domingo, 30 de outubro de 2011

Memória - Anna Amorim



Toda perda anda cravada em minha mente
Como dói a memória de tudo que jamais poderá ser esquecido
Como um choro de bebê não nascido
Continuo a caminhar sob a pena do teu nome
Inconfesso amor que deixei para sempre na possibilidade de ser

Toda perda anda cravada em minha mente
Espinhos que teimam em reinar em minha vida
Toda ida, como dói
O choro aflito de outros em meus ouvidos
E tudo dito entre nos
Todo mal ainda que em tempo morto.

Toda memória
Todo presente
E o futuro que mata cada momento
Na incerteza de ser deixei-me

Sou a que escreve no tempo da morte histórias de fragmentos de vida

Toda perda anda por minha mente
Dilatada em minutos temas
Palavras e o umbigo cicatriz

Ouço um grito de nascimento e o último que acossa
Deixe-me
Ainda é tempo

Sempre há tempo até o último tema
A não ser que já não temas
Direi: É cedo
A morte de ontem fez nascer a dor e o dia de hoje
Na minha mente toda  perda e desejo de vida lutam

Lute comigo pela vida
Ainda é tempo
Tempo que se fará memória

Anna Amorim, out,  2011 


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Flor dos Dias - Danny Marks




Impressionista
Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.
Adélia Prado


Flor dos Dias (adaptação transcritiva para linguagem teatral) – Danny Marks
(Entra a menina cabisbaixa com as pétalas de uma rosa presas em seu punho. O talo da flor enconstado na pele do braço desnudo)
— Meu pai descobriu-se doente quando já era irremediável qualquer possibilidade de cura. Contrariando a si mesmo, deu para rir mais. Contrariando o médico, não repousou jamais. Pintou de amarelo brilhante, quase alaranjado, o semblante de nossa casa, como a rir do seu.
(Pausa)
(A menina ergue o olhar para o público e lentamente ergue os braços em um abraço, abrindo as mãos.)
— Por algum tempo moramos em uma casa onde, constantemente, amanheciamos.
(A rosa alaranjada cai ao chão e a menina fecha o abraço sobre si mesma definhando de joelhos)

Fim

Meta Onde? Parte II - O Caminhante das Estrelas - Claude Ustt


-Cadê sua mãe?
-Tá fazendo a unha na Cida .
-Ué, tem festa e num to sabendo?
-Não pai, a Cida tá cobrando baratinho pra praticar,só isso.A coitada da mãe nunca tem chance de se cuidar um pouco.
-Hummmm.... sei.
                                          ................
No espelho do  banheiro Zé  se depara  com um quase desconhecido, o que vê é uma pálida imagem do passado.
Desconfortável desvia o olhar, enquanto  enxuga as mãos na toalha rosa com beirada em crochê.
Está mexendo no controle da  televisão,  quando Zulmira entra apressada.
-Oi Zé, chegou mais cedo? Fui na Cida fazer as unhas,olha como ela tá trabalhando direitinho? Aproveitei fiz uma escova, gostou?
-Hum...hum.
-Só vai dizer isso?  Hum..hum
-Você quer que eu diga o que? A tal Cida  num tá fazendo o curso,  não vai abrir um salão lá na avenida?Deve di sabe o que faz. Se você tá toda feliz desse jeito,minha opinião não interessa.
-Nossa Zé, que grosseria, se soubesse que ia ficar bravo, não teria ido.
-Num to bravo mulher, deixa de besteira. Você é bonita de qualquer jeito. Só estranhei porque hoje num tem festa nem nada.
-É que a Cida precisa praticá, toda a vizinhança tá aproveitando.Ela cobra menos da metade do preço de salão.
-Tá certo, não vamu discuti a toa. Dá pra  arrumá a comida  mais cedo, vou ver o futebol lá na quadra com a turma.
Após servir  o  jantar  e arrumar a cozinha,como sempre ela   está só. Recostada  no sofá,  folheia o livro que a filha mais velha emprestou  dias atrás. De olhos fechados, alisa a capa com carinho,como se fosse o rosto de alguém querido, sempre amou livros. Quem sabe,como afirmam as meninas, ainda haja tempo para aprender algo novo.
.Além  de noções de gramática e ortografia,  tem textos  interessantes que ela, embora achasse impossível, está conseguindo entender muito bem.  Abre uma página ao acaso, o título chama atenção:
O caminhante das estrelas
 “....chegou sem avisar,  o estranho  caminhante. Em uma das mãos um saco de tecido transparente contendo letras cintilantes,inquietas,  parecendo ter vida própria. Na outra mão uma tocha,  para   iluminar o escuro.
Seus passos deixam um rastro vindo  das estrelas, e o caminho à frente  marcado pela chama da tocha, não está  bem definido, mas é  misterioso, atraente......”
-Acorda mulher, depois fica reclamando de dor no pescoço.Vai pra  cama.
-O que? Que foi, nossa você já chegou? Acho que peguei no sono.
-Acha? A televisão ligada, esse livro em cima de você, tá de bobera mulher. Que mania é essa agora de ficar com esse livro pra lá e pra cá.
-Foi a Géssica que me emprestou pra eu esclarecer uma dúvida com uma palavra, sabe aquele dia em que a gente discu...
-Desculpe Zuzu, mas to morrendo e de sono. Ainda bem que amanhã já é sexta, depois me fala disso, vamu pra cama que já é tarde!
Ressentida  com mais uma indiferença,  mas extremamente cansada, pega rápido no sono.
O caminhante vindo das estrelas se aproxima sorrindo. Atira em sua direção as letras inquietas, que rápido formam um tapete, onde ela deita sem cerimônia. Algumas se transformam em pequenas borboletas coloridas que em vôos  rasteiros, tocam de leve seu corpo aqui e ali,provocando uma sensação muito boa.
Ele  traz   um livro na mão e sorri enigmático.Leva a tocha em sua direção e com a chama,  toca de leve seu corpo.Um calor   que não queima, mas  invade cada espaço  inexpugnável.  Uma onda de  prazer acontece, como um jato de vida incontrolável,  penetra todas as células adormecidas.
-Zuzu, Zuzu, o que foi, tá  passando mal?
-Hã? O que  tá acontecendo Ze?
-Que tá acontecendo  digo eu, tá  se debatendo, gemendo feito louca. Foi alguma coisa que fez mal? Qué  um sal de fruta?
-Não Zé, foi só um pesadelo.
-Então reza pro anjo da guarda e volta a dormi em paz!

