sábado, 8 de setembro de 2012

Nos salões do sonho - Mario Quintana


Mas vocês não repararam, não?!
Nos salões do sonho nunca há espelhos...
Por quê?
Será porque somos tão nós mesmos
Que dispensamos o vão testemunho dos reflexos?
Ou, então
- e aqui começa um arrepio -
Seremos acaso tão outros?
Tão outros mesmos que não suportaríamos a visão daquilo,
Daquela coisa que nos estivesse olhando fixamente do outro lado,
Se espelhos houvesse!
Ninguém pode saber... Só o diria
Mas nada diz,
Por motivos que só ele conhece,
O misterioso Cenarista dos Sonhos!


[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A vida e a obra de Michelangelo Merisi da Caravaggio

A arte deve sempre retratar o belo? Ou tem por obrigação apresentar o real, para transformar ainda que de modo catártico através do confronto, o matérial que encontra em uma nova composição impregnada da lírica artística, da sublime evocação do que podemos nos tornar através do nosso esforço?
Luz e sombras são as matérias primas de uma obra artistica, que tornam o espaço interno visível na composição que o retrata.

Eis um maravilhoso documentário sobre a vida e a obra de Michelangelo Merisi da Caravaggio. Prepare-se para ver o grotesco e o belo de uma forma incomparavelmente catartica.

http://youtu.be/7UXediFaCnw

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Paria Amada - Danny Marks



Ouviram do Ipiranga às margens plácidas,
De um povo heróico o brado retumbante...

Socorro, pega ladrão! Roubaram o meu país
Colocaram uma bola vermelha no meu nariz
Vieram com discussão, pra modernizar.
Neoliberal, Globalização, onde eu vou parar
Criaram monopólio, automação, livre negociação.
Levando dinheiro na cueca e o povo sem um pão.

Se tu és brasileiro
O que foi que eu te fiz?
Mudou-se pro estrangeiro.
Deus! Me conta, me diz...

Mistura de raça e cor, credo e crença.
Unidos pela dor, vitimas da indiferença.
Heróis anônimos lutando pra sobreviver
Trabalho de sol a sol sem ter o que comer
Sem estudo, emprego, projeto de vida.
Na musica, futebol, carnaval, busca-se saída
Ladrão não tem rosto, desgosto, imposto, refém
Branco, preto, amarelo. Rico, pobre, classe média também
Honesto? Pode ser, ninguém sabe. Quem é quem?

Se tu és brasileiro
O que foi que eu te fiz?
Mudou-se pro estrangeiro
Deus! Me conta, me diz...

Verdadeiro filho, no colo brasileiro.
É o que sonhou, neste solo, criou raiz.
Mesmo nascido estrangeiro
Só aqui, neste país foi feliz
Te fizeram pátria, te fizeram Paria
Deste mundo insensato
Se te amo?  Isso também é fato
Aqui já teve guerra, ditadura, revolução.
Chega de sangue, chega de ódio meu irmão.
Aprende a ser filho desta terra
me livra da corrupção.
Um sorriso na cara
tira a tristeza do coração.
Se neste país não posso viver
Em outro não vou querer, não e não.
Não escolhi onde nascer, mas posso...
Sim, eu posso escolher onde morrer...

Se tu és brasileiro
O que foi que eu te fiz?
Mudou-se pro estrangeiro
Deus! Me conta, me diz...

...Mas se ergues da justiça a Clava forte
Verás que o filho teu não foge a luta
Nem teme quem te adora a própria morte
Terra adorada
Dentre outras mil és tu Brasil
Ó pátria amada
Dos filhos deste solo és mãe gentil
Pátria amada, Brasil.

Rifa - Clarice Lispector

Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista. Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade está um pouco usado, meio calejado, muito machucado e que teima em alimentar sonhos, e cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado, coração que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu... "não quero dinheiro, eu quero amor sincero, é isso que eu espero...".
Um idealista... Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece, e mantém sempre viva a esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido. Tantas vezes provocado. Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional que, abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas, mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado, ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para quem quer viver intensamente e, contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida matando o tempo, defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas: " O Senhor pode conferir", eu fiz tudo certo, só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal quando ouvi este louco coração de criança que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer".
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo, mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que, ainda não foi adotado, provavelmente, por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais, por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que, mesmo estando fora do mercado, faz questão de não se modernizar, mas vez por outra, constrange o corpo que o domina. 
Um velho coração que convence seu usuário a publicar seus segredos e, a ter a petulância de se aventurar como poeta.

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