Otto foi meu parceiro durante muitos
anos na Homicídios, até que uma bala na tíbia o deixou incapacitado para o
trabalho. Passou a mancar no departamento de pessoas desaparecidas.
Até se tornar mais um registro de
ocorrência.
Existe essa coisa de trabalhar em
parceria, você acaba conhecendo mais do seu parceiro do que de sua própria
família. Eu sabia que Otto nunca deixaria de ser um detetive, estava no sangue
dele, tão presente quanto o álcool que lhe dava impulso para se manter vivo ou
quase isso. Todos nós temos uma rota de fuga dos problemas que não podemos
desviar e que normalmente nos leva ao inferno. E as vezes traz o inferno até
nós.
Ele devia estar atrás de alguma coisa
quando desapareceu, cheguei a ver indícios na sua mesa, conheço o padrão em que
arruma as pistas, o roteiro investigativo onde medita sobre as possibilidades.
Não falei para ninguém.
Se havia algo que o Otto farejava a
quilômetros era a podridão humana, nunca falhara em descobrir onde se escondia,
mesmo que estivesse enterrada sob camadas de “comportamento irreparável”. Nesse
inferno ele era um demônio.
Quando percebi que estava falando dele
no passado, saquei que alguém tinha dado cabo dele e precisava descobrir quem e
por quê. Medo de que alguma coisa pudesse ser mais poderosa que os demônios de
Otto, e se tinham acabado com ele, o que fariam comigo?
Um endereço grifado em vários lugares nas
anotações me chamou a atenção. Tratava-se de uma bela casa nos subúrbios,
nenhum registro de ocorrência policial, bem poderia ser uma casa de repouso ou
um prostíbulo de luxo. Qualquer das duas coisas poderia chamar a atenção de
Otto nos últimos tempos, e precisava descobrir qual. Somos movidos por
respostas sem pensar direito nas perguntas, impulsivamente arrancando a
verdade.
Fui até lá e descobri que havia um
canil na propriedade. Adestramento era o negócio. Será que o meu antigo
parceiro estava precisando de um novo amigo? Me senti ressentido com isso de
alguma forma.
Uma bela dona de olhos de gelo verde
recebeu-me na porta. Dava para ouvir o latido do velho perdigueiro que forçava uma
corrente em sua fúria que chegava a lhe arrancar tufos de pelo do pescoço.
Nunca havia percebido tal fúria em um animal daquele tipo, mantive a mão
próxima a arma, para o caso de necessitar dela. Mostrei a foto do Otto e
perguntei se tinham visto aquele homem pelas redondezas, fingi que era mais um
caso de pessoa desaparecida. Não poderia forçar a barra, não tinha nada que
justificasse uma investigação.
O cão finalmente arrancou o suporte da
corrente e veio para cima da gente como se fosse o guardião do inferno. Por
algum motivo hesitei ao sacar a arma.
Dona Circe, era o nome que tinha dado
ao receber-me, apenas olhou para o cão que me pareceu bater em uma parede
invisível. A besta furiosa ganiu baixinho e voltou resignadamente para o lugar
de onde havia saído, totalmente vencido.
Já tinha ouvido falar do poder de
adestramento de animais, mas nada se assemelhava aquilo. Tive a impressão tardia
de que era a ela que o sabujo queria atacar, não a mim. Também tenho o meu
faro.
Uma empregada veio correndo sem ser
chamada, colocou o cão em outra corrente e o levou dali. O pobre animal devia
estar ferido, mancava da perna esquerda, a cabeça baixa ganindo, olhando para
mim enquanto se afastava. Não pude ver o que estava escrito na coleira, um nome
talvez.
Dona Circe de repente me convidou para
entrar, achei estranho porque não era essa a intenção dela antes do incidente. Alguma
coisa me dizia para correr, mas a arma de volta ao coldre me dava uma falsa
segurança. Todos temos um urso no qual nos agarramos para dormir, fingindo que
ele será capaz de nos proteger do desconhecido.
Uma bela casa por dentro e por fora,
objetos caros, obras de arte, coisa da frescura de decorador. Depois buscaria
saber de onde vinha o dinheiro para a manutenção, talvez o negócio de
adestramento fosse bem lucrativo, ou a fachada para algo ilegal. Algo não me
cheirava bem ali.
Conversamos por horas enquanto ela me
servia uma bebida exótica muito boa, semelhante a um vinho de ervas. Aquela
dona sabia ser envolvente de uma forma esquisita, tinha uma segurança que
transbordava pela pele bem cuidada. Não se abalou quando deixei descuidadamente
meu olhar se prolongar no decote, na curva das coxas. Em algum momento eu já
havia esquecido por que estava ali e me esforçava para evitar pensamentos que
envolviam uma intimidade maior com aquela senhora.
Circe vendia cães adestrados para
vários clientes, não era casada, o que me alegrou, mas não gostava de homens
que segundo ela “eram todos uns cachorros” (com as devidas desculpas a minha
pessoa, embora o sorriso zombeteiro).
Esse conhecimento jogou um balde de gelo
no meu entusiasmo. Se eu era um cão nunca tinha visto uma vaca tão desgraçada
quanto aquela, mas me contive nos pensamentos e voltei ao que havia me levado
até aquele muquifo.
Não, eu não estava investigando oficialmente.
Era apenas uma pista de um desaparecimento de um amigo e estava preocupado com
a ausência dele. Não, ninguém sabia que eu estava ali.
Droga, esse vinho e aquele olhar
estavam arrancando mais de mim do que gostaria, tinha que sair dali e me recuperar.
Claro que eu poderia voltar a qualquer
hora, mas não queria ficar mais um pouco? Parecia não estar passando bem.
Nem pensar, preferia pegar o carro e
procurar um médico. Estava suando frio. Algo me dizia para correr, e comecei a
alucinar gargalhadas, precisava sair dali antes que fosse tarde demais. De
alguma forma a desgraçada me drogara, ia voltar com a Narcóticos e dar cabo da
vagabunda e seu bando. A fúria me mantinha em pé.
Arranquei com o carro dando uma ultima
olhada para o portão gradeado. O perdigueiro manco me olhava com um ar triste,
pude ler o nome na coleira: Otto.
Meus pensamentos estavam cada vez mais
confusos, mas consegui chegar na estrada principal. Foi quando olhei para o
retrovisor e vi um enorme cão sentado no banco do motorista.
O carro de alguma forma avançou mais
rápido e o caminhão à minha frente estava reduzindo a velocidade para entrar na marginal. O
choque foi inevitável.

O que pensarão meus colegas ao
encontrarem só um cão dentro do meu carro, no banco do motorista?
Maldita bruxa.
(31/01/2007)
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