segunda-feira, 27 de junho de 2016

Aforismos de Criminal Minds 11ª Temporada



11X01 – The Job

O prazer no trabalho aperfeiçoa a obra.
Aristóteles

Coragem é graça sob pressão.
Ernest Hemingway

11X02 - The Witness

É nos momentos de decisão que seu destino é moldado.
Tony Robbins

O mundo é tão imprevisível. As coisas acontecem de repente, inesperadamente. Queremos achar que temos controle da nossa existência. De um jeito temos, de outros não temos. Somos governados por forças do acaso e da coincidência.
Paul Auster

11X03 - ´Til Death Do Us Part

E não ache que pode direcionar o curso do amor, pois se o amor julga-lhe digno, ele direciona o seu curso.
“O Profeta” – Gibran Khalil Gibran

Considero verdade o seguinte: Sinto quando mais lamento que é melhor ter amado e perdido do que nunca ter amado.
Alfred Lord Tennyson

11X04 - Outlaw

Todos os pecados tendem a ser viciantes e o ponto terminal do vício é a condenação.
W. H. Auden

11X05 – The Night Watch
Fantasmas foram criados quando o primeiro homem acordou durante a noite
J. M. Barrie

Crescem mais coisas no jardim do que o jardineiro sabia ter plantado
Provérbio Espanhol

11X06 - Pariahville

Juro do fundo do meu coração quero ser curado, quero ser como outros homens, não esse pária que ninguém quer.
E. M. Foster

Manter-se indiferente aos desafios que enfrentamos é insustentável. Se o objetivo é nobre, se, de qualquer forma, se realiza em nossa vida é irrelevante. O que devemos fazer, no entanto, é nos esforçarmos e perseverarmos e nunca desistirmos.
Dalai Lama, o 14o

11X07 – Target Rich

Somos todos tubarões circulando e esperando rastros de sangue aparecerem na agua.
Allan Clark

Para um pai nada é mais querido do que uma filha.
Eurípedes

11X08 – Awake

Pode me prender, pode me torturar, pode até destruir este corpo, mas você nunca irá aprisionar a minha mente.
Mahatma Gandhi

A culpa é, talvez, o companheiro mais doloroso da morte.
Coco Chanel

11X09 – Internal Affairs

O inimigo está preso. Está junto com a nossa luxuria, nossa insanidade, nossa própria criminalidade, que devemos conter.
Marcus Tullius Cicero

11X10 – Future Perfect

O relógio fazia barulho. Joguei-o fora. Ele me assustava quando fazia barulho.
Tillie Olsen

A primeira condição para a imortalidade é a morte.
Stanislaw Lec

11X11 – Entropy

Da mesma forma que aumento constante da entropia é a lei básica do universo, também é a lei básica da vida lutar contra a entropia.
Vaclav Havel

11X12 – Drive

Educar uma pessoa apenas no intelecto, mas não na moral, é criar uma ameaça à sociedade.
Theodore Roosevelt

O ponto alto do homem é, e não tenho dúvida, quando se ajoelha no pó e bate no peito e conta todos os pecados de sua vida.
Oscar Wilde

11X13 – The Bond

O coração de mãe é um abismo profundo, no fundo do qual sempre existe o perdão.
Honoré de Balzac

A Influência de uma mãe na vida de seus filhos não pode ser mensurada.
James E. Faust

11X14 – Hostage

Pela vontade estais perdidos, pela vontade estais achados, pela vontade, livres, cativos e amarrados.
Angelus Silesius

Vingança é um ato passional, represália da justiça.
Samuel Johnson

11X15 – A Badge and a Gun

A escuridão sempre mente
Anthony Liccione
O Poder é ter o medo de outra pessoa em nossas mãos e mostra-lo à pessoa.
Amy Tan

11X16 – Derek

(Não houve aforismos neste capítulo)

11X17 – The Sandman

Os pais são os ossos nos quais os filhos afiam os seus dentes
Peter Ustinov

Por sorte estou são depois de tudo que passei. Por enquanto, a vida tem sido boa para mim.
Joe Walsh

11X18 – A Beautiful Disaster

(Não houve aforismos neste capítulo)

11X19 – Tribute

A originalidade não é nada além de uma imitação judiciosa.
Voltaire

Andar com um amigo no escuro é melhor que andar sozinho na luz.
Helen Keller

11X20 – Inner Beauty

Imagino que um dos motivos para as pessoas se agarrarem aos ódios delas, é porque sentem que quando o ódio acabar, serão forçadas a lidar com a dor.
James Baldwin

À medida que o amor cresce em você, a beleza também cresce. Pois o amor é a beleza da alma.
Santo Agostinho.

