem um sentido. Qual, não me compete a mim dizer.
- Que pensa dos nossos escritores do momento, prosadores poetas e dramaturgos?
- Citar é ser injusto. Enumerar é esquecer. Não quero esquecer ninguém de quem me não lembre. Confio ao silêncio a injustiça. A ânsia de ser completo leva ao desespero de o não poder ser. Não citarei ninguém. Julgue-se citado, quem se julgue com direito a sê-lo. Resolvo assim todos. Lavo as mãos, como Pilatos; lavo-as, porém, inutilmente, porque é sempre inutilmente que se faz um gesto simplificador. Que sei eu do presente, salvo que ele é já o futuro? Quem são os meus contemporâneos? Só o futuro o poderá dizer. Coexiste comigo muita gente que vive comigo apenas porque dura comigo. Esses são apenas os meus conterrâneos no tempo; e eu não quero ser bairrista em matéria de imortalidade. Na dúvida, repito, não citarei ninguém.
- Estaremos em face de uma renascença espiritual?
- Estamos tão desnacionalizados que devemos estar renascendo. Para os outros povos, na sua totalidade eles próprios, o desnacionalizar-se é o perder-se. Para nós, que não somos nacionais, o desnacionalizar-se é o encontrar-se. Apesar dos grandes obstáculos à nossa regeneração - todas as doutrinas de regeneração - estamos no início de tornar a começar a existir. Chegámos ao ponto em que colectivamente estamos fartos de tudo e individualmente fartos de estar fartos. Extraviámo-nos a tal ponto que devemos estar no bom caminho. Os sinais do nosso ressurgimento próximo estão patentes para os que não vêem o visível. São o caminho-de-ferro de Antero a Pascoaes e a nova linha que está quase construída. Falo em termos de vida metálica porque a época renasce nestes termos. O símbolo, porém, nasceu antes dos engenheiros.
Nada há a esperar, é certo, das classes dirigentes, porque não são dirigentes; e ainda menos da proletariagem, porque ser inferior não é uma superioridade. Com razão lhes chamei eu, a estes, subgente, num artigo da antiga Águia - da Águia que voava. Só a burguesia, que é a ausência da classe social, pode criar o futuro. Só de uma classe que não há pode nascer uma classe que não há ainda. Seja como for, avancemos confiadamente. Todos os caminhos vão dar à ponte quando o rio não tem nenhuma.
- O que se deve entender por arte portuguesa? Concorda com este termo? Há arte verdadeiramente portuguesa?
- Por arte portuguesa deve entender-se uma arte de Portugal que nada tenha de português, por nem sequer imitar o estrangeiro. Ser português, no sentido decente da palavra, é ser europeu sem a má-criação de nacionalidade. Arte portuguesa será aquela em que a Europa - entendendo por Europa principalmente a Grécia antiga e o universo inteiro - se mire e se reconheça sem se lembrar do espelho. Só duas nações - a Grécia passada e Portugal futuro - receberam dos deuses a concessão de serem não só elas mas também todas as outras. Chamo a sua atenção para o facto, mais importante que geográfico, de que Lisboa e Atenas estão quase na mesma latitude.
- O regionalismo na literatura e na pintura?
- O regionalismo é uma degeneração gordurosa do nacionalismo, e o nacionalismo também. E como o nacionalismo é antiportuguês (sendo bom, cá no Sul, só para os povos latinos e ibéricos), o regionalismo em Portugal é uma doença do que não há. Amar a nossa terra não é gostar do nosso quintal. E isto de quintal também tem interpretações. O meu quintal em Lisboa está ao mesmo tempo em Lisboa, em Portugal e na Europa. O bom regionalismo é amá-lo por ele estar na Europa. Mas quando chego a este regionalismo, sou já português, e já não penso no meu quintal. (O facto de o meu quintal ser inteiramente metafórico não diminui a verdade de tudo isto: Deus, e o próprio universo, são metáforas também.)
- Teriam existido em toda a nossa história literária períodos de criação?
- O nosso único período de criação foi dedicado a criar um mundo. Não tivemos tempo para pensar nisso. O próprio Camões não foi mais que o que esqueceu fazer. Os Lusíadas é grande, mas nunca se escreveu a valer. Literariamente, o passado de Portugal está no futuro. O Infante, Albuquerque e os outros semideuses da nossa glória esperam ainda o seu cantor. Este poderá não falar deles; basta que os valha em seu canto, e falará deles. Camões estava muito perto para poder sonhá-los. Nas faldas do Himalaia o Himalaia é só as faldas do Himalaia. É na distância, ou na memória, ou na imaginação que o Himalaia é da sua altura, ou talvez um pouco mais alto. Há só um período de criação na nossa história literária: não chegou ainda.
- Continuará sendo o lirismo a nossa feição literária predominante?
- Há duas feições literárias -a épica e a dramática. O lirismo é a incapacidade comovida de ter qualquer delas. O que é ser lírico? É cantar as emoções que se têm. Ora cantar as emoções que se têm faz-se até sem cantar. O que custa é cantar as emoções que se não têm. Sentir profundamente o que se não sente é a flâmula de almirante da inspiração. O poeta dramático faz isto directamente; o poeta épico fá-lo indirectamente, sentindo o conjunto da obra mais que as partes dela, isto é, sentindo exactamente aquele elemento da obra de que não pode haver emoção nenhuma pessoal, porque é abstracto e por isso impessoal. Fomos esboçadamente épicos. Seremos inviolavelmente dramáticos. Fomos líricos quando não fomos nada. O lirismo só continuará sendo a nossa feição predominante se não formos capazes de ter feição predominante.
- O que calcula que seja o futuro da raça portuguesa?
-O Quinto Império. O futuro de Portugal —que não calculo mas sei —está escrito já, para quem saiba lê-lo, nas trovas do Bandarra, e também nas quadras de Nostradamo. Esse futuro é sermos tudo. Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguesmente no Paganismo Superior? Não queiramos que fora de nós fique um único deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistámos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Politeismo Supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade.
13-10-1923
Ultimatum e Páginas de Sociologia Política . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. 
 - 3.
1ª publ. in Revista Portuguesa, nº 23-24. Lisboa: 13-10-1923.

