segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

OLHOS AZUIS - Lariel Frota


(Texto concorrente do Concurso Os Retratos da Mente)
 

           É um lugar insalubre de causar repulsa, escuro e pouco iluminado.  O cheiro forte de urina impregna o ambiente, a mistura de vários   odores desagradáveis  agridem até mesmo  os olfatos menos sensíveis.
          Nenhuma descrição por mais minuciosa conseguiria definir com exatidão o triste espetáculo de  corpos amontoados,  olhares perdidos  em direção a um ponto qualquer. Do canto da cela imunda, ouve-se  um fraco gemido.   Alguém respira  com dificuldade,  encolhido,   jogado no chão úmido  da cela miserável,   aquele homem de mãos e pés enormes  parece um animal abatido em  desesperada agonia, apresenta sinais claros de violência, o rosto deformado pelo inchaço,   a boca retorcida   deixa a mostra  um filete de sangue escuro e pegajoso, onde uma mosca  se banqueteia  sem ser incomodada por ninguém.
       Tudo nesse lugar tem cheiro de  morte, destruição,  indignidade.  Impossível  acreditar que seja um local construído para regenerar seres humanos, reintegrá-los à sociedade.
                                                        (...)
       Do   passado não muito distante  se observa a  cidade em festa, em poucos dias será natal. Vitrines coloridas,  iluminadas  atraem os olhares de todos. O trânsito está um caos, centenas de veículos trafegando em velocidade reduzida, pedestres driblando todo tipo de dificuldades  esbarram  uns nos outros. Tropeçam,  se enroscam,  desviam dos entregadores que  fazem acrobacias transportando  dezenas de volumes. Há uma pressa uma ansiedade de todos querendo chegar cada um a seu destino, carregam sacolas, pacotes, embrulhos coloridos  volumosos ou não, freneticamente envolvidos nesse maluco clima de  insana   euforia natalina.
            De dentro do automóvel reluzente parado no semáforo,  um par de olhos absurdamente azuis a tudo observa extasiado, não deve ter mais de cinco anos, cabelos claros sedosos e brilhantes,  em cachinhos caindo  em cascata,  cobrindo a testa de pele rosada. Através da janela entreaberta  parece absorver cada detalhe da  balburdia toda. Sorri para o papai Noel,  que da  vitrine iluminada lhe acena mecanicamente com gestos repetitivos.  Na sua inocência privilegiada quer olhar  tudo, acredita realmente que há uma festa  acontecendo lá fora,  que de fato existe um mundo lindo, colorido, iluminado,  que é verdadeira a onda   contagiante   de alegria  que o cerca.
             Na calçada  com  enormes pés pobremente calçados, um outro par de olhos também observa ao redor. Não são azuis, nem dourado e sedoso é  o cabelo carapinha. Embora  também criança já tem consciência de  que não faz  parte da festa que o cerca.  Não carrega  pacotes ou  brinquedos, caminha só em meio a multidão à procura de algo que não sabe bem o que seja. Tem  uma certeza, não faz parte do mundo iluminado e festivo, a pobreza e    miséria há muito lhe roubaram  a inocência. Há uma  adulta  certeza  em seu modo de olhar, as mãos e os pés são grandes,  longas  pernas e braços, é bem crescido para a idade. Seria com certeza no futuro, se o presente deixasse,  um  grande atleta.
