O homem não é o que ele pensa ser. Ele é o que se esconde.
Andre Malraux
15x02 – Awakenings
Nada acontece até que algo se mova.
Albert Einstein
Que sorte que eu tenho de possuir algo que torna tão difícil a despedida.
A. A. Milne
15x03 – Espectator Slowing
A vida não tem obrigação de nos dar o que esperamos.
Margaret Mitchell
15x04 – Saturday
A única razão para perguntarmos sobre o fim de semana de alguém é para podermos contar sobre o nosso.
Chuck Palahniuk
15x05 – Ghost
Agora eu sei o que é um fantasma. Questões pendentes, é isso que é.
Salman Rushdie
A única coisa que torna a batalha psicologicamente tolerável é o companheirismo entre os soldados. Sebastian Junger
15x06 – Date Night
Psicóticos: diga o que quiser sobre eles, mas eles sempre tomam a iniciativa.
David Foster Wallace
15x07 – Rusty
A história possui um modo de alterar os vilões de forma que não nos vejamos mais neles.
Adam Serwer
Devemos estar dispostos a deixar a vida planejada para termos assim a vida que espera por nós.
Joseph Campbell
15x08 – Family Tree
Eles falam do que bebo, mas não da minha sede.
Provérbio Escocês
Nós, Serial Killers, somos seus filhos, somos seus maridos, nós estamos em toda parte e haverá mais crianças suas mortas amanhã.
Ted Bundy
(Theodore Robert Bundy, mais conhecido pela alcunha de "Ted Bundy" foi um notório assassino em série americano que sequestrou, estuprou e matou várias mulheres jovens na década de 1970 ou antes. Wikipédia)
15x09 – Face Off
Pessoas feridas são perigosas. Elas sabem que conseguem sobreviver.
Josephine Hart
15x10 – And in the End…
Boa noite. Adeus. Boa sorte. Não chore. É o limite de tudo isso. Todos os meus amigos. No final do mundo. Desejo vê-los novamente. É o final deste tempo. É o final do nosso tempo. Oh, quão pouco sabemos. Temos um caminho tão longo a frente. Quando você dormir hoje à noite você estará em meus sonhos. É um tipo de amor, é tudo escuro. Nada me confortando. A Terra ficou em silêncio e o ar parou. Agora eu sinto você mais do que jamais senti.
Qual o conselho que você dá para os escritores iniciantes?
Invariavelmente me fazem essa pergunta nas palestras que participo e a minha
resposta é invariavelmente a mesma: Desista. Se você conseguir então pode ter
uma vida tranquila, do contrário, bem-vindo ao time dos que vão sofrer para o
divertimento de César.
Atualmente qualquer pessoa pode publicar um livro, ou
vários. Existe uma indústria inteira dedicada aos novos escritores. Sim, é uma indústria
lucrativa para quem trabalha no entorno da produção literária. Um autor
independente paga para fazerem a revisão, diagramação, capa, divulgação, book
trailer, eventos de lançamento, eventos de autógrafos, sorteio de livros,
ilustrações, críticos, agentes literários (que talvez consigam uma chance de
publicação em uma grande editora). Há os que pagam para uma editora fazer tudo
isso e ficam com uma pequena parte do possível lucro e uma boa parte das
despesas (as editoras por demanda).
Há plataformas que você pode até publicar gratuitamente, ou
quase, porque o trabalho de vender, divulgar, diagramar, fazer capa, ilustração,
etc é todo seu e se conseguir vender bem, recebe parte do lucro. Mas pode se
arriscar a enviar originais para alguma editora e responder perguntas do tipo:
Quantos dos seus amigos acredita que comprariam o seu livro? Qual o nível de influência
digital que você possui? Qual a sua previsão de vendas para um primeiro disparo?
Há algo errado nisso? Sim, há. Amigos não são “público”,
não os torne isso ou vai ficar sem os dois mais rápido que imagina. Amigos
podem comprar seus livros e até gostarem de suas histórias, mas não baseie sua
carreira na quantidade de amigos dispostos a “dar uma força” ou ela vai
terminar de forma mais rápida e frustrante que imagina. Qualquer pessoa
razoavelmente consciente de como funciona o mercado literário sabe que um livro
não se vende sozinho, por melhor que seja a história. O autor precisa ser, no
mínimo, famoso antes de tentar a fama na literatura. Se não for famoso,
considere gastar um bom dinheiro em marketing pessoal e do seu livro para ter
alguma chance, ou espere um golpe de sorte que pode levar anos, ou nunca chegar.