Bati, Apanhei - Lariel Frota


 Bati na pedra da vida,
Ela sempre me bateu.
Fiz a pergunta atrevida
Ela não me respondeu.
Acariciei a segunda pedra
Aquela que ninguém viu,
Que ao ser tocada me disse:
“Benditas inquietações.”
Procurei em  lugar estranho,
Com pedra de todo tamanho,
Alguma de sabedoria,
Que pudesse  me dizer:
Como  se deve   viver???
Encontrei   só o  silêncio,
Repleto de  ansiedade.
De pedra em pedra,
Parti me ralando inteira.
De queda em queda,
Senti  dor  de verdade.
E bati na pedra da vida,
Pois ela sempre me bateu.
Refiz a pergunta atrevida
Afinal  o que   sou eu???
Vestida num manto vermelho
Me vi, refletida num espelho.
A figura   envelhecida,
Em  silêncio, tentando gritar:
 “O que  impulsiona a vida
É o infindo perguntar!”

Alegria, alquimia do amor... - Pandora

Alegria, alquimia do amor...
Sol, Leão, verão na alma,
Nada acalma , na palma da mão.
Farol, tesão, rumo sem aprumo,
Lençol em prontidão, submissão,
Desejos em solstício,
Exercícios da paixão...

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Meta onde???? - Claude Ustt


 -Zé, como era  aquela coisa que a  médica   falo  no posto uns  tempo atrás?
-Posto....médica?  Do que você  tá falando mulher?
-Zé, fais  tempo,   quando o pessoal do governo tava explicando os jeito  de  evitá  gravidez?
-Nossa Zulmira,  você bebeu? Acha  que lembro disso mulher... conversa doida!
-Conversa doida não,   bem que ajudou a genti a pará  de faze filho.
-Qué dize  filha né Zuzu, que desse mato não saiu nenhum cuelho!
-Si não esquecesse, ia lembra que ela falô  disso também. Quem faz o sexo da criança é o pa....
-Pô, essa istória   de novo!  Melhor mudá a conversa,   isso  sempre acaba em discussão. A janta tá pronta?
                                                            (....)
Sobre  a toalha xadrez os pratos estão arrumados. Embora  simples, percebe-se o capricho: garfos do lado esquerdo,facas  do lado direito, copos  de vidro barato, reluzentes, guardanapo de papel florido, dobrado em quatro.
Na pia a mulher  termina de  temperar a salada. Semblante triste por  não ter conseguido falar ao marido de suas angustias.
-Que foi mãe, tá chorando?
-Não menina, deixa de bobagem.
-Tá sim, não me enrola,conta logo, o que aconteceu?
-Deixa de ser boba Dany, num tá vendo qui sua mãe acabou de discacá  cebola?
-Teu  pai tá certo. Chama suas irmã, a comida tá pronta. A Géssica tem prova no cursinho, diz pra ela si apressá.
Durante o jantar Zé  se esforça pra disfarçar a tensão. Conta piadas sem graça,  ri mais que de costume, fazendo com que as quatro  filhas tenham momentos   descontraídos.
Não estivessem em plena  juventude mergulhadas   em suas prioridades, talvez percebessem que os olhos vermelhos da mãe, não são pelo  descascar de cebolas, mas de lágrimas por  temores que a pobre não tem espaço pra   falar  a ninguém.
Aos poucos a cozinha  fica em silêncio.José se apressa em levar Géssica  ao cursinho,  no velho fusca da família. Ela é    orgulho dos pais:  cursa o  último ano do ensino médio pela manhã, trabalha como recepcionista num consultório dentário à tarde,  e ganhou uma bolsa de estudos num cursinho preparatório para a universidade à noite.
Também  nada têm do que se queixar das outras três:  empenhadas em trilhar seus caminhos corretos.Zulmira é  uma mãe presente: pobre nos estudos,  incentiva e vê com orgulho  o quanto suas  meninas tem   gosto pelos livros.
Volta a chorar sozinha, agora de emoção,  ao lembrar da promessa das duas mais velhas outro dia após o almoço.
-Mãe, fica sossegada. Quando me formar  vou pagar uma empregada,  a senhora vai ver!
-Também  to nessa mãe. Quero ver dona Zuzu com a mão lizinha, perfumada, unhas bem grandes pintadas de vermelho.
- Outra coisa, a senhora vai fazer  algum dos cursos que vive falando!
-Estudar? Ficou doida menina, já passei do ponto.
-Passou nada.  Lá no cursinho tem um monte de gente de cabelo branco, que não teve chance antes  e agora está  tirando o atraso.
                                                      (...)
Deixando a cozinha  em ordem,  Zulmira relaxa no sofá da sala. As pernas andam doendo demais, talvez precise apressar a cirurgia de varizes.
Acaba caindo no sono e  tendo um sonho estranho:  Ela e o marido jovens, namorando sentados sobre a grama verdinha no Jardim Botânico.
