
Quando percebi meus
duzentos e quarenta e três anos habitavam um corpo de doze anos, mas, por um
longo tempo, apenas eu estava ciente disso.
Fiquei olhando as
coisas por trás daqueles olhos, tentando entender os mecanismos que agiam sobre
mim, sobre aquele corpo. Eu não tinha pressa.
O que poderia acontecer de pior que já não houvesse acontecido?

Então ele morreu pela
primeira vez e nos deparamos. Eu poderia
ter feito tantas coisas naquele momento, ter resolvido o problema de uma vez,
ou então simplesmente ficado quieto e deixado o destino seguir seu curso. Se eu
soubesse qual seria o destino...

A princípio foi como um
passatempo, algo para ocupar os vazios deste lugar, inserindo pouco a pouco
coisas que precisava; que estariam disponíveis para mim quando eu tivesse que
fazer o que era preciso.
Fiquei tão ocupado com
o meu novo propósito que não notei a repercussão disso, até que vi refletidas
em palavras coisas que eu havia construído aqui. Ele envelhecia rapidamente a
cada novo acréscimo que eu implementava, mas o seu corpo continuava frágil para
nós dois.

Como eu poderia
imaginar que isso o tornaria diferente? Não dava para voltar atrás. Precisava continuar
e fazer o trabalho completo até o momento que eu esperava ansiosamente.

E quando o momento
chegou, percebi que havia cometido um erro.
Ele estava mais forte
que eu jamais haveria de imaginar. Estava ciente do que eu era e disposto a acabar
comigo. Não com a ira que eu teria no lugar dele, mas com uma convicção absurda
de que era o melhor a ser feito, ainda que isso acabasse com nós dois.
Lutamos
desesperadamente.
A vida é algo precioso
para alguém que sabe o quanto de possibilidades existe nela, o quanto se pode
perder em alguns segundos.

Eu contava que ele
queria sobreviver, como eu. Todos querem viver, não importa como, não importa o
que seja preciso fazer para continuar seguindo. A culpa pode ser mitigada com
os atos futuros, esquecida em algum canto da memória. Esse foi o meu erro.
Ele me via como o
monstro que habitava os recantos sombrios da sua alma. O Mr Hide mefistofélico
que impregnava os seus atos com a sombra das chamas infernais.
A sua calma plácida me
enfurecia para além da razão e me lancei sobre ele com toda a fome devoradora
que apenas alguém que havia vivido tanto quanto eu poderia possuir.

Deixei que ele drenasse
as minhas forças, que criasse asas e pudesse voar. Deixei-o livre para viver
enquanto eu mergulhava cada vez mais fundo, inerte.
Ele voltou vitorioso
para seu mundinho estranho. Mas não era mais ele.
O amalgama de nós dois
sobrevivera a ambos, crescia de forma estranha, enquanto eu jazia esquecido nas
sombras.
É preciso luz projetada
sobre alguma coisa para que haja sombras. Quanto maior a fonte de luz, maior a
sombra projetada. E eu pude crescer de novo, nas sombras que se avolumavam e me
mantinham vivo.

Mas ele não percebe que
estou aqui, e que ainda vamos nos ver novamente e desta vez eu vencerei, pois
eu sou o demônio que habita sob a sua pele.
Eu
sou a sua Sombra.
Nenhum comentário:
Postar um comentário