segunda-feira, 10 de abril de 2017

Dez Razões para falar sobre “13 Reasons Why” – Danny Marks


              Sou obrigado a fazer uma pausa na escrita do meu novo romance para falar sobre a série que está provocando uma certa celeuma nas redes sociais. Normalmente não me interesso por essas “brigas” que quase sempre não levam a nada, mas neste caso me interessei pelo tema anteriormente e iria assistir a série oportunamente, só antecipei devido a própria confusão que se estabeleceu, para poder até me posicionar, quando solicitado. Eis a primeira razão para falar da série 13 Reasons Why.
              13 Reasons Why, ou Os 13 Porquês (no Brasil) ou ainda Por Treze Razões (em Portugal) é uma série americana produzida pelo canal Netflix baseada no romance de Jay Asher que tem o mesmo nome, mais especificamente Thirteen Reasons Why. Foi adaptada por Brian Yorkey e Diana Son, tendo a primeira temporada treze episódios disponibilizados no Brasil em 31/03/2017 pelo canal Netflix, tornando-se sucesso imediato e alvo de todo tipo de comentários e críticas. A série é apresentada, basicamente, da seguinte forma:  “Após o suicídio de uma adolescente, um colega de turma encontra fitas que revelam os misteriosos motivos de sua decisão”.
              OK, acho que já dá para ter uma ideia do que quero comentar. Não se trata de uma resenha, está mais para uma análise sobre o conteúdo da série e sobre os temas levantados por ela, bem como sobre as discussões que tenho assistido em vários lugares. Vou procurar não dar spoilers, mas realmente não vejo nenhum problema, porque a principal razão para se assistir é justamente o clima emocional que a série suscita no público.
              Sim, a série é pesada, como muitos confessam. Não teria como não ser se trabalha o tema central do suicídio, não é mesmo? Mas esperem. Isso está errado. Na minha leitura da série, e comprovo isso com os fatos e argumentos que vou apresentar, não é essa a intenção, não é esse o tema central, embora ele esteja lá sobre as cabeças o tempo inteiro, e talvez tenha sido exatamente essa perspectiva que tenha provocado tantas reações negativas. Essa é a segunda razão para eu falar sobre a série.
              A série é sobre adolescentes. Em particular sobre adolescentes americanos de uma escola secundária se preparando para iniciarem suas carreiras adultas em faculdades e, como dizem, “definir o futuro”. Quem já assistiu uma das inúmeras formas de “Malhação” ou filmes que trabalham a questão do “modo adolescente de viver”, vai saber que vai rolar o bullying, vai rolar o sexo entre jovens, vai rolar as intrigas e brigas, vai rolar o romance e suas complicações, vai rolar drogas e rock’n’roll. Então o que tem de mais nesta? O suicídio, é claro! Só que não. E essa é a terceira razão.
              Em primeiro lugar há a questão de que a narrativa ocorre em dupla perspectiva. Para os que não sabem, é basicamente contar uma história através dos olhos de dois personagens, o que implica, neste caso, trabalhar com flashbacks sobrepostos a realidade corrente. Os flashbacks são a perspectiva dada pela personagem que, todos sabem, suicidou-se e apresenta a sua versão dos fatos através de fitas de K7 (para os mais novos, eram equipamentos que permitiam a gravação de sons na era pré-histórica da internet, pesquisem a respeito, vão ler coisas interessantes). A sobreposição permite que seja apresentada a realidade presente que segue um dos personagens, o que recebe o conjunto de 13 fitas com os motivos para o suicídio, em um pacto unilateral de compartilhamento com os supostos responsáveis por ele.
              Uma analogia interessante é que tanto as treze fitas, quanto os treze capítulos da série, estão disponíveis e acessíveis para serem vistos imediatamente, sem precisar passar por todo o processo de seguir a linha de raciocínio e por toda a tensão que é provocada pelo suspense gerado. Mas espera, que suspense? Se todos sabem, antes de iniciar, que houve um suicídio, isso está posto claramente, sem retorno. A questão é que a série não trabalha com a jornada do herói, não trabalha com maniqueísmos do “grupo do bem contra o grupo do mal”, como normalmente acaba acontecendo nessas séries para adolescentes. Aqui todos que sabem da existência das fitas estão envolvidos de alguma forma com o suicídio, e o protagonista que vai servir de referência para a linha de tempo atual é um garoto nerd, de bom coração, um cara legal e respeitador. Então, por que ele está ouvindo as fitas? Por que ele está relacionado nas fitas? Esse é o mistério e esta é a quarta razão para falar sobre a série.
