terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Dificuldade em Ser Original – Martha Medeiros


Com tanta coisa acontecendo no mundo deve ser moleza arranjar assunto fresquinho para escrever. Foi o que me disseram outro dia, e me flagrei pensando: quem dera.
Recebemos uma overdose de informação, mas isso não significa que os acontecimentos sejam surpreendentes a ponto de fazer a festa dos colunistas. É leite tirado de pedra diariamente. Como ser original quando tudo se repete e repete e repete?
O Brasil inteiro está comentando a lista de convocados pelo Dunga, uns criticando, outros o absolvendo, e daqui a um mês uma nova copa começará em que nossa seleção terá uma boa chance de vence, e alguma de perder. Já não passamos por isso antes, igualzinho?
Questões envolvendo a extradição de um criminoso, ataques sangrentos no Iraque, crise nas Bolsas de Valores, barreiras comerciais afetando a relação entre países, alerta para chuva forte, violência nas estradas. Mais do mesmo.
Atos insanos surgem aqui e ali, nos escandalizamos por alguns dias, fazendo com que discutamos sobre mentes doentias e a necessidade que tantos têm de espetacularizar a própria história, e então, passado o susto, viramos a página.
Crises econômicas, conflitos religiosos, garotos matando colegas de aula, veteranos do esporte tentando se manter na ativa, casamentos e separações de celebridades, campanhas eleitorais, denuncias  de corrupção, tendências da moda outono-inverno, cantores adolescentes que viram ídolos instantâneos, últimos capítulos de novela. O que ainda suspende a nossa respiração?
Tivemos recentemente a eleição do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, que foi um acontecimento histórico. Depois esfriou. O que temos de quente, pra hoje, são as preocupantes ameaças ambientais ao planeta, em especial o vazamento de óleo no Golfo do México e um vulcão ativo que tem causado transtornos no Hemisfério Norte, mas isso já não é notícia de ontem?
Cada vez que sento diante do computador, nada me parece moleza. O que é que ainda falta dizer? O que ainda nos deixa perplexos? Como ofertar um pouco de originalidade ao leitor? Que pretensão. Desde 11 de setembro de 2001 que o mundo não tem sido original. Não que eu deseje que atentados dessa magnitude se repitam: já bastam os homens-bomba, que viraram rotina.
É só um desabafo: hoje os absurdos se sucedem em escala industrial e os fatos novos são como mariposas, nascem e morrem no mesmo dia.
Por essas e outras, persevero no trivial, que, contrariando a sua natureza, passou a ser o inusitado da vida.

22 de março de 2009



(MEDEIROS, Martha. Feliz por Nada. 8a edição. L&PM. Porto Alegre, RS. 2011)

domingo, 21 de dezembro de 2014

Dez coisas que levei anos para Aprender - Dave Barry



1. Uma pessoa que é boa com você, mas grosseira com o garçom, não pode ser uma boa pessoa.

2. As pessoas que querem compartilhar as visões religiosas delas com você, quase nunca querem que você compartilhe as suas com elas.

3. Ninguém liga se você não sabe dançar. Levante e dance.

4. A força mais destrutiva do universo é a fofoca.

5. Não confunda nunca sua carreira com sua vida.

6. Jamais, sob quaisquer circunstâncias, tome um remédio para dormir e um laxante na mesma noite.

7. Se você tivesse que identificar, em uma palavra, a razão pela qual a raça humana ainda não atingiu (e nunca atingirá) todo o seu potencial, essa palavra seria "reuniões".

8. Há uma linha muito tênue entre "hobby" e "doença mental".

9. Seus amigos de verdade amam você de qualquer jeito.

10. Nunca tenha medo de tentar algo novo. Lembre-se de que um amador solitário construiu a Arca. Um grande grupo de profissionais construiu o Titanic.


Nota: Adaptação do texto '25 coisas que levei 50 anos para aprender', publicado no livro 'Dave Barry Turns 50'. Muitas vezes falsamente atribuído a Luís Fernando Veríssimo.


In O PENSADOR - http://pensador.uol.com.br/frase/MjA1OTY - visualizado em 22/12/2014

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O Anjo Malaquias - Mario Quintana