disponível em http://arquivopessoa.net/textos/980 (acesso em 03/04/2018)

sábado, 17 de março de 2018

A Gota - Danny Marks

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Um dia uma gota fez derramar o copo.
Houve muitos protestos, não pelo copo derramado, mas porque a gota era de óleo e não houve comoção por todas as gotas anteriores que haviam caído.
Debatiam o valor da gota, não a existência do vazamento.
Uma gota de óleo, não se misturava na água, não importava.
Poderia ter sido lágrima, sereno, suor, sangue, mas era óleo.
Até que o copo transbordou.
E ninguém sabia lidar com isso.

domingo, 13 de agosto de 2017

Alguma Poesia - Danny Marks




Sinto-me constrangido quando me chamam poeta. Por conhecer e ler tantos Poetas e suas obras. Alguns amar, outros ser amável, alguns ignorar, outros que me ignorem. Não sou tão fã de poesia quanto poderia, nem sei. Nem domino tanto assim a métrica, a forma, a desconstrução e a perfeição artística da Arte de Poetar, prefiro escrever outras formas de história. Quem me dera ser alguém assim, meio pássaro, meio gente; Meio, início e fim, ter algo de poético em mim para poder olhar o mundo e sempre ver, sempre procurar algo de belo no horror que pode ser o mundo, na denúncia que se proclama. Se declama. Mas me vem um poeta e diz: Poeta! E por ver em mim a poesia que dele transborda, me torno poeta também, menor, distante, desconstruído em palavras em busca de sentidos. Então, que haja alguma poesia, até mesmo onde ela não se reconheça, mas que esteja presente no que se faz.

sábado, 1 de julho de 2017

Um pensamento na noite - Danny Marks

Eu realmente não me importo se você fala muitas línguas, se posso me comunicar com um abraço muito melhor que você.
E não me importo se vai passar pelas pontes que construí, eu as deixei para que todos as usassem.
Só não fique impressionada quando a multidão me tocar com os seus olhos. E se eu chorar novamente, pode sorrir, será com alegria que o farei.
Não desci das Estrelas para ser o seu céu, mas para dizer que há um lugar para todos no Universo. Porque de onde eu vim, todos são Alguém.
E se algum dia se esquecer, não importa. Em algum lugar contarei a sua história também. No meu coração não há espaço para guardar mágoas, está todo cheio de amor.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Uma ilha no meio de um lugar qualquer. - Danny Marks

