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domingo, 5 de fevereiro de 2017

Revista Conexão Literatura - Ademir Pascale


Olá, 

Nossa segunda edição do ano traz como destaque JackMichel, nome artístico das escritoras Jaqueline e Micheline Ramos, do qual os leitores poderão saber mais nas próximas páginas.
Já na coluna Conexão Nerd, trazemos notícias sobre o nosso novo canal no Youtube (https://www.youtube.com/channel/UC5mnMiHWHcACSrx_lbx4bjg), que aborda vários assuntos ligados ao universo geek. E com a ajuda dos leitores, esperamos crescer muito.

Nas páginas da revista o leitor poderá conferir entrevistas com autores, crônicas, conto e dicas de livros ;)

Interessados em anunciar ou publicar em nossa próxima edição, é só acessar a página: http://www.revistaconexaoliteratura.com.br/p/midia-kit.html

Para saber como fazer o download gratuito da revista, é só acessar a página: http://www.revistaconexaoliteratura.com.br/2017/01/edicao-20-da-revista-conexao-literatura.html

Boa leitura, muita paz e luz em seu caminho.

Forte abraço e até a próxima edição!


Ademir Pascale - Editor
Twitter: @ademirpascale
http://www.revistaconexaoliteratura.com.br

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Entrevista concedida ao site Arca Literária - Danny Marks