Acordou com uma sensação esquisita,  lembrando que de fato vivera uma tarde assim. Estavam as vésperas do casamento,  José  insistindo  numa intimidade maior,  sorrindo  malicioso lhe entregara  um pacotinho de balas, cada uma delas  com um bilhetinho amarrado, um código quase secreto, que ela ruborizando entendera muito bem: quero a bala e  você.....
Encontrar no meio do caderno da filha mais nova, aquela   palavra repetida dezenas de vezes, tirou-lhe completamente o sossego, a fez recordar das insinuações libidinosas de outrora.
                                                        (...)
-Tá tudo bem mãe, to achando a senhora abatida!
-Tudo bem filha,só os problema de sempre.
-Não  vai mesmo contar né?  Ando percebendo sua  preocupação. Puxa vida, não sou mais criança, a senhora não confia em mim?
-Claro que confio filha,em você e nas suas irmãs,mas existe  tanta barbaridade por aí, qualquer coisa  diferente a gente entra em pânico.
-Tá vendo, tá acontecendo  alguma coisa,fala logo mãe!
-Ai filha, promete que não comenta com as meninas, nem com seu pai?Tô com  a pulga atrás da orelha por causa de umas coisas que li numa folha de caderno da Lu.
-Cartinha de namorado, recadinho, isso é normal na idade dela mãe, não esquenta.
-Se fosse isso.... é uma coisa feia de falar. Procurei  conversar  com seu pai,mas ele é ignorante, nem me deixou chegar perto do  assunto.
-Então  foi  por isso que a senhora tava chorando outro dia na hora da janta?
-Mais ou menos.Fui perguntar pra ele  como era aquele jeito que a médica do posto ensinou pra evitá filho.
-Nossa, a coisa é séria mesmo!
-Num to falando?Mas seu pai nem quis ouvir nada.
-Mãe, conta tudo desde o começo. O  que tem a ver o que a médica falou sobre anticoncepcional,com  a  folha de caderno da Lú?
-Vou  contar. Tô com um pouco de vergonha, mas você já  vai fazer dezenove anos e está estudando pra fazer faculdade de enfermagem,  tem tudo a ver,mas deixa eu falar de uma vez, senão não consigo tá?
Você sabe que casei muito nova,naquele tempo a gente não tinha essa intimidade de hoje em dia.Sexo só depois do casamento, é claro que muita gente dava umas escapadinhas, mas daí era um escândalo daqueles. Seu pai vivia insistindo num pouco de ousadia, mas eu era muito medrosa.No final foi bem difícil segurar,ele vivia me dando presentinhos com bilhetes maliciosos.
Outro dia quando fui limpar a estante no quarto de vocês, caiu uma folha de caderno da Lu com uma palavra feia escrita um monte de vezes.Lembrei das explicação da médica porque era o jeito que seu pai criticava os ensinamento da dotora.
-A senhora falou pra não interromper, mas não dá. De qual ensinamento a senhora tá falando e  qual é a palavra feia que a Lu escreveu?
-Taí essa palavra que você falou:interromper.  Eu perguntei pro sei pai e ele não lembrou. Como é aquela coisa de parar o sexo antes do.....bem antes do final, pra evitar a gravidez?
-Coito interrompido. Agora bagunçou de vez,o que isso tem a ver?
-Tudo ora bolas.Seu pai depois da palestra da médica,  chegou em casa criticando, dizendo coisas feias, como a palavra escrita no caderno da sua irmã.
-Ai meu Deus do céu, a senhora tá  querendo me enlouquecer?  Conversa sem pé nem cabeça!
- Espere um pouco. Olha a folha do caderno da sua irmã,veja o que está escrito  aí um monte de vezes! Só pode  ser recadinho secreto  de um namorado sacana que tá querendo se aproveitar da inocência da pobrezinha.
-Mãe, então é essa palavra que causou a confusão na sua cabeça?
-É essa  sim, a mesma que seu pai dizia fazendo gozação com o que a médica do posto tinha ensinado.Dizia que não ia passar o resto da vida interrompendo o bem bom, ficou falando um tempão,lembro como se fosse hoje.
Meta fora, meta fora, a doutora que use esse método de evitar barriga,comigo não, isso é contra a natureza!
-Mãe, calma. Senta aqui pertinho,  vou explicar:  Essa palavra no caderno da Lu não é o que a senhora tá pensando. É da aula de português, fui eu quem dei a dica dela escrever várias vezes pra memorizar,e não é meta fora é metáfora!
-Me...metáfora e não meta fora. Eu nunca ouvi essa palavra,  puxa vida filha, como é bom a gente ter estudo, tava num sofrimento danado,com a cabeça cheia de caraminholas. Quanta  burrice meu Deus, justo eu que vivo criticando seu pai por ser ignorantão!
-Calma dona Zuzu, não precisa ficar se martirizando. Vou pegar um livro de português pra explicar pra senhora  do que se trata. 