         O Ogre rilhava os dentes agudos e lambia os beiços grossos, com esse exagerado ar de ferocidade que os monstros gostam de aparentar, por esporte.
Diante dele, sobre a mesa posta, o Inocentinho balava, imbele.
Chamava-se Malaquias – tão pequenino e reconchudo, pelado,a barriguinha pra baixo, na tocante posição de certos retratos da primeira infância...
O Ogre atou o guardanapo ao pescoço. Já ia o miserável devorar o Inocentinho, quando Nossa Senhora interferiu com um milagre.
Malaquias criou asas e saiu voando, voando, pelo ar atônito... saiu voando janela em fora...
Dada, porém, a urgência da operação, as asinhas brotaram-lhe apressadamente na bunda, em vez de ser um pouco mais acima, atrás dos ombros. Pois quem nasceu para mártir, nem mesmo a Mãe de Deus lhe vale!
Que o digam as nuvens, esses lerdos e desmesurados cágados das alturas, quando, pela noite morta, o Inocentinho passa por entre elas, voando em esquadro, o pobre, de cabeça pra baixo.
E o homem que, no dia do ordenado, está jogando os sapatos dos filhos, o vestido da mulher e a conta do vendeiro, esse ouve, no entrechocar das fichas, o desatado pranto do Anjo Malaquias!
E a mundana que pinta o seu rosto de ídolo... E o empregadinho em falta que sente as palavras de emergência fugirem-lhe como cabelos de afogado... E o orador que pára em meio de uma frase...
E o tenor que dá, de súbito, uma nota em falso... Todos escutam, no seu imenso desamparo, o choro agudo do Anjo Malaquias!
E quantas vezes um de nós, ao levantar o copo ao lábio, interrompe o gesto e empalidece... – O Anjo! O Anjo Malaquias! – ... E então, pra disfarçar, a gente faz literatura... e diz aos amigos que foi apenas uma folha morta que se desprendeu... ou que um pneu estourou, longe... na estrela Aldebaran...

(QUINTANA, Mario. Nova Antologia Poética. São Paulo, 2009. Pgs 92,93.)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Anjos não tem Asas – Danny Marks



            — Não tem asas!
Duas gotas grossas caíram sobre as finas cicatrizes brancas dos pulsos. Deixei por alguns segundos que extravasasse, tinha que ficar atento, nesses momentos ela sempre resvalava para algum canto inatingível. Precisava manter o contato, criar uma ponte...
— Por que acha que ele disse isso?
— Mikel? Por que não diria? Ele sabe dessas coisas, tem que saber, afinal...
— Não, digo, o que o motivou a falar isso para você?
Ela me olhou profundamente, como se quisesse pesar a minha alma em uma balança de ouro. Por certo eu seria condenado; se ela fosse realmente capaz. Levantou-se, abriu a blusa descobrindo os seios e as costas, virou-se mostrando a imensa tatuagem que lhe cobria o dorso. Asas. Asas negras como a melancolia, escorrendo pelas suas costas em lava derretida, manchadas de entardecer. Nunca havia visto algo tão belo e deprimente.
Ela cobriu as asas como se puxa o lençol sobre um cadáver. Voltou-se ainda com os seios semidesnudos, tremia ao abotoar a blusa. A cabeça era de rendição, havia me revelado, em um impulso, muito mais do que pretendia e agora estava com medo de me olhar.
Mantive um silêncio respeitoso, mais pelo êxtase que aquela visão me provocara do que gostaria de admitir... Quem poderia ter feito algo tão belo e terrível? Deus...
— Você mostrou para ele? Por isso que Mikel foi tão duro com você?
— Mikel que fez! Depois que fizemos amor...ele sabia, e ainda assim...
Finalmente ela me encarou com desafio. A lembrança do seu suposto encontro com Mikel a tornava poderosa; lhe emprestava uma fúria desafiadora. Por um instante tive a impressão de que sua figura se agigantava à minha frente, absurdo.
Sustentei o olhar mantendo o distanciamento, uma pergunta pairando como uma espada pronta para desferir o golpe fatal.
— Sim, Anjos podem fazer amor com humanos. Por que não poderiam? Foram feitos a nossa semelhança.
— Interessante, suponho que Mikel lhe tenha dito isso também. Mas não vieram antes de nós? Não seria o contrário? Talvez a afirmação de Mikel não seja tão correta...
— Claro que não? Ele nos criou à sua imagem e semelhança, depois fez os Anjos, mais perfeitos que nós, somos o protótipo. Então os enviou ao princípio para que criassem a Sua Obra. Você não entende que para Ele o tempo não é igual como para nós? É... apenas uma coisa que... tipo assim... se dobra, está lá o tempo todo e é você que avança em um sentido ou outro e...
Ela estava ficando agitada, fiz que compreendia para que se acalmasse. Havia tantas implicações no que ela dizia que precisaria revisar todas as minhas notas, talvez falar com...
— Estou grávida. Ele nunca vai voltar.
— Como assim? Está grávida de Mikel? Por que ele não voltaria? Ainda mais sabendo que está esperando um filho dele. Ou ele não sabe?
— Quando se vai para o início não há mais volta... Só um Anjo poderia me levar lá.
— O seu psiquiatra já sabe que está grávida? Conversou com ele a respeito?
— Crianças são... como anjos sem asas, Mikel me disse. Esta...pode me levar...
Ela saiu correndo da sala, tentei impedi-la, mas já estava longe demais. Peguei o telefone, precisava avisar da situação. A coisa se complicara muito mais do que imaginara a princípio. Comuniquei o ocorrido, alguém tomaria providências. Talvez até conseguissem impedi-la a tempo.
Mas isso não importava mais. Minha mente se voltava para aquelas asas, aquela imagem perfeita de algo que não existia mais. Mikel era apenas uma criação dela. Então quem teria feito aquilo? Por quê? Para nos insultar? Anjos não tem asas, não mais.

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