http://www.arcaliteraria.com.br/danny-marks/
Entrevista
1.       Fale-nos um pouco de você.
Puxa começou difícil rsrs. Acho mais fácil falar dos personagens ou das tramas que de si mesmo, mas vamos lá. Sou formado em ADM e LETRAS, pós-graduado em Alfabetização e Letramento. Aposentado da indústria metalúrgica. Escrevo desde criança, mas profissionalmente só mais recentemente, sou péssimo com datas, mas não faz mais que dez anos. Sou considerado um Ciêntista Mistico, bruxo tecnológico na variante mais comum, mas estou afastado da psicobiofísica há mais de trinta anos, portanto o título é apenas uma concessão.
2.       O que vc fazia/faz além de escrever? De onde veio a inspiração para a escrita?
Como disse, atualmente estou aposentado. Já dei aulas particulares e no Estado sobre técnicas de redação, já fui organizador de antologia e editor, mas me desliguei porque gosto de uma certa tranquilidade, cansado de batalhas infrutíferas. Minha inspiração para a escrita vem das pessoas e situações que acompanho, do olhar para o mundo e dos conhecimentos de análise de padrões que desenvolvi na época em que era místico. Minha habilidade em construir cenários a partir de indícios já foi muito elogiada por administradores, mas sempre procurei usa-la mais para o lado da escrita literária.
3.       Qual a melhor coisa em escrever?
Difícil dizer isso. Meu relacionamento com a escrita é na base de que não a comando. Aceito uma ideia e a desenvolvo no estilo e no modelo que ela exigir. Já escrevi FC, Terror, Horror psicológico, Psicologia, Policial, Comédia de Costumes, Fantasia, Fábula, Literatura fantástica, distopia e por aí vai. Gosto de misturar alguns estilos, fazer uma intersecção entre realidades possíveis e imagináveis. Quando estudo um autor, tento criar algo usando o estilo dele para alguma ideia que me surgiu, contos especialmente. Isso cria um sério problema na definição da minha literatura, mas recentemente escrevi um texto sobre isso e conclui que escrevo sobre qualquer coisa que gostaria de ter lido, mas não havia sido escrito, até então.
4.       Você tem um cantinho especial para escrever? (envie-nos uma foto)
Não tenho, qualquer lugar serve, até porque eu “vejo” as cenas que escrevo. Acompanho a história na minha cabeça para poder ver o seu desenvolvimento, seu ritmo, suas conexões. Depois tento transpor o “filme” para a escrita, mas antes pensei bastante a respeito, investiguei todos os ângulos. Qualquer lugar server, e alguns lugares acabam servindo de cenários também.
5.       Qual seu gênero literário? Já tentou passear em outros gêneros?
Rsrs, como falei. Não tenho um gênero específico, escrevo o que gostaria de ler e ainda não fizeram. Pode me chamar de um escritor de transgênero rsrs, ou algo pior uma mistura de gêneros e estilos que se submetem a ideia que querem contar para realiza-la da melhor forma que puder. Terror/Ficção Científica/Policial? Fantasia/Medieval/retrofuturista? Qualquer coisa serve, desde que o resultado seja algo que faça o leitor sentir satisfação e sou o meu primeiro e mais exigente leitor.
6.       Fale-nos um pouco sobre seu(s) livro(s). Onde encontra inspiração para título e nomes dos personagens?
Na maioria das vezes os títulos e personagens se nomeiam a partir das próprias narrativas. Aquela coisa de que tinha que ser aquele nome, naturalmente. Não forço em nenhum momento a ideia, no máximo a questiono sobre onde está querendo ir, mas procuro deixar que me conduza e me apresente coisas novas. Publiquei em antologias de poesia, medieval, terror, ficção científica, literatura fantástica. Tenho livro de literatura policial, livros de contos, dois volumes com filosofia existencialista sob uma abordagem dialógica no formato de romance intermodal, tenho uma autobiografia mística em forma de romance. O que você quiser, pode acreditar que escrevi ou vou escrever em algum momento. Gosto do desafio de fazer o novo e me surpreender. Gosto do inusitado que surpreende pela sua complexidade simples, aquela coisa da pessoa ver algo totalmente novo e falar “como não pensei nisso antes?”. Esse é o meu objetivo, fazer o meu leitor amar o inesperado e aproveitar cada momento que estiver lendo uma de minhas viagens ao universo do possível.
7.       Qual tipo de pesquisa você faz para criar o "universo" do livro?
Depende. Sempre vou atrás do que é preciso para realizar a ideia. Faço pesquisa histórica, científica, estilística, o que for. A construção de uma narrativa é como se fosse uma investigação, alguns fatos são apresentados, mas existem lacunas imensas e uma indefinível linha de tempo que precisa ser traçada para poder fazer algum sentido. É preciso mergulhar na história sem uma ideia pré-concebida, sem expectativa, seguir os rumos para onde ela levar e ver o que é importante e o que é melhor deixar de lado. As ideias são sempre prolixas em apresentar pistas falsas, tergiversar. Tem que segui-las, mas tem que pressiona-las para que digam o que importa, fazer com que revelem mais do que gostariam, então acaba descobrindo coisas incríveis, se estiver atento.
8.       Você se inspira em algum autor ou livros para escrever?
Em todos rsrs. Digo que na minha escrita estão não apenas todas as pessoas que conheci ou de quem ouvi falar, mas todos os autores que amei e todos que odiei. Não se pode deixar nada de fora se o objetivo é ser o mais verdadeiro possível. Cada detalhe é importante na composição do quadro, mesmo que não apareça em primeiro plano. Você não vai pintar o vento soprando, mas a forma como as folhas estão vão falar sobre o vento, sobre a luz, sobre aquele animal que passou por ali e comeu algumas delas, amassando outras. Quanto mais você conseguir apresentar sem dizer, mais belo será o seu texto, e mais fácil levar o leitor junto.
9.       Você já teve dificuldade em publicar algum livro? Teve algum livro que não conseguiu ser publicado?
Não, na verdade não procuro editoras. Todo material que publiquei foi por convite ou oportunidade. Recentemente publiquei em eBook porque queria verificar como era essa mídia e só estando dentro. Já notei algumas coisas interessantes que vão me conduzir para os próximos passos.
10.   O que você acha do novo cenário da literatura nacional?
Essa é uma equação complexa porque há várias frentes. Ainda estamos presos a muito preconceito. Os leitores brasileiros não gostam de autores brasileiros, a menos que tenham sido “aprovados” lá fora. As editoras não investem em autores novos porque não possuem público e muitos são fracos em termos de técnica, mas não há uma aposta na construção de um público ou de formação de autores mais qualificados. São raros os cursos de escrita criativa, a grande maioria não passa do básico. Ser autodidata em algo tão complexo quanto a escrita não é um caminho fácil e a maioria dos autores ou sobrevive porque pode pagar pelo hobby das auto publicações ou desiste.