11X21 – Devil’s Backbone

Não sabia que quando dá meia-noite todos precisam retirar as máscaras?
Soren Kierkegaard

Ninguém realmente conhece outros seres humanos, o melhor que podemos fazer é supor que sejam como nós mesmos.
John Steinbeck

11X22 – The Storm

O mar é perigoso e suas tempestades são terríveis, mas isso nunca foi razão suficiente para permanecer em terra firme.
Ferdinand Magellan

A linha entre o bem e o mal passa pelo coração de todo ser humano.

Alexandr Solzhenitsyn

CAMADAS (des)INFORMATIVAS - Danny Marks


Veja a parte 1 em CONSPIRAÇÃO - UMA TEORIA 

          “E conhecereis a verdade, e a verdade voz libertará” (João 8:32).
          Há milênios que o pressuposto do conhecimento da verdade traz a libertação, mas há alguns problemas nisso. O primeiro é definir o que é verdade.
          A Filosofia, mãe de todas as ciências, tenta até hoje chegar a um conceito que explicaria o que é a verdade. Dependendo de como se busca o conceito do que seria a verdade, ela assume aspectos diferentes e, ainda assim, válidos. Por exemplo: a verdade pode ser material, formal, analítica, sintética ou sofisma.
          Para complicar, até mesmo o que concebemos como realidade é subjetivo, depende dos sentidos, da interpretação destes por um conjunto de interações no cérebro, e por aí vai.
          O mesmo ocorre com a liberdade. O que seria? Não há uma conclusão final, porque na maioria das vezes chega-se a uma liberdade parcial. Então, do que a verdade nos libertaria? Para quê?
          O que isso tem a ver com a Teoria da Conspiração? Basicamente, tudo.
          Uma TC não lida necessariamente com a mentira, ao contrário, as melhores lidam justamente com a liberação da verdade. Uma mentira é difícil de ser mantida por muito tempo, por um grande número de pessoas. Quanto maior o tempo e o número de pessoas envolvidas, mais breve será a mentira e mais rapidamente desmascarada. Por outro lado, uma verdade parcial, apresentada de forma a formar conceitos incorretos, pode durar longamente e se tornar ainda mais forte com o número de pessoas que a propagam.
          Uma meia-verdade é muito mais eficiente que uma mentira, mais difícil de ser desvelada, mais forte e, principalmente, melhor aceita. Isso porque há fatos que demonstram a verdade apresentada, afinal é uma verdade, mas por ser incompleta, manipulada, indutora, serve a interesses de quem a manipula, não é livre e não liberta ninguém, na verdade, acorrenta ainda mais forte.
          Assim como a verdade é uma construção que pode ter camadas específicas ou camadas amplas, onde novos conhecimentos se somam aos já adquiridos; a TC também tem camadas que podem ser bem rasas, bem específica, e se completam e se reforçam em esquemas muito mais complexos.
          Na verdade, quanto mais complexo o mundo se torna, mais fácil se torna construir uma Teoria da Conspiração. Quanto mais informações são divulgadas, mais complexo se torna descobrir as meia-verdades que abrigam, as manipulações que escondem ou que provocam. Isso já está arraigado na coletividade, entranhado no sistema amoral da construção da sociedade.
          O que são as lendas, as histórias infantis, as ideologias religiosas ou não, os discursos motivacionais, etc., senão meia-verdades que se utilizam para atingir fins desejáveis? Quem não se sentiu confortado por uma “mentira sincera” diante de algo trágico e insuportável? “Vai melhorar”, “Não tema, vai dar certo”. Como assim? Como fazer afirmações que não podemos provar, até que as façamos acontecer? O que é omitido é a verdade que “Se não melhorar, não vai precisar se preocupar mais, pois terá sido o fim”, então é preciso acreditar que sim, as coisas podem estar ruins, mas enquanto não se desistir, há esperanças de que melhorem com o nosso esforço. A partícula da verdade liberta do desastre total e manipula em direção a solução, tornando uma meia-verdade em um fato utilizando as ferramentas da TC.