Considere também fazer muitos cursos de aperfeiçoamento,
melhorar cada vez mais a escrita, aprofundar seus conhecimentos de roteiros,
nichos de mercado, estilos literários, tendências de público, pesquisas gerais
e ferramentas de trabalho tecnológicas (sim, existem várias disponíveis e necessárias
para cada uma das etapas que vai ter que enfrentar). Depois de pronto o livro
vem a parte trabalhosa de se divulgar e divulgar a sua obra. E se fizer sucesso
(parabéns!) prepare-se para ser cobrado do próximo livro em menos de um ano. Ou
seja, não terá tempo para fazer a divulgação do livro recém-lançado e o próximo
livro ao mesmo tempo. E se demorar demais para lançar o segundo, já terá
perdido o impulso do primeiro, é nesse ponto que entram os agentes da indústria
do livro para ajuda-lo (e lucrar) com seu trabalho.
Isso ocorre basicamente em qualquer país do mundo, mas há países
como o Brasil em que as coisas são piores. Aqui livro não é gênero de primeira
necessidade, não é considerado como diversão, a menos que possa ser discutido
abertamente com os amigos que também leram e gostaram. Ou seja, se não
conquistar uma galera legal logo de cara, suas chances de sucesso decrescem absurdamente.
As pessoas vão achar muito caro um livro de um autor brasileiro desconhecido
que custa em torno de R$ 50,00 (a média das produções independentes), pagarão mais
caro para ter um livro importado de um autor famoso, ou irão preferir gastar
mais em uma noitada regada a cerveja (uma pizza chega a esse valor facilmente,
já pensou nisso?).
Tem a questão da distribuição, se o seu livro não ficar
acessível, não será comprado. O frete custa caro, um livro usado de um autor
estrangeiro custa em média R$ 20,00, o frete custa em torno de R$ 10,00. Ou
seja, um livro usado de um autor estrangeiro que alguns amigos comentam custa
mais barato do que um livro novo de um autor nacional que ninguém conhece, e
jamais vão conhecer porque ninguém deu uma oportunidade. Mas é claro que há os
eBooks que além de serem ecológicos permitem uma ampliação do mercado e dos
leitores, certo?
Errado. Já parou para ver o preço dos leitores de eBook? As
plataformas dedicadas de sua “biblioteca” que não podem ser lidas em outros
espaços de uma forma confortável? Já se imaginou indo a praia ou em algum lugar
público levando um eReader? Que tal ler no notebook ou tablet? Celular?
Provavelmente vai ficar mais preocupado em ser assaltado do que com a história,
fora o desconforto de um aparelho não direcionado para uma leitura prazerosa.
Livros físicos ainda são a melhor opção nesses casos portanto voltamos ao mesmo
ponto. Sem divulgação, sem vendas. Sem escala, preços que são “caros” se
comparados a outros tipos de divertimento que dão menos trabalho. Um cinema
conta uma história de 200 páginas em duas horas e custa quase o mesmo preço e
muita gente vai ver. Claro que não é a história completa, mas se pode assistir
o resumo, para que imaginar todo o roteiro?
Percebe que não é tão maluca a minha resposta lá do início?
Ser Escritor não é uma profissão conceituada, tanto que atualmente qualquer um
pode se considerar escritor e alimentar essa indústria com seus sonhos e
esperanças. E não vejo problema algum nisso. As pessoas precisam trabalhar e é
bom que alguém possa ganhar dinheiro com livros no Brasil, ainda que não sejam
os autores, ainda que seja às custas deles. Mas que seja dito a verdade e que
saibam onde estão se metendo para não ficarem frustrados e acreditarem que
estão fazendo algo de errado. Não estão, apenas não há nenhum interesse em
tornar alguém um ilustre artista sem que tenha percorrido todo o calvário de
armadilhas, desesperos, os sete círculos do inferno de Dante.
Se conseguir desistir, faça agora e vai perceber que foi um
ótimo negócio abandonar essa besteira. Mas se não conseguir, então não tem
jeito. Torne-se o seu principal leitor, escreva para o seu prazer e satisfaça-se
com isso. Invista no seu trabalho como se fosse um hobby caro do qual extrai
tudo o que precisa, mesmo que sejam alguns elogios de pessoas próximas. Perceba
que a sua vida é uma história e que ela contém inúmeras narrativas
interessantes que gostaria de deixar registradas em algum lugar para que possa
olhar para elas de vez em quando e se emocionar. Publique seu livro com a
qualidade que gostaria de ver em todos os livros que compra, porque aqueles que
lhe derem esse voto de confiança merecem respeito e simpatia.
