terça-feira, 28 de agosto de 2012

Uma História de Verdade - Danny Marks

 Em um lugar qualquer de um tempo tão comum que nem precisa ser mencionado ocorreram os fatos que agora são narrados.
            Verdade vivia naquele lugar fértil onde cultivava com Trabalho, seu grande amigo, um pomar de deliciosos frutos.
            Fartura, prima distante de Verdade, passava os dias por lá aproveitando os frutos da Verdade.
            Onde estava Fartura sempre aparecia o Orgulho. Este adorava dar ordens e contar histórias grandiosas a respeito de si mesmo, mas não se entendia com o Trabalho.
            Nesse lugar também morava Necessidade, uma moça inteligente e esforçada que levava uma vida triste. Do breve romance que tivera com Destino, rapaz afoito e descuidado, resultara Vergonha, uma menina muito bonita e sapeca, cujo maior prazer era deixar desconfortáveis os desavisados. Era só alguém se distrair que logo vinha a Vergonha para incomodar ao revelar segredos.
            Quando Destino foi emboras em busca de aventuras, sem se importar a quem seus atos afetavam, Necessidade teve que sustentar a Vergonha sozinha.
            O fato é que eram poucos que suportavam a Vergonha, somente a Verdade era capaz de encarar a peralta garota e coloca-la no seu devido lugar. Quando a Verdade aparecia, a Vergonha ficava quieta, sem incomodar ninguém, quase nem se notava a sua presença. Porém, tão logo a Verdade se ausentava lá vinha a Vergonha incomodar a todos sem dó nem piedade.
            Ainda assim, aquele era um ótimo lugar para se viver e todos se sentiam felizes. Até que Inveja resolveu se estabelecer por lá.
Inveja tentava ser igual a todos, mas nunca se esforçava no que fazia e acabava com péssimos resultados. Seu maior desejo era se casar com Sucesso e com ele acabou tendo uma filha, Cobiça.
Mas tão logo a Cobiça começou a crescer, o Sucesso fugiu com a Fama em busca das maravilhas que Destino lhe dissera existir em outros lugares. Boato, primo de Inveja que sempre estava a correr e a se interessar por tudo que era dito, contou ter ouvido que a Verdade era a culpada do desaparecimento de Sucesso, pois toda vez que ela aparecia o Sucesso começava a agir de forma estranha. Provavelmente devia-se ao Sucesso os resultados bons que a Verdade alcançava. Boato alegara sempre os ver juntos e na certa tinham um caso.
            Cobiça de tanto ouvir a Inveja, culpar a Verdade pelo fracasso dos seus planos. Criou um ódio mortal pela Verdade, e jurou que um dia se vingaria.
            Inconformada com o abandono do Sucesso resolveu encontra-lo a qualquer custo e para tanto foi em busca do Destino, mas acabou por encontrar a Mentira.
            A Mentira era uma jovem atraente, sedutora, que a todos encantava a primeira vista, mas decepcionavam-se quando percebiam que ela possuía um poderoso veneno que destruía a quem atravessasse o seu caminho.
Boato dissera certa vez a Cobiça, que a Verdade possuía um segredo e quem o descobrisse seria muito, muito grande. Esse era o sonho secreto da Mentira: crescer, crescer muito, assim ninguém mais diria que ela tinha pernas curtas.
            Mas Mentira nunca encontrara a Verdade até que a Cobiça revelou essa importante informação. Imediatamente Mentira e Cobiça se juntaram em um plano terrível para roubar da Verdade todos os seus segredos e conquistarem o seu poder.