Da  janela  do  confortável automóvel percebe uma pequena mão acenando. Aproxima-se rápido,   seus olhos por uma fração de segundo  se  encontram com  o par de  olhos claros, tão incrivelmente   azuis como  céu sem nuvens de chuva, nunca vira antes um olhar assim. Surpreso percebe que  pelo vidro entreaberto  a mão de pele rosada   tenciona lhe entregar alguma coisa. Com o coração acelerado vê  um enorme pirulito multicolorido envolto em papel celofane amarelo, amarrado a pequena haste de madeira um carrinho de plástico azul. Quase incrédulo  e feliz apanha o inesperado presente. 
É um instante  de pura magia, uma inexplicável fagulha de tempo, a misteriosa intensidade  de uma fração de segundos  em que acontece  um impensado  encontro de olhares, um tocar de mãos  diferentes na cor, na textura da pele, nas histórias de vidas que contam.
      A luz verde  do semáforo  ascende,  o vidro fechado às pressas o carro acelerando,  fugindo de um perigo neste momento  tão irreal . O garoto  na calçada   por um breve instante esquece o gosto amargo da  pobreza em que vive.     Feliz com o inesperado  presente,  não sente fome, nem sede, nem mesmo  o escaldante calor o incomoda. No meio de tanta amargura,  degusta com prazer raramente sentido  o sabor do doce recebido do estranho garoto de olhos claros.  Da vitrine festiva  o velho Noel travestido em vermelho  continua acenando em sua plastificada   alegria de gestos  mecânicos.  Com as  mãos lambuzadas de doce,  o garoto  de rua   observa que azuis, também muito azuis,  são os olhos vazios de vida  do  velho de  barbas brancas, sentado em sua poltrona de  veludo carmim  desbotado.
                                           ...........................
-E aí mano, te acertaram feio, fala aí meu, tá zoado?
-Deixa o sujeito quieto, levou muita  porrada na caxola,  deve ta  viajando longe, daqui uns dia ou melhora ou morre, enquanto isso vamu respeita o estado do disgraçado.
-Mas o que foi que o cara apronto pra apanha dessi jeito meu? Dedurou algum irmão?
-Dedurá  num deduro, mais istrago o serviço que era dus bão, grana de responsa, na maior moleza, na hora do vamu vê, o bandido afino, tem que apanha pra aprende né mano? Tem que ficá isperto, quem num tem cumpetência num si istabeleci, conheci o ditado?
- Como foi a fita?
-Tava tudo combinado, levantamo a ficha do bacana, família montada numa grana boa,  filho único  de advogado famoso,   vivia  dando mole no carro importado, era pega o garoto sigura um pouco na moleza, sem violência, pedi u resgati, tava tudo certo até  o mocó onde o play boy  ia fica guardado,  tudo nos conforme!
-Daí?
-Daí iscolhemu o negão aí, o Mão Grande  pra da o bote.  Só o tamanho da cara já impõe respeito, quase nem precisa de arma,   na hora “ h” o cara  arregô, olhou pro play boy  de olho azul começo a treme,  pior ajudou o bacana  a fugi, já viu uma  istória dessa? Chegou us home, rodou todo mundo, aí já viu, os mano num perdoa, bandido num tem diretu di vacila....mas eu fico pensando: vai sabe o que passou pela cabeça do comédia aí.....
-É isso aí mano, vai sabe!!!!!!
                                                .........................

