terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Dona Amelinha




Acorda e ve um monstro, fica com tanto medo que sai correndo, pega uma marreta pra bater nos vizinhos macumbeiros que fizeram aparecer o monstro no espelho.
Tempo bom era quando podia mandar, fazer e desfazer, enlouquecer os que estavam por perto, fazer ela mesma os trabalhos e despachos .
Hoje é demente e briga pra não sair do hospício porque la fora ...

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Narrativas Curtas - Danny Marks




“Vende-se: Sapatos de bebe, nunca usados.”
(Hernest Hemingway)

Esse provavelmente é o mais famoso exemplo de narrativa breve já conhecido. São seis palavras que contam uma história, ou várias, de acordo com o leitor.
Não é uma coisa simples de ser feita, e não se espera que todos os autores tenham essa concisão. O que se deseja é que os textos sejam objetivos e simples, fáceis de entender e com uma elaboração que ultrapasse os limites das palavras.
Um livro se inicia pelo título, se estende pela capa, dedicatória, prefácio e finalmente o conteúdo. Eu me lembro de um livro famoso nos idos de ´70. O título era bem sugestivo, A Vida Sexual do Homem de 60 Anos. Era um livro de aproximadamente 150 páginas. Quando se abria o volume, notava-se que as páginas estavam em branco, exceto a ultima que dizia: “Apresse-se! Escreva suas memórias. Eu não consegui.”
Não me pergunte quem é o autor, dei o livro de presente, mas a advertência tem me perseguido pelos últimos vinte anos. Será o tema de um futuro livro, espero escrever antes dos 60 anos, mas ainda estou recolhendo material.
Esses dois exemplos demonstram como um texto pode ser trabalhado, desde o título até o local onde esse texto será inserido, tudo pode ser elemento do texto e ir além dele na construção da história.
Quando eu digo: Finalmente dormiu, descanse em paz. O que estou fazendo é contando uma historia em cinco palavras, cada uma delas modificando o significado das anteriores, acrescentando e direcionando a imaginação, criando um contato com o leitor e sua capacidade de entender o que esta na mente do autor.
Vejamos um exemplo de uma construção de um microconto e como as palavras o modificam conforme vão sendo acrescidas.
Título: Amor Virtual
Texto: Digite Sexo.
O título e o texto se completam e criam uma história que pode ser ampliada ou modificada: Digite sexo e idade. Fantasie, não minta.
A cada acréscimo o sentido se modifica. No primeiro complemento fica frio, muda o sentido do primeiro termo, no segundo retoma um caminho diferente e modifica o título.
Esse poder de alterar toda uma seqüência, está em cada palavra em um texto, cada vírgula, cada ponto. Brincar com esses elementos é construir formas diferentes de dar uma mensagem que pode ser explicita ou obscura, com múltiplos significados, como na frase: Sorria! A câmera está quebrada.
O motivo para o sorriso pode ser o mais variado. A frase pode ser uma piada, ou o dialogo entre dois bandidos, ou ainda a constatação de uma tragédia. Tudo depende do contexto onde a frase vai ser usada. O que fica claro é que há dois interlocutores, o que manda sorrir e o outro que poderá sorrir, ou não, se for o dono da câmera. Se eu inserir apenas uma palavra, “já”, eu condiciono a frase a uma situação mais específica: Sorria! A câmera JÁ está quebrada. Modifiquei a frase que passa a descrever um ato de vandalismo, no mínimo, com a cumplicidade do outro interlocutor.
É preciso prestar atenção a cada palavra que se insere no texto, de forma que elas cumpram o objetivo de tornar indiscutível a situação, criando, porém, o vínculo mágico entre o leitor e o autor de forma que possam conversar e acompanhar a história que será contada. Então, serão testemunhas oculares do encanto da literatura.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Cicatrizes

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Como uma febre que se vai
tu fostes adiante,
como parte um marinheiro,
em busca de outros mares,
matando a fome das gaivotas.

Cá, fiquei!
Perdida na tempestade.
Inerte, medrada, enclausurada...
às precisões ínfimas
de uma dor supliciada...

O amor ruiu.
O coração crespusculou.
A lança trespassou a alma.

O Mar? Ah! O mar!

