quinta-feira, 31 de maio de 2018

Os Caminhos da Narrativa – Danny Marks





            É muito comum se falar dos benefícios de um livro para a vida das pessoas, inúmeras vantagens são levantadas pelos autores e divulgadores e não vou gastar seu tempo falando sobre isso. Mas, será que é apenas pela possibilidade de divertimento, de instrução, de autoconhecimento e coisas afins que é importante ler um livro? No Brasil, nas últimas décadas, temos observado um movimento interessante. Há cada vez mais autores iniciantes lançando seus livros e tentando uma carreira nessa área, alguns com relativo sucesso, por algum tempo. Por outro lado, vemos um declínio significativo do mercado de livros (não confundir com mercado editorial, que é outra coisa). Também não vou aprofundar na questão de que ainda precisamos inventar um mercado de LIVROS no Brasil, porque já fiz isso em outros momentos e o objetivo deste texto é diferente, embora haja muitos pontos em comum com essas outras questões. Então vamos lá.
            As narrativas têm evoluído ao longo dos séculos, e isso é bom porque, em última análise, criatividade é o nosso negócio, certo? Alguns fatores são cruciais para que essa evolução se efetue. Em primeiro lugar há a realimentação dos temas. Uma temática tem que ser relevante para conquistar algum sucesso e longevidade na construção de um texto literário, isso significa dizer que o texto literário se apropria das condições de uma sociedade, elabora de forma artística e devolve para a sociedade os desdobramentos possíveis até os limites da imaginação e, em muitos casos, influencia os rumos dessa sociedade para algum caminho diferente. Esse movimento quase orgânico é semelhante ao que se pode perceber em qualquer sistema evolutivo, as soluções importantes prevalecem e se multiplicam, até que se tornam comuns e outros desafios se impõem exigindo novas soluções, enquanto que as que não são relevantes apenas desaparecem pelo peso de sua falta de sintonia.
            Não vou tentar descrever a miríade de modelos literários que foram criados, ampliados, ramificados e remodelados ao longo dos tempos, porque isso seria um trabalho para uma vida inteira e não haveria espaço aqui para isso. Vamos nos concentrar em algo mais específico e que serve como um dos pilares para vários modelos literários, a Jornada do Herói. É chamada assim porque trabalha com um formato específico, linear, de construção do personagem (o herói) que se encontra em uma zona de conforto até que é provocado por um chamado (algo que o obriga a sair dessa zona de conforto) e é auxiliado por um guia em sua jornada em busca de algo que vai promover o retorno à estabilidade perdida quando alcançar um determinado objetivo. Ao longo da jornada o herói terá que lidar com várias dificuldades e ao supera-las sozinho ou com ajuda de outras pessoas, vai desenvolvendo capacidades anteriormente adormecidas, além de sabedoria, e conquistando ferramentas na construção de seu destino.
            Se identificou? Provavelmente sim, porque a Jornada do Herói é em maior ou menor grau uma metáfora da saída da infância, o percurso da adolescência rumo à maturidade, que todos passamos em algum momento. Por isso mesmo é um dos pilares de vários modelos literários de extrema eficiência, afinal todos passamos por essa fase em nossas vidas, embora alguns não a superem com todos os méritos, mas isso é outra história. O problema, e nesse ponto é que iniciamos o nosso desvio, é que a sociedade evoluiu para uma forma em que cada vez menos há espaço para os heróis que centralizam em si a força e as soluções em jornadas razoavelmente solitárias, embora solidárias. Sem falar que cada vez mais, na sociedade atual, há uma identificação maior com o Vilão, o adversário do herói, a ponto de muitas narrativas inverterem o sentido e quase apagarem a linha divisória entre um e outro criando uma variante que denominamos o anti-herói, que é quase um vilão que deu certo quebrando as regras e fazendo as coisas necessárias de forma diferente do que está estabelecido a despeito do custo envolvido.
            Essa identificação com o anti-herói muitas vezes é maior do que a identificação com o herói, porque é mais comum em um mundo em que as regras mudam rapidamente e há necessidade de fazer diferente do padrão estabelecido e ainda assim funcionar bem para todos. O anti-herói não é contra o caminho do herói, mas um caminho paralelo, sombrio, onde não há certezas de sucesso e decisões difíceis são exigidas constantemente sob o risco de tornar as coisas piores, e não melhores. Se identificou com esse modelo? Pois é, na sociedade tecnológica as regras mudam rapidamente, e apenas aqueles que são capazes de fazer diferente e melhor são os que obtém sucesso. Nesse mundo tudo precisa evoluir, até mesmo os vilões, ninguém é bobo de acreditar que os desafios vão se manter os mesmos e é preciso sobreviver a qualquer custo. A sociedade pressiona nesse sentido “Seja igual a todos, mas faça melhor que qualquer um”, ou seja um paradoxo. Como fazer algo igual, a partir das mesmas bases, e obter resultados melhores?