E quando ver alguém tentando fazer o mesmo, ajude-o. Compre
o livro dele, divulgue o trabalho, converse a respeito e ouça o que ele tem a
dizer. Pode se surpreender ao ter prazer nisso, saber que por mais solitária
que seja a escrita, não está realmente sozinho. Está cercado de personagens de
todos os tipos, de pessoas que merecem ouvir ou ler uma boa história. Vai
perceber que todo esforço vale a pena, se a alma não for pequena, como disse um
escritor que ninguém conheceria se não tivesse se aventurado nesse caminho. Que
teve que penar muito para ter seus textos lidos e ser reconhecido, mas hoje
todos sabem que existiu e se tornou importante para muitos.
E se quiser saber da minha obra e ajudar a divulgar, então
passe no meu site e veja quantas histórias podemos partilhar. Terei o maior prazer
em conversar com você em www.dannymarks.com.br.
Obrigado por sua atenção, nos vemos na próxima história.
Existem
histórias que acabam não sendo contadas, não por sua importância, mas por
outros fatores que nem sempre dominamos. Esta história envolve literatura,
ficção e vida real, sem barreiras separando-as. Aconteceu no domingo,
18/08/2019, em Paranapiacaba/SP onde ocorriam dois eventos simultâneos. O
Festival do Cambuci, com diversas iguarias feitas a partir desta fruta e o VI
Steamcon Paranapiacaba, um evento steampunk. Para quem não conhece o Steampunk
é uma variação literária originada do Movimento Cyberpunk que renovou a Ficção
Científica em bases diferentes, demonstrando que nem sempre a tecnologia traz
em seu bojo as sementes de uma sociedade melhor; por ser uma ferramenta
necessita de pessoas melhores para que os seus resultados sejam proveitosos
para todos. Com essa premissa básica surgiram inúmeros subgêneros da Literatura
Cyberpunk (que se tornou um gênero literário em si, com variantes próprias),
entre eles o retrofuturismo vitoriano, também conhecido como Steampunk.
Paranapiacaba
tem sua história vinculada às ferrovias, cujas locomotivas antigas usavam a energia
do vapor para se deslocar. Junto a sua bem preservada estrutura de uma cidade
interiorana com casas em modelos que lembram as antigas construções (algumas
são desse período mesmo, restauradas e preservadas) e o clima montanhoso e
cheio de cenários e histórias fortes, tornou-se um ponto ideal para as pessoas
que criam personagens baseados no modelo ficcional do Steampunk, com
acessórios, armas e roupas que lembram a época vitoriana em especial ou
variações que remetem ao tema e seguem um possível avanço tecnológico
alternativo. Steamplay é mais do que criar um personagem, é criar uma história
para o seu personagem e incorpora-lo durante os eventos, reconstruindo a
literatura em bases concretas, mesclando-a com a realidade de forma harmônica
para além da imaginação.
Ok,
este é o cenário básico da minha história real, mas serve apenas para pano de
fundo da cena em si. No dia citado compareci como autor e apreciador de eventos
literários. Sempre é bom conhecer mais pessoas e situações, sem falar em
cenários que posso usar em algumas das minhas narrativas. Mas, como sempre
digo, mais importante do que os cenários são as pessoas. É nesse ponto que
entra a minha mais recente amiga Rosana Martim. Eu havia andado
pela cidade sob um sol forte, usando roupas não tão adequadas a um clima
desses, ainda mais que nunca se sabe quando vai fazer um frio congelante ou um
calor escaldante, às vezes as temperaturas sobem ou descem de forma
assustadoramente sobrenatural por lá, fica o aviso.
Cansado
depois de um dia com diversos eventos e atrações, depois de ter visitado
diversos lugares e ficado com a certeza de que não conseguiria ver tudo o que
gostaria, não importando quantas vezes retornasse (que dirá em um único dia),
passei em frente a uma das casas que também abriga um comércio. Convidado por
um amigo que foi comigo na excursão para o evento, me sentei para terminar de
tomar o sorvete de morango com leite condensado e cobertura de limão (parece
absurda a combinação, mas estava excelente). Sedento pelo sol, pelo sorvete e
por ter desidratado em bicas durante o dia, resolvi comprar uma água no café
que há dentro da casa. Perguntei a dona Rosana se tinha água e ela me disse que
não tinha nenhuma para vender, mas me ofereceu uma água aromatizada com ervas
de sua fabricação.
Eu
queria água gelada, ela percebeu isso, a aromatizada era ao natural, então me
perguntou se servia uma “torneiral estupidamente gelada”. Eu brinquei que só
aceitaria se fosse assim, já que não poderia comprar a água iria ser exigente.