domingo, 16 de outubro de 2011

Heaven in Hell - Danny Marks



Aqui não é o paraíso.
No mundo onde vivo isso só existe para aqueles que acreditam que viver é um inferno. Não sou um desses.
No mundo onde vivo não há desculpas, não existe espaço para arrependimentos, não há tempo para lamentações, não se pede perdão. Aceita-se a culpa.
As regras são assim. Você faz as escolhas e aguenta as consequências. Não dá pra dizer que não sabia, não há volta, o caminho te empurra para frente e segue, com ou sem você.
Não dá para esperar ter certezas, elas vêm com os fatos, ou nunca.
De vez em quando alguém tenta quebrar as regras, mudar tudo. Às vezes consegue, por algum tempo. Mas as regras são feitas para que todos tenham as mesmas chances de escolher, e quando há escolhas as coisas cobram.
Não há escolhidos, protegidos, privilegiados. O que um tem a mais é o que o outro mais deseja, e se puder vai tomar sem pedir.
Guerra não há porque aqui ninguém pode ser conquistado. Mesmo quando completamente derrotado. O vencedor só poderia levar os destroços, inúteis, do que foi livre.
A liberdade não é apenas uma palavra, não é um sentimento. É um estado de ser, o sentido de existir, o motivo que não se busca por não estar em nenhum outro lugar senão onde lhe é propicio.
Isto não é um jogo. Talvez um acordo não escrito que você não assina e não percebe que entrou, mas não pode sair.
No mundo onde vivo não existe crueldade; até a ira mais profunda é fria como a certeza de que nem todos vão conseguir o que desejam e desses, poucos vão ficar satisfeitos, por pouco tempo.
Não há um sentido oculto por trás disso. Nenhuma verdade inalcançável guardada por legiões obscuras de seguidores do absoluto nada.
No mundo onde vivo, sentido é o que você empresta aos seus atos, os resultados são os seus tesouros e as respostas o seu poder.
É quando percebe que está no mundo há muito tempo, percebe que já foi longe demais e que aquele que o seguia vai passar por você e levar apenas a lembrança do seu rosto.
Até que, mesmo isso, desapareça.
Só então terá paz.


sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Partida - Márcia



E sem mais, chegada hora,
parti, saí olhando para trás,
as tuas divisões, ruas afora.
Agora te vi,correndo atrás
do vazio dos teus passos,
mormaços de um sol
perdido entre estrelas,
paralelas tantas,
buscando o calor frio,
de umas quantas.
Assim te vejo
no horizonte oposto,
decomposto,
recomposto,...
num círculo,
num circo...

