
Agora
era uma excrescência, aquele pano-membro depositado sobre o seu pescoço. Não
lembrava o que fazer e o susto, da mulher batendo na porta, não colaborou em
nada para melhorar o seu humor.
Abriu
um sorriso desconfortável, uma suplica murmurada.
Poderia
me ajudar com isto?
Não
conseguia nem mesmo enunciar o seu problema, como se fosse tão ridículo alguém
da sua idade ter um problema. Algo tão simples que nem merecia resposta. E
assim ficou.
Ali
atrás da mulher que arrumava o batom e o delineador com perícia como a debochar
dele, e magicamente o nó se fez, apertado sobre o pescoço. Limpo, ascético,
como de costume.

Não é algo tão grave como
esquecer a chave no carro quando se sai do estacionamento, ou o andar em que se
trabalha.
Apertou a chave no
bolso para ter certeza que a levava consigo, enquanto apertava um número no
elevador. Até conseguiu sorrir diante da perspectiva de contar para o sócio a
coisa ridícula que acontecera de manhã.
Mas
ao abrir da porta o pânico invadiu o pequeno cubículo de aço polido, fracamente
iluminado. Aquelas portas enfileiradas como soldados de um pelotão de
fuzilamento. Uma bala aguardando para lhe trazer o fim, mas de que lado?
Andou
lentamente tentando decidir. Estava no andar certo? Qual era o número mesmo?
Pensou no nó da gravata. Instinto é algo maravilhoso, mecânico. Com recursos de
memória que ultrapassavam a vontade. Fechou os olhos, direita ou esquerda?
O
suor frio já lhe molhava o colarinho impecável. Uma luz no fim do túnel e ele
como uma mariposa se sentiu atraído para o ultimo portal. Seu nome lavrado no
vidro, claro.
Sentiu-se
reconfortado no ambiente familiar. Tudo arrumado e limpo, um cheiro de lavanda
que combinava com o creme de barbear.

Que dia esse?
Poderia
perguntar para o homem gordo que ficava na outra sala, ao lado da sua. Aquela
com carpete macio, recém-colocado. A foto da família sobre a mesa ao lado das
pilhas de papeis. Parou com a mão na maçaneta. Não podia simplesmente entrar e
dar de cara com uma pessoa que não sabia mais o nome. Dar de cara com um
estranho.
Recuou
rapidamente e se trancou na sua sala.
Fez uma busca agitada
na internet para tentar descobrir o que estava acontecendo com ele. Um lapso de
memória ocasional, talvez. Um AVC a caminho? Câncer no cérebro? A garganta
seca, apertada em um nó. Que estava procurando?
Ficou
com medo de tirar a gravata, sentir-se mais confortável. E se não conseguisse
lembrar mais como coloca-la?
Faça
uma lista das coisas importantes, verifique se no dia seguinte consegue lembrar
todos os itens e se acrescentou mais alguns, cantava a tela à sua frente.
Trêmulo
pegou a folha de papel e começou a colocar tudo o que se lembrava daquela
manhã.

Isso
não estava funcionando. As coisas iam se apagando da sua mente mais rápido que
conseguia resgata-las. Melhor ligar para o seu médico, ele deveria saber o que
fazer. Assim que encontrasse o número de telefone na agenda que estava sobre a
mesa. Não ali, na sua casa. Ele a havia deixado ao lado do celular.
Ficou
tão feliz por ter lembrado disso que até sentiu-se melhor. Stress era apenas
isso. Depois de um fim de semana difícil com a família que morava na sua casa.
Quando
fora a ultima vez que tivera um fim de semana bom? Sem ter que se lembrar das
contas a pagar; sem ter que concordar com a mulher contra a filha, ou vice e
versa?
Quando
fora que sua filha crescera a ponto de não lhe dar mais importância?
Quando
perdera a sua mulher para o salão de beleza? Para as amigas?
Ficou
olhando para o papel que começara a escrever, praticamente vazio, como a sua
memória, como se as letras tivessem escorregado para o carpete, perdidas.

Quando
chegou à rua afrouxou o nó da gravata e atirou-a em uma lata de lixo, próxima, sem
recordar a cor do nó que lhe apertava a garganta.
Saiu
caminhando feliz como se fosse a primeira vez que andava por aquele calçadão,
rumo a um lugar que não sabia qual. Feliz como não se lembrava de estar ha
muito tempo.
Esquecera-se
de quem era.
3 comentários:
Amor,
Quandos as vestimentas mergulham o SER no esquecimento, tornam-se prisão e podem levar a loucura ou a re-descoberta de quem somos.
Belo texto e temática!
Beijos meus,
Anna Amorim
Amor,
Vale reler e reler. Voltei aqui e o capturei para meu blog.
Beijos meus,
Anna Amorim
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