segunda-feira, 10 de abril de 2017

Dez Razões para falar sobre “13 Reasons Why” – Danny Marks


              Sou obrigado a fazer uma pausa na escrita do meu novo romance para falar sobre a série que está provocando uma certa celeuma nas redes sociais. Normalmente não me interesso por essas “brigas” que quase sempre não levam a nada, mas neste caso me interessei pelo tema anteriormente e iria assistir a série oportunamente, só antecipei devido a própria confusão que se estabeleceu, para poder até me posicionar, quando solicitado. Eis a primeira razão para falar da série 13 Reasons Why.
              13 Reasons Why, ou Os 13 Porquês (no Brasil) ou ainda Por Treze Razões (em Portugal) é uma série americana produzida pelo canal Netflix baseada no romance de Jay Asher que tem o mesmo nome, mais especificamente Thirteen Reasons Why. Foi adaptada por Brian Yorkey e Diana Son, tendo a primeira temporada treze episódios disponibilizados no Brasil em 31/03/2017 pelo canal Netflix, tornando-se sucesso imediato e alvo de todo tipo de comentários e críticas. A série é apresentada, basicamente, da seguinte forma:  “Após o suicídio de uma adolescente, um colega de turma encontra fitas que revelam os misteriosos motivos de sua decisão”.
              OK, acho que já dá para ter uma ideia do que quero comentar. Não se trata de uma resenha, está mais para uma análise sobre o conteúdo da série e sobre os temas levantados por ela, bem como sobre as discussões que tenho assistido em vários lugares. Vou procurar não dar spoilers, mas realmente não vejo nenhum problema, porque a principal razão para se assistir é justamente o clima emocional que a série suscita no público.
              Sim, a série é pesada, como muitos confessam. Não teria como não ser se trabalha o tema central do suicídio, não é mesmo? Mas esperem. Isso está errado. Na minha leitura da série, e comprovo isso com os fatos e argumentos que vou apresentar, não é essa a intenção, não é esse o tema central, embora ele esteja lá sobre as cabeças o tempo inteiro, e talvez tenha sido exatamente essa perspectiva que tenha provocado tantas reações negativas. Essa é a segunda razão para eu falar sobre a série.
              A série é sobre adolescentes. Em particular sobre adolescentes americanos de uma escola secundária se preparando para iniciarem suas carreiras adultas em faculdades e, como dizem, “definir o futuro”. Quem já assistiu uma das inúmeras formas de “Malhação” ou filmes que trabalham a questão do “modo adolescente de viver”, vai saber que vai rolar o bullying, vai rolar o sexo entre jovens, vai rolar as intrigas e brigas, vai rolar o romance e suas complicações, vai rolar drogas e rock’n’roll. Então o que tem de mais nesta? O suicídio, é claro! Só que não. E essa é a terceira razão.
              Em primeiro lugar há a questão de que a narrativa ocorre em dupla perspectiva. Para os que não sabem, é basicamente contar uma história através dos olhos de dois personagens, o que implica, neste caso, trabalhar com flashbacks sobrepostos a realidade corrente. Os flashbacks são a perspectiva dada pela personagem que, todos sabem, suicidou-se e apresenta a sua versão dos fatos através de fitas de K7 (para os mais novos, eram equipamentos que permitiam a gravação de sons na era pré-histórica da internet, pesquisem a respeito, vão ler coisas interessantes). A sobreposição permite que seja apresentada a realidade presente que segue um dos personagens, o que recebe o conjunto de 13 fitas com os motivos para o suicídio, em um pacto unilateral de compartilhamento com os supostos responsáveis por ele.