          Isso nos leva a pensar que o objetivo de toda TC é a sobrevivência daqueles que se servem dela, independente dos valores morais que os motivam. Portanto a TC é uma ferramenta intelectual, não um organismo com vontade própria com fins específicos e objetivos. É uma ferramenta de sobrevivência e, portanto, extremamente versátil.
          O mais interessante é que, por ser uma ferramenta de sobrevivência, está sujeita às leis da evolução, ou seja, precisa se adaptar e evoluir ou será extinta. Isso é facilmente comprovável quando se faz uma pesquisa histórica. Nada melhor para determinar a evolução e adaptação de alguma coisa que fazer uma pesquisa histórica.
          A Teoria da Conspiração está tão entranhada no desenvolvimento das sociedades que é impossível separa-las. Grupos, cidades, reinos, nações, sociedades inteiras foram fundadas e derrotadas por conspiradores. Conspirações ergueram e derrubaram impérios, basta ver o caso dos Romanos, dos Gregos, na antiguidade. Casos como o de Cortez são emblemáticos, onde a derrocada de um império se deu pela manipulação dos próprios pilares que o mantinham. As máfias da modernidade e as sociedades secretas são exemplos dessas manipulações de mão dupla.
          Chegamos a época em que a informação está de tal forma acessível e disseminada pelo mundo que é praticamente impossível esconder a verdade, a menos que seja por baixo de outras verdades, pela intoxicação de verdades seletivas ou insuportavelmente realistas, pela enxurrada constante de verdades que anestesia e impede um raciocínio prolongado.
          Na era da informação que prometia unir o mundo, finalmente acessível a todos, sofremos cada vez mais um isolamento, uma desesperança. Somos cada vez mais manipuláveis pelas tendências e pelos “movimentos coletivos”, nossas vozes se perdem no grito da multidão. Criamos voluntariamente barreiras contra o excesso que nos inunda e nos sufoca e, deixamos brechas abertas por informações livremente apresentadas para nos sentirmos parte de alguma coisa que se fragmenta na imensidão da coletividade. Quanto mais fazemos parte de algo maior, menor nos sentimos diante do todo, desvalorizando o nosso próprio potencial de intervir.
          O que uma célula em um corpo pode fazer para alterar a realidade do todo? Em uma palavra? Contaminação. É assim que um câncer se forma e se dissemina. É assim que um vírus derrota um organismo bilhões de vezes mais complexo e capaz de feitos incomparáveis.
          É preciso aprender como funciona essa ferramenta evolutiva, a Teoria da Conspiração, para poder impedir que se torne um câncer, e se torne um fator de cura; para impedir que se torne um vírus que destrói o hospedeiro, e se torne uma vacina que impede que fiquemos doentes.
          E assim encerramos esta breve explanação sobre as bases da Teoria da Conspiração e passamos a apresentar algumas possibilidades, também teóricas, da sua aplicação. Podemos ser autores, atores ou figurantes, mas não podemos nos furtar a sofrer as influências dessa ferramenta que, de alguma forma, definirá os rumos futuros da humanidade, como vem fazendo desde os primórdios

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Conspiração: Uma Teoria – Danny Marks