              Não vou falar sobre as ótimas interpretações dos atores mirins ou adultos e outros detalhes técnicos porque isto não é uma resenha. Este é um texto para comentar sobre o motivo de achar esta série importante, não apenas para os adolescentes que são o público-alvo principal (sim, é um termo horrível para se usar quando se fala de uma série que tem como mote o suicídio de uma adolescente), mas principalmente para os pais. E recomendo que assistam juntos, sério! Provavelmente vão se identificar com algum dos personagens, jovens ou adultos, porque isso é o que faz a série bacana. Ela fala sobre coisas que nos atingem há tempos, que todos sabem que acontecem, mas que parecem revestidas por um pacto de silêncio baseado na culpa. ESSE é o mote central da série, e esta é a quinta razão para eu falar dela.
              Quem nunca sofreu, ou sofre, de bullying? Quem nunca sentiu a pressão do mundo na forma das cobranças gentis ou não da sociedade em que vive? Quem nunca teve que se deparar com as particularidades de sua personalidade e ter que fazer escolhas difíceis sem qualquer base emocional, racional ou apoio de qualquer espécie, porque todos parecem integrados em algum grupo e apenas você não pertence a nenhum, pior, parece que até mesmo os seus amigos estão contra você e não o conhecem direito. Quem nunca fez loucuras tentando se integrar? Quem nunca se ressentiu dos sucessos alheios? Quem nunca acreditou que o mundo é injusto? Atualmente é comum as pessoas perceberem que “coisas ruins acontecem para pessoas boas”, mas falta dizer que “coisas ruins SÃO FEITAS TAMBÉM por pessoas boas. E essa é a sexta razão para falar da série.
              Somos levados a olhar para o entorno pela perspectiva de dois adolescentes que tinham tudo para serem felizes, mas que foram sistematicamente massacrados pelo “sistema” e vamos pouco a pouco percebendo que somos parte desse sistema, que fomos agressores e agredidos, fomos violentados e violentadores, apenas porque calamos diante de coisas desagradáveis demais para falar abertamente, assumir nossa parcela de responsabilidade, assumir nosso despreparo, assumir nossa negligência, assumir nosso egoísmo que nos impede de olhar o outro não pelo que queremos que seja, mas pelo que realmente é, com medo de ver também a nossa dor nos olhos desse outro. Fingimos que vai dar tudo certo, que as coisas vão ser superadas de alguma forma, porque superamos de alguma forma e é assim que as coisas acontecem. Mas nem sempre dá certo, não sem cicatrizes profundas, não sem vítimas. E essa é a sétima razão.
              Está me acompanhando até aqui? Então vamos em frente, está chegando ao final e logo vai perceber que existe um espaço para você também neste texto. Você também é responsável. Isso porque não importa a sua idade, você pode se ver ali, naquele relato tenso, emocional, triste. Você também vai julgar este ou aquele, vai se sentir ferido novamente por algo que fez ou deixou de fazer, vai ler as mesmas justificativas que os personagens dão e que lhe pareciam tão boas na sua boca, mas na dos outros, não parecem tão boas ou tão justas assim. E vai começar a pensar que talvez precise fazer algo a respeito disso. Assumir a sua parte por mais horrível que possa ter sido e se responsabilizar por ela, sem desculpas, antes que seja tarde demais para alguém. Porque a questão não é sobre o suicídio de uma adolescente que sofreu inúmeros ataques, que foram se somando e roubando pedaços de sua vontade de viver. Não é demonstrar que somos todos culpados em maior ou menor grau, e que poderíamos com um gesto simples, ter interrompido uma tragédia anunciada. A questão é que, como o personagem diz “é preciso que comecemos a nos tratar melhor, e tratar melhor os outros”. E essa é a oitava razão para que eu fale disso.