Márcia

Ser Mulher - Danny Marks


Pode um homem conhecer uma mulher?
Com suas correntes de rio
nascente que se prolonga pela vida
recebendo das margens seu sustento e transformação
fonte de vida na cheia, ausência na vazão
Com seus fluxos e refluxos de mar
no doar-se por inteira nas praias que a recebam
no recolher-se em seus mistérios insondáveis.
Pressão de lua, fases de mulher.
Encanto e escravidão, liberdade e solidão,
alegria e dor incontroláveis, intercambiáveis.
Beleza que amadurece ou envelhece e contamina

Pode um homem ser amigo de uma mulher?
Desejar mais sua presença que o seu corpo,
seu carinho que suas carícias,
seu riso sem lhe pertencer,
sua compreensão sem a limitar a seus preconceitos,
aceitar sem julgar, amar sem querer.

Pode um homem amar uma mulher?
Em suas necessidades incompreensíveis de mulher.
Respeitar suas características de flor e fruto,
de alimento e fome, de sangue e água que escorrem,
de recanto seguro e paredes intermináveis,
de sabedoria e teimosia,  sem fim,
apenas ponto de partida.

Pode um homem receber uma mulher em sua vida?
Sim, mas somente se ela permitir-se
adentrar os caminhos sombrios da alma
buscar no homem o seu par e companheiro
e descobrir-se a si mesma, naquele que a reconhece
pelo que sempre foi e sempre será:
Mulher.


Tatuagem de Asfalto - Danny Marks


João Cabeção era um cabeça dura. Sempre foi.
                Lógico que ele nunca admitiu isso, na verdade nunca se achou um cabeça dura. Considerava-se muitas coisas: motoqueiro, roqueiro, bonito, inteligente, pegador, sarado, habilidoso. Mas cabeça dura? Claro que não. No máximo, impulsivo.
                Leu isso em um horóscopo, gostou e aderiu. Impulsivo era algo melhor que cabeça dura, não era? Não importa, mesmo que fosse a mesma coisa não admitiria jamais.
                Todos temos momentos difíceis, todos temos nossos problemas e nossas soluções, e as do João eram assim, impulsivas. Se até atleta tem que tomar impulso para saltar os obstáculos que mal tem em ser um cara que faz disso uma condição?
                Quando arrumou emprego de cachorro louco, gostou do termo. Motoboy é coisa de gringo fresco, cachorro é mais brasileiro e todo roqueiro brasileiro é louco, não é?
                A habilidade dele era tomar impulso, se jogar mesmo; fosse na vida, fosse ao entrar em uma esquina. A habilidade o salvava. Nunca aconteceu nada, então é o certo a ser feito, não é mesmo?
                Foi assim com a Maria, ou seja o nome que ela tem, mas todo João tem uma Maria que é o seu contraponto, o seu esteio,  o seu motivo de se jogar na vida.
                E a Maria vai ter um filho, desses que tiram a gente do sério, quando se é sério; ou então desses que deixam a gente louco de felicidade, quando se é louco.
                Mas louco não pensa, louco é cabeça dura, cabeças-duras não pensam, não é mesmo?
                Mas o João era apenas impulsivo, se fosse cabeça dura poderia ser diferente.
                Eu nem sei por que chamam alguém impulsivo de cabeça dura,  não tem nada a ver uma coisa com outra. Na cabeça dura não entra nada, na impulsiva talvez entre, às vezes, quando menos se espera.
                Mas o João não era cabeça dura, e isso fui eu quem provou, sem querer, por culpa do João Impulsivo com seu cabeção que se atirava nas esquinas sem pensar, como um cabeça dura, mas que nunca tivera problema porque era só tomar bastante impulso e seguir em frente.
                Eu não conhecia o João, só fiquei sabendo das coisas depois, quando não dava mais pra conhecer o João, ou o filho da Maria, ou seja lá qual for o nome da moça que ficou viúva quando as rodas macias do meu carro encontraram o crânio que deveria ser duro, mas não foi.
                E agora o João não é mais chamado de cabeça dura, não é mais chamado por ninguém.
                E só eu continuo com o João na cabeça,  que não é tão dura quanto a vida pode ser.

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