            Essa é a grande charada da evolução. Seguir as regras até o limite de adquirir força suficiente para superar as regras e dar um salto no desconhecido. Se é desconhecido, não haverá guias, não haverá regras claras, quando muito a certeza de riscos e a possibilidade do fracasso, mas que se conseguir superar obterá uma capacidade inigualável, ou rapidamente será esquecido sem qualquer epitáfio. A pior parte do caminho do anti-herói é justamente essa, ele não tem uma zona de conforto, o chamado para a aventura não existe, ou melhor, sempre existiu e se chama sobrevivência, implicando que dependerá dos recursos da sociedade que o sustentou e agora exige a mudança, porém fará tudo para que fracasse e resistirá a qualquer alteração da balança do poder. O anti-herói precisa provar seu valor para ser reconhecido, o que é impossível até que a tarefa esteja completa, mas para conseguir alcançar o seu objetivo terá que convencer os provedores de recursos a ajuda-lo, fazendo o mesmo salto que ele no desconhecido.
            É nesse cenário de incertezas absolutas, de caos constante e desafios absurdamente enormes que o anti-herói tem que continuar sobrevivendo, e suportando as perdas pessoais e dos aliados que se arriscaram junto com ele nesse caminho, seguindo sua visão e confiando em suas habilidades. Parece impossível? Então considere que as coisas estão tão ruins que as chances de sucesso são mínimas para qualquer um, se nada for feito o fim já está decretado, por outro lado se fizer algo errado pode acelerar o fim OU pode encontrar uma solução inusitada para o problema, que permitirá que o próximo da fila consiga avançar mais um pouco. O anti-herói, nesse contexto, é a evolução do herói que depois de ter conquistado a sabedoria, de ter feito sua aventura e vencido coisas terríveis, percebe que esse é apenas o início da jornada e não há um “viveram felizes para sempre”, pelo contrário, os adversários agora sabem do que é capaz e se preparam para vencê-lo e destruir tudo o que conquistou. Sabe aquele mosquito que sugou o seu sangue? Ele é mais fácil matar enquanto está com a barriga cheia, porque se move mais lentamente, está mais pesado, a fartura o coloca mais próximo do risco pela indolência.
            Um herói evita arriscar a vida dos amigos e aliados, por isso que facilmente conquista apoio, o vilão não se importa com ninguém e por isso tem dificuldade de manter o apoio,  já o anti-herói sabe que não pode proteger a todos e a si mesmo, então escolhe não ter aliados ou prepara-los para se defenderem sozinhos, apenas apontando a direção para onde pretende ir e se aproveitando de qualquer avanço que puder tornar seu, mesmo que ao custo dos que o seguem. Percebe que essa é uma forma de apresentar a teoria da Evolução das Espécies de Darwin? Os melhores preparados sobrevivem, isso quer dizer que nem todos vão conseguir, ou melhor, para que alguns sobrevivam, todos tem que dar o seu melhor e criar soluções que ajudem a coletividade e a si mesmos, não há um indivíduo que vai solucionar tudo, mas um grupo de indivíduos que pode potencializar suas chances trabalhando por um objetivo em comum. Parte desse grupo não vai chegar ao final, não vai suportar, mas de outra forma ninguém conseguirá vencer a adversidade, o herói passa a ser aquele que se sacrifica pelos outros e não o que chegou até o final. Nesse modelo a coletividade se torna mais eficiente que o indivíduo e se alimenta dos indivíduos que a compõe, e obriga a um outro tipo de habilidade, a do Líder que motiva os que o acompanham e se arriscam junto em um projeto. O líder, diferente do herói, não tem todas as respostas e vai cometer erros, por isso tem que rever constantemente suas estratégias para não perder o apoio e a força que o grupo lhe fornece. Um líder egoísta morre sozinho ou é morto pelos que o apoiavam. Só um líder que tenta atender as necessidades da coletividade, mesmo lutando contra essa mesma coletividade, consegue apoio para sobreviver por tempo suficiente para fazer a diferença, até ser substituído por outro melhor capacitado que se formou no âmbito do grupo. É como o macho alfa de um bando de predadores, que tem seguidores enquanto conseguir sucessos, mas gera e sustenta os que irão substituí-lo entre os amigos e adversários.
            Conseguiu perceber os links com algumas narrativas de sucesso? Acredita que é injusto? Não é, se olhar pela perspectiva da evolução. Tudo tende a um declínio na natureza, chama-se entropia. A única forma de evitar a entropia é justamente manter a evolução constante, isso significa tornar as coisas diferentes para que continuem a funcionar, até porque tudo muda quando as soluções deram certo. Algo que muda para permanecer igual tende a decair em sua energia gerando a estagnação, a entropia. É por isso que há um movimento crescente da distopia, aquele modelo literário que quebra as regras e tenta demonstrar da forma menos idealizada os fatos, destruindo a jornada do herói e seus maniqueísmos e tentando demonstrar que entre os dois extremos há um universo de possibilidades interessantes, mas nem todas viáveis ou benéficas para os envolvidos, por isso é importante ter cuidado com as escolhas que se faz e quais regras pretende quebrar.