Ela riu e pegou no freezer um copo de água que estava quase congelando. Reparei
que era um copo plástico comum, desses que se usam para beber, não era um
empreendimento de fazer gelo ou algo do tipo. Aceitei a generosa oferta
percebendo que se destinava a dona do estabelecimento que ao ver a minha
frustração em não ter uma água fresca para matar a sede, resolveu me ceder sua
própria.
Bebi
com satisfação e agradecimento, aceitei depois mais um copo de água
aromatizada. Naquele momento me lembrei do romance Um Estranho em Uma Terra
Estranha do Robert Heinlein que trata sobre um humano criado por marcianos e
que considera como uma oferenda de irmandade, um copo de água. Para quem
conhece a história fazer paralelos é muito simples, para quem não conhece, fica
a recomendação de uma excelente novela de FC. Assim que percebi que havia
recebido uma graça dessa graciosa pessoa que é Rosana, me senti compelido a lhe
dar algo tão simbólico e dadivoso quanto. Peguei o meu boton de Sobreviventes,
com a triqueta enlaçada (símbolo celta da trindade divina, do infinito, das
boas energias universais de prosperidade e fartura que também representa o meu
livro SOBREVIVENTES) e presenteei a minha “irmã de água”. Meu celular estava
com a bateria quase no fim e achei até que já havia “morrido”, me despedi da
senhora e fui até a feira comprar um licor de cambucí em uma caveira de vidro
(queria levar algo de lembrança, com muitas ideias delirantes na cabeça).
Então
em um impulso resolvi verificar o meu cel e vi que restava uma faixa vermelha
de bateria, mas ainda não havia “morrido”. Voltei até a casa da Rosana e pedi
para tirar uma foto com ela, se conseguisse. Um rapaz que havia estado lá
tomando um café e estava de saída, e que acompanhara todo o caso, se ofereceu
para bater as fotos antes de ir. Agradeci esse gesto de bondade também. Como
falei para dona Rosana, uma gentileza se paga com gentileza e isso torna o
mundo melhor para todos. Estava provado o fato naquele momento. Tiramos as
fotos, peguei o cartão dela para enviar a foto e prometi divulgar a sua loja.
Mais do que isso escolhi divulgar a generosidade de Rosana do espaço colaborativo de artesões Mutyrô (mutirão em tupi-guarani) em Paranapiacaba.
Conversamos
sobre o meu livro e ela sempre generosa escutou com atenção. Ainda a vi depois
pouco antes de voltar ao ponto de encontro para o retorno e dei um aceno de mão
que ela me retribuiu. Fiquei com a marca desse mágico encontro em uma cidade
mágica, em meio a um evento cheio de magia e literatura, agraciado por uma água
fresca, pela generosidade e pelas ervas aromáticas. Existem histórias que
jamais vão ser contadas, muitas vezes por que nos perdemos em meio a tantas
questões menores, mas esta faço questão de deixar registrada, principalmente
porque são esses pequenos gestos que renovam a minha fé no Ser Humano e na
Literatura que sempre se preocupa em nos apontar os caminhos bons e ruins para
que possamos fazer nossas escolhas conscientes da responsabilidade que
adquirimos com nossos atos. Não sei se ainda volto em
Paranapiacaba, o futuro não nos pertence, embora sempre estejamos tentando nos
apossar dele e determina-lo. Não sei o que dona Rosana, minha irmã de água vai achar
ao ler esta crônica, mas a história será contada e recomendo a quem for à
Paranapiacaba que procure o Mutyrô da dona Rosana. Houve tantas outras
histórias interessantes neste dia, mas isso fica para outro momento, esta é a
história da Água Aromatizada de Paranapiacaba, e é tudo o que precisa ser.
PS: Corrigi os nomes com base no gentil email que recebi de Rosana MARTINS, do espaço colaborativo para artesões MUTYRÔ. Essas informações eram provenientes de um cartão de visitas que não estava muito legível e por isso o erro, mas aqui está parte da resposta da minha amiga por email e o motivo das alterações.
"Muito obrigada pelas fotos e pelas referências a meu gesto tão...
simples: um copo de água!
Mas acho, como você, que é isso mesmo... os pequenos gestos talvez
sejam os realmente grandes, aqueles capazes de mudar o mundo.
Meu nome é Rosana Martin. O nome desse espaço em que você tomou
água é Mutyrô ("Mutirão", em tupi-guarani). Somos artesãos reunidos
nesse espaço colaborativo.