            Mentira não teve problemas em seduzir o Orgulho, que se dizia amigo de Verdade, e com sua ajuda atrair a moça inocente para uma armadilha.
            A Verdade, sem desconfiar da trama, caiu nas garras da turma sombria, que a envenenou e a escondeu no fundo de uma caverna, onde nenhuma luz entrava.
            Tão logo a Verdade ficou oculta as coisas naquele maravilhoso lugar começaram a definhar. Todos se tornaram desconfiados, agressivos, rancorosos, mesquinhos.
            Porém Vergonha logo percebeu que algo estava errado. Mesmo não gostando das broncas de Verdade, no fundo ela gostava de ter limites, pois isso a fazia ser melhor.
Desconfiada foi investigar para saber onde estava a Verdade, mas acabou levando uma tremenda de uma surra da Mentira que mandou a Vergonha para bem longe.
Vergonha toda machucada começou a gritar muito alto, até chamar a atenção da Necessidade que sempre estava por perto.
Necessidade sabia que somente a Verdade poderia acalmar a Vergonha e foi chamar a moça sem saber o que lhe havia ocorrido.
            Ao escutar a Necessidade chamando e a Vergonha gritando, a Fartura não aguentou e foi embora em busca do Sucesso.
            Vergonha tão logo viu o Orgulho que estava próximo do Trabalho, avançou sobre ele.
Orgulho, com medo da Vergonha que lhe caia em cima, confessou o que a Inveja, a Cobiça e a Mentira haviam-no obrigado a fazer.
            Trabalho imediatamente pegou o cavalo que o Destino deixara, e foi em busca da Verdade, e assim que a Vergonha e a Necessidade se acalmaram, o Orgulho aproveitou para fugir. Não queria dar o braço à torcer pela Vergonha.
            Quando a Inveja, a Cobiça e a Mentira viram o grande Trabalho que se aproximava deixaram tudo para traz e se mudaram dali para nunca mais voltar.
            Mas a Verdade ainda estava escondida, e ninguém sabia onde encontra-la.
            Vergonha então teve a brilhante ideia de pedir ajuda ao Amor. Somente ele, com sua imensa sabedoria, poderia perceber onde estava a Verdade, apesar de todas coisas que a Mentira pudesse ter feito.
            Com o Amor guiando seus passos, ficou fácil para o Trabalho achar a Verdade e trazê-la novamente à luz.
            Aos poucos a Verdade foi se restabelecendo, mas envenenada pela Mentira nunca mais foi a mesma. Por vezes ficava triste, em outras, sombria e fria.
Nesses momentos o Amor era chamado e cuidava dela até que se fortalecesse novamente.
            O Orgulho acabou pedindo desculpas por seus erros e fez as pazes com o Trabalho. Verdade diz que ainda poderão ser amigos, mas a Vergonha está de olho para garantir que tudo fique bem.
            Boato disse, que A Inveja, a Mentira e a Cobiça fugiram para o mundo dos Homens, e que vivem tentando encontrar Sucesso e Fama por lá.
            A Necessidade voltou a se encontrar com Destino e ninguém sabe o que vai acontecer.
            Moral, nosso professor, queria deixar-nos uma de suas lições, mas a Vergonha, aproveitando que a Verdade está descansando resolveu aparecer, então melhor terminarmos por aqui.
            E assim nos despedimos até que a Verdade volte a aparecer.