            Foi nessa linha de argumentação que desenvolvi um modelo literário diferenciado, para poder alcançar o máximo potencial da narrativa que se tornou o eixo central da Saga SOBREVIVENTES. Em primeiro lugar abandonei a jornada do herói, a jornada do anti-herói, a jornada do vilão e estabeleci um modelo em que nenhum personagem é mais importante que o outro, mas todos tem um papel fundamental no desenvolvimento da trama. Isso gerou um problema enorme para compor a narrativa, não havia um modelo que pudesse me apoiar, era um terreno pantanoso que tinha tudo para dar errado e apenas algumas possibilidades de sucesso. Tive que refazer todo o projeto diversas vezes ao longo de seis anos de trabalho, reformulando tudo até chegar ao ponto em que gerava os resultados desejados. A narrativa cresceu tanto que não cabia mais em um único volume e isso me obrigou a quebrar outro paradigma. Em Sagas é comum que a narrativa vá evoluindo ao longo dos volumes que podem ser intermináveis, enquanto o leitor tiver interesse, e as vezes não há interesse justamente porque são vários volumes para contar uma história. A solução foi pensar de outro modo, mais de acordo com a realidade das coisas e em consonância com o modelo que desenvolvi. Se os personagens são importantes em sua história, e são relevantes na história como um todo, mas nenhum é insubstituível, então porque não tornar cada livro independente, fazendo parte de um todo maior que vai se construindo?
            No modelo que construí para a narrativa distópica desenvolvida em SOBREVIVENTES, o eixo central é a sobrevivência. Sem vilões, heróis, anti-heróis, personagens centrais, mas com tudo isso junto, em histórias que se desenvolvem em livros fechados, com início, meio e fim, mas que compõem e ampliam o universo criado em que existem. São como peças de um quebra-cabeças em que cada uma se basta, mas que quanto mais peças, maior a diversão. Percebi uma coisa interessante nesse modelo, cada livro pode ser feito com um modelo diferente, que pode até ter a jornada do herói e seus maniqueísmos, pode ter a jornada do anti-herói e suas complexidades, pode até ter a jornada do vilão e suas perspectivas, ou pode ter tudo isso junto e misturado em uma narrativa diferenciada, como o volume de abertura que leva o nome da saga, SOBREVIVENTES. Onde quero chegar com essa loucura toda? Não sei, não há um objetivo a ser alcançado, mas uma jornada a ser percorrida que pode ajudar aos que trabalham com os modelos clássicos a progredirem e pode ajudar aos que querem romper com esses modelos a ver outras perspectivas, ao mesmo tempo que ofereço aos meus leitores uma forma diferente de narrar essa aventura e encantar, instruir, denunciar, questionar e divertir.
            Antes mesmo de ser lançado o primeiro volume, desenvolvi três livros dentro do modelo para verificar a funcionalidade. Estão prontos e serão lançados seguindo uma estratégia de marketing diferenciada, porque, como disse lá no início, precisamos inventar um mercado de livros no Brasil, e se é para inovar, vamos fazer bem feito. A evolução é necessária e para que as coisas funcionem, precisamos pensar que cada um dos envolvidos vai ter que contribuir com a sua parte para a coletividade e fazer com que seja conquistado algo que poderá nos dar uma nova chance de continuar tentando fazer melhor, usando tudo o que já sabemos e todas as regras já estabelecidas, mas avançando no desconhecido e inventando novas soluções para um mundo que tem que se recriar constantemente, para se manter vivo e evoluindo. Não há outra opção viável se quisermos continuar a nossa jornada em busca do melhor que podemos obter, sem destruir os caminhos para os heróis, anti-heróis e vilões que merecem ter suas histórias contadas e recontadas até que não sejam mais necessárias.
            Quer saber mais? Continue acompanhando nos meus canais o desenvolvimento desta jornada. Apresentarei oportunamente todos os bastidores da Saga, os modelos utilizados em cada um dos volumes, as técnicas de construção da narrativa e dos personagens e muito mais. Conto com o apoio de todos para que possa realizar essa jornada sem heróis ou vilões, mas com pessoas que vão dar o melhor de si para atingirem um patamar mais elevado de evolução. Deixe suas dúvidas, criticas, sugestões, apoio, nos comentários, todos serão parte desta história que estamos escrevendo juntos. As coisas nunca mais serão as mesmas, e isso faz toda a diferença no sucesso.