O Funicularte não é meu... somos artesãos, na área de cerâmica,
que trabalham em Paranapiacaba.
Obrigada mais uma vez por tudo. " Rosana Martin
Eu é que agradeço, sempre, os gestos de generosidade que são distribuídos tão graciosamente. Com certeza vão mudar o mundo.
A única coisa nova no mundo é a história que
você não sabe.
Harry Truman
A Família. Aquele querido polvo cujos
tentáculos não conseguimos escapar, nem no fundo do coração desejamos escapar.
Dodie Smith
14x02
– Starter Home
A memória é uma mulher maluca que coleciona
trapos coloridos e desperdiça comida.
Austin Omalley
Sem família, sozinho no mundo, o homem
estremece no frio.
Andre Maurois
14x03
– Rule 34
O fascínio da fama é tão grande, que queremos
associar tudo a ela, até mesmo a morte.
Blaise Pascal
As crianças nunca foram boas em escutar os
mais velhos, mas não falham em imita-los.
James Baldwin
14x04
– Innocence
Vivemos num mundo de fantasia, um mundo de ilusão.
A grande missão da vida é encontrar a realidade.
Iris Mudoch
Quando as feridas são curadas com amor, as cicatrizes são lindas.
David
Bowles
14x05 – The Tall Man
A pergunta mais importante que se pode fazer a
si mesmo: Em qual mito estou vivendo?
Carl Jung
Há tempos em nossas vidas quando temos que
perceber que nosso passado é exatamente isso e não podemos muda-lo, mas podemos
mudar a história que contamos a nós mesmos. E fazendo isso, podemos mudar o
futuro.
Eleanor Brown
14x06
– Luke
Sou um lutador. Acredito na lei do olho por
olho.
Muhammad
Ali
14x07
– Twenty Seven
.......
14x08
– Ashley
Quando você tem uma criança, o mundo tem um
refém.
Ernest Hemingway
A vontade de ter um lar vive em todos nós, o
lugar seguro que podemos ir como somos sem ser questionados.
Dra
Maya Angelou
14x09 – Broken Wing
Se não conhece alguém que teve problema com
algum vício, você conhecerá.
Dana Boente.
O elo que liga sua verdadeira família, não é de
sangue, mas o respeito e alegria na vida um do outro.
Richard
Bach
14x10 – Flesh and Blood
O que é passado é prólogo.
William Shakespeare
A história nunca se repete, mas frequentemente
rima.
Mark Twain
14x11
– Night Lights
Vingança, o pedacinho mais doce à boca já
cozido no inferno.
Sir Walter Scott
Todos vão morrer, todos nós. Que circo. Só isso
deveria fazer amarmos uns aos outros, mas não faz. Somos aterrorizados e
achatados por trivialidades. Somos devorados por nada.
Charles Bukowski
14x12
– Hamelin
Há sempre um momento na infância em que a porta
abre e deixa o futuro entrar.
Graham Greene
Não é o que eles falam sobre você, é o que
eles sussurram.
Errol Flynn
14x13
– Chameleon
As coisas mais importantes são as mais difíceis
de dizer.
Stephen
King
14x14 – Sick and Evil
O medo me fez cruel
Emily Brontë
Como alguém não sente medo, me pergunto? Como
você dispara um tiro através de seu coração, corta sua cabeça, pega pela sua
garganta?
Joseph
Conrad
14x15 – Truth or Dare
Todos temos um monstro dentro de nós. O que
difere é o grau, não o tipo.
Adversários mortais serão
obrigados a formar alianças se quiserem ter alguma chance de vencer inimigos
ainda mais poderosos e organizados. Terão que aprender a manipular as forças
destrutivas, econômicas, tecnológicas, naturais, sociais, qualquer coisa que
lhes permita sobreviver e vencer a guerra mais sangrenta e imoral que já
existiu, sem fronteiras, sem quartel, sem heróis. Cada grupo acredita ter o
conhecimento necessário para resolver a grande crise que se apresenta,
definindo quais serão os rumos melhores para os sobreviventes. Depois deste
romance, o futuro e a humanidade jamais serão vistos da mesma forma. E essa
história começa AGORA.
Uma produção SPC Assessoria em parceria com Danny Marks
(Esta é
uma obra de ficção, um exercício imaginativo, e tem o interesse exclusivo de
ser divertido. Nenhuma das informações aqui apresentadas representa um fato
real ou se refere a pessoas reais e suas reais intenções. O ministério da saúde
mental adverte, não leia bobagens deste tipo, mesmo que vindas de sites
estrangeiros).