              Uma analogia interessante é que tanto as treze fitas, quanto os treze capítulos da série, estão disponíveis e acessíveis para serem vistos imediatamente, sem precisar passar por todo o processo de seguir a linha de raciocínio e por toda a tensão que é provocada pelo suspense gerado. Mas espera, que suspense? Se todos sabem, antes de iniciar, que houve um suicídio, isso está posto claramente, sem retorno. A questão é que a série não trabalha com a jornada do herói, não trabalha com maniqueísmos do “grupo do bem contra o grupo do mal”, como normalmente acaba acontecendo nessas séries para adolescentes. Aqui todos que sabem da existência das fitas estão envolvidos de alguma forma com o suicídio, e o protagonista que vai servir de referência para a linha de tempo atual é um garoto nerd, de bom coração, um cara legal e respeitador. Então, por que ele está ouvindo as fitas? Por que ele está relacionado nas fitas? Esse é o mistério e esta é a quarta razão para falar sobre a série.
              Não vou falar sobre as ótimas interpretações dos atores mirins ou adultos e outros detalhes técnicos porque isto não é uma resenha. Este é um texto para comentar sobre o motivo de achar esta série importante, não apenas para os adolescentes que são o público-alvo principal (sim, é um termo horrível para se usar quando se fala de uma série que tem como mote o suicídio de uma adolescente), mas principalmente para os pais. E recomendo que assistam juntos, sério! Provavelmente vão se identificar com algum dos personagens, jovens ou adultos, porque isso é o que faz a série bacana. Ela fala sobre coisas que nos atingem há tempos, que todos sabem que acontecem, mas que parecem revestidas por um pacto de silêncio baseado na culpa. ESSE é o mote central da série, e esta é a quinta razão para eu falar dela.
              Quem nunca sofreu, ou sofre, de bullying? Quem nunca sentiu a pressão do mundo na forma das cobranças gentis ou não da sociedade em que vive? Quem nunca teve que se deparar com as particularidades de sua personalidade e ter que fazer escolhas difíceis sem qualquer base emocional, racional ou apoio de qualquer espécie, porque todos parecem integrados em algum grupo e apenas você não pertence a nenhum, pior, parece que até mesmo os seus amigos estão contra você e não o conhecem direito. Quem nunca fez loucuras tentando se integrar? Quem nunca se ressentiu dos sucessos alheios? Quem nunca acreditou que o mundo é injusto? Atualmente é comum as pessoas perceberem que “coisas ruins acontecem para pessoas boas”, mas falta dizer que “coisas ruins SÃO FEITAS TAMBÉM por pessoas boas. E essa é a sexta razão para falar da série.
              Somos levados a olhar para o entorno pela perspectiva de dois adolescentes que tinham tudo para serem felizes, mas que foram sistematicamente massacrados pelo “sistema” e vamos pouco a pouco percebendo que somos parte desse sistema, que fomos agressores e agredidos, fomos violentados e violentadores, apenas porque calamos diante de coisas desagradáveis demais para falar abertamente, assumir nossa parcela de responsabilidade, assumir nosso despreparo, assumir nossa negligência, assumir nosso egoísmo que nos impede de olhar o outro não pelo que queremos que seja, mas pelo que realmente é, com medo de ver também a nossa dor nos olhos desse outro. Fingimos que vai dar tudo certo, que as coisas vão ser superadas de alguma forma, porque superamos de alguma forma e é assim que as coisas acontecem. Mas nem sempre dá certo, não sem cicatrizes profundas, não sem vítimas. E essa é a sétima razão.
              Está me acompanhando até aqui? Então vamos em frente, está chegando ao final e logo vai perceber que existe um espaço para você também neste texto. Você também é responsável. Isso porque não importa a sua idade, você pode se ver ali, naquele relato tenso, emocional, triste. Você também vai julgar este ou aquele, vai se sentir ferido novamente por algo que fez ou deixou de fazer, vai ler as mesmas justificativas que os personagens dão e que lhe pareciam tão boas na sua boca, mas na dos outros, não parecem tão boas ou tão justas assim. E vai começar a pensar que talvez precise fazer algo a respeito disso. Assumir a sua parte por mais horrível que possa ter sido e se responsabilizar por ela, sem desculpas, antes que seja tarde demais para alguém. Porque a questão não é sobre o suicídio de uma adolescente que sofreu inúmeros ataques, que foram se somando e roubando pedaços de sua vontade de viver. Não é demonstrar que somos todos culpados em maior ou menor grau, e que poderíamos com um gesto simples, ter interrompido uma tragédia anunciada. A questão é que, como o personagem diz “é preciso que comecemos a nos tratar melhor, e tratar melhor os outros”. E essa é a oitava razão para que eu fale disso.