domingo, 26 de agosto de 2012

VARAL ESTENDIDO! - Jacqueline Aísenman

Convidamos as pessoas que gostam de escrever para falar da infância e o convite foi aceito por muitos! Então aqui estamos, falando não só da Nossa Infância, mas da infância de todos. Desde as infâncias felizes até a mais triste delas.

Lembrar da infância não é fácil para todo mundo, assim também é falar dela. O que para muitos é algo gostoso e que pode se repetir escrevendo o que vem da memória, para outros pode ser doloroso demais. Por isto agradecemos a tantos que vieram, atenderam o apelo e falaram da infância com alegria ou com tristeza.

Quando se pensa em criança é automático: pensamos em doces! Vida doce, festa, tudo doce! Então fomos buscar algumas receitas culinárias que visitassem nosso paladar infantil, aquele que, como um pequeno pecado, muitas vezes ainda provamos e adoramos!

Como vocês devem ter percebido nossas férias foram alegremente interrompidas pela edição de um especial, o Varal do Amor. Foram publicados cinquenta autores. Mas recebemos muitos, muitos mais. E a sugestão de fazer uma sequência. Quem sabe? Quem sabe não faremos em breve?

Atendemos com alegria, em meio a todas as histórias e poemas sobre a infância, o chamado da seriedade  de uma publicação científica e publicamos o artigo de André Valério Sales intitulado Particularidade, Universalidade e Singularidade: definindo conceitos fundamentais para a Metodologia da Pesquisa em Ciências Sociais e que por ele será apresentado na universidade que frequenta. Talvez um sonho de criança que se realiza!


Em meio a tantas alegrias, uma notícia triste vem fazer parte do Varal. Nossa Livraria, infelizmente, encerrou suas atividades. Não foi possível manter o sonho de comercializar nossa nova literatura, nossos novos autores aqui na Europa! Constatamos que pouquíssimos brasileiros aqui na Suíça buscam esta literatura. A grande maioria ainda se atém aos autores consagrados ou prefere apenas adquirir os livros diretamente no Brasil quando vai em visita. Desta forma, profundamente tristes, fechamos as portas desta livraria que tinha o sonho de ver seus autores brilhando por aqui! Mas nem tudo foi perdido, pois depois do sucesso que foi  nossa participação no 26o. Salão Internacional do Livro de Genebra, os livros, cedidos por grande parte dos escritores presentes na livraria, estão sendo doados a várias bibliotecas suíças que demonstraram imenso interesse nos exemplares. São os novos autores brasileiros cruzando fronteiras através do Varal do Brasil!

Estamos  com as inscrições abertas para a seleção de textos para o livro Varal Antológico 3. Surpresos com a variedade e quantidade de textos a ler, nossos examinadores estão felizes de observar a qualidade destes mesmos textos. E começamos a lamentar que as vagas sejam limitadas! Você ainda tem tempo para se inscrever e pode solicitar o regulamento através do nosso e-mail varaldobrasil@gmail.com . O livro Varal Antológico 3 terá revisão completa incluída e editoração pela Design Editora, símbolo de qualidade na edição de livros no Brasil.

Amigos do Varal, nos preparamos para, em novembro, festejar nossos três anos de revista. Traremos o tema livre, festejaremos juntos. Esperando você para a festa de novembro, deixamos aqui esta revista especial sobre a infância! Uma boa leitura!


Sua equipe do Varal

Leia ou baixe aqui a revista em seu computador:


Jacqueline Aisenman
Editora-Chefe
Varal do Brasil


Embaixadora Universal da Paz -Cercle des Ambassadeurs Univ.de la Paix-Genebra, Suiça,
Delegada da UBT (União Brasileira de Trovadores)
Membro Correspondente da Academia de Teófilo Otoni
Membro do Grupo de Escritores Lagunenses Carrossel das Letras

http://www.facebook.com/pages/VARAL-DO-BRASIL/107298649306743

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Ah! O amor ... - Mario Quintana


http://www.sempreperfeito.com/wp-content/uploads/2012/01/Mario-Quintana-imagem-5.jpg


Para meus amigos que estão...SOLTEIROS.O amor é como uma borboleta.
Por mais que tente pegá-la, ela fugirá...
Mas quando menos esperar, ela está ali do seu lado.
O amor pode te fazer feliz, mas as vezes também pode te ferir. Mas o amor será especial e apenas quando você tiver o objetivo de se dar somente a um alguém que seja realmente valioso.
Por isso, aproveite o tempo livre para escolher.
Amor não é se envolver com a "pessoa perfeita", aquela dos nossos sonhos.
Não existem príncipes nem princesas.
Encare a outra pessoa de forma sincera e real, exaltando suas qualidades, mas sabendo também de seus defeitos.
O amor só é lindo, quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser.


Para meus amigos que gostam de...PAQUERAR.Nunca diga "te amo" se não te interessa .. Nunca fale sobre sentimentos se estes não existem. Nunca toque numa vida, se não pretende romper um coração. Nunca olhe nos olhos de alguém, se não quiser vê-lo derramar em lágrimas por causa de ti. A coisa mais cruel que alguém pode fazer é
permitir que alguém se apaixone por você, quando você não pretende fazer o mesmo.


Para meus amigos...CASADOS.O amor não te faz dizer "a culpa é", mas te faz dizer "me perdoe".
Compreender o outro, tentar sentir a diferença, se colocar no seu lugar.
Diz o ditado que um casal feliz é aquele feito de dois bons perdoadores.
A verdadeira medida de compatibilidade não são os anos que passaram juntos; mas sim o quanto nesses anos vocês foram bons um para o outro.