          Se tem uma coisa que escritor iniciante adooora fazer é criar mundos. Não deve haver nada melhor no processo criativo do que criar, assim do nada, um mundo inteiro. Fauna, flora, sociedades, história, mitos e lendas, tudo no bater de uma tecla. É lindo, é maravilhoso, é tanta delicadeza e paz, tanta harmonia, mesmo que os corações trágicos anseiem pela guerra sem limites, exortados por odiosas mentiras daqueles fanáticos opositores da inacreditável e lúcida luminosidade que abrange todo o universo das pessoas de bem, preenchendo os seus corações com a coragem infinita que, por fim, há de vencer as agruras dos descaminhos da ignorância alheia com a força das espadas da justiça.
          Em Adjetivolândia é assim que as coisas acontecem, e tem coisas que até seu criador desconhece. Pense em um lugar especial onde as coisas ficam mais fáceis de serem assimiladas, talvez, em toda a sua profundidade. Espera, deixa tentar de forma diferente. Pense em um Mundo onde a lógica das coisas fosse bem mais simples, baseadas em adjetivos que permitiriam mais facilmente a interpretação de fatos escondidos nas sombras interpretativas.
          Quando conhecesse alguém bastaria identificar os adjetivos e pronto, já saberia tudo o que precisa saber daquela pessoa. Poderia entrar em um supermercado e vendo uma pessoa sentada atrás da caixa registradora saberia não apenas que ela é uma “caixa”, saberia muito mais, que é uma proletária mal paga, que não tem instrução suficiente para empregos melhores, que não se alimenta direito e vai engordar horrores, é mal-humorada e frustrada, e vai se casar (se já não for) com um outro proletário pobre e ter um monte de filhos remelentos que muito provavelmente vão cair no mundo do crime por não terem atenção necessária no lar. Não é fantástico?
Uma pessoa caixa de melhor qualidade vai saber se arrumar melhor, vai ser mais bonita, usar perfumes e maquiagens e ter um treinamento para atender com gentileza as pessoas, mesmo quando estiverem com cólicas menstruais e não, jamais vão ser do sexo masculino, no máximo, serão homossexuais.
          Tem aquelas pessoas que não são identificadas individualmente, só em grupos, ou bandos, depende de que lado você olha. Grupos são sempre organizados, tem objetivos definidos, podem até ter coreografia de movimentos ensaiados, música personalizada e bandeiras. Já os bandos têm isso tudo, mas pertencem ao lado oposto do seu olhar, não tem como errar. Olhou de lado, é bando, só quando se está junto ou olhando de frente, é grupo.
          Em Adjetivolândia o bom mesmo é ser famoso. É tudo de bom, só faz coisas boas, só usa as roupas certas, só tem sucesso e quem discorda é porque sente inveja. Melhor que isso só sendo Ídolo, que nesse caso ganha logo de cara uma legião de fãs, exército, séquito, seja qual o nome que estão dando no momento, cada vez que se cria um ídolo o nome muda. Enfim, ídolo é mega-blaster-hiper-super-fantástico modo de ser em adjetivolândia, porque não importa o que se faça, ou não se faça, vai ter muita gente defendendo até a morte o seu direito de fazer ou não fazer qualquer coisa, mitando sempre que uma coisa ou outra ocorrer.
          Claro que vão ter os adjetivos generalizantes que descrevem o caráter imediato através de uma intersecção de adjetivos generalizantes similares não excludentes, por exemplo.
          — Sabe aquele político?
          — Aquele bandido, famigerado, acéfalo, corrupto, hipócrita e esquerdopata?
          — Não, esse é o meu cunhado. Estou falando daquele bandido, famigerado, acéfalo, corrupto, hipócrita e facistóide. Doravante chamado apenas de Meu Patrão. Não é o máximo de bom? Já estou sentindo que as coisas vão melhorar com essa nova e dinâmica de visão de negócios voltados para o empreendedorismo engajado nas questões globais e culturais dos tempos modernos.
          — Ah, desculpa, é que para mim político é tudo igual, me confundi. Mas que maravilhosa perspectiva de futuro, agora então as coisas vão ficar de boas para o seu lado. Parabéns, já está usando o novo adjetivo?
          — Claro! Substituí o “trabalhador” por algo mais imponente e moderno. Agora sou “colaborador”, tem mais apelo mercadológico. Teve um monte de colegas que conseguiram virar “microempreendedores” com as novas diretrizes de cortes orçamentários e incentivos às carreiras individuais, mas para mim não foi desta vez.
          — Pois é, mas não liga não, quem sabe da próxima! Só toma cuidado que tem muito vagabundo disfarçado de progressista querendo passar a rasteira nas pessoas de bem, essa gente invejosa prolifera como porquinhos da índia em época de acasalamentos.
          Não é fácil criar um mundo perfeito. Mas se a gente se dedicar com vontade, esperar naquela tarde sombria que o vento sopre para o lado certo e os raios de sol trespassem as nuvens em luminosas lamparinas de ouro, então poderemos criar uma distopia ressonante em sintonia com o simulacro da existência vitalícia de uma obra de arte antenada com a diversidade dos novos tempos. Vai ser tão lindo que até faz os olhos brilharem com esperanças liquidas.
          Quando isso acontecer, aqueles escritores profissionais que odeiam adjetivação vão lançar canetas, bolas de papel incendiárias, e uma profusão de pronomes nominais, verbos transitivos diretos e indiretos, além de pragmatismos absolutos. Mas quer saber de uma coisa? A modernidade dos tempos atuais vai mostrar como são ridículas e retrógradas essas mentes minimalistas que não entendem da boa e revigorante literatura que ultrapassa os limites do lugar comum e reinventa de forma inusitada os paradigmas da realidade recriada sob a perspectiva individual do artista criador.