              Calma, está chegando ao fim, depois pode fazer o que quiser. Só aguente mais um pouco, porque agora vou entrar diretamente no cerne das brigas nas redes sociais. Será que era necessário mostrar o suicídio? Confesso que quando li alguns argumentos, me perguntei a respeito disso, antes de ver a série. A cena do suicídio que ocorre apenas no último capítulo é forte e sem qualquer romantismo (que alguns atribuem não sei porquê. “Estão romanceando o suicídio”, dizem). Aparece a garota que já havia decidido que não tinha mais jeito, depois de ter tentado tudo o que imaginava ser possível, até mesmo pedir ajuda, sem ter conseguido resultado. Aparece ela sentindo a dor (muito bem representada) ao cortar-se, o sangue jorrando, a aflição de continuar a ação que nos contagia e, confesso, oprimiu o meu coração até o limite. Seria necessário isso? Sim, seria. Porque não podemos esconder o quanto dói infringir esse castigo a nós mesmos. Não vi nenhum romanceamento ali, é horrível porque é verdadeiro. Como é horrível ter cenas de estupro, como são horríveis as cenas de bullying, como são horríveis as palavras ditas por pessoas queridas, mas que nos acostumamos a minimizar, a fingir que não são tão ruins assim, que há outras formas menos agressivas de mostrar. E o horrível se torna mais suportável, e podemos nos esquecer dele porque não incomoda tanto. E permanece horrível. E esta é a nona razão para que eu não me cale diante da série.
              A série é brutal, é intensa, é necessária, é sem qualquer intenção de ser bonita, e quase conseguem evitar os julgamentos morais, embora eles estejam presentes nas vozes dos próprios personagens de todas as idades. É sobre adolescentes, sobre essa época onde hormônios e cobranças tornam as coisas muito mais difíceis em perspectiva e que temos que passar de qualquer forma, lambendo as feridas que se tornarão cicatrizes e que definirão o que seremos e como lidaremos com a questão quando outros nos seguirem pelo mesmo caminho. E não tem mudado nada desde que passei por essa fase, desde que os mais velhos que eu, passaram. Desde os tempos imemoriais descritos apenas nas narrativas em diversas formas à exaustão. Talvez não mude mesmo depois desta série. Porque as pessoas estão deixando de ver o principal. Não é sobre o suicídio, ou as razões razoáveis ou não para ele, de uma adolescente. É sobre o suicídio de uma sociedade que não consegue ver o outro, não consegue perdoar o outro, não consegue estender a mão para socorrer e ser socorrido, enquanto nos encaminhamos cada vez mais para o fim inevitável, em silêncio, ressentidos de nossas culpas, porque acreditamos que nossas justificativas são o suficiente, porque podemos fazer coisas piores para nos manter seguros para não ter que lidar com a nossa própria dor. E então causamos a dor do outro. Esta é, finalmente, a décima razão para não permitir que as pessoas apenas olhem superficialmente para a série.
              Mas se você o fizer, se não quiser falar sobre ela com os seus amigos, pais, filhos, irmãos, não importa. Eu falo. E vou continuar falando e apontando o dedo nas feridas, minhas e dos outros que me cercam. Vou falar quando alguém for agredido verbalmente ou de qualquer outra forma, vou lutar contra a cultura do estupro que violenta os dois lados e mata a alma, vou falar sobre o horror do suicídio, que sim, pode ser evitado, se alguém conseguir perceber a tempo o pedido de socorro que está sendo feito, antes que seja tarde demais. E se isso tirar o sono de alguém, que seja. Porque não vou conseguir dormir em paz enquanto não fizer ao menos alguma coisa para que, na próxima geração de adolescentes, não seja preciso falar mais desses horrores.
              Obrigado por ter me acompanhado até aqui. Agora pode fazer o que achar melhor, até mesmo falar comigo sobre as suas dores. Eu vou ouvir.