          Vivemos na era da informação, portanto era de se esperar que as Teorias da Conspiração cairiam em desuso tanto no mundo real quanto na sua interpretação, o mundo das artes. Só esta frase já deveria denunciar o absurdo da afirmação, pois, em essência, é uma teoria da conspiração.
          Para entender o princípio de uma Teoria da Conspiração (TC) é preciso mergulhar em uma característica da mente humana, o reconhecimento e interpretação de padrões a partir de análises pré-concebidas. Essa ferramenta evolutiva é que permitiu a sobrevivência da espécie habilitando os portadores dessa característica de sobreviver em um mundo em que não havia tempo hábil para analisar se um perigo era real ou imaginário partindo de informações mínimas, como um som de galho quebrando, um arrepio instintivo, uma ausência de sons da natureza, etc.
          O predador estava sempre por perto, mas nem sempre visível, e poderia em um golpe repentino acabar com os menos vigilantes e desconfiados. Essa paranoia natural da vigilância influenciou a evolução humana de forma que pudesse sobreviver, mas também criou ferramentas de controle, de manipulação, de ajustes da própria condição humana.
          Quando a sociedade como a conhecemos foi instituída, os predadores mudaram e se adaptaram. A Polis obrigava a um novo tipo de relacionamento de comunidade que obrigava a determinadas regras públicas, a política, a arte de conviver com os semelhantes.
          Como todas as coisas que sobrevivem, sejam organismos vivos ou ideias, essa ferramenta evolutiva também evoluiu e adaptou-se ao meio. A história humana nos conta sobre os diversos complôs, esquemas subterrâneos que visavam alterar a ordem estabelecida, mudar os agentes supremos e recriar sociedades e parcerias. Como não poderia deixar de ser, a arte sempre buscou apresentar e reinterpretar a visão de mundo, permitindo revelar o que sempre se buscou ficar oculto e, para tanto, utiliza-se muitas vezes dos próprios princípios que pretende denunciar, até para desvelar melhor os seus mistérios.
          As primeiras TC do mundo artístico eram transmitidas de forma oral, ganhavam corpo e formas diversas na tradição cantada e contada, criando o que hoje chamaríamos de “lendas urbanas”. Eram excelentes formas de gerenciamento, transmissão de conhecimento e preparação para o difícil mundo de conviver com o poder subjetivo e efetivo a que a grande maioria das pessoas estava submetido. Mascaradas em mitos, fábulas, histórias de aventura e histórias morais, revelavam o que de outra forma não poderia ser dito, brincando com os medos e as verdades estabelecidas, encantando da mesma forma os algozes e as vítimas e, desta forma, sobrevivendo a qualquer tipo de controle, embora sendo ferramentas de controle.
          Neste trabalho serão reveladas algumas características básicas das TC e como são utilizadas para diversos fins, em especial a construção de textos literários ao longo dos tempos e suas diversas possibilidades e intersecções.

Estrutura de uma Teoria da Conspiração.

          Desde a mais simples até a mais complexa TC é necessário que haja uma estrutura elementar, que sustente de forma adequada todo o conjunto de intencionalidades e induções a que se destina. Sem esses elementos fundamentais teremos qualquer coisa semelhante, mas nunca uma teoria da conspiração.
          — Princípio da Universalidade – para funcionar adequadamente, uma TC precisa ser universal, ou seja, abranger de alguma forma conceitos que atinjam de igual forma todo o grupo ao qual atende.
          — Princípio da Realidade – sempre terá suas bases, por mais fantasiosos que forem os desenvolvimentos posteriores, na realidade e serão facilmente comprováveis os seus fundamentos mais poderosos. Sem esse apoio da verdade comprovável, tende a desmoronar sobre o peso de suas argumentações.
          — Principio da Simplicidade – Talvez o mais importante para que seja difundida, se baseia no fato de que precisa ter aceitação pelo maior grupo de indivíduos afetados de forma rápida. Portanto, por mais complexa que seja a TC ela será dividida em camadas consecutivas de forma que haja um aprofundamento gradual possível dos conceitos aplicados de forma que sempre pareça acessível aos que tiverem o interesse de mergulhar pelos seus subterrâneos. Qualquer indivíduo pode ir descortinando os seus segredos e “vendo” o que estava oculto aos demais. Esse fator de sedução e diferenciação do adepto contra o resto da sociedade o torna um conspirador favorável ou contrário, dando uma aura de mistério e carisma insuperável.
          — Principio da Solução – Aqui reside a força da TC. A capacidade de qualquer conspirador, favorável ou não, de solucionar os seus mistérios, ainda que de forma parcial. Funciona como um labirinto onde possibilidades diversas conduzem a finais alcançáveis mediante as capacidades dos investigadores. Todos que se dispuserem a buscar, encontrarão algo no final do percurso, ainda que seja um engodo criado apenas para satisfação dos que tentam destruir a estrutura principal. Uma boa TC tem que ser trabalhada como uma teia em que as estruturas secundárias suportem rompimentos de grandes seções sem desmontar completamente, até mesmo usando esse desmonte como um mecanismo de proteção e aprisionamento do investigador.
          Existem outras estruturas que poderiam ser descritas, mas apenas utilizando os Princípios elencados já é possível ter uma ideia de como funcionam.