Danny Marks, 2018

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Aforismos de Criminal Minds 13ª Temporada




13x01 – Wheels Up

Aguente firme. Quando não há mais nada em você, exceto aquela vontade que diz: Aguente Firme!
Rudyard Kipling

13x02 – To a Better Place

Acredito que o único jeito de reabilitar alguém é matando.
Carl Panzram (Serial Killer)

Não é possível ligar os pontos olhando para a frente. Você só consegue liga-los olhando para trás, então tem que esperar que de alguma forma eles conectarão o seu futuro.
Steve Jobs

13x03 – Blue Angel

Crueldade, como qualquer outro vício, não precisa de motivo além de si mesmo. Só precisa de oportunidade.
George Eliot

O homem viaja pelo mundo para buscar o que precisa, e volta para casa para encontrar.
George Moore

13x04 – Killer App

Não é muito prudente ter muita certeza de sua própria sabedoria.
Mahatma Gandhi

O Assassino sobrevive à vítima somente para aprender que era ele mesmo que desejava se livrar.
Thornton Wilder

13x05 – Lucky Strikes

Gosto de virar as coisas do avesso para ver situações de outra perspectiva.
Ursus Werhli

Pessoas gostam de dizer que a batalha é entre bem e mal. A batalha de verdade é entre verdade e mentira.
Don Miguel Ruiz

13x06 – The Bunker

É assim que o mundo acaba, não com um tiro, mas com uma lamúria.
T. S. Elliot

Se soubesse que o mundo se desintegraria amanhã, ainda assim plantaria minha macieira.
Martin Luther.

13x07 – Dust and Bones

Quando há dor, não há palavras. Toda dor é igual.
Toni Morrison

Somos nossa própria dor. Somos nossa própria felicidade, e somos nosso próprio remédio.
Huseyn Rasa

13x08 – Neon Terror

O espetáculo é o capital a um tal grau de acumulação que se torna imagem.
Guy Debord

13x09 –  False Flag

Quando você elimina o impossível, o que sobra por mais improvável que pareça, só pode ser a verdade.
Sir Arthur Conan Doyle

Todos têm direito à sua própria opinião, mas não às suas próprias ações.
Daniel Patrick Moynihan

13x10 – Submerged

Não fale do mal, pois ele desperta a curiosidade no coração dos jovens
Provérbio Lakota

Onde houver ruina, haverá a esperança de um tesouro.
Jalaluddim Rumi

13x11 – Full-Tilt Boogie

Meus segredos obscuros ameaçam a vida. Uma infelicidade que guardo, que cria e cria.
Sue Townsend

Acho que o espirito humano dentro de todos nós é que tem uma capacidade enorme de sobreviver.
Amanda Lindhout

13x12 –  Bad Moon on the Rise

É efeito do desvio da lua; ela aproxima-se agora mais da Terra do que de hábito e deixa os homens loucos.
William Shakespeare