A Missão - Lariel Frota



     (Texto concorrente do Concurso Os Retratos da Mente)
      -Boa noite meu bem. Ainda trabalhando na decoração de natal?Acho que não cabem mais laços vermelhos nessa casa,   o Tony  já chegou?
            -Já, discutiu de novo com o irmão. Tá  trancado  no quarto com enxaqueca, disse que não vai  jantar! Todo ano é a mesma coisa, é só chegar dezembro pra esse menino  ficar de mal com a vida. Enquanto o Paul  todo  feliz, vê  beleza em todos os cantos, parece que ao Tony essa euforia natalina   é  veneno!
            -Calma querida, questão de personalidade! Eles discutem porque se gostam. Irmãos são assim mesmo,  daqui há pouco esquecem mais essa discussão,  que deve ter acontecido como das outras vezes,   por algum motivo banal.
            -O motivo não entendi, agora o Tony estava transtornado. Parecia outra pessoa!
            -Como sempre exagerada! Continue trabalhando nos seus laços cintilantes  enquanto tomo um banho. O trânsito hoje estava infernal. Ah estava brincando meu bem, seus laços a cada ano  ficam  mais perfeitos!
                                                           (….)
            Que fosse pro inferno o irmão com todas as conjecturas vazias, que fosse pro inferno as  falsas convenções da sociedade moderna que  não impõe regras, aceita comportamentos e crenças inúteis. Queria mesmo era mergulhar na penumbra que o envolve e atravessar para outro tempo, outra dimensão onde imperasse a verdade e não a hipocrisia desse bando de falsos cristãos, mergulhados em suas impurezas de costumes.
            Como nos  filmes de ficção, ou nas estórias fantásticas que o avô  contava, gostaria mesmo é de  viajar para o passado, viver  nas antigas  cortes da monarquia  inglesa, onde os lordes   realmente  mereciam os títulos de nobreza e as mulheres, ah as mulheres cobertas em trajes vitorianos podiam ser admiradas e sonhadas em todas as suas possibilidades.
            Que falta faz o avô, velho professor de história, que além das verdadeiras ensinadas nos bancos da escola, tinha tantas estórias para contar. Descrevia os séculos passados como se neles tivesse vivido. Falava da monarquia, das tradições e valores onde havia uma linha divisória muito clara: pobres e ricos, cultos e ignorantes, mulheres para amar e mulheres para usar, que as putas sempre existiram no mundo, mas houve tempo em que era muito fácil diferenciá-las das demais.
            Seria maravilhoso amar  as mulheres pudicas, com corpos guardados  em  longos vestidos de imensas golas de renda, que  davam ao amante  a possibilidade de sonhar, conquistar, desvendar deliciosamente aos poucos, cada um dos mistérios daqueles templos de recato.
            Não como esse bando de vadias moderninhas espalhadas por todo canto,  rebolando  traseiros avantajados, sacudindo peitos  de silicone  com sorrisos libidinosos,  vendendo de tudo, como a loirinha de shorts curtíssimo e justo, os seios quase explodindo pra fora do decote,  entrando porta a dentro da pequena gráfica  da família,  para fazer orçamento de uns panfletos promocionais.
-Por favor, pode me informar quanto fica o milheiro de um panfleto com essas palavras? Estou fazendo propaganda de natal para uma  clínica, pensei até no slogan: -“Faça  deste um natal fantástico para seu corpo”.- Olha os preços, não  são ótimos? Lipoaspiração,  redução de medidas, cirurgias plásticas, colocação de silicone, tudo parcelado em dez vezes!
Fora por causa dessa jovem a  violenta discussão com Paul o irmão mais novo, e a  crise de enxaqueca que o está enlouquecendo. Para  piorar a dor,  as malditas luzinhas nas árvores da avenida  invadem a penumbra do  quarto, piscando, piscando, piscando. 
Precisa do escuro total, esse acender e apagar acontece no mesmo ritmo do latejar das suas têmporas.  A  cor vermelha da iluminação   do imenso papai Noel  no out dor da esquina, invade o conforto escuro  da sua cama. É do mesmo tom do batom da loirinha descarada de  boca carnuda, se rebolando inteira, cara de safadeza explicita, e o pior  fantasiada de “papai”  Noel com   a  minúscula roupa de  tecido vermelho, gorro na cabeça, botas pretas de cano alto.
            Quando saiu da gráfica deixou o rastro de perfume doce enjoativo que  deflagrou a crise de enxaqueca,  agravada depois   pela   discussão com o irmão. 
 Ao comentar sobre a figura extravagante e vulgar, ouviu o monte de baboseiras de sempre: que ele não tem apego a nada, que não vê nada bonito na cidade enfeitada, nem o quanto  é belo o espírito de natal  em todos os cantos nessa época do ano,  que papai Noel  é símbolo de alegria e confraternização,  bla, bla, bla….