Para meus amigos que têm um CORAÇÃO PARTIDO.Um coração assim dura o tempo que você deseje que ele dure, e ele lastimará o tempo que você permitir.
Um coração partido sente saudades, imagina como seria bom, mas não permita que ele chore para sempre.
Permita-se rir e conhecer outros corações.Aprenda a viver, aprenda a amar as pessoas com solidariedade, aprenda a fazer coisas boas, aprenda a ajudar os outros, aprenda a viver sua própria vida.
A dor de um coração partido é inevitável, mas o sofrimento é opcional.
E lembre-se: é melhor ver alguém que você ama feliz com outra pessoa, do que vê-la infeliz ao seu lado.


Para meus amigos que são...INOCENTES.
Ela(e) se apaixonou por ti, e você não teve culpa, é verdade.
Mas pense que poderia ter acontecido com você. Seja sincero, mas não seja duro; não alimente esperanças, mas não seja crítico; você não precisa ser namorado(a), mas pode descobrir que ela(e) é uma ótima pessoa e pode vir a se tornar uma(um) grande amiga(o).


Prá terminar. Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata....Um dia descobrimos que beijar uma pessoa para esquecer outra, é bobagem.
Vc não só não esquece a outra pessoa como pensa muito mais nela..... Um Dia nós percebemos que as mulheres tem instinto "caçador" e faz qualquer homem sofrer... Um dia descobrimos que se apaixonar é inevitável...
Um dia percebemos que as melhores provas de amor são as mais simples......
Um dia percebemos que o comum não nos atrai... Um dia saberemos que ser classificado como o "bonzinho" não é bom .. . Um dia perceberemos que a pessoa que nunca te liga é a que mais pensa em vc... Um dia saberemos a importância da frase: "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas..."
Um dia percebemos que somos muito importante para alguém, mas não damos valor a isso...
Um dia percebemos como aquele amigo faz falta, mas ai já é tarde demais...

Enfim...Um dia descobrimos que apesar de viver quase um século, esse tempo todo não é suficiente para realizarmos todos os nossos sonhos, para dizer tudo o que tem que ser dito...

O jeito é: ou nos conformamos com a falta de algumas coisas na nossa vida, ou lutar para realizar todas as nossas loucuras...

Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação.

Mario Quintana

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Nada de Novo no Paraiso? - Danny Marks