Nem a fúria oceânica,
afoga na areia
- o rastro dos teus passos.

Não há de ser nada, amor!
- O teu rumo será a minha aurora.

Guardarei esse desabafo
para lê-lo apenas nos momentos em que:

a tua memória
for indiferentemente/ permanente,
- como cicatrizes -
na minha pele tão cansada

ou quando
a sombra no meu leito,
estiver serena e casta,
desconectada à quimera;

findando
à alcova silenciosa;
perfumada de rosas.

(Ana Cristina Souto)

CANTO A CESÁRIA ÉVORA

Quadro: Évora - Templo de Diana (Luiza Caetano)


Passam tão lentas as horas
cheias de minutos descalços
como quem chora na Ilha
um morno canto de Sôdade,

Canto negro, doído
voz - liberdade, autêntico!

escuto-te por entre o vento
árido!quente e verde do Cabo

Mornas e Coladeras
tristes, negras dolentes

Passam tão lentas as horas
do canto que nos encanta

Cesária que não és de Évora
nem tua Ilha é verde

Apenas a tua voz
é quente como a SÔDADE

(Luiza Caetano)


CRAVOS DE ABRIL

Quadro: CARLOTA JOAQUINA E D.JOÃO VI NO JARDIM BOTÂNICO (ACERVO DO MUSEU INTERNACIONAL DE PINTURA DO RIO DE JANEIRO - BRASIL (Luiza Caetano)


Foram Cravos!

Foram Cantos!

Foram abraços, e prantos!

Foram tempos de esperança!

Eram Cravos! Eram Cravos!
cor da nossa emoção

Era o sangue palpitante
voz da nossa razão!

Foram Cravos!
Foram sonhos!
Liberdade em cada rua!

Foram abraços risonhos

que se esqueceram de ser...

Mas,
a luta... meu irmão!
Continua!

Com os cravos ou sem eles
dentro do nosso coração.

(Luiza Caetano)

SOLIDÃO ACOMPANHADA - Luiza Caetano

Quadro: Alfama - Festas Populares de Lisboa (Luiza Caetano)

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Não importa
o nome,
nem o momento.

Para amar
apenas
o sentimento.

Andava cega
pelos caminhos de vento
dormindo
com as gaivotas sem ninho.

À noite
ouvia as cigarras
sem saber que era a tua voz.

Aprendi
a inclemência do amor
escolhi um rio de pedras

sangrei o silencio na dor
da solidão que é
não estarmos sós.

(Luiza Caetano)

RASTO DE ESTRELAS

Quadro: Frida Kahlo (Luiza Caetano)

Assisto ao dobrar dos dias
dentro de cada madrugada,

Sinto a neve
sulcada em meus cabelos,
sorvo a chuva mágoa dos meus olhos
onde os lírios e a esperança
se rasgam em rugas cansadas
de gestos e de nadas.

Invento o dia que não chega
na pura ressonância
do esquecimento.

Órfã do teu sorriso
feito de promessas e de horizontes,
me deixo inesperadamente
apaixonar pelo rasto luminoso
das estrelas.


(Luiza Caetano)


PINTURA QUASE ABSTRACTA

Quadro: Neruda (Luiza Caetano)

Pinto-te
amor
da cor da esperança
que te embala o olhar.

Decoro-te
na minha cama
em
vibrações e solfejos
musicados de vento,

Nela adormeço
a intensidade da fruta
e dos animais em fuga.

Pinto Lírios
nos gemidos da tua voz,
gestos e giestas
rasgando a carne da tela
impiedosamente branca.


Folha a folha
apago os dias
do calendário do tempo.

Invento
uma qualquer eternidade
adormecendo na tua boca
a fome e o pão,
a saudade e o grito

mordidamente
suicidados
em minha garganta.