LENDAS URBANAS

          Algumas TC se tornam clássicos populares, costumam ser simples e divertidas em suas formas didáticas de inserir valores relativos para a sociedade. É o caso, por exemplo, do “Pipoqueiro do Mal”, aquela figura simpática que fica em lugares públicos, normalmente próximo a escolas infantis, que adiciona drogas viciantes no seu produto, obrigando os incautos a comprarem sempre mais para suprir as necessidades do vício.
          Os fatos reais são fundamentados na oferta de produtos viciantes, que tornam uma ação altruísta algo nocivo. Brinca com a questão de que devemos desconfiar de tudo que nos é oferecido sem custo. Sobrevive na realidade dura das cidades onde traficantes verdadeiros oferecem a “prova” das drogas ilícitas para depois cobrarem altos custos dos viciados. Apesar disso é desmontada com facilidade diante de um raciocínio lógico: O custo da droga misturada à pipoca é muito superior a qualquer quantidade de pipoca vendida posteriormente.
          Mas o raciocínio se sustenta pela forma da metáfora, onde a “pipoca” pode ser qualquer coisa, desde o brinde de um pacote de figurinhas que só se justificam na compra do álbum e nas figurinhas que terão que ser compradas para o completar, até um animal de pelúcia na aquisição de um carro zero km.
          Esse princípio é o da “isca”, usa-se algo de valor intrínseco para atrair um consumo não desejado de algo que supera e inclui o valor do brinde ofertado. Quem nunca acabou “fisgado” por algumas revistas “grátis’ na assinatura dos novos exemplares, ou por uma “prova” de algum produto se entrar na loja para comprar algo? Esses recursos são amplamente utilizados e permanecem vivos porque produzem efeitos válidos.
          A lenda urbana do “Pipoqueiro do Mal” atinge o Princípio da Universalidade porque age diretamente na questão dos ícones da infância, qual a criança que não gosta de pipoca? O pipoqueiro está presente em todas as atrações mais divertidas, do circo ao cinema, do passeio no Zoológico à praça com brinquedos.
          O Princípio da Realidade é satisfeito pela questão de que não se sabe o caráter da pessoa que vende a pipoca. Não há como definir se aquela pessoa é alguém “do bem” só pelo ofício que exerce. Não se exige qualquer especialidade para exercer a profissão de pipoqueiro e é, normalmente, algo que passa uma imagem de inocência e confiabilidade.
          O Princípio da Simplicidade e o Princípio da Solução são satisfeitos pelo fato de que seus elementos compositores são tão profundos quanto se quiser aprofunda-los. Como foi dito anteriormente, seria ridículo contaminar as pipocas com drogas para aumentar o consumo, o custo x benefício seria comprometido, portanto a teoria se desmonta. Porém, por ninguém desconfiar do singelo pipoqueiro, ninguém vai pensar que ele pode ser um espião vigiando abertamente um local ou pessoas, ou mesmo que ele pode ser algum agente interessado em causar o pânico contaminando as pipocas com algum vírus que se disseminaria rapidamente pelo agrupamento. Poderiam ser inseridos contextos de complexidades diversas a partir do inocente pipoqueiro, e ainda teriam a proteção do “desmonte” programado. Quem iria acreditar no pipoqueiro envolvido em uma grande conspiração?
          Basta lembrar que um bom labirinto não apenas torna os caminhos semelhantes, mas induz a determinadas saídas e soluções que “desvelam” seus segredos, enquanto na verdade estão apenas escondendo à vista de todos o verdadeiro tesouro que guarda.

