sexta-feira, 1 de março de 2013

A Morte de Endy Will Sanders (8a Parte) - Danny Marks




8a Parte


Não há maior pesar que relembrar, com tristeza, o tempo em que éramos felizes.
Dante Alighieri


            O computador quântico em forma de cubo pulsante, com partes construídas em outra dimensão era algo extremamente complexo para as minhas faculdades mentais, mas o Professor, a inteligência artificial que comandava todo o equipamento, era extremamente simples de ser acionada por comando vocal.
            Enquanto Evelyn estava no lavatório se recompondo da notícia do falecimento de seu tio, fiquei conversando com o Professor. Se as perguntas fossem feitas com certo cuidado, ele permitia acesso a informações que eram importantes, mas tinha que ser rápido. Se estivesse certo a minha situação era extremamente delicada, precisava confirmar as minhas suspeitas antes que algo pior acontecesse.
            — Professor, você tem acesso aos registros das ultimas visitas ao doutor Luiz antes que ele fosse acometido do mal súbito?
            — Sim, Investigador Shimoda.
            — O doutor Glaubers veio recentemente encontrar com o doutor Luiz ou obteve algum tipo de acesso aos aposentos particulares dele?
            — Sim, Investigador Shimoda.
            — Você pode me mostrar a projeção desse momento?
            Um Luiz Henrique fantasmagórico entrou na câmara seguido de perto por um Enesto Glaubers, ambos estavam agitados, pareciam estar discutindo desde antes de entrarem na câmara.
            —... não esperaria nada diferente de alguém da sua laia. Vocês são todos nojentos e corruptos. — dizia Glaubers, furioso e enojado.
            Luiz Henrique se voltara e enfrentara Glaubers com um olhar alucinado.
            — E o que você é? Um covarde! Lambendo as botas do vencedor enquanto tece tramas sórdidas que jamais terá coragem de levar adiante. Quem é o nojento aqui? Ao menos fiz as minhas escolhas e assumo as responsabilidades por elas.
            — Você não sabe o que está falando. Eu não sou um covarde...
            — É claro que é! Você e todos os outros, se escondendo nos esgotos do poder como parasitas. Onde teriam chegado sem que Ele os tivesse colocado lá? Diga! Estariam escondidos atrás de seus títulos e seus louvores mesquinhos, rastejando em busca de migalhas para darem o próximo passo.
            — Ele é o parasita, alimentando-se de nossas almas, ganhando o crédito do produto de nossas mentes. Você que é o covarde que se vendeu a troco de impunidade para as suas aberrações nojentas. Deveria colocar a público todas as coisas que acontecem neste covil imundo.
            — Faça, eu o desafio, faça! Quanto tempo acha que iria durar depois disso? Quem iria bancar suas pesquisas? Quem iria lhe fornecer todos os recursos e a impunidade que você e todos os outros precisam? Diga! Muito antes que eu tivesse me vendido, como você diz, vocês todos já haviam feito essa barganha.
            — Você é um louco.
            — Sim, sou louco. Sou o que assume todas as ilegalidades que cometo em nome da ciência. Sou o que assume riscos incalculáveis em nome do meu trabalho, e sabe o que mais? Eu não me arrependo de nada do que fiz e do que ainda vou fazer. Não sou como vocês que criam armas de genocídio e quando elas são usadas colocam a culpa em quem lhes pediu para desenvolvê-las como se tivessem sido obrigados a isso. 
            Luiz Henrique ergueu violentamente as mãos a altura do rosto de Ernesto, que recuou instintivamente.
            — Estas mãos não estão manchadas de sangue inocente. Estas mãos não criaram a morte, criaram vida! Entendeu? Vida eterna e imutável.
            — Você é um mentiroso asqueroso.
            — Mentiroso? Pensa que não sei o que vocês fizeram para construir a Federação? O que desenvolvem aqui mesmo à minha volta, enquanto me isolam de todas as formas que podem? Quando todos vocês se forem, os meus filhos ainda existirão. Serão eles que vão limpar o lixo que vocês espalham por todo o universo. Meus filhos vão limpar a humanidade das estrelas e criar uma nova era.
            — Você é mais louco do que Ele. Quando ele cair vou pessoalmente atrás de você para extermina-lo com as minhas próprias mãos.
            — Apresse-se, verme, porque em breve seremos imortais.
A transmissão terminara, mas eu ainda fiquei alguns minutos tentando me recuperar do que tinha visto.
            — O registro automático foi desativado a partir deste ponto.
            Não era possível que as coisas tivessem chego a esse ponto, como se uma colônia de bactérias mortíferas tivesse se espalhado para além da contenção. Rapidamente dei instruções para o Cubo, algo tinha que ser feito. Tentei lembrar-me de Carina, a doce e singela moça, com seus sonhos simples e seu sorriso sincero. Precisava me agarrar em alguma coisa boa para continuar acreditando que era possível reverter aquela loucura toda.
            — Você está se sentindo bem? O que aconteceu? Quer que eu chame um médico? Não tocou em nenhum dos produtos do laboratório, não é? Alguns compostos aqui são altamente tóxicos.
            — E... estou bem, Evelyn. Apenas vamos embora daqui. Se você não se importar tenho que voltar ao meu apartamento.
            Desativei o cubo e saímos em direção ao transporte. A minha mente girara e girava enquanto tentava absorver todas as implicações do que havia visto. Não era a primeira vez que a minha vida estava em risco, até achava que não seria uma perda considerável se algum dia tombasse em ação, embora sempre estivesse disposto a vender caro o meu ultimo suspiro. Sorri comigo mesmo, a coisa era tão nojenta que tinha que recorrer aos mais pobres e românticos pensamentos dos antigos para seguir em frente.
            Havia tanta beleza e horror nas histórias antigas, retratos de uma humanidade perdida na finitude insignificante de suas vidas, nos delírios de grandeza que escravizavam as estrelas às suas volúpias tolas e românticas.
            No que havíamos nos tornado? O que iríamos nos tornar com os séculos a frente? Em que curva do destino havíamos perdido a majestade da esperança, a grandiosidade do sonho, a humanidade dentro de nós.
            Seria um homem capaz de mudar o destino da humanidade?
            A imagem de Endy Will Sanders sendo abraçado pelas chamas atômicas em seu funeral me veio à mente. Talvez os antigos estivessem certos quando diziam que somos todos, peças de um jogo cósmico.
E algumas peças podiam virar o jogo de forma dramática.
            Um plano começou a se formar na minha mente e só precisava terminar aquele dia vivo ou não haveria futuro para Carina.
            Não haveria futuro para a humanidade.
 

Próximos Capítulos: 

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