11.   Recentemente surgiram várias pessoas lançando livros nacionais, uns são muito bons, outros nem tanto, outros são até desesperadores, o que você acha sobre este boom?
Acho que é importante no aspecto de que é preciso diversidade para poder criar um espaço para a qualidade. Quando os importados chineses invadiram o Brasil todos temeram que iam acabar com o mercado nacional por venderem produtos de baixa qualidade e baixo preço. Anos depois vemos que a grande maioria dos produtos vendidos nessas lojas são de marcas nacionais desconhecidas, que não possuem um grande marketing, mas que possuem qualidades mínimas regulamentadas pela legislação e um preço acessível. Quem pode comprar qualidade melhor, vai procurar uma loja diferente, mas ambas sobrevivem em fatias diferentes de mercado, cada qual com seus objetivos e público. O mesmo vale para o mercado literário, o problema é que, ao contrário dos importados, não temos o desenvolvimento da produção nacional com qualidade.
12.   Qual sua opinião sobre os preços elevados dos livros nacionais?
Poderiam ser menores se fosse feita uma pesquisa e desenvolvidas tecnologias na produção e distribuição dos livros. O mercado literário está preso a produção importada, a leis que regem esses livros. Fica complicado baixar o preço quando você depende de restrições que quase equalizam o valor local com o do estrangeiro e ainda tem que compor royalties para os detentores do direito de publicação. Se investirem em autores nacionais, em produção local, em tecnologia digital para imprimir livros por demanda eliminando estoques, os preços cairiam para os livros nacionais, mas isso desestabilizaria todo o mercado do livro importando. Não é tão simples assim. Aquela coisa que só há mudança por dois motivos: necessidade ou interesse.
13.   Qual livro você falaria: "queria ter tido esta ideia"?
Na verdade, nenhum. Tem livros que adoro, autores que me encantam, mas não diria que gostaria de ter alguma ideia que eles realizaram, não seria a mesma coisa. Adoro ser surpreendido por um autor, isso fica cada vez mais difícil rsrs, mas perderia esse prazer se ficasse pensando que poderia ter escrito aquilo. Não, prefiro pensar que posso escrever algo que daria o troco a esses autores, surpreendendo-os e fazendo-os sentir como me sinto ao ler o que escrevem.
14.   Se tivesse que escolher uma trilha sonora para seus livros qual seria? (nome da musica + cantor)
Complicado rsrs. Sou eclético também no estilo musical. Minha playlist é uma miscelânea absurda de músicas nacionais e estrangeiras. Tenho instrumental, épico, clássico, rock, heavy metal, lírico, world music, mantras e por aí vai.  Não sou o mesmo em todos os momentos, então a música pode me acompanhar ou eu acompanho a música. Se algo não me satisfaz no momento, pulo para a faixa seguinte e tento sintonizar com o som que me conecta de alguma forma a realidade que estou vivendo. Não obrigo meus personagens a nada, não os obrigaria a serem tão loucos quanto eu rsrs
15.   Já leu algum livro que tenha considerado "o livro de sua vida"?
Já, vários. Dependendo da fase da vida em que estou, algum me pega de jeito. Quando as coisas mudam, outro assume o lugar, mas aqueles que passaram e me tocaram profundamente sempre ficam e de vez em quando ainda sinto o seu toque suave e sei que não estou sozinho, nunca.
16.   Você tem novos projetos em mente? Se sim, pode falar sobre eles?
No momento o meu maior projeto é ficar vivo rsrs. Estou escrevendo um romance complexo chamado Fome de Viver, é a quarta tentativa de realizar essa ideia, nenhuma das anteriores ficou satisfatória e comecei tudo de novo.  Algumas ideias são complicadas e não aceitam que as deixe de lado ou que passe adiante para outro realizar. Há quatro anos venho tentando me livrar desta, já escrevi um monte de coisa durante esse período, mas ela está lá só observando. Quando fica brava, me deixa acordado a noite, só revirando uma cena que vai ficar em algum lugar da narrativa ou será descartada, mas que até uma coisa ou outra acontecer, não vai sumir. Fome de Viver fala sobre sobrevivência, estou testando a vontade de viver dessa ideia e ela está testando a minha. Espero que ambos cheguemos vivos ao final.
17.   Você acompanha as críticas feitas por blogueiros nas redes sociais? O que você acha sobre isso?
Vejo algumas coisas, as pesquisas e as escritas tomam bastante tempo. Quando uma crítica é bem-feita, não vejo problema algum, mesmo que sejam negativas são importantes para apontar onde o autor pode aprimorar o seu trabalho. Quando as críticas são apenas opiniões, acho que entra no direito de cada um apresenta-la, se não for ofensiva, não vejo problemas, mas ignoro. Sou órfão de críticas, algumas opiniões favoráveis, acho que meus leitores tem medo de mim, nunca se sabe o que se passa na cabeça de um autor como eu, não é mesmo? Rsrs
18.   Se pudesse escolher um leitor para seu livro (escritor, alguém que admire) quem seria?
Olha, adoraria que Isaac Asimov, Frank Herbert, Robert Heinlein, Arthur Clark ou Dean Koontz dessem uma lida no que escrevi e me oferecessem uma crítica. Mas acabei ficando com outros autores muito bacanas que foram inclusive meus mestres em alguns estilos, como o Marcelino Freire (contos/crônicas) e Sérgio Couto (literatura policial). Devo ter sido lido por outros autores nacionais com quem publiquei ou que publiquei quando era editor, mas não recebi críticas.
19.   Qual a maior alegria para um escritor?
A minha é poder criar uma história que possa ler milhares de vezes e anos depois ainda continua a deixar a mesma emoção. É algo indescritível porque você gerou, viu crescer, superar todas as dificuldades e depois vencer no mundo e se realizar. É o mais próximo de um filho que se pode criar com palavras.
20.   Deixe uma mensagem a nossos leitores e para aqueles que estejam iniciando no mundo da escrita literária.
A melhor mensagem que posso deixar para os leitores é que devem dar oportunidade para o novo, devem olhar para os autores nacionais como olham para os estrangeiros, são pessoas iguais a você que merecem uma oportunidade de serem ouvidos e lidos, nada além disso. E se gostarem, que continuem fazendo; e se não gostarem, apenas deixem de lado e peguem o próximo e deem uma oportunidade também. Pode ser que o momento e o clima não sejam propícios, mas pode ser que se surpreenda e se apaixone.
Aos autores nacionais eu digo, resistam. Se não conseguirem superar-se nas próprias dificuldades, como pensam ensinar os seus personagens a ser melhor? A criatura nasce como fruto da matéria do criador, e desenvolve-se depois no mundo apenas com as ferramentas que lhe forem dadas por este, ou morrem. Seja responsável pelo que faz e faça o melhor que puder em cada momento, nada mais pode ser pedido de forma justa.