— Olá
amigos do Coluna D2, o único lugar onde a boca é livre. Diante dos fatos
recentes na política nacional, surgiram inúmeras teorias de conspiração e a Coluna
de Dois não podia ficar de fora desse importante evento. Então chamamos um especialista
nessa área para garantir um padrão mínimo de qualidade nos relatos, e
descobrimos coisas interessantes. Dr Soum Homem, então dizendo que não foi um
atentado, que a faca não era de verdade e que não havia sangue em lugar nenhum,
o que o senhor tem a dizer sobre isso?
—
Obrigado à Coluna D2 pela oportunidade de demonstrar minhas habilidades como
Antropófago Social, Sexoanalógico e Analista Conspiratório. Essa versão
apresentada é fraca porque há uma equipe médica publica que fez a cirurgia e
ficaria difícil esconder os fatos no longo prazo. Mas é possível melhorar esse
relato acrescentando alguns detalhes, por exemplo: A facada foi de mentira,
tudo simulação, mas HOUVE uma facada POSTERIOR, dada por um especialista em
esfaqueamento, dentro do carro em que a vítima estava sendo transportada, de
forma a prevenir que a vida do candidato não estivesse realmente ameaçada.
— E
por que isso seria feito, Doutor?
— Ora,
os motivos são óbvios. Quando o candidato atingiu o teto das intenções de voto
nas pesquisas, com um índice de rejeição que chega a quase 50%, o que
obviamente o faria perder o segundo turno, que todos sabem que haverá, contra qualquer
candidato opositor. Foi necessário criar uma sintonia com a população através
de um engajamento emocional. O brasileiro é um povo passional, se solidariza com
vítimas desde que não tenha que ter que cuidar delas. Haja vista os crimes
políticos recentes e o acidente com aquele time de futebol. As pessoas querem
ajudar, e isso pode ser usado em um complô conspiratório facilmente.
—
Então o senhor acredita que o candidato estava conivente com o fato.
—
Absolutamente! Como bom brasileiro o candidato não gosta de se envolver
diretamente, ele prefere fazer discursos para que outros façam alguma coisa, se
colocar em risco é algo que não condiz com a conduta prévia. Haja vista que
apesar de apoiar o uso de armas para as pessoas se defenderem, quando foi assaltado,
estando armado, preferiu entregar a arma a arriscar a vida, o que está
corretíssimo.
—
Então o doutor concorda com a tese de que o atentado foi real e promovido por
opositores políticos...
— Essa
tese é melhor que a do falso atentado. Ele realmente teria acontecido e
planejado por uma oposição incompetente e desesperada, que ignorando todos os
especialistas de que qualquer um poderia vencer o candidato em um segundo
turno, em uma crise de ansiedade, teria cometido o erro de ajudar o partido do
opositor assassinando o candidato e tornando-o um mártir. Mas isso é ridículo,
porque todos sabem que os políticos brasileiros podem ser tudo, menos idiotas,
poderiam fornecer apoio por baixo dos panos e depois de eleito cobrar favores,
como vem sendo feito há décadas.
—
Estou confuso, doutor Soum. Então qual seria a motivação, houve ou não um atentado?
— É
claro que houve! Isso é incontestável. Eu gosto mais da teoria que diz que foi
planejado a despeito do candidato, sem a sua ciência, pelo próprio partido.
Assim, se livrariam de um candidato fraco e elevariam o vice a uma posição
privilegiada, angariando os votos anteriores e a simpatia da população, o que
seria fácil para um general comandar com alguma habilidade. Note que estrategicamente,
isso é mais coerente, de uma tacada ganhariam uma projeção nacional que não
teriam com o reduzido tempo de campanha, eliminariam a estratégia dos
adversários de atacar o candidato pelos seus discursos, e ainda teriam a
simpatia de parte da população. Um verdadeiro judô Sun Tzu, conhece o teu
adversário e a si mesmo e vai controlar o terrítório. O que deu errado, nesse
caso, foi o pretenso assassino ser incompetente e não ter feito o serviço
direito.
— Nossa,
então o senhor acredita que o próprio partido queria dar fim ao candidato para vencer
a eleição com o vice? Isso é que é teoria da conspiração!! Nunca imaginaria a
possibilidade de um vice querer derrubar a pessoa que apoiava para tomar o seu lugar.
O doutor tem certeza disso? Não é surreal demais?
