sábado, 9 de março de 2013

A Morte de Endy Will Sanders (9a Parte) - Danny Marks



Anteriormente:

9a Parte


A caça não é um esporte. Em um esporte ambos os lados sabem que estão num jogo.
Paul Rodriguez
(Comediante)

           
Todo o percurso entre o complexo oito e o meu apartamento foi feito em silêncio, mas tinha perfeita consciência de Evelyn ao meu lado, e sabia que ela também estudava cada movimento meu com cuidado.
Os módulos de transporte eram confortáveis e podiam levar várias pessoas ao mesmo tempo, mas havia prerrogativas para aqueles que possuíam altos cargos na Enterprises, ou podiam pagar bem pela exclusividade. Estávamos só os dois na capsula que se locomovia automaticamente pelos tubos gravitacionais em velocidades elevadas, embora o sistema não permitisse que sentíssemos o efeito da aceleração.
Deixei a minha mente divagar pelas maravilhas que a humanidade estava construindo em vários lugares do espaço. A criatividade e a engenhosidade humana não tinha limites e um obstáculo apenas fazia com que se tornasse mais criativa e engenhosa para superá-lo.
A minha formação como historiador me induzia a olhar para o passado quando pensava no futuro, os padrões cíclicos das civilizações, as grandes aventuras que se repetiam de tempos em tempos como se a única maneira de ascender fosse através de uma espiral centrifuga.
Quando o ser humano conquistara os caminhos das estrelas não levara apenas o melhor da humanidade, levara consigo os seus medos, os seus ódios, suas ambições e seus erros e os multiplicara numa escala inconcebível.
Não havíamos abolido a guerra, como imaginavam os primeiros pioneiros, apenas a havíamos mascarado em formas sociais que nos pareciam mais aceitáveis. Os vícios que arrastamos para fora do berço se prolongaram com as câmaras de crio-êxtase e agora a perspectiva ficava pior.
Quando chegamos ao meu apartamento vi que Carina havia deixado um recado abaixo do meu bilhete.
Eu havia deixado para ela uma citação da Arqueohistória Criminal Minds. “Há coisas que não queremos que aconteçam, mas temos que aceitar. Coisas que não queremos saber, mas temos que aprender. E pessoas que não queremos perder, mas temos que deixa-las ir”  ela havia escrito no mesmo papel, logo abaixo “Não importa quantas forem as vezes  e circunstâncias das partidas, desde que os retornos superem-nas e façam valer a espera” e assinara com um beijo. Ah, minha doce Carina, frescor da manhã. Guardei o bilhete no meu bolso, não era o momento de pensar nisso agora.
Evelyn sentia-se perfeitamente a vontade no ambiente, foi até o bar e preparou algumas bebidas. Eu me joguei na poltrona, meu espírito estava mais cansado do que o meu corpo e não estava conseguindo me decidir ao que fazer.
Discretamente remexi em algumas coisas que havia deixado à mão para alguma emergência, encontrei o que queria e me senti um pouco melhor, ao menos ainda havia um alívio psicológico em velhos hábitos.
Evelyn provou do meu copo como para verificar se o sabor estava do jeito que desejava e o entregou a mim, sentou-se e ficou me encarando enquanto bebericava em outro copo.
— Você está apreensivo, quer falar o que o está incomodando?
Ia responder quando a esfera piscante surgiu a minha frente.
— Se incomoda se eu atender? Programei o sistema para que me desse um relatório antes de sair, pode ser alguma coisa importante.
— Sinta-se à vontade, Shimoda. Não vou mata-lo por isso — disse com um sorriso indefinido, depois acrescentou —  esta é a sua casa no momento, sou apenas sua hospede.
Ignorei a brincadeira e acionei o comando. Imediatamente a imagem holosintetizada de uma moça apareceu e começou a me passar o relatório.
— O Primeiro Orador Régulos solicitou que lhe passasse um relatório do andamento da investigação. Possui três chamadas pessoais aguardando. O doutor Luiz Henrique III faleceu às 11 horas tempo local em virtude de uma parada generalizada dos sistemas biológicos. Causa averiguada, alergia a substância desconhecida. As autoridades locais estão investigando se não houve ingestão ou contato acidental com algum dos produtos desenvolvidos nos laboratórios do setor oito. Às treze horas tempo local a espaçonave KZ12 – Modulo Espacial do doutor Ernesto Glaubers sofreu pane durante o processo de catapultagem planetária e desintegrou-se. Foram registrados dois óbitos, o do piloto particular do doutor Glaubers e o próprio. Segundo o relatório oficial foi registrado um plano de voo emergencial para Terra II, não foi declarado o motivo. As autoridades investigam a possibilidade de defeito na manutenção da nave que tenha provocado descompressão explosiva. Fim do relatório.
A imagem holosintetizada sumiu, o sorriso de Evelyn continuava firme.
Larguei o copo no suporte e saquei a pistola de agulhas que havia recuperado quando cheguei. Não era uma arma eficiente a longa distância, com seus finíssimos feixes de laser, mas era mortal o suficiente na distância em que estava o meu alvo.
— O que pretendia, Evelyn? Matar-me em meu próprio apartamento? Teve várias oportunidades de fazê-lo antes disso.
— Dannel, posso chamá-lo assim? Acho que já podemos nos considera íntimos agora, tem entrado na minha mente e eu na sua desde que nos conhecemos.
Não havia o menor sinal de hesitação nela, uma assassina fria ou algo que não conseguia compreender ainda?
— Então confessa que está assassinando os membros da Entreprises? Você matou Endy Will Sanders?
— Há muitas coisas que não entende Dannel.
— Explique-me então, temos tempo antes que chame as autoridades.
Ela bebeu mais um gole generoso sem tirar os olhos de mim, estávamos em um jogo perigoso, mas não entendia o motivo dela estar tão tranquila. O que planejava? Que segurança tinha que poderia sair viva dali caso alguém entrasse no apartamento? Eu só precisava apertar o gatilho da arma ao menor sinal de perigo e ela sabia disso.
Ao contrário do que a situação poderia sugerir, a única pessoa que estava morrendo de medo ali era eu, meus instintos nunca haviam falhado antes e me gritavam que as minhas chances de terminar o dia vivo eram significativamente pequenas. A menos que continuasse com o jogo até o fim, ganhando tempo para descobrir uma saída.
Se é que existia alguma.

Próximos Capítulos: 

Capítulo 10

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