Agradeço pela oportunidade, nos vemos em algum lugar por ai.


terça-feira, 12 de julho de 2016

Olhares Apaixonados - Ademir Pascale


Olá, tudo bem?

Desta vez não vou falar sobre a revista Conexão Literatura, mas sim sobre um trabalho do qual acabei de lançar. O título é "Olhares Apaixonados - Um breve estudo sobre os olhares", um e-book com 7 páginas, incluindo a capa e os créditos. 


O download é gratuito. O ebook pode ser baixado no link:

Acabei de fazer um post no site da revista Conexão Literatura:

Mais informações:

Sinopse: Fred é um jovem obcecado por olhares e se apaixona à primeira vista. Ela tem um olhar diferente. Na realidade não é tão diferente assim, o problema é a situação e o olhar dela que não combinam. Fred precisa entender o que realmente está acontecendo.

Ficha técnica:

Título: Olhares apaixonados - Um breve estudo sobre os olhares
Autor: Pascale
Tipo: E-book (PDF)
Download gratuito:



Grande abraço,

Ademir Pascale - Editor
Twitter: @ademirpascale

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Brilliant Performance – Danny Marks (Análise de Vídeo)

       
          Fazer humor é algo difícil, todo humorista sabe disso. Se for um humor crítico, com uma ironia fina, mais complexo ainda. Mas o “Sr X” (infelizmente não consegui descobrir o nome dele) tem a habilidade e a inteligência para provocar o público sem criar uma rejeição. Esse primeiro instante é que demonstra para o profissional se conseguiu conquistar ou não o público.
          Observe que ele já provoca uma obrigatória percepção do público na escolha das roupas, uma camiseta listrada, blazer e calças de um tom neutro, ligeiramente folgadas, mas não deselegante. Para completar, tênis, um toque anárquico na relaxada sobriedade das vestes. Essas roupas folgadas e destoantes, que lembram um relaxamento e uma formalidade em algum nível mais inconsciente, estão diretamente vinculadas ao tipo de vestimenta que um palhaço de circo usaria. Essa tradição de vestuário que satiriza a sobriedade está vinculada aos primórdios da arte circense que buscava ganhar a vida ironizando justamente o público que pagava pela apresentação, os nobres das cortes.
          Os olhos destacados por delineador que realçam-lhe as expressões também remetem a esta tradição circense, mas avançam pelo arquétipo do mímico, que tenta transmitir o seu texto apenas com as expressões faciais e corporais. Estabelece-se dessa forma uma cadeia de memórias primordiais do humor que, impactada pelo primeiro momento de estranhamento, busca nas memórias mais primordiais o reconhecimento do padrão. O choque inicial é reforçado pelo inusitado uso de uma fita preta servindo de mordaça.
          A fita preta adesiva da mordaça é emblemática por si só, simboliza a impossibilidade de falar, a censura, a coerção sofrida. Mas o fato de estar com as mãos livres e a mordaça não ser removida, torna mais emblemáticos e assume diversos papeis, de acordo com o contexto, para além do impacto inicial. Em nenhum momento será removida e, portanto, obriga o leitor a prestar atenção a todos os outros sinais codificados pelo corpo e pelo olhar. Note que uma simples fita preta sobre a boca em tamanho suficiente para parecer uma tarja preta (e isso já nos levaria por outros caminhos de análise) de censura, ultrapassa o efeito do impacto inicial, da primeira visão, e por não ser removida nem mesmo para responder a perguntas que são feitas pelos jurados (as autoridades instituídas) passam a representar mais simbolismos.
          Ao não responder aos jurados devido a tarja preta, a censura passa a ser uma crítica, inverte a função do que é proibido pelo outro para o que não se permite dar ao outro, "pensem o que quiserem", gestos e olhares dão indicação dessa postura. A questão é reforçada pelo ato de testar o microfone com a mão e, percebendo que está ligado, afastá-lo com um gesto de inconformidade.
          Entra a música e o Sr X veste luvas de cozinha, a música inicial decresce em desafino e se inicia uma trilha sonora romântica enquanto as luvas são erguidas até a altura do olhar e se transformam em toscas marionetes com o simples fato de voltar as mãos para fora e expor a face interna das luvas, ornadas com olhos estilizados. Os polegares tornam-se as bocas que cantam a canção.
          Novamente vemos uma referência circense aliada ao teatro de marionetes. O “manipulador” observa o boneco junto com a plateia, mas reage como se cada boneco tivesse uma individualidade e até se “espanta” com os mesmos. O simbolismo resgatado pela música é o do romantismo moderno, detalhes como os punhos de bolinhas coloridas reforçam esse simbolismo de “amor de arco-íris”. Mas o manipulador parece não gostar do que está acontecendo, seu olhar assustado e os gestos faciais de repúdio são contraditórios com o público que entra no clima romântico e balança os braços no alto ao sabor do romance. A crítica sutil se dá por um breve instante em que a “marionete masculina” volta a ser brevemente uma mão enluvada a coçar a virilha do artista, mas retorna o seu papel a tempo de cantar o dueto e esboçar o “beijo” que finaliza a apresentação do primeiro quadro. O artista vai afastando sutilmente para um dos lados as marionetes improvisadas ao mesmo tempo que desvia o rosto do ato final como a demonstrar repúdio ao “beijo” das marionetes. Nesse momento é possível ver um toque sutil, o cabelo bem penteado na frente, tem um estudado ar punk, espetado, na parte de trás.