              www.cvv.org.br ou ligue 141. Alguém vai ouvir você, estamos juntos.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Crise na Terra Média – Danny Marks


          Ainda ontem não consegui sair da cama, não liguei a TV para ver as últimas notícias desastrosas que vão abalar as economias e ameaçar a forma como vivemos na sociedade do século... qual é mesmo este século? Não entrei nas redes sociais, não dei parabéns, não deixei o meu amém, não prestei condolências, não curti o vídeo familiar de alguém. Vão perceber que não publiquei no meu blog, não acompanhei as estatísticas das minhas colunas na internet, não me preocupei com o almoço, com o saldo bancário, com o clima, com o meu estado de saúde.
          Ontem não discuti sobre política, não olhei as pessoas na rua, não cantei alguma música triste para me sentir solidário, ou alegre para me animar, não assisti às séries que acumulo, não dirigi a palavra a ninguém, nem a mim mesmo, como muitas vezes me faço só para ouvir alguém falando comigo, nem que seja uma bronca a mais que vou ignorar.
          Ontem não fiz meditação, não fumei todos os cigarros disponíveis porque estavam disponíveis, não pensei em coisas elaboradas, não me preocupei com a escassez de agua na terra ao tomar banho, não deixei a torneira escorrendo quando escovei os dentes, não sorri para o espelho.
          Ontem não li um livro de algum autor nacional para estudar o que está acontecendo no mercado literário entre autores nacionais, não pensei em um texto bacana para o próximo concurso, site, blog, coluna. Não me interessei pelo crescimento das flores no meu jardim, ou das mudas de tomate que finalmente resolveram aparecer, depois que havia descartado todas, crente que estavam perdidas. Não atendi o telefone, não limpei a casa, não comi nada diferente, não senti fome ao esquecer das horas que passavam.
          Ontem não compareci a compromissos, não me senti culpado por nada, não desejei intensamente um sabor especial, não dancei, não nadei, não dei um passeio de bike pela orla da praia, não me interessei por estranhos em seus modos estranhos de ser, não vi branca nuvem passar, não olhei para ver quem batia a porta, nem me importei se não voltariam.
          Ontem não tomei nenhuma decisão importante para o meu futuro, não critiquei nenhum dos meus defeitos, não penteei os cabelos de uma forma diferente, não olhei velhos registros em busca de algo que poderia estar fazendo para ocupar as horas que não olhei. Estranhamente a Terra deu mais uma volta sobre si mesma, e correu pelo vácuo espacial em torno do Sol, feito um cachorro alegre a esperar que alguém lhe atire uma bola, para poder correr mais ainda, sem motivo algum, apenas porque pode correr.
          Mas isso foi ontem, e hoje voltei a minha velha rotina ao acordar para um novo dia com o pensamento inquisitório da voz que me persegue por todos os cantos e me faz ser cada vez mais, ou menos, em todos os momentos. A voz que me cobrava sem ressalvas: O que você fez ontem?

          Ontem eu fui feliz! Respondi sem raiva, apenas constatando tardiamente o obvio de tudo o que acontecera. E estou rindo até agora da cara que o meu inconsciente fez ao perceber que venci novamente. Nem quero saber o que vai acontecer amanhã, depois que isso ficar evidente.



segunda-feira, 6 de março de 2017

Psicodeidade - Danny Marks

(Quando a vida parecer uma droga, vicie-se nela)

Sabe, tem aqueles dias em que tudo parece confuso
E você se pergunta o que tem feito de errado
Se está tudo certo na sua vida e chegou onde queria
Mas não pode ficar apenas parado.

— Siga. Enfrente! Siga em frente.

Qual o sentido de tentar alcançar o impossível?
E se todos os seus sonhos forem realizáveis?
Quão pequena é a sua imaginação?
Será o objetivo da vida ficar frustrado?
Ou descobrir que acreditou nas pessoas erradas?

— Siga. Enfrente! Siga em frente.

Senti o meu mundo girando em louca velocidade,
E meus olhos estavam fechados ao terror
As coisas só eram assim na minha cabeça
Não era o mundo que girava rápido, eu que havia parado
em relação ao universo. Então ele disse;

— Siga. Enfrente! Siga em frente.

Oh, Deus, onde você está?
Por que só tenho pesadelos, quando penso nos seus planos?
Você me disse que havia um caminho
E não revelou como chegar lá.
Oh, Deus, você é insano! Agora eu sei.
Tem uma voz gritando no meu lado esquerdo:

— Siga. Enfrente! Siga em frente.