            Quando o Sr Silva deu por si estava em uma espécie de salão onde não se viam paredes, teto e nem mesmo o chão parecia real...
            — Sr Silva?! Acompanhe-me, por favor.
            Silva olhou para aquela entidade trajando um belo terno branco muito bem cortado. Assemelhava-se a um daqueles seguranças de cassino que o Silva..
            — Estou recebendo sua ficha Sr Silva. Bem extensa por certo. Vejamos, pequenos furtos na infância e na juventude, uso e venda de drogas, promiscuidade, violência. Ah, aqui está, virou líder comunitário para aumentar o seu poder de atuação, entrou para política, ficou milionário por meios escusos, uma carreira e tanto Sr Silva...
            Silva retesou-se todo, encarando o seu interlocutor que parecia estar em contato com alguém por algum tipo de mecanismo que ele não percebia qual era.
            — Quem é você? Recuso-me a falar sem a presença de meu advogado.
            — Calma, Sr Silva! Aqui não vai precisar de advogados. Eu sou o seu anfitrião, enquanto aguardarmos o resultado da analise do Setor Jurídico. Alias, eles já entraram em contato com o setor financeiro para verificar o seu debito conosco e determinar como será feita a cobrança.
            — Mas... mas... o que está acontecendo por aqui?
            — Ora, Sr Silva, o senhor veio para o lado de cá e é hora de acertar as contas, mas não se preocupe com isso, por enquanto, deixe que eu lhe mostre as dependências...
            O Anfitrião colocou a mão sobre o ombro do Sr Silva e logo estavam em outra lugar muito semelhante ao anterior, mas este era cheio de boxes com equipamentos de telecomunicação operados por uma infinidade de homens e mulheres, todos vestidos de branco.
            Silva estava tão estarrecido que nem conseguia raciocinar direito. Sentia-se como se estivesse em algum tipo estranho de pesadelo ou alucinando.
            — Que é isso? Telemarketing?
            — Este é o nosso Setor de Mensagens Divinas, daqui mandamos e recebemos mensagens para todo o universo. O nosso Patrão acredita em gestão por resultados. Você acredita que antigamente tudo isso era feito por um único mensageiro? Não admira que houvesse muita confusão. Quando o patrão viu esse sistema do outro lado aderiu e adaptou para o nosso uso. Agora podemos fazer muito mais...
            — Mensagem Divina? Então essas pessoas falam com os fiéis a partir daqui?
            — Não Sr Silva — riu-se o anfitrião — Que fiéis? Nós nos comunicamos com qualquer um que deseje entrar em contato e falar conosco à partir do outro lado.
            A mente fria de Silva lhe dizia para se agarrar a qualquer detalhe, descobrir o que estava acontecendo. Deviam ter-lhe dado alguma droga e estavam tentando arrancar-lhe os segredos. Melhor entrar no jogo e ver o que poderia descobrir sobre essa organização.
            — Então é uma espécie de atendimento ao cliente?
            — É, quase isso, só que a musica de espera é celestial, e os atendentes realmente desejam ajudar quem entra em contato conosco.
            — Inacreditável..
            — Foi o que o Patrão disse do sistema de vocês, mas vamos...
            Novo toque e logo estavam em um outro lugar, onde milhares de pessoas se sentavam em frente a terminais de computador, todas muito ocupadas com seu trabalho.
            O Anfitrião deixou escapar um tom de orgulho na voz.
            — Este é o nosso Setor Contábil, aqui são computados os débitos e os créditos de todos do outro lado. Não queremos que ninguém saia com menos do que merece.
            — Isso ai nas mesas? São computadores?
            — Digamos que esta é a versão celestial daquilo que vocês têm do outro lado. Estes são rápidos, eficientes, não travam nunca e realmente facilitam o trabalho. Mas vamos, deixe-me mostrar o Setor de Planejamento.
            Logo estavam em outra sala. No centro havia uma imensa mesa onde inúmeras pessoas trocavam papeis, faziam anotações e discutiam entre si.
            — Esta é a melhor parte! Aqui todos se dedicam a criar estratégias para melhorar o universo.
            — Eles parecem muito ocupados, mas quem decide qual a melhor estratégia?
            — Ora, o Patrão decide tudo sozinho. Na verdade nunca adota as sugestões que esses fazem, mas não lhes diga isso.
            — Mas, então, por que eles estão aqui?
            — Porque querem! Alguns até acreditam que estão conseguindo mudar alguma coisa, e no fim ninguém se machuca. “Deixe-os se divertirem”, é o que o Patrão diz.
            Outro toque, outro lugar, agora cheio de pessoas que se banqueteavam com inúmeras iguarias servidas em fartas bandejas.
            — Aqui é o nosso refeitório, tudo o que imaginar e até o que jamais imaginou em termos de delícias gastronômicas está aqui, é só se servir até ficar satisfeito.