Mesmo aquele de coração puro e diz que ora à noite, pode se tornar um lobo quando a acônito floresce e a lua está cheia e brilhante.
Curt Siodmak

13x13 – Cure

É impossível sofrer sem fazer alguém pagar por isso. Cada lamento já contém vingança.
Friedrich Nietzsche

13x14 – Miasma

Minha ferida é geografia. É também meu ancoradouro, meu porto de escolha.
Pat Conroy

Todos nós, nascidos no caos, temos problemas antes de vir ao mundo.
William Faulkner

13x15 – Annihilator

Brigas em família são coisas amargas. Não são como dores ou feridas, são mais como rachaduras na pele que não querem curar porque não há material suficiente.
F. Scott Fitzgerald

13x16 – Last Gasp

A morte é a mãe da beleza, portanto, ela sozinha, deve vir como satisfação de nossos sonhos e desejos
Wallace Stevens

13x17 – The Capilano’s

Mascaras são um paradoxo maravilhoso. Enquanto podem esconder a realidade física, podem mostrar como uma pessoa quer ser vista.
Joanna Scott

Não cabe a nós amar ou odiar, pois sob nossa vontade prevalece o destino
Christopher Marlowe

13x18 – The Dance of Love

Talvez quando nos encontramos querendo tudo é porque estamos perigosamente perto de não querer nada.
Sylvia Plath

Então vem, vamos juntos os dois, a noite cai e já se estende pelo céu, parece um doente adormecido a éter sobre a mesa
T.S. Eliot

Não importa quão longe viajamos, as memórias seguirão no vagão de bagagem.
August Strindberg

13x19 – Ex Parte

A violência não é um catalizador e sim um desvio.
Joseph Conrad

Não presumas o dia de amanhã, porque não sabes o que ele trará
Provérbios 27:1

13x20 – All You Can Eat

Segurar a raiva é como beber veneno e esperar que a outra pessoa morra.
Anonimo.

Perdão é a fragrância que o galho de violeta deixou no calcanhar que o esmagou.
Mark Twain

13x21 – Mixed Signals

Convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que mentiras.
Friedrich Nietzsche

Esperar é acreditar que só o passado existe, seguir em frente é saber que há um futuro.
Daphne Rose Kingma.

13x22 – Believer

Uma coisa não é necessariamente verdade porque um homem morre por ela.
Oscar Wilde

segunda-feira, 30 de abril de 2018

O Segredo da Masmorra - Luiz Amato

É sempre um prazer poder divulgar a literatura, em especial a boa literatura brasileira. Luiz Amato é um dos autores que conheci ao longo da minha carreira e tive o prazer de conhecer o trabalho e a dedicação na sua obra. Agora ele se prepara para lançar uma nova narrativa "O Segredo da Masmorra". Junte-se aos leitores, e nisso me incluo, dessa grande aventura.