          A plateia vibra, a música volta a ter um toque circense enquanto o Sr X guarda as luvas em uma bolsa e retira o seu próximo “personagem” iniciando uma outra modalidade de dueto com marionete, em que o artista se apresenta metade no papel masculino e metade no papel feminino.
          Mas desta vez nota-se que a “mulher” não tem cabeça, apenas o par masculino a possui. A música circense desafina e é substituída por um outro dueto, mas o tom desta vez é sensual, o que combina com o “vestido” vermelho da “dama”.
          O “casal” passa a dançar, mas o “cavalheiro” passa a se interessar por outro alguém, e é “repreendido” pela “dama”, obrigando-o a olhar apenas para ela que continua a acaricia-lo durante a dança.
          O “cavalheiro” desliza as mãos pelas costas da moça em direção às suas nádegas, mas esta imediatamente o repreende, forçando a “mão boba” a subir. Ele insiste, ela volta a reprimir. Ele a engana com um blefe e ela acaba colocando a mão dele onde este queria. Vencida a resistência inicial, ele avança e tira o sutiã vermelho da “moça” e simulam um deitar-se terminando a apresentação.
          O público e os jurados vão ao delírio.
          Meus leitores também. Ora bolas, isso não era uma análise? Então, é preciso destacar os elementos analisados para que se perceba qual o raciocínio utilizado para a “leitura” analítica. Essa foi a primeira parte.
          A segunda parte consiste em estruturar o argumento já ensejado na própria apresentação dos elementos estudados. Quando apresentei o texto já introduzi a ideia de que o trabalho do artista é na linha do humor crítico, com o uso de ironia fina. Como se justifica isso?
          Primeiramente pela mordaça que brinca com a questão da censura, do interdito, como diria Foucault. Se há algo que não pode ser expresso de forma direta a comunicação fica interrompida, a mensagem fica suspensa entre o emissor e o receptor, o interdito. Porém, não significa que é extinta, apenas que assume no receptor uma função de reverberação, ou seja, o receptor passa a “produzir” a mensagem que recebe e isso cria um outro modo de comunicação que é mais interno. Algo como um diapasão que faz vibrar uma taça de cristal pela sintonia vibracional. Neste caso são os arquétipos, os conceitos internalizados, que reverberam como cristal ao serem provocados.
          Portanto, não há como repudiar o que não foi “dito”, mas foi “interpretado” e, por não ser socialmente aceito, não pode ser “acusado”, sob pena de revelar o acusador, mais que o acusado.
          Essa linha de humor lida com os conceitos e preconceitos mais estruturais da sociedade, aquilo que não é dito, mas está presente e cria raízes profundas alterando as percepções. Somente uma sutileza e habilidade extrema conseguem “brincar” com sentimentos profundos sem provocar uma explosão, ao contrário, fazendo com que transbordem e permitam um relaxamento da repressão que sofrem. Esse relaxamento é o humor conciliatório provocado.
          Mas, dirão alguns, como o artista pode expressar sua opinião se apenas o outro vai “produzir” a mensagem. Simples, pelo discurso indireto, subliminar. As expressões de repúdio ao amor romântico do primeiro quadro são substituídas pelo envolvimento no amor sensual do segundo quadro. A mordaça assume o seu papel primordial no contexto transformando o artista na representação da sociedade que repudia uma faceta do amor e valoriza a outra, mas não de forma aberta, apenas fingindo aceitar as duas. Essa é a crítica sutil, a condenação não dita, a aceitação não formal, o interdito provocativo que, embora se expresse abertamente de uma forma, no íntimo se revela totalmente oposto.
          O fato de que as “marionetes”, a “dama” e o artista são apenas aspectos da mesma coisa e da mesma representação nos dá a leitura direta da crítica social que apresenta, pela ironia fina, aquilo que de outra forma nos pareceria agressivo e deveria ser repudiado firmemente, mas pela obra artística passa a ser aceito permitindo que seja reinterpretado e, portanto, analisado.
          Obviamente esta é uma análise superficial, com poucos elementos de interconexão, mas o objetivo é justamente esse, demonstrar que o aprofundamento de uma obra de arte se estende ao limite que o leitor quiser dar e sempre haverá algo que possamos aprender, e nos divertir no processo. Quer um exemplo? Por que luvas de cozinha? E abrem-se novas possibilidades interpretativas. Até a próxima.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Oficina “Palavras Literárias” – Danny Marks