          Na TC não apenas o que é oculto tem importância, mas também o que é revelado, a forma como é revelado e quando é revelado, que muitas vezes servem de truques ilusionistas para desviar a atenção enquanto a verdadeira ação está acontecendo sob os olhares de todos, como um truque de mágica, até que seja tarde demais para impedir-se os efeitos. Essa estratégia é chamada de Camada (des)Informativa e trataremos dela a seguir.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Brilliant Performance – Danny Marks (Análise de Vídeo)

       
          Fazer humor é algo difícil, todo humorista sabe disso. Se for um humor crítico, com uma ironia fina, mais complexo ainda. Mas o “Sr X” (infelizmente não consegui descobrir o nome dele) tem a habilidade e a inteligência para provocar o público sem criar uma rejeição. Esse primeiro instante é que demonstra para o profissional se conseguiu conquistar ou não o público.
          Observe que ele já provoca uma obrigatória percepção do público na escolha das roupas, uma camiseta listrada, blazer e calças de um tom neutro, ligeiramente folgadas, mas não deselegante. Para completar, tênis, um toque anárquico na relaxada sobriedade das vestes. Essas roupas folgadas e destoantes, que lembram um relaxamento e uma formalidade em algum nível mais inconsciente, estão diretamente vinculadas ao tipo de vestimenta que um palhaço de circo usaria. Essa tradição de vestuário que satiriza a sobriedade está vinculada aos primórdios da arte circense que buscava ganhar a vida ironizando justamente o público que pagava pela apresentação, os nobres das cortes.
          Os olhos destacados por delineador que realçam-lhe as expressões também remetem a esta tradição circense, mas avançam pelo arquétipo do mímico, que tenta transmitir o seu texto apenas com as expressões faciais e corporais. Estabelece-se dessa forma uma cadeia de memórias primordiais do humor que, impactada pelo primeiro momento de estranhamento, busca nas memórias mais primordiais o reconhecimento do padrão. O choque inicial é reforçado pelo inusitado uso de uma fita preta servindo de mordaça.
          A fita preta adesiva da mordaça é emblemática por si só, simboliza a impossibilidade de falar, a censura, a coerção sofrida. Mas o fato de estar com as mãos livres e a mordaça não ser removida, torna mais emblemáticos e assume diversos papeis, de acordo com o contexto, para além do impacto inicial. Em nenhum momento será removida e, portanto, obriga o leitor a prestar atenção a todos os outros sinais codificados pelo corpo e pelo olhar. Note que uma simples fita preta sobre a boca em tamanho suficiente para parecer uma tarja preta (e isso já nos levaria por outros caminhos de análise) de censura, ultrapassa o efeito do impacto inicial, da primeira visão, e por não ser removida nem mesmo para responder a perguntas que são feitas pelos jurados (as autoridades instituídas) passam a representar mais simbolismos.
          Ao não responder aos jurados devido a tarja preta, a censura passa a ser uma crítica, inverte a função do que é proibido pelo outro para o que não se permite dar ao outro, "pensem o que quiserem", gestos e olhares dão indicação dessa postura. A questão é reforçada pelo ato de testar o microfone com a mão e, percebendo que está ligado, afastá-lo com um gesto de inconformidade.
          Entra a música e o Sr X veste luvas de cozinha, a música inicial decresce em desafino e se inicia uma trilha sonora romântica enquanto as luvas são erguidas até a altura do olhar e se transformam em toscas marionetes com o simples fato de voltar as mãos para fora e expor a face interna das luvas, ornadas com olhos estilizados. Os polegares tornam-se as bocas que cantam a canção.
          Novamente vemos uma referência circense aliada ao teatro de marionetes. O “manipulador” observa o boneco junto com a plateia, mas reage como se cada boneco tivesse uma individualidade e até se “espanta” com os mesmos. O simbolismo resgatado pela música é o do romantismo moderno, detalhes como os punhos de bolinhas coloridas reforçam esse simbolismo de “amor de arco-íris”. Mas o manipulador parece não gostar do que está acontecendo, seu olhar assustado e os gestos faciais de repúdio são contraditórios com o público que entra no clima romântico e balança os braços no alto ao sabor do romance. A crítica sutil se dá por um breve instante em que a “marionete masculina” volta a ser brevemente uma mão enluvada a coçar a virilha do artista, mas retorna o seu papel a tempo de cantar o dueto e esboçar o “beijo” que finaliza a apresentação do primeiro quadro. O artista vai afastando sutilmente para um dos lados as marionetes improvisadas ao mesmo tempo que desvia o rosto do ato final como a demonstrar repúdio ao “beijo” das marionetes. Nesse momento é possível ver um toque sutil, o cabelo bem penteado na frente, tem um estudado ar punk, espetado, na parte de trás.