Só pode morrer o que está vivo.
Li em um livro que escrevi, há muito tempo.
Ontem completei mais um ciclo neste mundo
E só agora descobri que sempre quis morrer,
mas para isso tenho que aprender como VIVER.
E você nem se importa quando digo:

— Siga. Enfrente! Siga em frente.

Aprendi uma ou duas coisas novas, entende?
Talvez ainda haja uma chance para mim.
Me livrar das correntes que me acorrentei
Voltar a sorrir e sentir que não é vantagem
ter um bom coração no inferno
Isso serve apenas para dizer, seu lugar não é aqui.
Então, volte pra casa. Ah, volte pra casa!

— Siga. Enfrente! Siga em frente.

Não há como retornar no caminho
As coisas mudam, eu/você sabe, é assim
De alguma forma vai chegar onde estava
Quando finalmente resolveu partir
antes da hora de voltar.
Não pare agora, apenas vá, você sabe...

— Siga. Enfrente! Siga em frente.

A curva está logo ali a esperar.

quinta-feira, 2 de março de 2017

A Fabulosa Bola Quadrada – Danny Marks



          Deixe-me contar-lhe a história da Fabulosa Bola Quadrada, originária da fantástica terra de Obtusolândia. Uma terra tão boa que qualquer coisa que se plantasse por ali, dava e abundava até os horrores. E digo isso porque todos hão de saber que há sempre mais ervas daninhas que arvores frutíferas em qualquer pomar descuidado. Mas não nos desviemos, ainda, do rumo dessa interessante história sobre o inacreditável ocorrido nos idos de alguma década que não me vem à memória no momento, nesse paraíso de comércios e consumos.
          Não me recordo direito dos detalhes, ainda influenciado pelos efeitos da visita em Obtusolândia, de como a coisa se deu, mas digamos que havia uma nova perspectiva comercial muito boa, inspirada em algo semelhante que já ocorria em outras terras. Era a Bola Quadrada, um sucesso imediato entre os comerciantes e seus produtores. Houve um momento em que todo mundo se considerava capaz de produzir a sua própria bola quadrada e comercia-la, e isso gerou todo um modelo de negócio vantajoso para o comércio. Desde os maiores e mais preparados autores de bolas quadradas até os mais simples e inspirados, todos acabavam tendo sua chance de inserir suas produções artisticamente feitas com todos os ângulos desenhados para atender as expectativas dos que iriam confecciona-la. E as empresas que produziam bolas quadradas sob encomenda dos seus criadores, ganhavam muito dinheiro entregando seus produtos acabados em vários formatos para os seus autores, algumas até ofereciam brindes extras e outros penduricalhos para alavancar a venda da tal bola quadrada. Mas depois de algum tempo começou a haver reclamações, os autores trocavam, doavam, pagavam para que outros autores falassem sobre suas bolas quadradas e como eram maravilhosas, mas não havia consumidores para elas. Ninguém que não era autor de bolas quadradas ou amigo dos autores ou parente dos autores, ou produtor de bolas quadradas para autores, queria comprar o produto e assim o negócio foi definhando. Houve um ou outro que tentou apresentar um novo modelo, um Poli Dodecaedro, mas foram escorraçados pelos famosos entre si, autores de bolas quadradas que chamavam aquilo de imitação do produto estrangeiro, cheio de pontas e ângulos que doíam só de olhar. E, por falta de novos clientes autores de bolas quadradas, até mesmo as produtoras acabaram deixando a Obtusolândia e indo trabalhar em outras terras, onde se vendia bolas redondas para outro tipo de público.
          Ok, deve estar me perguntando que porcaria de história ridícula é essa. Mas é o mesmo tipo de pergunta que me faço quando falam na “crise do livro brasileiro”. Como assim? Até onde sei, para que haja uma crise comercial, em algum momento teve um comércio vigoroso que entrou em declínio por algum fator a ser analisado. A menos que o nome da crise esteja errado, por motivos quaisquer que possam haver. Quando me falam das “grandes livrarias” fechando as portas e saindo do país, e como isso vai afetar as vendas de livros nacionais, quando ouço falar nas tecnologias que ”estão matando” o hábito de ler, quando ouço dizerem que “esta nova geração” não gosta de leituras, fico completamente confuso quanto a quem essas pessoas se referem.