Este texto é baseado nas palestras que ofereci na UNIBR-SV, nos dias 09 e 10 de maio de 2016. Agradeço à Instituição a oportunidade e aos assistentes pelo prazer do encontro. Divido com os meus leitores alguns conceitos básicos da leitura e escrita que podem contribuir para uma melhor compreensão do fazer literário, entre outros. Não há a intenção de aprofundar demasiadamente qualquer conceito apresentado, apenas apresentar alguns elementos básicos e caminhos possíveis para que qualquer pessoa possa melhorar sua qualidade de leitura e produção textual, indicando caminhos possíveis para esse aprofundamento. Ler e Escrever são atividades importantes na sociedade letrada, mas nem por isso necessitam ser desagradáveis, ao contrário, podem ser atividades fontes de prazer, de lazer e aprimoramento.

QUEM LÊ MAIS, ESCREVE MELHOR.

          A frase acima é um dito popular muito utilizado, principalmente no mundo acadêmico, mas normalmente acaba induzindo ao erro por estabelecer uma relação direta entre o ato de ler e o ato de escrever, quando na verdade trata-se de uma relação indireta. O ato de ler pressupõe a capacidade de interpretar uma mensagem inserida em algum código coerente, já o ato de escrever pressupõe uma vontade de comunicar algo de forma coerente, dentro de um padrão letrado.
          O correto seria dizer que quem lê mais se torna um leitor melhor. Claro que um bom escritor necessita de ser um bom leitor para exercer o seu ofício, mas o fato de ser um leitor não significa necessariamente uma relação causal com ser um bom escritor. Portanto o erro está em se tentar unir dois conceitos que tem uma relação indireta (quem lê, o faz sobre algo que foi codificado sobre o padrão letrado; quem escreve, pressupõe que há pessoas habilitadas pelo padrão letrado que o compreendam, mesmo que não esteja presente). O risco é de que se crie uma aversão à leitura e à escrita, porque, apesar de ler muito, a pessoa não consegue "escrever" como gostaria; além do fato de que muitos que escrevem já se consideram excelentes leitores, apenas porque escrevem, e isso não é um fato. A leitura e a escrita necessitam de técnicas para que sejam desenvolvidas em um nível mais aprofundado, embora, na sua superfície, podem ser efetuadas de maneira simples.
          Na mesma linha de engano induzido está outra frase que diz que “Um escritor já nasce pronto”. Essa talvez seja mais perigosa ainda porque apresenta diversas incorreções.
          O talento para a escrita auxilia no processo de se tornar um escritor, mas nem todo escritor necessita ser talentoso. Aprende-se a escrever na infância, aproveitando a plasticidade do cérebro nessa idade, através de técnicas, porque a nossa sociedade é letrada e, portanto, se torna cada vez mais uma necessidade para sobrevivência.
Escrever, no caso, assemelha-se a habilidade de cantar, todos podem aprender a cantar, mas nem todos se tornarão Cantores, embora sempre possam fazer uso dessa habilidade de outras formas.
O problema está no fato do “endeusamento” da escrita, criando uma tensão nos necessários escritores de uma sociedade letrada, que não se consideram com talento suficiente para o fazer e, muitas vezes, acabam por abominar qualquer ato que tenha relação “direta” com a sua “inabilidade”, como a leitura.
          É fato consagrado que quanto mais uma pessoa escreve e se dedica a aprender técnicas de escrita, mais facilmente ela consegue produzir textos. Da mesma forma que um cantor necessita exercitar a voz através de exercícios de canto, um escritor necessita exercitar a sua “voz” interna através da escrita constante. Quanto mais se escreve, melhor se escreve, embora nem tudo que se escreva tenha que ser de teor significativo, serve apenas como um exercício.
          Um escritor profissional necessita, da mesma forma que outras pessoas, aprender técnicas específicas que lhe auxiliam na sua arte, é um trabalho longo e contínuo como em qualquer outra área do conhecimento humano, ainda que haja um talento prévio a ser desenvolvido. Aprender a ler melhor auxilia na construção de um vocabulário maior, na apreensão de técnicas textuais, na ampliação da percepção de ritmo e planificação do texto, na compreensão da coesão e da coerência. Ler, portanto, é uma necessidade de uma sociedade letrada, não apenas para escritores profissionais, mas para todos os tipos de escritores que uma sociedade letrada demanda.
          Mesmo um cantor necessita aprender a ler melhor, necessita aprender a escrever melhor, os conhecimentos humanos são interconectados e os talentos individuais apenas fazem com que indivíduos se destaquem a partir do aprimoramento do seu talento, através do aprendizado de técnicas específicas.
          O talento inato, que já nasce com o indivíduo, seja qual for (e segundo algumas correntes do conhecimento, todos nós temos vários talentos inatos) ajuda no sentido de que conseguimos encarar as dificuldades comuns a todos, de forma mais fácil. Portanto o chamado “talento” seria mais uma “afinidade” que nos auxilia a superar as dificuldades de aprender a técnica, nos ajuda a não desistir diante do que, a princípio, parece impossível, nos auxilia a sentir prazer em cada vitória e nos estimula a ir cada vez mais longe e aprender sempre mais.
          Outro ditado popular que tem a ver com isso é “aquilo que se faz com amor, faz-se melhor”. Claro que sim, quando nos sentimos envolvidos no que fazemos, nos sentimos mais fortes, mas isso não significa que as coisas ficam mais fáceis apenas por isso, outrossim, nos sentimos dispostos a enfrentar por mais tempo as dificuldades e a investir mais, e isso sim, é uma receita que pode dar certo. Ou não.

ABSORVER O MUNDO PARA DESCREVE-LO MELHOR.

          Ninguém pode dar o que não possui, isso é uma lógica básica. Na escrita também é assim. Para que se possa criar textos é necessário absorver textos em quantidades imensas, elabora-los e, então, produzir novos textos. Isso quer dizer que, necessitamos introjetar o conhecimento, traze-lo para dentro. A leitura de mundo é a ferramenta mais básica para poder escrever acerca do mundo e do conhecimento. É o que fazemos constantemente, ao acordar para o dia e observar as condições do ambiente, ao viver as nossas vidas, ao nos comunicarmos com o Outro, ao buscarmos outras visões que possam nos acrescentar conhecimentos que não possuíamos e rever os que já existiam.
          Essa habilidade de “ler” o mundo, em maior ou menor grau é uma característica evolutiva do ser humano. Desenvolvemos nossa sociedade apoiados em conhecimentos ancestrais que são passados para as próximas gerações e determinam ainda mais as características destas gerações se desenvolverem. Já nascemos com a capacidade de ampliar os mínimos conhecimentos necessários para sobreviver e, salvo se houver algum problema congênito ou de percurso, é isso que fazemos ao longo da vida. A mãe sabe quando o choro da criança é de fome, de sono, de incomodo ou apenas para chamar a atenção. A criança já sabe quando os pais estão nervosos, ou quando estão amorosos. Isso é uma leitura de mundo pré-tipográfica e se ampliará ao longo do desenvolvimento.
          E como desenvolver as melhores técnicas para escrita se não possuímos talento inato? Da mesma forma que aprendemos a produzir os signos gráficos de nossa linguagem. Aprendemos as letras desenhando as letras, copiando e imprimindo o nosso traçado próprio. Aprendemos a identificar imagens com os seus respectivos signos estabelecendo uma correlação entre ambos. A palavra Casa pode ser representada por um desenho de uma casa e vice e versa.
          Essa técnica é chamada de Reescrita, quando nos apropriamos de algo que já existe e revisamos com a nossa característica, não estamos desenvolvendo algo inédito, apenas adaptando algo existente a nossa necessidade. No mundo acadêmico essa vertente é muito utilizada em citações indiretas, aquelas em que retransmitimos com nossas palavras os conceitos que foram desenvolvidos por outra pessoa que já  possui uma credibilidade pelo seu trabalho. Mas pode-se ir além na arte, podemos construir algo novo a partir de uma visão especifica de algo que já existia. Shakespeare se baseou no teatro grego para criar Romeu e Julieta, muitos outros autores modernos se basearam em Shakespeare para criar obras que vão de “Malhação” até “Jogos Vorazes”. Nas universidades americanas que ensinam a arte de escrever essa técnica é amplamente utilizada, por isso podemos ver obras como Código da Vinci de Dan Brown que tem a mesma estrutura central de Romeu e Julieta, por exemplo.