terça-feira, 3 de abril de 2018

O escritor Fernando Pessoa expõe-nos as suas ideias


O escritor Fernando Pessoa expõe-nos as suas ideias sobre os vários aspectos da arte e da literatura portuguesas.
Entrevistar Fernando Pessoa não é fácil. Só é fácil entrevistar os que não pensam, os que não se importam de jogar palavras, ao acaso, atirando-as impudicamente ao vento.
Fernando Pessoa, quer como Fernando Pessoa, quer como Álvaro de Campos - o engenheiro alucinado que comporta o seu segundo eu, e que aparece em toda a parte, enchendo a voz de louvores e raios para a Vida - raios partam a Vida e quem lá ande! -é sempre um voluptuoso do raciocínio, um amante da inteligência, podemos dizer: um criador duma nova Razão. Paradoxal? Sem dúvida. Mas há tantas maneiras de ser paradoxal!
A entrevista que se segue, toda escrita por Fernando Pessoa - nem podia deixar de ser, visto Fernando Pessoa possuir uma sintaxe própria para a lógica própria dos seus pensamentos, misto de seriedade e de ironia, vai decerto prender o espírito dos leitores...
Atenção! Fernando Pessoa vai responder às perguntas que lhe fizemos:
- Que pensa da nossa crise? Dos seus aspectos - político, moral e intelectual?
- A nossa crise provém, essencialmente, do excesso de civilização dos incivilizáveis. Esta frase, como todas que envolvem uma contradição, não envolve contradição nenhuma. Eu explico.
Todo povo se compõe de uma aristocracia e de ele mesmo. Como o povo é um, esta aristocracia e este ele mesmo têm uma substância idêntica; manifestam-se, porém, diferentemente A aristocracia manifesta-se como indivíduos, incluindo alguns indivíduos amadores; o povo revela-se como todo ele um indivíduo só. Só colectivamente é que o povo não é colectivo.
O povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo. Ora ser tudo em um indivíduo é ser tudo; ser tudo em uma colectividade é cada um dos indivíduos não ser nada. Quando a atmosfera da civilização é cosmopolita, como na Renascença, o português pode ser português, pode portanto ser indivíduo, pode portanto ter aristocracia. Quando a atmosfera da civilização não é cosmopolita - como no tempo entre o fim da Renascença e o princípio, em que estamos, de uma Renascença nova - o português deixa de poder respirar individualmente. Passa a ser só portugueses. Passa a não poder ter aristocracia. Passa a não passar. (Garanto-lhe que estas frases têm uma matemática íntima.)
Ora um povo sem aristocracia não pode ser civilizado. A civilização, porém, não perdoa. Por isso esse povo civiliza-se com o que pode arranjar, que é o seu conjunto. E como o seu conjunto é individualmente nada, passa a ser tradicionalista e a imitar o estrangeiro, que são as duas maneiras de não ser nada. É claro que o português, com a sua tendência para ser tudo, forçosamente havia de ser nada de todas as maneiras possíveis. Foi neste vácuo de si próprio que o português abusou de civilizar-se. Está nisto, como lhe disse, a essência da nossa crise.
As nossas crises particulares procedem desta crise geral. A nossa crise política é o sermos governados por uma maioria que não há. A nossa crise moral é que desde 1580 - fim da Renascença em nós e de nós na Renascença - deixou de haver indivíduos em Portugal para haver só portugueses. Por isso mesmo acabaram os portugueses nessa ocasião. Foi então que começou o português à antiga portuguesa, que é mais moderno que o português, e é o resultado de estarem interrompidos os portugueses. A nossa crise intelectual é simplesmente o não termos consciência disto.
Respondi, creio, à sua pergunta. Se V. reparar bem para o que lhe disse, verá que tem um sentido. Qual, não me compete a mim dizer.
- Que pensa dos nossos escritores do momento, prosadores poetas e dramaturgos?
- Citar é ser injusto. Enumerar é esquecer. Não quero esquecer ninguém de quem me não lembre. Confio ao silêncio a injustiça. A ânsia de ser completo leva ao desespero de o não poder ser. Não citarei ninguém. Julgue-se citado, quem se julgue com direito a sê-lo. Resolvo assim todos. Lavo as mãos, como Pilatos; lavo-as, porém, inutilmente, porque é sempre inutilmente que se faz um gesto simplificador. Que sei eu do presente, salvo que ele é já o futuro? Quem são os meus contemporâneos? Só o futuro o poderá dizer. Coexiste comigo muita gente que vive comigo apenas porque dura comigo. Esses são apenas os meus conterrâneos no tempo; e eu não quero ser bairrista em matéria de imortalidade. Na dúvida, repito, não citarei ninguém.
- Estaremos em face de uma renascença espiritual?
- Estamos tão desnacionalizados que devemos estar renascendo. Para os outros povos, na sua totalidade eles próprios, o desnacionalizar-se é o perder-se. Para nós, que não somos nacionais, o desnacionalizar-se é o encontrar-se. Apesar dos grandes obstáculos à nossa regeneração - todas as doutrinas de regeneração - estamos no início de tornar a começar a existir. Chegámos ao ponto em que colectivamente estamos fartos de tudo e individualmente fartos de estar fartos. Extraviámo-nos a tal ponto que devemos estar no bom caminho. Os sinais do nosso ressurgimento próximo estão patentes para os que não vêem o visível. São o caminho-de-ferro de Antero a Pascoaes e a nova linha que está quase construída. Falo em termos de vida metálica porque a época renasce nestes termos. O símbolo, porém, nasceu antes dos engenheiros.
