quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O ROUBO DO VARAL - Lariel Frota




-Um pirulito de chocolate pelo seu pensamento Cláudinho.
-Ai vô, que susto!!! Num tô  pensando nada importante não, só na braveza  da Tia Line porque tentaram  roubar o varal dela.
-É , ela ficou bem zangada. Quer saber, com toda a razão.
-O  tal varal era muito caro? Gozado, parecia de  cordinha de nylon como os outros, não sabia que faziam varal com material valioso!
-E quem falou que era material valioso?
-Ora, se não for pelo  do valor,  porque ela ficou tão zangada e você disse que ela tá certa?
-É que era um varal de "estimação" se é que se pode falar assim.
-Varal de estimação??? Já ouvi falar de bicho de estimação, em estimar muito uma pessoa, agora estimar um pedaço de fio preso  nas duas pontas pra secar roupa, é a primeira vez!
-Pois é meu garoto. Aquele varal sua Line fez ela mesma, com todo o cuidado, num lugar onde o sol bate todas as manhãs, para secar as roupinhas do sua priminha Patrícia. Ela ainda nem tinha nascido e a avó já planejava  que as roupinhas ficassem secando  sob o canteiro de flores de campo e pés de camamila.
-Ah.....  Eu  acho muito legal aquele varal. Sabia que as vezes eu brinco dentro da minha caixa de pensamenos,  que aquele monte de roupinha cor de rosa, dança bem contente em cima daquelas florsinhas?
-Pois é, aí vem um desocupado e tenta roubar o varal?
-Vô, já sei. Fique aí que vou providenciar um negócio pra tia Line ficar feliz de novo!


                                                         (.......)
-Tia, olhe o que eu trouxe pra você  esquecer a maldade que tentaram fazer com o  seu varal.
-Já passou querido, na hora fiquei zangada, agora tá tudo bem. Que lindo  desenho!
-Você entendeu o que ele quer dizer, ou preciso explicar?
-Olha, acho entendi. Agora é sempre bom ouvir a palavra de quem fez não é?
-Então tia Line, o vovô me contou que você planejou o varal quando a Paty ainda tava na barriga da mãe dela. Você queria que as roupinhas ficassem sequinhas,  contentes e com cheiro bom não é isso?
-Sim querido.
-Então tia, você nem tinha sua netinha ainda, mas  já havia um montão de roupas  limpinhas na gaveta esperando pra  ela sujar e você pensou no varal pra secar essa roupa toda.
-Daí?

-Daí que o burro do ladrão não deve ter nada, nem nenê dentro de uma barriga, nem uma gaveta cheinha de roupas novas, nem canteiro de flor pra deixar a roupa feliz. Pior é tão burro, mas tão burro que acha que roubando um pedaço de varal vai conseguir tudo junto, mas ele não tem nada pra pendurar né?....Que foi cê tá chorando???? Já sei, igual ao meu vô, entrou um cisco no seu olho né....tchau tia Nine...gostou do desenho? Vou   brincar com o meu tabuleiro de letras, meus amiguinhos tão me esperando!!!
 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012


(Para Érico Veríssimo)

O dia abriu seu pára-sol bordado
De nuvens e de verde ramaria.
E estava até um fumo, que subia,
Mi-nu-ci-o-sa-men-te desenhado.

Depois surgiu, no céu azul arqueado,
A Lua – a Lua! – em pleno meio-dia.
Na rua, um menininho que seguia
Parou, ficou a olhá-la admirado…

Pus meus sapatos na janela alta,
Sobre o rebordo… Céu é que lhes falta
Pra suportarem a existência rude!

E eles sonham, imóveis, deslumbrados,
Que são dois velhos barcos, encalhados
Sobre a margem tranqüila de um açude…


Mario Quintana

domingo, 22 de janeiro de 2012

Coisas que você nunca quis saber sobre o Amor - Danny Marks



Amor deve ser tratado com cuidado.
Se a natureza tivesse inventado um vírus que afetasse profundamente todas as formas vivas, com certeza seria o amor.  Provavelmente da família do Influenza.
Ele é totalmente mutante. Cada vez que alguém inventa uma vacina para ele, já se transformou e ataca de novo, de outra forma.
Veja o amor de mãe, o primeiro de todos e que permanece com efeitos secundários por toda a vida.
Ou então o "Primeiro Amor", esse é o mais dolorido, o que devasta mais forte, com crises de choro incontroláveis, cenas lamentáveis de histeria, acessos artísticos inusitados, delírios febris, sonhos molhados e garganta seca; sem falar nos tremores, na gagueira, nas crises de pânico.
Nunca se está vacinado contra o amor, nem mesmo quando o coração é duro, sempre há uma brecha pela qual ele vai se infiltrando e criando seus enlaces.
Tem aqueles que amam as coisas, como o dinheiro, o carro, a casa. A quantidade de lugares onde foi, ou mesmo bichos e plantas.
Sempre tem um tipo que ataca os mais renitentes.
O sexual, que se envolve de um manto de luxúria e depois se torna devastador; em alguns casos destrói  contas bancarias, empregos, vida social, saúde e até mesmo a sexualidade.
Tem o ambicioso, que se espalha por todos os lados, indiscriminadamente, sob a alcunha de fraternal. Quem tem tantos irmãos assim?
E o que falar do amor grego, platônico. Esse é quase um estado de arte. Se os romanos tivessem percebido,  Marte seria retratado como um coração sangrando, com seus conflitos intermináveis para consigo mesmo.  Qual a guerra mais violenta e inconquistável do que a luta para se ter e manter uma ideia?
Ama-se as coisas mais abstratas, como um time, uma música, uma pessoa. Ama-se até mesmo estar amando.
Em nome do amor se mata o outro e a si para serem felizes na eternidade. A continuidade é deixada em cartas, em tratados, em desejos escondidos que se tornam revelados no porvir.
Não há nada no mundo que cause maior insatisfação. Quando não se tem, deseja-se; quando se tem, quer-se mais; quando termina busca-se outro diferente.
Essa tragédia destrói as individualidades, sistematicamente amalgamadas. A começar pelo próprio nome que é substituído por sinônimos que em qualquer outro estado seriam repudiados furiosamente, mas quando se está amando... ah, o amor!
Não existe ridículo para quem ama; não existem limites para o que pode ser feito; não existem críticas possíveis pois a aura contagiosa da loucura se estende a volta modificando o olhar.
A humanidade vem lutando contra o amor desde os primórdios imemoriais; até porque o amor não tem memória, se tivesse perceberia danos anteriores e enfraqueceria.
Não há o que possa ser feito.
O remédio seria a indiferença, mas até mesmo isso já foi perdido na escala genética.
Todos que eram indiferentes morreram ao longo dos tempos, não deixaram descendentes inoportunos para esse grande conquistador de corações e mentes que reina incólume e se propaga suavemente.Estamos todos condenados a morrer de amor, em alguma de suas inúmeras manifestações.
Não há o que possa ser feito, basta percebermos que a maior tragédia já ocorreu:  a natureza nos ama.
E isso é simplesmente o fim.

domingo, 15 de janeiro de 2012


Durmo, cheio de nada, e amanhã
Durmo, cheio de nada, e amanhã
é, em meu coração,
Qualquer coisa sem ser, pública e vã
Dada a um público vão.

O sono! este mistério entre dois dias
Que traz ao que não dorme
À terra que de aqui visões nuas, vazias,
Num outro mundo enorme.

O sono! que cansaço me vem dar
O que não mais me traz
Que uma onda lenta, sempre a ressacar,
Sobre o que a vida faz ?!

Fernando Pessoa

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