O UNIVERSO ABOMINA O VÁCUO

          Essa é uma lei da física, mas também é válida para a psicologia. O cérebro humano se desenvolveu para identificar padrões, ainda que estes não existam de fato, nesse caso a mente humana utiliza-se de artifícios para preencher as lacunas e “criar” um padrão. Essa é a base da Gestalt, uma teoria psicológica muito interessante que não vamos poder aprofundar aqui, mas que vale a pena ser estudada.
          Pela Gestalt podemos “enganar” o cérebro através de padrões, podemos criar conexões que não existem de fato, podemos fazer junções para criar algo novo ou desmembrar figuras em suas partes e reconstruir um novo quadro.
          Essa habilidade de reconhecer padrões a partir de um conjunto de memórias e estabelecer pré-julgamentos, permitiu que o ser humano sobrevivesse em uma época em que o ambiente era hostil e não havia muito tempo para analisar se algum vulto era um predador, um amigo, ou apenas uma sombra qualquer. A mesma habilidade ainda é importante para a nossa sociedade porque permite, entre outras coisas, a construção das extrapolações, está na base do pensamento projetivo que vem a ser aquele modelo mental que consegue, a partir de dados iniciais, projetar mentalmente como se darão eventos futuros.
          Por outro lado, a mesma “ferramenta” mental pode induzir ao erro, “colar” um padrão incorreto que depois acaba criando uma tendência de fixação e indução ao erro. É o que acontece, por exemplo, quando escrevemos um texto e, por mais que o revisemos, não conseguimos “ver” os erros que estão presentes, simplesmente porque ainda temos o “modelo” que o produziu “colado” na mente. Por isso é importante em toda produção textual que haja um processo de “distanciamento”. Normalmente um autor guarda o seu texto e espera até haver “esquecido” dele para poder fazer a revisão, porém esse método não é completamente eficiente porque podemos resgatar com facilidade memórias recentes. Então, um outro método é enviar para um leitor habilitado para que este aponte as incorreções e falhas de forma que possam ficar evidenciadas.
          Dizendo dessa forma, parece complexo todo o processo, mas através de imagens fica mais fácil entender o raciocínio
                   

A figura 1 apresenta um rosto feminino facilmente reconhecido, porém, pode-se perceber pela figura 2 e 3 que há na mesma imagem um outro padrão oculto, que quando realçado, apresenta-se como outra figura.
Duas coisas podem ser percebidas a partir destas imagens. A “textura” (a forma como se cria um padrão de fundo) altera a percepção do que é visto, porque modifica-se a informação que o nosso cérebro recebe. Também fica evidente que, quando fixamos a primeira imagem, ela se torna “residual e mesmo quando alteramos o foco para a segunda imagem, a primeira ainda nos parece presente. Se a sequência fosse invertida, o efeito seria o mesmo. Isso indica que a primeira percepção é sempre mais intensa e duradoura, e modela as percepções futuras, ainda que se limite o foco informativo.
Isso fica evidente na sequência de imagens que apresento a seguir, na “transformação” de um rosto masculino em um corpo feminino e vice e versa, basta inverter a ordem.


O contexto onde o padrão é inserido também altera a percepção do padrão, como pode ser percebido nestas imagens em que se destaca o padrão e depois o coloco em contextos diferentes. Assim a figura que nos lembra um pão de forma se transforma em uma caixa de correios.



          Esse destaque nos permite perceber, por exemplo, o motivo de uma palavra ou frase deslocada do seu contexto original assumir outro sentido diferente quando inserida em um novo contexto que se diferencia de onde foi deslocada. Daí a importância de, ao usar partes de um discurso, cuidar para que as mesmas sejam inseridas em discursos que contenham elementos semelhantes, para não descaracterizar completamente a intenção original e induzir ao erro interpretativo. Também explica, basicamente, porque muitas vezes há falhas comunicativas ao se transmitir mensagens que não provoquem a contextualização da informação.
          O contexto também pode interferir diretamente na percepção do padrão utilizado, ainda que este se mantenha constante, como pode ser verificado nas figuras a seguir. Observe que as esferas centrais da figura 1 parecem ser de diferentes tamanhos, mas quando traçamos uma linha reta sobre elas, desmontamos a ilusão criada pelo contexto e passamos a percepção de que na verdade são ambas do mesmo tamanho. Apesar disso, é possível que nossa racionalidade entre em conflito com a informação recebida pela visão e tenhamos dificuldade para aceitar imediatamente que ambas esferas centrais são iguais, apesar do fato comprovado.



          Fica mais complexa a interpretação e a alteração do foco quando trabalhamos com composições e sobreposições.
                     