Nada há a esperar, é certo, das classes dirigentes, porque não são dirigentes; e ainda menos da proletariagem, porque ser inferior não é uma superioridade. Com razão lhes chamei eu, a estes, subgente, num artigo da antiga Águia - da Águia que voava. Só a burguesia, que é a ausência da classe social, pode criar o futuro. Só de uma classe que não há pode nascer uma classe que não há ainda. Seja como for, avancemos confiadamente. Todos os caminhos vão dar à ponte quando o rio não tem nenhuma.
- O que se deve entender por arte portuguesa? Concorda com este termo? Há arte verdadeiramente portuguesa?
- Por arte portuguesa deve entender-se uma arte de Portugal que nada tenha de português, por nem sequer imitar o estrangeiro. Ser português, no sentido decente da palavra, é ser europeu sem a má-criação de nacionalidade. Arte portuguesa será aquela em que a Europa - entendendo por Europa principalmente a Grécia antiga e o universo inteiro - se mire e se reconheça sem se lembrar do espelho. Só duas nações - a Grécia passada e Portugal futuro - receberam dos deuses a concessão de serem não só elas mas também todas as outras. Chamo a sua atenção para o facto, mais importante que geográfico, de que Lisboa e Atenas estão quase na mesma latitude.
- O regionalismo na literatura e na pintura?
- O regionalismo é uma degeneração gordurosa do nacionalismo, e o nacionalismo também. E como o nacionalismo é antiportuguês (sendo bom, cá no Sul, só para os povos latinos e ibéricos), o regionalismo em Portugal é uma doença do que não há. Amar a nossa terra não é gostar do nosso quintal. E isto de quintal também tem interpretações. O meu quintal em Lisboa está ao mesmo tempo em Lisboa, em Portugal e na Europa. O bom regionalismo é amá-lo por ele estar na Europa. Mas quando chego a este regionalismo, sou já português, e já não penso no meu quintal. (O facto de o meu quintal ser inteiramente metafórico não diminui a verdade de tudo isto: Deus, e o próprio universo, são metáforas também.)
- Teriam existido em toda a nossa história literária períodos de criação?
- O nosso único período de criação foi dedicado a criar um mundo. Não tivemos tempo para pensar nisso. O próprio Camões não foi mais que o que esqueceu fazer. Os Lusíadas é grande, mas nunca se escreveu a valer. Literariamente, o passado de Portugal está no futuro. O Infante, Albuquerque e os outros semideuses da nossa glória esperam ainda o seu cantor. Este poderá não falar deles; basta que os valha em seu canto, e falará deles. Camões estava muito perto para poder sonhá-los. Nas faldas do Himalaia o Himalaia é só as faldas do Himalaia. É na distância, ou na memória, ou na imaginação que o Himalaia é da sua altura, ou talvez um pouco mais alto. Há só um período de criação na nossa história literária: não chegou ainda.
- Continuará sendo o lirismo a nossa feição literária predominante?
- Há duas feições literárias -a épica e a dramática. O lirismo é a incapacidade comovida de ter qualquer delas. O que é ser lírico? É cantar as emoções que se têm. Ora cantar as emoções que se têm faz-se até sem cantar. O que custa é cantar as emoções que se não têm. Sentir profundamente o que se não sente é a flâmula de almirante da inspiração. O poeta dramático faz isto directamente; o poeta épico fá-lo indirectamente, sentindo o conjunto da obra mais que as partes dela, isto é, sentindo exactamente aquele elemento da obra de que não pode haver emoção nenhuma pessoal, porque é abstracto e por isso impessoal. Fomos esboçadamente épicos. Seremos inviolavelmente dramáticos. Fomos líricos quando não fomos nada. O lirismo só continuará sendo a nossa feição predominante se não formos capazes de ter feição predominante.
- O que calcula que seja o futuro da raça portuguesa?
-O Quinto Império. O futuro de Portugal —que não calculo mas sei —está escrito já, para quem saiba lê-lo, nas trovas do Bandarra, e também nas quadras de Nostradamo. Esse futuro é sermos tudo. Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguesmente no Paganismo Superior? Não queiramos que fora de nós fique um único deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistámos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Politeismo Supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade.
13-10-1923
Ultimatum e Páginas de Sociologia Política . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. 
 - 3.
1ª publ. in Revista Portuguesa, nº 23-24. Lisboa: 13-10-1923.

disponível em http://arquivopessoa.net/textos/980 (acesso em 03/04/2018)

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