quinta-feira, 28 de março de 2013

A Morte de Endy Will Sanders (12a Parte - Final) - Danny Marks





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12a Parte


Nada é tão forte como a gentileza, e nada é tão gentil como a verdadeira força.
Ralph W. Sockman


            O xadrez foi um jogo muito popular na Era Pré-Galáctica, mas aos poucos foi substituído por outras formas de competição, embora preservado por alguns adeptos. Nunca fui um bom jogador de xadrez, embora apreciasse assistir as partidas. Na verdade, vários jogos mentais da antiguidade eram interessantes por transformar a mente em um campo de batalhas onde a habilidade em perceber e antecipar o movimento do adversário ao mesmo tempo que desenvolvia e escondia a sua própria estratégia. Eram os fundamentos para que se conquistasse a vitória, de forma que mesmo o que fora derrotado saia satisfeito por ter participado de um embate memorável.
            — Aceito o desafio, Evelyn, Apenas me corrija se estiver errado em algum ponto e, se me permitir, acrescente algum detalhe que tenha deixado escapar.
            — Combinado, Dannel. Tem toda a minha atenção.
            — Bem, como você mesma me revelou, Endy Will Sanders, seu marido, a mantinha em uma prisão sem grades. Muito melhor do que a sua situação em Gollum, nas mãos do asqueroso Demétrio II, mas com o tempo essa situação tornou-se insustentável.
            Ela apenas bebeu um gole do copo sem falar nada, sua atenção estava totalmente voltada para mim. Continuei tranquilamente a minha preleção como se estivesse diante de um tribunal de júri.
            — Com o tempo que tinha disponível, principalmente quando Endy ou Luiz Henrique estavam em crio-êxtase, desenvolveu um produto químico que afetasse quimicamente as mentes de suas vitimas de forma que não pudessem deixar de ama-la intensamente e isso lhe permitia manipular sutilmente as coisas. E quando obteve sucesso, testou com o seu próprio tio, Luiz Henrique.
            Ela não me interrompeu em nenhum momento, como era de se esperar, afinal isso já estava posto, mas precisava criar o ambiente propício para o clímax de minha história.
            — Acredito que você realmente amava, de alguma forma, tanto Endy Will Sanders, quanto Luiz Henrique III. Pude ver a sua reação quando soube da morte de seu tio, que já havia me revelado era como um pai para você. Observei-a no funeral e o seu luto pareceu-me verdadeiro. Não vou questionar as suas atitudes em relação aos dois, não tenho como julgar adequadamente o que passou nas mãos deles e o quanto isso afetou a sua estrutura emocional. Mas o fato é que você não matou Endy Will Sanders!
            Ela sorriu surpresa, ajeitou-se na cadeira e bebeu mais um generoso gole, mas não disse nada, então continuei.
            — Estava errado nas minhas suposições iniciais. Mas tenho que reconhecer que com os dados que tinha era a hipótese mais provável. Uma pessoa paranoica como Endy não iria jamais cometer suicídio, o que me levava a crer que só poderia ter sido um assassinato cometido por alguém dentro do Circulo Interno. Alguém com acesso pessoal a Endy, que contasse com a sua confiança de forma que pudesse lhe ministrar uma substância tóxica que o levasse a morte. Alguém que poderia lucrar muito com a morte dele. O que a tornava a suspeita principal.
            Estendi a mão e peguei a minha bebida, dando um gole antes de prosseguir. A minha contagem interna estava a meu favor.
            — Quando percebi que você, à sua maneira, amava tanto Endy quanto o seu tio fiquei intrigado com o que havia acontecido. Morte acidental, talvez, mas o que poderia ter provocado uma falha em seu plano tão elaborado?
            — Diga-me você, Dannel. O que poderia ter causado isso?
            — Elementar, Evelyn, o soro da imortalidade! A peça que me faltava era exatamente essa, e quando a obtive pude montar todo o quebra-cabeças.  Seu tio Luiz Henrique amava Endy, mas não arriscaria a si mesmo ou a você para testar o soro da imortalidade. Provavelmente deve ter feito os testes em tecidos vivos do próprio Endy, no seu laboratório particular, de forma que ninguém pudesse ter acesso a qualquer resultado.
            — Estou impressionada, Dannel. Continue.
            — Provavelmente as amostras demonstraram que o soro estava pronto e Luiz o ofereceu diretamente a Endy, que deve ter feito os seus próprios testes antes de ingeri-lo. Ninguém paranoico como ele aceitaria uma promessa como segurança. Mas o que o seu tio ou mesmo Endy não contavam era com a possibilidade de outros fatores adversos recombinarem o soro de forma que ele se tornasse altamente tóxico. Foi o seu perfume que matou Endy Will Sanders. O seu perfume que recombinou com o soro alterando a composição química tornando-o um veneno.
            — Mas o soro foi produzido a partir da minha composição química.
            — Exatamente! Justamente porque havia sido produzido à partir da sua estrutura química e celular era perfeitamente seguro, caso não fosse submetido a outro reagente químico baseado na mesma estrutura química e celular, o seu hipnoperfume. Foi isso que fez com que ele se recombinasse e se tornasse não um soro da imortalidade, mas mortal.
            — Isso não explica o que aconteceu com o meu tio.