            Comemoração por que? Quase ninguém de verdade  conhece aniversariante.  Essa falsa alegria acontece porque lá pelo ano 280 depois  do  nascimento do tal menino, um bispo da Turquia chamado Nicolau, começou a distribuir saquinhos com moeda para os mais necessitados.  Depois de morto o bispo virou santo e inspirou a invenção desse velhinho safado que só serve mesmo para encher os  cofres dos comerciantes. A tradição de dar presentes não tem nada a ver com nascimento nenhum,  só ocorre  em dezembro porque um comerciante, muitos séculos depois de Nicolau,  com  um estoque de meias encalhado  resolveu inventar uma propaganda,  promovendo o desencalhe da mercadoria, que pelo jeito deu muito certo.
            Quanto mais pensa, mais a cabeça lateja de dor. Precisa dormir, desesperadamente precisa dormir, vai tomar três  analgésicos, não apenas um.
Talvez  ao acordar a   crise tenha ido  embora. Quem sabe  colocando um pano escuro na janela, o tal pisca pisca das malditas  luzinhas e o jato de luz vermelha do  Noel  ridículo  lá de fora,  não incomode tanto. E esse perfume enjoativo que ainda permanece intenso?  Já tomou banho, limpou as narinas  com  soro fisiológico e nada. O cheiro está ali, invasivo como a loirinha vulgar que entrou rebolando   na recepção da gráfica balançando os seios falsos.
                       ----------------------------------
-Tony… Tony acorde. Já dormiu o bastante. Você tem um prazo a cumprir,  vamos rápido levante dessa  cama. A missão espera, não se esqueça que a Rainha Vitória pessoalmente escreveu a ordem nesse pergaminho.
Dizendo isso a figura altiva aponta para a mesa de cabeceira, onde ao lado do estojo com o antigo punhal que pertencera ao avo, está o documento manuscrito,  identificado pelo brasão  da corte,  com  as instruções:
1.      Você  teve  seu desejo atendido. Viverá faustamente como lorde na corte da rainha Vitória o resto dos seus dias. Terá prestígio e admiração de muitos.
2.      Para que isso se concretize você só precisa cumprir fielmente sua missão. A figura que deturpou a história tem que ser destruída.
3.      Ao sair dos seus aposentos você começara a regredir no tempo até chegar ao ano 270  D.C. Não deixe que nada o interrompa. Talvez precise caminhar um pouco até alcançar a data onde encontrará o jovem Nicolau. Será a chance de impedi-lo seguir a vocação religiosa. Leve-o a uma taberna e faça-o ingerir vinho, ficará mais fácil incentivá-lo a entregar-se ao prazeres da carne, afastando-o da sua vocação, assim São Nicolau nunca  existirá.   E você terá mudado o rumo da  história.
4.      Pode ser que tentem impedi-lo. Você terá dez horas para cumprir sua tarefa, nem um minuto a mais.  Como arma só poderá utilizar o punhal centenário  que pertenceu a seu avô. Ele veio parar nas suas mãos justamente   para  facilitar sua   missão.
                                      (….)
Precisa vestir-se sem fazer barulho. Se a mãe que tem sono leve  ouvir qualquer ruído certamente tentará impedi-lo de sair, ainda é madrugada. Ela tem medo de tudo, vê perigo em qualquer situação, quer existam de fato ou não.
O pai anda contaminado convivendo com a insegurança dela durante anos, o irmão mais novo é um imbecil. Ao contrário dos pais  só vê  bondade, boas intenções ao seu redor.Não enxerga um palmo adiante do nariz no quesito mundo real. Pra ele não existe maldade ou pecado. O idiota chegou a achar infantil o traje minúsculo da loirinha de boca carmim travestida de Noel.
Cuidadosamente sem fazer ruídos, apanha no maleiro a caixa onde está  a fantasia do último baile de mascaras que usara na faculdade.  É um traje inspirado naqueles usados em festas nos grandes castelos da Europa nos séculos passados, bem apropriado para a tal missão. É certo que há detalhes exagerados, como as franjas das botas.  Talvez cortando-as  fiquem adequadas. Optou por dispensar o chapéu, tem adereços demais. Basta a roupa em tons sóbrios para fazer com relativa  segurança sua viagem ao passado, mudar os planos de Nicolau.  Não  ingressando na vida religiosa, não dará inicio a tradição de dar moedas aos pobres, consequentemente abortando   a figura ridícula do tal  Noel some todo  esse inferno em que  se transformou o mês de dezembro no terceiro milênio.
Olhando-se no espelho fica satisfeito com o que vê. Só falta um detalhe, colocar no bolso o pergaminho assinado pela própria rainha Vitória.  Quando viajar de volta até  1840 com a missão cumprida, vai apresentar-lhe o pergaminho e relatar o sucesso da sua empreitada.       
                                          (….)