          Vejo muitos jovens lendo, boa parte em formatos de eBooks nos celulares que (pasmem) permitem esse tipo de leitura também (!) porque são mais acessíveis no preço (absurdo) que os livros físicos são vendidos. Sem falar que houve toda uma campanha em rádio e tv (e nas próprias publicações impressas) quando lançaram os eBooks para que evitassem derrubar arvores para fazer papel (hoje nem se fala mais nisso, acho que acabaram as arvores ou a vontade mudou). Eu vejo editoras investindo em autores novos, no sentido de tentar cada vez mais ter autores publicando com eles. Todos os dias novas editoras (e outras já estabelecidas) incentivam os autores a estarem enviando seus originais para avaliação. Nunca se escreveu tanto neste país, em diversas plataformas, eletrônicas ou aquelas mais formais, em livro. Chovem resenhas, e citações, e comentários de livros de autores nacionais, crescem os blogs literários, criou-se até um comercio (escondido, mas que todos sabem que existe) de “leituras” e “likes” e recomendações de livros de autores que “são um sucesso de vendas”.
          Então como é possível que as livrarias estejam fechando? Como é possível que haja uma crise nesse meio? Pois é, há uma crise e não é nova. Na verdade, todo o modelo comercial foi estruturado de forma errada. Quando se foca um modelo comercial na produção estrangeira, quando se cria uma demanda nacional sem um estudo completo do negócio, se estabelece a base para uma crise séria, uma base que se assemelha a uma “pirâmide”. É, aquela daquele golpe clássico em que é preciso haver sempre uma “injeção” de novos “contribuintes” para que não desabe sobre si mesma. Até os que já obtiveram lucros em algum momento são incitados a se reinserir na base para que ela continue aumentando, até que tudo explode e muitos perdem para que poucos ganhem. E nunca se sabe em que estágio da “pirâmide” se vai estar quando ela explodir, ou implodir, para ser mais exato.
          O negócio de livros é complexo e envolve muitas variáveis de investimento. O Governo diz que investe em livros, mas só faz é comprar livros clássicos para ser doado em escolas para alunos que não foram preparados para ler de forma crítica, mesmo livros modernos não funcionariam assim. Ok, vão falar que há autores nacionais muito ruins, e há de fato, mas onde estão as faculdades, os cursos técnicos, as oficinas públicas de Literatura? Há cursos (caros e muitas vezes inacessíveis) de escrita, mas quantos desses procuram formar LEITORES? Quantos desses ensinam como fazer uma leitura crítica? Ou mais importante, como formar leitores críticos para os livros existentes? Podemos reclamar que as livrarias vendem os livros caros, ao que elas vão dizer que pagam caro para obtê-los e mantê-los em estoque, até porque mais da metade (para não dizer quase todos) são de autores estrangeiros e apenas os nacionais que vendem muito (ou seja, que possuem um público já formado) são disponibilizados.
          Vejam a complexidade da coisa. Há investimentos que são feitos em um produto que ninguém conhece, para um consumidor que não sabe que necessita desse produto e que nem sabe para que serve, e quando não vende se fala em crise. Aí entra o governo com seus investimentos em produtos consagrados que mais ninguém quer, na tentativa de estimular a venda dos produtos mal-acabados feitos por principiantes que não tiveram condições alguma de aprimorar seus produtos e que se acham o máximo porque leram resenhas pagas para dizerem isso. E novamente se fala em crise. Alguma semelhança com a Obtusolândia e sua fantástica bola quadrada?
          Quantos autores se dedicam a criar um público leitor? Quantos falam de Livros que não sejam os seus? Que sejam de autores nacionais contemporâneos? Que ensinem como se lê um clássico ou mesmo um livro moderno? Que se aprimoram em técnicas de escrita para levar para seus leitores uma qualidade melhor, seja nos seus livros, seja na crítica que fazem de outros autores? Quantos incentivam a leitura seja no celular, no tablet, no notebook, no eReader, no livro físico, tendo como base a importância da leitura de qualidade e não do meio em que ela é feita?