          A plateia vibra, a música volta a ter um toque circense enquanto o Sr X guarda as luvas em uma bolsa e retira o seu próximo “personagem” iniciando uma outra modalidade de dueto com marionete, em que o artista se apresenta metade no papel masculino e metade no papel feminino.
          Mas desta vez nota-se que a “mulher” não tem cabeça, apenas o par masculino a possui. A música circense desafina e é substituída por um outro dueto, mas o tom desta vez é sensual, o que combina com o “vestido” vermelho da “dama”.
          O “casal” passa a dançar, mas o “cavalheiro” passa a se interessar por outro alguém, e é “repreendido” pela “dama”, obrigando-o a olhar apenas para ela que continua a acaricia-lo durante a dança.
          O “cavalheiro” desliza as mãos pelas costas da moça em direção às suas nádegas, mas esta imediatamente o repreende, forçando a “mão boba” a subir. Ele insiste, ela volta a reprimir. Ele a engana com um blefe e ela acaba colocando a mão dele onde este queria. Vencida a resistência inicial, ele avança e tira o sutiã vermelho da “moça” e simulam um deitar-se terminando a apresentação.
          O público e os jurados vão ao delírio.
          Meus leitores também. Ora bolas, isso não era uma análise? Então, é preciso destacar os elementos analisados para que se perceba qual o raciocínio utilizado para a “leitura” analítica. Essa foi a primeira parte.
          A segunda parte consiste em estruturar o argumento já ensejado na própria apresentação dos elementos estudados. Quando apresentei o texto já introduzi a ideia de que o trabalho do artista é na linha do humor crítico, com o uso de ironia fina. Como se justifica isso?
          Primeiramente pela mordaça que brinca com a questão da censura, do interdito, como diria Foucault. Se há algo que não pode ser expresso de forma direta a comunicação fica interrompida, a mensagem fica suspensa entre o emissor e o receptor, o interdito. Porém, não significa que é extinta, apenas que assume no receptor uma função de reverberação, ou seja, o receptor passa a “produzir” a mensagem que recebe e isso cria um outro modo de comunicação que é mais interno. Algo como um diapasão que faz vibrar uma taça de cristal pela sintonia vibracional. Neste caso são os arquétipos, os conceitos internalizados, que reverberam como cristal ao serem provocados.
          Portanto, não há como repudiar o que não foi “dito”, mas foi “interpretado” e, por não ser socialmente aceito, não pode ser “acusado”, sob pena de revelar o acusador, mais que o acusado.
          Essa linha de humor lida com os conceitos e preconceitos mais estruturais da sociedade, aquilo que não é dito, mas está presente e cria raízes profundas alterando as percepções. Somente uma sutileza e habilidade extrema conseguem “brincar” com sentimentos profundos sem provocar uma explosão, ao contrário, fazendo com que transbordem e permitam um relaxamento da repressão que sofrem. Esse relaxamento é o humor conciliatório provocado.
          Mas, dirão alguns, como o artista pode expressar sua opinião se apenas o outro vai “produzir” a mensagem. Simples, pelo discurso indireto, subliminar. As expressões de repúdio ao amor romântico do primeiro quadro são substituídas pelo envolvimento no amor sensual do segundo quadro. A mordaça assume o seu papel primordial no contexto transformando o artista na representação da sociedade que repudia uma faceta do amor e valoriza a outra, mas não de forma aberta, apenas fingindo aceitar as duas. Essa é a crítica sutil, a condenação não dita, a aceitação não formal, o interdito provocativo que, embora se expresse abertamente de uma forma, no íntimo se revela totalmente oposto.
          O fato de que as “marionetes”, a “dama” e o artista são apenas aspectos da mesma coisa e da mesma representação nos dá a leitura direta da crítica social que apresenta, pela ironia fina, aquilo que de outra forma nos pareceria agressivo e deveria ser repudiado firmemente, mas pela obra artística passa a ser aceito permitindo que seja reinterpretado e, portanto, analisado.
          Obviamente esta é uma análise superficial, com poucos elementos de interconexão, mas o objetivo é justamente esse, demonstrar que o aprofundamento de uma obra de arte se estende ao limite que o leitor quiser dar e sempre haverá algo que possamos aprender, e nos divertir no processo. Quer um exemplo? Por que luvas de cozinha? E abrem-se novas possibilidades interpretativas. Até a próxima.

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