            O Sr Silva ia aceitar a sugestão, mas percebeu que já estava em outro lugar, nem sentiu o toque desta vez.
            Imensos ambientes com todos os tipos de jogos e brincadeiras atendiam a um numero sem fim de pessoas.
            — Este é o nosso Salão de Jogos, o Patrão adora jogos! Soube que ele vive jogando com o Pai. Alias acho que herdou essa característica dele..
            — E eu que pensei que seria proibido jogar no paraíso.
            — Proibido? Paraíso? Senhor Silva, onde acha que está? No Paraíso ninguém trabalha. Lá a festa e diversão ocorrem o tempo todo. Sempre tem muita musica, muita alegria e...
            — Mas, você disse que estamos do outro lado e se isto não é o Paraíso, o que é?
            — Ora Sr Silva, aqui é onde se trabalha! Alguém precisa manter o Paraíso funcionando. Mas até que não é tão mal assim, ainda mais que, quando alguém se cansa, pode tirar umas férias lá, por conta da casa.
            — Mas o paraíso não é abastecido pela “Graça Divina de Deus”?
            — O Pai? Onde você andou pelos últimos milênios, Sr Silva? Acredita realmente que nada mudou no Paraíso durante esse tempo? Entenda, o Pai está cuidando de um projeto particular dele, enquanto isso o irmão Gabriel cuida do Paraíso e o outro irmão cuida daqui. Mas aqui entre nós, não chame ele de irmão que ele não gosta. Nós o chamamos de Patrão. Para ser sincero a ideia veio de vocês, do outro lado.
            — Então o seu Patrão é o ... Caído?
            — Ah, senhor Silva, não fale assim. Ele até que esta bem em forma apesar da idade.. — e o anfitrião riu da própria piada, mas logo ficou sério, concentrado — Um minuto, já levantaram a sua ficha. Ok! Vamos embora...
            O Sr Silva se viu em um imenso terminal de passageiros onde pessoas apressadas se encaminhavam para seus destinos.
            — Sr Silva, chegamos ao fim de sua jornada..
            — Mas onde estamos?
            — Na estação de embarque, queria lhe mostrar tudo, mas o pessoal do jurídico está cada vez mais rápido e eficiente. Já foi dada a sua sentença.
            — Como assim, e o julgamento, meu advogado?
            — Eu já lhe disse, Senhor Silva, não precisamos de advogados por aqui, embora os tenhamos aos milhões. O sistema é muito eficiente e justo, acredite.
            — E o que vai acontecer comigo?
            — Mas não é obvio? O senhor tem muitas dividas e precisa pagá-las todas. O Patrão é muito rigoroso nesse ponto, nada de perdoar as dividas. Se pelo menos a sua ficha fosse um pouco melhor poderíamos entrar com um pedido de apelação junto a Gabriel — e riu-se de novo —  mas no seu caso...
            — Espere, pelo que entendi o seu “Patrão” é o diabo e aqui é o Inferno. É aqui que tenho que ficar pela eternidade. Foi isso que me disseram do outro lado, você não pode me mandar embora...
            — Pois é, Senhor Silva, aquilo que já te falei dos mensageiros. — O anfitrião ficou com uma cara consternada — Deixe explicar, as coisas por aqui mudaram nos últimos milênios, o Patrão conseguiu um acordo com o Pai e passamos a prestar serviços para o Universo e ainda cuidamos da manutenção do Paraíso.
            — Mas e os castigos eternos? E a danação eterna? Sem falar da redenção dos justos? Onde fica tudo isso agora? Eu tenho que ficar aqui no inferno pra sempre! Vocês não podem simplesmente me por para fora assim, eu pertenço a este lugar!!!!
            — Isso é passado, Sr Silva — respondeu o Anfitrião sério, um tanto irritado — Ninguém tem paciência de ficar fazendo a mesma coisa pela eternidade. Aqui o pessoal que foi autorizado a ficar vai se revezando nos trabalhos e no lazer e todo mundo fica satisfeito, sem encrenca. Tudo muito justo.
            — Deus! Então o inferno não existe mais? Isso não é possível...
            — Esse é o problema. Por aqui só podem ficar aqueles que tem condições de justificar a permanência ou pelo menos uma temporada, o resto a gente manda para lá.
            — Para o inferno?
            O anfitrião voltou a sorrir de uma forma estranha.
            — O senhor é divertido, Sr Silva. Gostaria de que ficasse um pouco mais, mas temos que manda-lo para o seu lugar e este não fica do lado de cá, fica do outro lado. Melhor sorte da próxima vez, Sr Silva, aproveite a estadia, aqui está o seu bilhete. Adeus...
            O Sr Silva ainda teve tempo de ver o que estava escrito no seu bilhete de embarque:
 
Expresso Inferno: Classe Econômica.
Destino: Terceiro Planeta do Sistema Solar – Terra.

E todos sorriram na maternidade São Tomé quando ouviram o choro daquele que acabava de nascer...

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