          Lembro-me de um caso em que uma de minhas alunas não tirava os olhos do celular, enquanto tentava dar aula de como fazer uma resenha. Fui até ela e perguntei o que estava fazendo e ela me disse constrangida (assustada até) que estava lendo um livro. Achei interessante, nunca havia visto alguém ler no celular. Perguntei o que estava lendo, era um autor estrangeiro desses best sellers instantâneos. Perguntei se estava gostando. Disse que sim. Então pedi que fizesse um resumo da história, uma apresentação do livro para os colegas de classe. Ela foi engatinhando na coisa e fui ajudando (eu havia lido o tal livro e detestado, mas o objetivo não era expor a minha opinião ou debate-la com pessoas menos preparadas) e ela foi se entusiasmando e fez um ótimo trabalho de estimular os colegas a ler. Aproveitei o gancho e sistematizei a resenha dela dentro de um modelo profissional de qualidade, que era o objetivo da aula.
          O que aconteceu? Todos prestaram atenção redobrada e me perguntaram se poderiam trazer as suas próprias resenhas de livros que estavam lendo para divulgar entre os colegas. Claro que incentivei e fizemos ótimas leituras de resenhas, com inúmeras sugestões de livros que poderiam ler. Até mesmo eu fiz algumas para demonstrar que havia autores nacionais contemporâneos ótimos e que mereciam um espaço. Mas quantos fazem algo do tipo? Quantos não teriam dito que “aula de literatura não é para ler” (oi??), ou então “guarde esse celular que aqui não é o lugar”, ou coisa pior ainda, matando o estímulo de leitura de alguém que só tinha condições de ler pelo celular, porque não podia comprar um aparelho mais adequado, porque não podia pagar o preço de um livro da moda, por morar em uma comunidade carente.
          Será que haveria crise se os investimentos no comercio de livros fossem mais estruturados com os verdadeiros consumidores? Se o governo criasse políticas para formar tanto leitores quanto autores qualificados, de forma que houvesse um crescimento da qualidade do produto e um incremento de toda uma nova forma mercadológica estruturada de ponta a ponta e não no velho “vai que dá certo” do jeitinho brasileiro? Informalidade não pode ser padrão, tem que ser exceção para poder funcionar direito. As livrarias poderiam reduzir seus estoques porque os autores nacionais são mais acessíveis, os livros impressos aqui mesmo, com tecnologias que seriam desenvolvidas aqui para os leitores nacionais, com o seu jeito específico de ler, sua cultura revisitada por autores que não teriam a preocupação de serem “vendáveis” como os estrangeiros.
          Poderia haver toda uma nova forma de negócio nas plataformas digitais, para todos os bolsos e gostos, que não seria exclusiva, mas complementar (eu mesmo leio e escrevo nos dois modelos, por que não?) com suas vantagens e desvantagens apreciadas pelo seu principal fomentador, os leitores. Poderia até mesmo haver um novo investimento em tecnologias mais baratas e acessíveis, modelos de distribuição de livros criados para atender as demandas de um país de nível continental. Quantos modelos menores de negócios poderiam ser criados a partir de um investimento no rumo certo, nos agentes certos, com a visão correta. O governo poderia investir em aparelhos para leituras de livros eletrônicos, com milhares de livros disponíveis para todos os gostos, em vez de comprar livros que muitas vezes vão para o lixo sem chegarem nunca na mão dos leitores a que se destinam (sim, já houve muito disso por aqui).
          Ou podemos nos juntar ao povo de Obtusolândia que não consegue entender por que uma bola quadrada não vende tão bem quanto as bolas redondas que são produzidas em outros lugares, mas são tão caras que se tornam proibitivas para o grande público, se resumindo a pequenos consumidores que as abandonam em troca de outras coisas mais “da moda”. Podemos continuar falando em crises, apontando os culpados, rindo dos polis dodecaedros que aparecerem, e dizendo que a culpa é do “governo”, da “falta de cultura do povo”, da péssima qualidade dos (outros) autores. E talvez um dia, não haja nem mais espaço para um blog sobre literatura que não seja a estrangeira. Difícil vai ser tentar vender resenhas para os autores de lá com a qualidade crítica das produzidas aqui. E então, a Fabulosa Bola Quadrada fará todo o sentido e eu terei sido apenas uma voz berrando na multidão ululante com suas ideias fechadas e suas bolas quadradas.

          Agora, diga-me, posso lhe contar uma boa história?

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