          Ou então as pessoas vão aprender interpretação de texto e tornar esta narrativa diferente. Será?

quarta-feira, 24 de maio de 2017

País do Diabo – Danny Marks


           Em 1884, um brasileiro chamado de Machado de Assis, publicava um texto intitulado de Igreja do Diabo. Neste, apresentava a ideia do citado personagem do título para resolver o problema de que sempre se dava mal. Faltava-lhe uma igreja que permitisse aos humanos exercerem de forma livre e desimpedida a sua natureza sórdida, coibida pela ação daqueles que se alinhavam em templos de natureza oposta. Com essa ideia em mãos, foi solicitar a Deus a justiça da igualdade de direitos. Queria montar a sua igreja, e assim lhe foi permitido.
          133 anos após, no mesmo pais, em outra história, o que se observa é o passo seguinte, a construção de um Pais do Diabo. A exemplo do que foi solicitado anteriormente, o pedido foi de que, não apenas em um templo fosse feito o que se tivesse vontade, mas em todo um país. Todos estariam livres para fazer o que bem entendessem, por mais imoral ou ilegal que isso fosse, não seriam punidos. E viva a liberdade de se ser o que é.
          Impossível! Diriam alguns tolos, acrescentando que a moral elevada é uma condição da natureza humana. Mas o que se viu foi exatamente o que o Diabo esperava. Dada a liberdade com garantia de impunidade, a corrupção se instalara facilmente. A princípio em pequenos gestos, tímidos. Um pequeno engano aqui, um desvio moral ali, justificados pela necessidade ou pela generalização. Todos mentem, quem ainda não percebeu isso?
          Do menino que colava na hora da prova ao médico que comprou os trabalhos em sites especializados, todos garantiram uma vida mais fácil com os recursos necessários. Combatia-se o crime, é claro, aquele descarado, de armas na mão. A venda de drogas ilícitas que degradavam rapidamente a ideia de uma sociedade ordenada sob princípios mais elevados, estéticos. Roubar é algo que prejudica a imagem, desviar recursos é um ato de inteligência. Matar com disparos de armas ou bombas é um crime hediondo. Matar dezenas, milhares, por projetos mal dimensionado que desabam, por falta de recursos desviados da saúde, apenas um acidente não intencional.
          O importante é ter a garantia de apoio daqueles que pensam igual, alinhados em um discurso que os defende e os representa. E como não há unidade de interesses, então é preciso criar representantes para estes, defendidos com unhas, dentes, paus, pedras, bombas, balas de borracha ou de chumbo, para garantir que a bandeira do que é moral e ético (o conjunto de valores estabelecidos e reconhecidos por um grupo) seja defendido dos imorais (aqueles que defendem discursos diferentes).
          Criam-se times e torcidas que se confrontam. Criam-se divisões polarizadas o suficiente para saber que há apenas dois lados, a seu favor ou contra, sendo obvio qual que se deve se defender e ouvir, o outro deve ser exterminado sumariamente, nem merece ocupar um lugar ao sol. Na verdade é a causa das nuvens negras que tampam o seu sol. Essa é a lei.
          A lei não deve beneficiar a todos, como assim defender bandidos? Por isso mesmo que é necessário criar uma legião de defensores da lei acima de tudo. E estes devem ser escolhidos entre aqueles que não compraram o diploma. Devem ser expertos e inteligentes (sim, há uma diferença entre os termos) para defender os que são bem-sucedidos daqueles que tentam usurpar seus vencimentos exigindo igualdade de valores. Como assim, igualdade de valores? Os que trabalharam duramente para criar esquemas ilícitos para ganhar mais devem poder gozar dos resultados dos seus esforços em driblar a concorrência e convencer com fortunas prometidas os que poderiam favorece-los.
          Os vagabundos que nada fizeram, esperando que a lei os beneficiasse, mamando nas tetas do populismo complacente com o ócio, não merecem ser compensados por nada fazer. Ao contrário, devem pagar ainda mais pela oportunidade de fazer parte do progresso, daqueles que realmente trabalham para conquistar ainda mais lucros e tornar a nação e a família rica. É uma questão de valores elevados que devem ser defendidos a todo custo.
          É claro que para que haja um lado vencedor, deve ter um lado perdedor. É a vida. O melhor adaptado sobrevive para lutar mais um dia. Soldados morrem nas guerras, para isso são feitos soldados. Pessoas morrem todos os dias, e ninguém nem fica sabendo, melhor morrer por uma causa, a minha. É preciso garantir o futuro das próximas gerações de iguais, daqueles que seguem os mesmos valores e, para alcança-los, fazer uso daquilo que aprenderam. A vida é curta e cheia de perigos, mas é sempre melhor quando se pode olhar do alto de uma montanha, de preferência de dinheiro, para as mazelas do mundo.
          Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. Essa é a lei, garantida por um pelotão de fuzilamento judicial que serve aos que roubam muito, porque roubar pouco é sinal de mediocridade e deve ser combatido. O mundo é dos expertos, todos sabem. Garantir que apenas os expertos sobrevivam é tornar o mundo melhor, mais humano. Afinal a humanidade é corrupta por sua própria natureza, e só os fortes sobrevivem.
          É claro que quando todos descobrem que roubar muito compensa, e roubar pouco condena, começam a fazer uma concorrência desleal. Agora não basta ser experto, tem que ser também articulado, garantir apoio para os seus e garantir que não traiam os ideais que os fizeram fortes. Mas como evitar trair quando a traição é parte do negócio? Traindo antes que seja traído, é claro. Isso demonstra a habilidade em perceber quando a pirâmide vai desabar e permite escapar com um belo acordo de delação que vai garantir grande parte do lucro conquistado, pagando uma pequena propina à título de ressarcimento por não ter incluído, antes, os novos aliados.
          Com o mundo violento do jeito que está, é melhor viver em uma prisão domiciliar, uma mansão conquistada com muito suor dos incompetentes, garantindo uma escolta armada para impedir que os ludibriados tentem resgatar de volta o que lhes foi tomado pela inação. A lei existe para ser cumprida, desde que beneficie aqueles que as fazem e as mantém. E quem são esses senão aqueles lideres visionários que perceberam que a condição humana é uma incoerência absoluta, como declarado por Machado.