            — Foi realmente algo que me deixou pensando, mas fiquei revendo o funeral de Endy na minha cabeça e as coisas foram se encaixando. O seu tio estava desolado não apenas porque Endy morrera, nem mesmo você estava chorando no funeral. Ele estava chorando de medo, porque achou que Glaubers finalmente conseguira um meio de matar Endy antes que o soro tivesse surtido efeito, e o fato de ter se sentido mal e desmaiado só deve ter aumentado ainda mais a paranoia dele, de forma que, quando pode, a primeira coisa que fez foi correr para o laboratório e administrar o soro em si mesmo. Ainda havia resquícios do seu perfume na cama e isso deve ter sido suficiente para que o soro começasse a recombinar. Mas Luiz Henrique III não era Endy Will Sanders, ele era um gênio da bioquímica e percebeu o que estava acontecendo quando as reações começaram. Deve ter tentado reverter o processo, porém não havia tempo e saiu do laboratório para procurar ajuda. Infelizmente já era tarde demais.
            Evelyn bateu palmas enquanto sorria maravilhada.
            — Dannel, você faz por merecer cada centavo que meu marido lhe pagou. Eu tive que rever os registros do laboratório para poder tentar entender e mesmo assim ainda não tinha chego a uma conclusão sobre o que acontecera. Então o meu perfume é um veneno para os imortais, que interessante...
            — Foi isso que fez enquanto estava escondida no banheiro do laboratório, estava acessando os registros e apagando os rastros, não é?
            — Sim, tinha que me resguardar, as coisas já estavam ruins o suficiente.
            — Só não sei quando foi que deu a ordem para matar Glaubers. Estive todo o tempo com você e não teve acesso a nenhum equipamento fora do laboratório. E todas as transmissões dentro do laboratório seriam bloqueadas. Como fez isso?
            — Na verdade foi relativamente simples. Eu inseri nanobombas na comida de Glaubers quando ele se encontrou com você pela primeira vez. Esperava uma oportunidade como essa desde o funeral. É fácil subornar algumas pessoas por aqui. Sabia que ele não poderia usar os meios de comunicação para se comunicar com os partidários de Demétrio, todos canais estavam vigiados depois da morte de Will e a única forma de não revelar outros membros do complô seria sair do planeta. Quando fizesse isso, o campo gravitacional da catapulta espacial ativaria as nanobombas. No fim, ele era inocente da morte de Willl, mas não acredito que tenha sido uma grande perda, mesmo o piloto era um assassino contratado, um ex militar de Gollum. Particularmente ainda desconfio da morte de Demétrio.
            — E o que pretende fazer agora? Matar-me?
            — Não, Dannel. Embora possa parecer não sou uma assassina. Sei que não vai revelar nada disso para ninguém, até porque seria uma história fabulosa demais para que alguém acreditasse e não haveria como provar. Fique tranquilo estamos ambos livres. Apenas tome cuidado quando cruzar o meu caminho novamente, posso não ser tão generosa da próxima vez.
            Ela colocou o copo no suporte, aproximou-se e me deu um beijo na boca antes de se dirigir para a porta.
            — Evelyn, talvez precise disto da próxima vez.
            Ela se virou e com um reflexo perfeito pegou no ar o frasco que havia lançado em sua direção, eu já estava com a pistola de agulhas apontando para ela e a distância era suficiente para causar um bom estrago.
            Evelyn olhou para a pistola e para o frasco.
            — O antídoto. Então você não estava sob efeito hipnótico.
            — Roubei de você quando lhe dei os pêsames por seu tio, sabia que poderia usar de novo a sua arma, mas queria que estivesse tranquila para me revelar toda a situação.
            — E o que pretende fazer agora?
            — Nada. Acho que as coisas aconteceram como tinham que acontecer, mas como você mesma disse, apenas tome cuidado quando cruzar o meu caminho novamente, posso não ser tão generoso da próxima vez.
            Ela sorriu e foi embora. Definitivamente linda, livre e mortal como uma sereia espacial. Não queria estar na pele daqueles que a fizeram sofrer. Talvez houvesse alguma justiça poética em tudo isso, os antigos que o digam.
            Peguei o bilhete que Carina havia deixado, consultei os horários do espaçoporto. Ainda tinha tempo. Definitivamente não havia mais inocência naquela parte do Universo, mas não era isso o que me incomodava.
            As palavras de Luiz Henrique III ainda ressoavam em minha mente.
            “Quando todos vocês se forem, os meus filhos ainda existirão. Serão eles que vão limpar o lixo que vocês espalham por todo o universo. Meus filhos vão limpar a humanidade das estrelas e criar uma nova era.”
            Eu ainda não sabia o que fazer com aquilo, mas agora não era hora de pensar nisso. Primeiro um longo e gostoso banho, depois me encontrar com a maravilhosa Carina.
            Droga, ainda tinha que resolver outra questão, mas com os meus novos recursos isso poderia ser facilitado.
            O antídoto não fora a única coisa que roubara de Evelyn. Saquei do bolso o Cubo e o deixei flutuando no ar.
            — Professor, você tem condições de acessar os equipamentos deste apartamento e enviar uma mensagem para o Primeiro Orador Roy Régulos?
            — Perfeitamente, Inspetor Dannel Shimoda. Deseja que eu encerre as gravações?
            — Sim, depois veremos o que fazer com elas. Acompanhe-me enquanto eu dito a mensagem. Nunca precisei de um banho como agora.
            — Posso imaginar Inspetor Dannel Shimoda.
            Olhei para a máquina infernal que me seguia, era só o que me faltava, o desgraçado já estava se apossando da minha ironia?
            Odeio plagiadores.


FIM
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