-Coisa pavorosa esse caso. Conseguiram encontrar explicação pra tanta violência?
-Nada! Ninguém compreende a loucura do rapaz. Deve ter sofrido  um  surto psicótico.
-Mas esse Tony tinha problema de  cabeça? Usava drogas, bebia?  Ninguém percebeu nada  que indicasse que estava saindo do  controle?
-Conseguimos poucas informações junto a pessoas próximas.   Desde criança sempre foi muito quieto, não era de se enturmar. Tinha uma grande afeição pelo avô, um professor de História da Civilização,  talvez a morte do velho tenha colaborado pra essa  a crise de loucura.
-Pode ser. Um vizinho  afirmou que a arma com a qual cometeu a chacina, pertencia ao  avô.
-É. Parece que desde pequeno sofria de enxaquecas terríveis que vinham piorando muito nos últimos tempos. Uma amiga da família   informou que a mãe desanimada por não encontrar solução na medicina, recentemente  o tinha levado a uma benzedeira.
                -Vai ver isso acabou piorando as coisas. Veja esse    pobre      homem,
                morreu dormindo!  Não há sinais de defesa. A mãe deve ter acordado na hora
                do ataque, os braços e mãos estão  bastante machucados. Lutou muito pra
               não morrer!
-O que deve ter despertado o irmão mais novo coitado. Morreu no corredor  esvaindo-se  em sangue,  com os genitais  quase decepados  pelo punhal.
-O que não dá pra entender é a fúria com o qual esse tal de Tony  foi atacando todo mundo pela frente. O que significa as  tirinhas de couro cortadas ao lado da cama  dele?
-Mais um mistério,  eram enfeites da bota que estava usando. Sabe-se lá porque cortou antes de cometer essas barbaridades.  Depois de matar a família,  feriu gravemente um pobre velhinho vestido de papai Noel indo pro trabalho no comércio, matou o segurança que tentou impedi-lo de destruir uma arvore de natal na vitrine do shopping.  Foi atacando com  golpes violentos quem encontrasse pelo caminho.
-O que não dá pra entender é como chegou tão longe, do outro lado da cidade pra matar a pobre criança indefesa.
-O garotinho fantasiado de papai Noel indo para a festa de encerramento de ano  na escolinha.
-Isso, de nome Nicolau Henrique da Silva, cinco anos o pobrezinho!  Teve a cabeça decepada. Definitivamente não dá pra entender  uma tragédia  dessa proporção. Se o policial não tivesse estourado a cabeça desse doido, sabe-se lá quanta gente mais teria matado.
-Não há carta,   bilhete, ao algum   recado no meio das coisas desse maluco?
-Nada. Apenas um papel enrolado dentro do bolso da fantasia que usava. Tem um desenho que parece de um santo, e  algumas palavras escritas a lápis, parece  uma reza.  Deve ser da tal benzedeira pra  onde foi levado pela mãe  por conta das enxaquecas. Leia  você mesmo:

…..abra-lhe   os caminhos pra cumprir sua  missão nessa vida, livra-o dos maus pensamentos, perdoa os pecados da carne e do espírito…assim seja!
                                                                  Mãe Vitória

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Ensaio Sobre a Mentira - Danny Marks



A verdade é que todos mentem!
Ainda na infância ouvi uma história sobre um padre que, preocupado com a sua comunidade, solicitou aos fiéis que assistiam à missa lessem o capitulo dezessete do evangelho de São Marcos para que estivessem preparados para o sermão do outro domingo.
Na data marcada, antes de iniciar o sermão, o padre pediu para aqueles que não tivessem lido o capitulo dezessete de São Marcos se retirassem da igreja pois a estes não interessaria o sermão do dia. Como ninguém saiu ele disse:
— Ótimo! O sermão de hoje vai ser sobre a mentira. O Evangelho de São Marcos só tem dezesseis capítulos.
Esta história acompanhou-me por longos anos, e sempre achei interessante o fato do personagem ter usado um subterfúgio de retórica. Ao mentir o padre automaticamente se colocou como um dos necessitados em ouvir o sermão sobre a mentira, e como todos os outros mentiram que haviam lido um capitulo inexistente, então se igualavam.
A mentira é, provavelmente, a coisa mais democrática que as sociedades inventaram, depois da própria democracia, obviamente. 
Ao contrário da verdade ou véritas ou alethéia, conforme o caso, que necessita de atributos morais elevados e uma liberdade (ou poder, autonomia, segurança) para ser exercida abertamente; a mentira é exequível por qualquer pessoa sem qualquer requisito básico necessário e, normalmente, tem um objetivo único que é o de proporcionar um lucro pessoal ainda que possa servir como linimento para outros.
Falar a verdade é algo mais complicado. Dependendo da sociedade em que é apresentada, só pode vir de Deus (Alethéia), embora, digam alguns, este seja uma mentira inventada pelos homens.
Existe também a verdade imutável (Véritas) que está além de qualquer forma de interpretação possível da mesma. A interpretação da verdade universal (Véritas), também chamada verdade dos fatos, gera a corrupção da verdade pelo filtro pessoal tornando-se a verdade humana, falível e tendenciosa, o que a aproxima bastante da mentira, em ultima análise.
Obviamente que uma verdade humana que é aceita por consenso como Verdade, ganha ares de Universal e até ser questionada, segue incólume em seu curso.
A mentira também pode ser utilizada desta forma, quando aceita e difundida por um grupo suficientemente forte ou com respeitabilidade, ganha a força de uma Verdade Humana, interpretada a luz das convicções e necessidades de cada grupo e seus seguidores.
O mais interessante é que ninguém pede provas de uma mentira, ela se basta a si mesma de tal forma que até prolifera independente de quem a criou, expandindo-se com uma velocidade tão grande quanto a comunicação permitir. Já a verdade é logo de cara questionada, como uma falsa mentira, da qual se percebe, logo de cara, as intenções desveladas .
 A verdade é confusa, a princípio; fraca, precisa se apoiar em inúmeros fatos para tentar  manter-se e, mesmo assim, não convence de forma categórica sendo volta e meia questionada sobre sua aplicabilidade, profundidade e amplitude.
Só a muito custo é que uma verdade consegue vingar, crescer e se tornar autônoma para ser, na maioria dos casos, esquecida logo a seguir, incorporada a imensa quantidade de coisas que não se para duas vezes para pensar as motivações ou repercussões.
Convenhamos, é um fato que ninguém lembra-se espontaneamente de uma grande verdade que foi dita a, digamos, dois dias atrás; mas todos hão lembrar indefinidamente e com imensa quantidade de detalhes, muitas vezes acrescidos posteriormente de forma totalmente autônoma, de uma grande mentira contada ha vinte, trinta anos ou mais.
A mentira fascina a humanidade de tal forma que quando há uma ausência dela em seu meio, gera-se imediatamente vários movimentos para estimular o seu surgimento e difusão. Independente de qual seja a formação social, psicológica, moral, religiosa ou política de uma sociedade, a mentira é vastamente estimulada por uma necessidade ou outra que possa ocorrer, seja relativa aos que comandam, seja relativa aos que são comandados.
Hermes trimegistos, o Deus da comunicação é também considerado como o Deus da Mentira, porém até este fato é questionável pois o mesmo título é dado a Loki – Deus nórdico da trapaça e da travessura; a Satanás – contraparte cristã do Deus da verdade; a Maia – Deusa hindu da Ilusão; e a tantas outras figuras proeminentes que provavelmente cada uma delas deve ter parte nesse engodo, afinal a mentira , por ser democrática, não deve pertencer a ninguém e servir a todos.
Engana-se quem acredita que a mentira é inútil e desnecessária. Sem a sua existência não haveria a ficção, que é uma invenção completamente aceita em sua natureza mentirosa; não haveria a imaginação, que é o engano criativo; não haveria nem mesmo a sociedade, que não passa de uma ficção desenvolvida na imaginação de alguns e abençoada por um deus qualquer que em ultima análise não passa de uma farsa criada pelo mesmo grupo a quem a sociedade serve.
Considerando-se friamente, a verdade pode ser tão danosa e agressiva quanto a mentira pode ser doce e aprazível, ambas podem trazer frutos doces ou amargos, ambas se sustentam por seus próprios meios e com fins determinados na sua divulgação e abrangência.
O que distingue, basicamente, a Verdade da Mentira é que a primeira sempre será coberta por uma aura incorruptível de virtude, dificilmente atingida e sustentada por seres humanos; já a Mentira tem seu papel mais próximo da humanidade, gerando conceitos falíveis e reversíveis, gerando possibilidades criativas e extrapolativas da realidade que nos cerca a níveis que, muitas vezes, permitem que se descubram verdades ocultas.
Não que se deva estimular uma ou outra em maior grau, cada qual como parte complementar do plano humano e suas concepções, tem sua importância e suas consequências que nem sempre são compreendidas completamente, a menos que se analise cada qual individualmente, o que as corromperá de forma inexorável em seus princípios básicos.
Então, verdade seja dita, por mais danosa que seja a mentira, não podemos sobreviver, enquanto humanos, sem ela. Por outro lado, quando a mentira for absoluta, estaremos fadados a perecer de verdade.

Danny Marks
29/07/2010

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