(Luiza Caetano)

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Objetos de Desejo




Tenho que me distanciar. Um pouco mais longe, para ver melhor.
A distância elimina as imperfeições, as coisa ficam melhores, mais agradáveis a todo tipo de olhar.
Nada é o que parece ser, o tempo desmascara, permite conhecer detalhes e imperfeições, só a distância pode fazer com que se retome a beleza perdida.
Me afasto! Me privo do contato direto por opção e por necessidade.
Quanto tempo deve durar o gozo?
Sempre me parece, depois, menor que o tesão que o provocou. E no entanto, durante, se assemelha à eternidade.
Eu cuspiria na eternidade, se não fosse me afogar na minha própria saliva. Gosto amargo de sangue.
Distante olho cada momento como se fosse apenas mais um, não há prazer nisso, só necessidade de seguir adiante, não sei para onde.
Amanhecer, um dia, talvez.
Hoje vejo, perdido no passado, um tempo bom, superado, ultrapassado.
Mentira! Olho de perto e vejo, nada é perfeito! Acúmulo de sensações desvairadas que faço questão de guardar na memória apenas o delírio embriagante de um instante eterno de prazer. E o que resta? Enormes vazios entre um delírio e outro, entorpecido.
A noite é negra, nela ironicamente vivo os meus dias. Até que um dia possa descansar em paz e recordar, nos momentos finais, um tempo que para mim, afinal, terá sido bom.
Por pior que tenha sido para minhas vítimas

Lapidando Textos:


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Todo autor sabe que parte do seu inconsciente se projeta na sua obra, mesclando-se ao produto criado, tornando-o único.
Um texto tem por objetivo levar uma mensagem ao leitor. O conteúdo dessa mensagem varia de acordo com a vontade e o momento de quem a produz e se completa naquele que lê.
Essa característica permite a identificação com o autor, cria uma ressonância entre as partes envolvidas e produz a mágica da leitura. Quanto melhor for a mensagem, melhor será a sintonia e mais apreciado será o texto, atingindo o fim para o qual foi produzido.
Porém na escrita, como em outras formas de arte, o inconsciente se manifesta mesmo contra a vontade do autor e pode colocar conteúdos que não fazem parte da mensagem ou até, em alguns casos, suprimir o que deveria estar lá.
Essa falha nem sempre é visualizada pelo autor, pode escapar de várias revisões e criar um ruído na mensagem original prejudicando a sintonia.
Para evitar isso, existem algumas técnicas simples de ser adotadas. Em primeiro lugar, para evitar que a inspiração se perca, deve-se colocar tudo o que vem a mente no papel (ou na tela do editor de textos) sem maiores preocupações, deixando fluir as imagens da forma como elas vem à mente e na seqüência que aparecerem.
Depois de concluída essa fase que eu chamo de Bloco Granítico, passa-se a produção efetiva, que nada mais é do que esculpir a imagem que se tem, nesse bloco inacessível a qualquer outro além daquele que o criou.
Deve-se dar os contornos, criar os traços básicos, o que no texto significa colocar em ordem as seqüências das cenas de forma coerente e que não comprometam o objetivo.
Agora o trabalho parece estar pronto. Já se pode ver a mensagem que desejamos transmitir e é muito comum que o autor visualize sua obra prima nesse esboço.
A mensagem, porém, precisa estar visível a todos, então faz-se necessário o acabamento.
Com cuidado, deve-se ler cada palavra e ver a sua localização na frase de forma a verificar a sonoridade que ela produz. Um texto bem elaborado deve ser uma música para os ouvidos, ter harmonia e ritmo. Um bom artifício é ler em voz alta o que está escrito, ouvir o efeito que se produz. Mesmo em uma leitura silenciosa o leitor ouvirá a sua voz interna, que difere da voz do autor.
Ler em voz alta produz um efeito semelhante ao de outra pessoa lendo. Se houver repetições de som ou dificuldade na leitura a harmonia do texto precisa ser trabalhada.
Outra ponto importante é a repetição de palavras.
É necessário dizer ao leitor quem está falando ou a quem o personagem se dirige em um dialogo, porem deve-se fazê-lo de forma subjetiva, evitando-se os mesmos termos em um espaço pequeno. A repetição cria a sensação de que já leu aquele trecho e a tendência natural é não prestar muita atenção, provocando uma ruptura no fluxo de leitura.
A sequência de apresentação dos argumentos também é importante, deve haver uma descoberta constante, um acréscimo de informações de forma coerente.Por exemplo:
“Amaro Morreu!” No encontro comemorativo será feita leitura do texto, aproveitando que os convidados estarão presentes para prestar suas homenagens ao Julio Antunes, o autor deste famoso livro.
Uma seqüência melhor seria: Haverá um encontro em homenagem ao escritor Julio Antunes com a leitura de um texto do livro “Amaro Morreu!”, para os convidados.
Observe que várias palavras foram suprimidas e a mensagem foi reordenada tornando-se clara.
Um fato a ser destacado é a redundância subjetiva, muitas vezes não percebida claramente. Se o evento é em homenagem a alguém, pressupõe-se homenagens, não sendo necessário reforçar no texto.
É comum que os escritores busquem formas poéticas em seus textos, como:
As lágrimas escorreram dos olhos; O sol surgiu iluminando tudo; Bateu violentamente o punho sobre a mesa; Abriu os olhos e viu o que acontecia.
Lágrimas só podem escorrer dos olhos, o sol sempre ilumina, é impossível bater gentilmente e só com os olhos abertos é que se pode ver.
Ou seja, pode parecer poético, mas é de extremo mau gosto e desnecessário, enfraquecendo a frase.
Outra forma que corrompe o objetivo, sobrepondo camadas desnecessárias, são os adjetivos que em excesso tornam-se um problema:
A rosa de pétalas macias, perfumada com o mais doce odor dos campos, com sua cor vermelha, sensual, era o símbolo perfeitamente talhado desse amor.
Poderia ser dito apenas: A rosa vermelha era o símbolo desse amor. Tudo o mais já implícito na frase, se torna cansativo ao ser lido.
O leitor é carente de novidades, de acréscimos ao seu conhecimento, esse é o motivo de ler a mensagem, e quando há muitas voltas para atingir esse objetivo perde o interesse.
O autor cria para os outros, sua obra tem que se completar naquele que vai ler, e para isso precisa limpar os excessos e criar o efeito desejado. Se esse não for o objetivo, então a obra não é para ser apresentada ao público, devendo ficar restrita a mente de quem a criou, preservada em sua intimidade.
Quando apresentada, a obra deixa de pertencer unicamente ao autor, passando a fazer parte da vida de quem a vê e a interpreta, se for bem elaborada, permanecerá integra; senão, será vista de formas diferentes com efeitos imprevisíveis.
A busca da mensagem perfeita e incorruptível é o objetivo de todo artista e estes são apenas alguns passos nessa jornada sem fim, mas nunca é tarde para se iniciar algo que nos fará melhores.