              Calma, está chegando ao fim, depois pode fazer o que quiser. Só aguente mais um pouco, porque agora vou entrar diretamente no cerne das brigas nas redes sociais. Será que era necessário mostrar o suicídio? Confesso que quando li alguns argumentos, me perguntei a respeito disso, antes de ver a série. A cena do suicídio que ocorre apenas no último capítulo é forte e sem qualquer romantismo (que alguns atribuem não sei porquê. “Estão romanceando o suicídio”, dizem). Aparece a garota que já havia decidido que não tinha mais jeito, depois de ter tentado tudo o que imaginava ser possível, até mesmo pedir ajuda, sem ter conseguido resultado. Aparece ela sentindo a dor (muito bem representada) ao cortar-se, o sangue jorrando, a aflição de continuar a ação que nos contagia e, confesso, oprimiu o meu coração até o limite. Seria necessário isso? Sim, seria. Porque não podemos esconder o quanto dói infringir esse castigo a nós mesmos. Não vi nenhum romanceamento ali, é horrível porque é verdadeiro. Como é horrível ter cenas de estupro, como são horríveis as cenas de bullying, como são horríveis as palavras ditas por pessoas queridas, mas que nos acostumamos a minimizar, a fingir que não são tão ruins assim, que há outras formas menos agressivas de mostrar. E o horrível se torna mais suportável, e podemos nos esquecer dele porque não incomoda tanto. E permanece horrível. E esta é a nona razão para que eu não me cale diante da série.
              A série é brutal, é intensa, é necessária, é sem qualquer intenção de ser bonita, e quase conseguem evitar os julgamentos morais, embora eles estejam presentes nas vozes dos próprios personagens de todas as idades. É sobre adolescentes, sobre essa época onde hormônios e cobranças tornam as coisas muito mais difíceis em perspectiva e que temos que passar de qualquer forma, lambendo as feridas que se tornarão cicatrizes e que definirão o que seremos e como lidaremos com a questão quando outros nos seguirem pelo mesmo caminho. E não tem mudado nada desde que passei por essa fase, desde que os mais velhos que eu, passaram. Desde os tempos imemoriais descritos apenas nas narrativas em diversas formas à exaustão. Talvez não mude mesmo depois desta série. Porque as pessoas estão deixando de ver o principal. Não é sobre o suicídio, ou as razões razoáveis ou não para ele, de uma adolescente. É sobre o suicídio de uma sociedade que não consegue ver o outro, não consegue perdoar o outro, não consegue estender a mão para socorrer e ser socorrido, enquanto nos encaminhamos cada vez mais para o fim inevitável, em silêncio, ressentidos de nossas culpas, porque acreditamos que nossas justificativas são o suficiente, porque podemos fazer coisas piores para nos manter seguros para não ter que lidar com a nossa própria dor. E então causamos a dor do outro. Esta é, finalmente, a décima razão para não permitir que as pessoas apenas olhem superficialmente para a série.
              Mas se você o fizer, se não quiser falar sobre ela com os seus amigos, pais, filhos, irmãos, não importa. Eu falo. E vou continuar falando e apontando o dedo nas feridas, minhas e dos outros que me cercam. Vou falar quando alguém for agredido verbalmente ou de qualquer outra forma, vou lutar contra a cultura do estupro que violenta os dois lados e mata a alma, vou falar sobre o horror do suicídio, que sim, pode ser evitado, se alguém conseguir perceber a tempo o pedido de socorro que está sendo feito, antes que seja tarde demais. E se isso tirar o sono de alguém, que seja. Porque não vou conseguir dormir em paz enquanto não fizer ao menos alguma coisa para que, na próxima geração de adolescentes, não seja preciso falar mais desses horrores.
              Obrigado por ter me acompanhado até aqui. Agora pode fazer o que achar melhor, até mesmo falar comigo sobre as suas dores. Eu vou ouvir.



              www.cvv.org.br ou ligue 141. Alguém vai ouvir você, estamos juntos.

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