          Na primeira imagem pode-se perceber de imediato um homem de sombreiro em cima de um cavalo, uma pessoa deitada no chão coberta por um pano, e um rio ao fundo. Mas as figuras acabam compondo a imagem de um homem idoso, de cabelos, bigodes e barba brancos, que muitas vezes nos escapa ao olhar porque os elementos principais se destacam.
          Na segunda figura o foco é mais disperso e equilibrado, então é possivel que o primeiro foco se dê sobre a moça que olha por cima do ombro, vestida com um casaco de pele e um lenço branco. Ou pode ser que o nosso foco inicial seja o de uma senhora idosa, e percebe-se que o “colar” da moça, é na verdade a “boca” da idosa.
          A terceira imagem é mais marcante ainda, também nela podemos focar em primeiro lugar uma pessoa curvada agarrando os cabelos em uma situação que nos parece de desespero, ou nosso foco inicial pode ser a “caveira” deformada que se forma com os contornos do corpo e das sombras produzidas por este. Em ambos os casos, há um “discurso” que remete a uma situação de desespero e medo. A intencionalidade dessa imagem fica clara pelos elementos destacados e se harmoniza com a informação externa de que a série “Penny Dreadful” trabalha com o lado sombrio da literatura fantástica.


          Por fim, uma composição criativa em cima da frase de Neil Armstrong, em que ele relata uma situação vivenciada em sua viagem à Lua. Escolhi essa pequena sequência de imagem aliada a discurso para demonstrar como o contexto é importante.
          Em uma análise simples do discurso oferecido, percebemos uma dicotomia: “Não me senti um gigante” (capaz de, com apenas o dedão, anular completamente a Terra), “Na Verdade me senti muito, muito pequeno”.
          Se utilizarmos o viés de análise com base no foco informativo e na alteração do padrão diante do contexto, como foi demonstrado anteriormente, podemos perceber racionalmente a emoção do astronauta na situação por ele criada.
          Se o foco contextual for ele em relação a Terra, cuja imagem residual na sua mente é a de um planeta imenso, o fato dele poder encobrir toda a superfície desta com apenas o dedão, torna-o gigantesco.
          Porém, ao fazer esse gesto, o que ficou destacado para o astronauta foi justamente a imensidão do universo. A referência de “grandeza” da Terra, sumiu por alguns momentos de sua mente e ficou apenas o imenso céu cheio de estrelas, sem nenhuma humanidade além do próprio astronauta.
          Pode-se perceber imediatamente o sentimento de solidão diante daquela “noite” imensa, e como isso fez com que o astronauta se sentisse infinitamente pequeno, apenas pela percepção alterada do foco e do contexto.
          Com isso, encerramos esta breve exposição, na esperança de que tenha ficado claro a importância da leitura de mundo, da mudança de perspectiva ao se analisar fatos comprováveis, e as possibilidades e dificuldades ao se trabalhar padrões em contextos diversos.
          Espero que tenha ficado claro que, ler e escrever são atividades distintas e complementares, mas que ambas podem ser exercidas de forma simples e nos auxiliarem a Ler o Mundo de outras formas e Escrever nossa história com um Final Feliz.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Ser Amigo - Paulo Goulart

Paulo Goulart, nome artístico de Paulo Afonso Miessa
 (Ribeirão Preto, 9 de janeiro de 1933 — São Paulo, 13 de março de 2014) 
Espírita, foi radialista e renomado ator brasileiro.

Ser Amigo

É o que faz sem perguntar.
É o que acolhe, participa e ajuda.
É o que ouve, aconselha e respeita.
É o que alerta, aplaude e critica.
É o que partilha a alegria e a dor.
É o que desconstrói construindo.
É o que discorda, não do conteúdo, mas da forma.
É ser fraterno, sem ser irmão.
É ser membro da Grande Família Universal.
É fazer mais do que falar.
É não ter dia, nem hora.
É ser o outro, sem deixar de ser você.
É não estar só.
É sonhar.
É saber esperar!
Síntese do amigo, está aqui no ditado popular:
“Para o amigo, tudo! Para os outros, justiça!”



sexta-feira, 11 de março de 2016

Agora é Moda - Rita Lee

Agora é moda, sair nua em capa de revista
Agora é moda, pichar a vida de artista
Agora é moda, bionicar o corpo inteiro
Agora é moda, culpar o mercado estrangeiro
Dance, dance, dance - Dancei!
Agora é moda, poupar dinheiro pro futuro
Agora é moda, pegar alguém pulando o muro
Agora é moda, acontecer uma tragédia
Agora é moda, a inquisição da Idade Média
Dance, dance, dance - Dancei!
Agora é moda, matar pra não morrer de fome
Agora é moda, chauvinista pra ser homem
Agora é moda, ter vocação pra ser famoso
Agora é moda, saber que dói mas é gostoso
Dance, dance, dance - Dancei!
Agora é moda, economizar a gasolina
Agora é moda, coroa e cara de menina
Agora é moda, tentar salvar a natureza
Agora é moda, achar que tudo é uma pobreza
Dance, dance, dance - Dancei!
Agora é moda, chorar de tanto dar risada
Agora é moda, morrer na curva de uma estrada
Agora é moda, ser o dono da verdade ah, ah
Agora é moda, dizer que amor não tem idade
Dance, dance, dance - Dancei!
Agora é moda, bancar o fino e educado
Agora é moda, dançar pra não ficar parado
Agora é moda, fazer novela de vanguarda
Agora é moda, chegar depois da hora marcada
Cheguei!

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