— Eu
falei que gosto dessa tese, mas é claro que isso é um absurdo. Seria necessário
encontrar alguém que estivesse disposto a cometer o ato, alguém com características
de um lobo solitário, garimpado nas redes sociais, que seria induzido por uma
metodologia terrorista a cometer um ato criminoso por ideologia política. Seria
necessário que houvesse um planejamento prévio, como
um plano B para o caso da estratégia de campanha fracassar e envolveria uma grande
capacidade de planejamento.
— Mas
os fatos demonstram que o pretenso assassino estava planejando isso há tempos.
Chegou a frequentar a academia de tiro que os filhos do candidato usavam, viajou
por vários lugares do país.
— Sim,
e tem quatro advogados mesmo não tendo renda suficiente e estar desempregado.
Mas isso é só uma coincidência. Como disse antes, brasileiros gostam de ajudar,
provavelmente alguém tentou ajudar o coitado e achou que seria interessante o
homem procurar emprego em outros lugares, quem sabe até fazer um curso de
segurança, daí a academia de tiro. Mas o cara não conseguia segurar uma arma, e
a prova disso é que acabou usando uma faca, quando um tiro a queima roupa seria
mais eficiente. Os advogados foram contratados pelos verdadeiros conspiradores
para encobrir os fatos.
— E
isso não depõe a favor dessa teoria de que o próprio partido idealizou o
ataque? Algo que o próprio candidato já tentou fazer anteriormente ao simular
um atentado a bomba que deu errado...
—
Exato! Esse é o ponto. O brasileiro não tem a tecnologia de conspiração para
fazer algo do tipo funcionar corretamente, nunca conseguiram antes, daria tudo errado,
deixaria muitos buracos que uma investigação eficiente denunciaria facilmente...
— Mas
então, me desculpe perguntar, qual é a sua teoria?
— Ora,
mas é obvio, meu caro repórter D2. Trata-se de mais um complô dos reptilianos
que estão mancomunados com a URSAL para derrubar a democracia brasileira e
torna-la um paraíso para os lagartos jogando a culpa sobre outras instituições.
Há anos eles vêm trabalhando com a politica brasileira para transformar a Amazônia
em um deserto, devastar as lavouras, acabar com a população geral.
— Como
assim, doutor Soum Homem?
—
Lagartos adoram desertos, necessitam do sol para aquecer o sangue. Tornar o
país em um deserto seria favorável a existência deles, o resto do mundo
perderia o interesse. Que outra teoria reúne os fatos de forma coerente? Veja a
crise hídrica recente, a liberação de defensivos agrícolas que irá devastar as
colheitas e impedir que a maioria dos países comprem produtos brasileiros,
gerando ainda mais recessão que alimentará uma revolução civil e criminalidade.
Com os humanos armados e revoltados, todos vão se matar ou fugir para outros países.
Então o deserto brasileiro será totalmente controlado pelos lagartos que
poderão dominar o mundo. A corrupção generalizada que está afundando o país, as
decisões judiciais impossíveis de explicar, tudo obra de reptilianos
infiltrados nos poderes. Abram o olho, nós já fomos invadidos e os reptilianos substituíram
pessoas públicas para acirrar ainda mais os ânimos. Eles estão usando outras
entidades particulares para ampliar ainda mais os efeitos, mas o objetivo é
tornar o Brasil um grande e vasto deserto aquecido de ponta a ponta. O início
do aquecimento global que daria o poder completo aos reptilianos. Esse atentado
é apenas mais um passo ousado nessa direção. E tenho dito!
— Meu...
Com essa pérola conspiratória encerramos esta entrevista com o iminente Doutor
Soum Homem, que nos apresentou suas teorias. Acredite se quiser.... Cortou? Ok,
mais uma vez obrigado doutor, mas posso fazer uma pergunta particular?
— Claro,
se isso não for ao ar, não vejo problemas.
Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca, apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher com uma criança e eu.
O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.
Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca tão despojada, tão sem artifícios, a ociosidade de um diálogo. Estávamos sós. E o melhor ainda era não fazer nada, não dizer nada, apenas olhar o sulco negro que a embarcação ia fazendo no rio.
Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro, silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos vivos. E era Natal.
A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o. rio. Agachei-me para apanhá-la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na água.
— Tão gelada — estranhei, enxugando a mão.
— Mas de manhã é quente.
Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. Reparei que suas roupas (pobres roupas puídas) tinham muito caráter, revestidas de uma certa dignidade.
— De manhã esse rio é quente — insistiu ela, me encarando.
— Quente?
— Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a roupa fosse sair esverdeada. É a primeira vez que vem por estas bandas?
Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com uma outra pergunta:
— Mas a senhora mora aqui perto?
— Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje…
A criança agitou-se, choramingando. A mulher apertou-a mais contra o peito. Cobriu-lhe a cabeça com o xale e pôs-se a niná-la com um brando movimento de cadeira de balanço. Suas mãos destacavam-se exaltadas sobre o xale preto, mas o rosto era sereno.
— Seu filho?
— É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um médico hoje mesmo. Ainda ontem ele estava bem mas piorou de repente. Uma febre, só febre… Mas Deus não vai me abandonar.
— É o caçula?
Levantou a cabeça com energia. O queixo agudo era altivo mas o olhar tinha a expressão doce.
— É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto, mas caiu de tal jeito… Tinha pouco mais de quatro anos.
Joguei o cigarro na direção do rio e o toco bateu na grade, voltou e veio rolando aceso pelo chão. Alcancei-o com a ponta do sapato e fiquei a esfregá-lo devagar. Era preciso desviar o assunto para aquele filho que estava ali, doente, embora. Mas vivo.
— E esse? Que idade tem?
— Vai completar um ano. — E, noutro tom, inclinando a cabeça para o ombro: — Era um menino tão alegre. Tinha verdadeira mania com mágicas. Claro que não saía nada, mas era muito engraçado… A última mágica que fez foi perfeita, vou voar! disse abrindo os braços. E voou.
Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade. Mas os laços (os tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não tinha forças para rompê-los.
— Seu marido está à sua espera?
— Meu marido me abandonou.
Sentei-me e tive vontade de rir. Incrível. Fora uma loucura fazer a primeira pergunta porque agora não podia mais parar, ah! aquele sistema dos vasos comunicantes.
— Há muito tempo? Que seu marido…
— Faz uns seis meses. Vivíamos tão bem, mas tão bem. Foi quando ele encontrou por acaso essa antiga namorada, me falou nela fazendo uma brincadeira, a Bila enfeiou, sabe que de nós dois fui eu que acabei ficando mais bonito? Não tocou mais no assunto. Uma manhã ele se levantou como todas as manhãs, tomou café, leu o jornal, brincou com o menino e foi trabalhar. Antes de sair ainda fez assim com a mão, eu estava na cozinha lavando a louça e ele me deu um adeus através da tela de arame da porta, me lembro até que eu quis abrir a porta, não gosto de ver ninguém falar comigo com aquela tela no meio… Mas eu estava com a mão molhada. Recebi a carta de tardinha, ele mandou uma carta. Fui morar com minha mãe numa casa que alugamos perto da minha escolinha. Sou professora.
Olhei as nuvens tumultuadas que corriam na mesma direção do rio. Incrível. Ia contando as sucessivas desgraças com tamanha calma, num tom de quem relata fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.
— A senhora é conformada.
— Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.
— Deus — repeti vagamente.
— A senhora não acredita em Deus?
— Acredito — murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê, perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que removia montanhas…
Ela mudou a posição da criança, passando-a do ombro direito para o esquerdo. E começou com voz quente de paixão:
— Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do jardim onde toda tarde ele ia brincar. E fiquei pedindo, pedindo com tamanha força, que ele, que gostava tanto de mágica, fizesse essa mágica de me aparecer só mais uma vez, não precisava ficar, se mostrasse só um instante, ao menos mais uma vez, só mais uma! Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e não sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava na minha mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Assim que ele me viu, parou de brincar e veio rindo ao meu encontro e me beijou tanto, tanto… Era tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.
Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa, levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para o rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto. A mãe continuava a niná-lo, apertando-o contra o peito. Mas ele estava morto.
Debrucei-me na grade da barca e respirei penosamente: era como se estivesse mergulhada até o pescoço naquela água. Senti que a mulher se agitou atrás de mim
— Estamos chegando — anunciou.
Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. O bilheteiro apareceu e pôs-se a sacudir o velho que dormia:
– Chegamos!… Ei! chegamos!
Aproximei-me evitando encará-la.
— Acho melhor nos despedirmos aqui — disse atropeladamente, estendendo a mão.
Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.
— Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre.
— Acordou?!
Ela sorriu:
— Veja…
Inclinei-me. A criança abrira os olhos — aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente. E bocejava, esfregando a mãozinha na face corada. Fiquei olhando sem conseguir falar.
— Então, bom Natal! — disse ela, enfiando a sacola no braço.
Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite.
Conduzido pelo bilheteiro, o velho passou por mim retomando seu afetuoso diálogo com o vizinho invisível. Saí por último da barca. Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente. Verde e quente. (Natal da Barca - Lygia Fagundes Telles in Contos da Meia Noite) Narrado por Beatriz Segal