(Danny Marks)
Figura: O Beijo - Rodhin

Dona Amelinha

Acorda e ve um monstro, fica com tanto medo que sai correndo, pega uma marreta pra bater nos vizinhos macumbeiros que fizeram aparecer o monstro no espelho.
Tempo bom era quando podia mandar, fazer e desfazer, enlouquecer os que estavam por perto, fazer ela mesma os trabalhos e despachos .
Hoje é demente e briga pra não sair do hospício porque la fora ...

(Maria Flávia Hares Fongaro)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Refém da Doce Liberdade


Visto o branco da folha e escrevo com o corpo
O corpo que amo comete sacrilégios
Sou aquela que escreve e te oferta privilégios
Louvores
Meu Senhor
Mesmo povoada cidade vazia pede preces!
Meu amor é oração.
Meu corpo é danação.
Sob teu doce domínio.

Mil demônios
Mil anjos
Não houve salvação.
Flutuei branca-lua e tive essa visão na vigília.
Prenhez que gera a noite,
Sou Lua que ofusca
Na noite que ele me visita.
Às vezes escândalo, eclipse
Soturno
Saturno
Anéis
Tua fala torna a minha voz trêmula,
Corpo-oferenda-escritura
Nome se esgota na tecedura
Envolve-me mais que a pele ao seu pêssego
E assim vibro inteira
De cega pela luminosidade tateio
Sem pressa
Refém da doce liberdade

(Ana Amorim)

Atravessa-me


Fantasia perdida no meu sonho atravessa minhas paredes, pele e poros
Palavras
Sou perdida
Vadia
Cria
Pede mais que lhe dou além
Além da vida e da morte
No momento que ambas se encontram, se eclipsam e confundem
Desveste minha roupa, minha pele
Bebe meu sangue
Que importa morrer de viver.

(Ana Amorim)

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