          Bendito o pais que elege o Diabo do inferno que merece. Isso fica claro a cada dia para este autor, que pretende incluir urgentemente no currículo a habilidade absoluta em criar discursos que justifiquem qualquer coisa, de forma a garantir um lugar de destaque nessa nova ordem a um custo exorbitantemente justo pelo que é oferecido. E que todos digam Amém!

terça-feira, 16 de maio de 2017

Dias Azuis - Danny Marks


          Quando a força da gravidade alcança todas as células do seu corpo com a percepção de que estão ali, juntas em cada milímetro cubico, e erguer-se se torna algo que exige esforço, você percebe que é um Dia Azul.
          A fumaça das folhas que o acalmavam, fusionadas no vapor ou na chama, não alcançam o mesmo intento de antes. Não se afogue em sal, mas deixe que saia, na manhã cinzenta ou na tarde ensolarada. Deixe que saia porque muitas vezes o dia fica azul.
          Ah, que doces lembranças que retornam com intensidade. Que pensamentos que gostaria de ter levado ao passado, para o momento certo que provocaria a atitude que o tornaria mais. O que mais? Não há como saber agora que outros conhecimentos se sobrepuseram e o fizeram entender que há dias que são azuis.
          Há dias coloridos, rosa, amarelo, vermelho. Dias negros, cinza, também fazem parte do calendário, o planeta girando sobre suas rodas imaginárias, dançando em torno do astro que arde em sua solitária condução. Dias frios, outros quentes, outros se tornam noite sem que se perceba por quem. Há aqueles de energia ultravioleta, no infravermelho do seu olhar em busca do calor, no amor ao frio, cianótico para uns, dourado para outros.
          Há tons nas cores, como há sabores nas línguas que se tocam. Gradações que se percebem ou se dispersam nos sentidos, afinados ou compostos de outras melodias que não se percebe. Toque aquele acorde febril e veja como vibra a atmosfera que nos envolve, e ainda assim, não seremos dois iguais na multidão, quando muito um par a evoluir na dança dos dias azuis.
          Todas as melodias terminam, os acordes descansam entre um show e outro, improvisos nos acompanham e estabelecem o seu próprio ritmo. O insuportável silêncio nos invade com um grito de bis do respeitável público, de ingressos na mão, esperando ansioso pela solução que virá. Cai o pano, as luzes acendem, hora de ir. Não vá para a luz! Não deixe que se vá, prenda com correntes fortes e mate-se sem reverberações.
          Não, há dias que precisam ser azuis para poder nos lembrar que há muitas cores necessárias na paleta do Criador, mas nenhuma se repete além do seu breve momento de brilho ofuscante, lusco fusco de intimo saber.
          Então você consegue pegar o ritmo novamente, e descobre o seu momento, e está tudo bem. Porque há tanto na harmonia desse universo que até mesmo o mais azul dos dias, só serve para lhe dizer o quão grandioso é. E o seu sorriso não é mais azul, e o vapor ou a fumaça das folhas de outono já não precisam mais acalmar o peso das suas células orbitando um coração. Há toda uma composição urgente na calma dos seus gestos e o solo se torna um voo de liberdade que toca as almas distantes com seus acordes de reconhecimento.

          Agora você pode se ver novamente, em seus novos olhos azuis, como as estrelas em uma noite sem fim, onde sempre poderá plantar as suas esperanças a piscar em vários tons, sabores e cores. Porque se todos gostassem apenas do verde, o que seria dos Dias Azuis?

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Pequena História de Uma Figura - Danny Marks




Havia um mar...
No mar pequenas ondas iam e vinham.
Era noite...
Havia um céu salpicado de estrelas e pensamentos.
Havia uma praia...
Na areia pequenos rabiscos desenhados, sem sentido.
Ele apareceu com seu passo de quem já teve pressa, mas aprendeu a esperar, olhou os rabiscos sem sentido.
Dando uma longa risada em direção às estrelas, sentou-se na areia e passou a unir os rabiscos sem sentido e traçou uma figura que, de algum modo, era a sua imagem e semelhança.
Ele deu permissão à figura para viver no mundo que criara para ela.
Mas a figura era apenas um esboço.
E como esboço precisava ser aperfeiçoada.
Ele concedeu-lhe o poder de criar novos traços, figuras ou esboços que a ajudassem a se retocar e foi embora percorrer outros caminhos.
A figura começou a julgar-se poderosa, pois podia fazer tudo o que quisesse, e quanto mais a lembrança dele se afastava mais ela duvidava de sua existência.
A figura buscou aprender sobre o seu mundo e, aprendendo, começou a querer dominar tudo, mudar o que sabia e o que não sabia, criar novos traços sem sentido, como os que um dia ela tinha sido.
Apagou, rasurou, rabiscou tudo o que achava sem utilidade momentânea, fez coisas pelo simples prazer de poder fazer, sentia uma necessidade de ser maior, muito maior do que a lembrança que ainda restava dele, queria o poder para ser livre, sem perceber que somente a sua incompreensão a prendia no chão.
O mesmo chão que a tinha sustentado voltou-se contra sua arrogância, a mesma força que tinha sido dada para criar, criou as ferramentas da destruição, e rabisco após rabisco, esboço após esboço, todos foram desaparecendo, apagando-se como a tinta que fica velha
E a Figura ficou só, sem rabiscos ou esboços com quem pudesse falar.
Sozinha pôs-se a chorar...não entendia...não queria entender...
Suas lágrimas rolaram pelo seu corpo rabiscado e foram juntar-se as ondas que iam e vinham na praia.
Amanheceu...Havia um mar...
E no mar pequenas ondas iam e vinham na areia da praia.
Havia um céu...E no céu um sol quente...
Havia uma praia...e na areia nenhuma figura, nem mesmo esboços...
Apenas alguns rabiscos sem sentido.
Ele voltou, olhou os rabiscos e sorriu, havia tempo...
E enquanto olhava, lembrou-se de um lugar distante, um tempo em que havia aprendido sobre as linhas tortas...e como torna-las belas e perfeitas...
Sentou no chão e sem pressa, passou a juntar os rabiscos criando um desenho, e o desenho de alguma forma era a sua imagem e semelhança...

Um dia haveria mais alguém naquela praia...ele sabia disso...

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