sábado, 23 de fevereiro de 2013

A Morte de Endy Will Sanders (7a Parte) - Danny Marks




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7a Parte


Nós nascemos sozinhos, vivemos sozinhos, morremos sozinhos. Somente através do amor e da amizade podemos criar a ilusão, por um momento, que não estamos sozinhos.
Orson Welles


            Muitas coisas podem revelar a personalidade de uma pessoa.
            As roupas que veste e os acessórios que usa, indicam a posição social e como alguém se relaciona com os pares. A entonação de voz e as escolhas de palavras podem aprofundar esse conhecimento do convívio, a expressão corporal indica nuances não revelados, sentimentos mais profundos e inconscientes, coisas que muitas vezes não se quer revelar, mas que vazam através dos escudos e das máscaras que criamos constantemente.
            Mas nada diz mais sobre quem você é do que o seu mais intimo refúgio, onde você pode sentir-se bem o suficiente para ser você mesmo, longe dos olhares indiscretos, longe do espelho do mundo.
            Sem Evelyn jamais teria acesso ao laboratório privado de Luiz Henrique III, o Farrapo. Jamais teria acesso ao que, para mim, era um retrato da alma de um homem, seu refúgio.
            Sabia que estava sendo observado o tempo todo por aquela mulher que alegava ter cento e setenta e cinco anos padrão de idade, de uma beleza incomparável e uma presença marcante, mesmo quando estava à suas costas.
            — Você não precisava ter vindo, bastava que me desse autorização.
            — Shimoda, se não quer a minha companhia basta dizer, mas queria vir aqui. Há alguns anos que não venho até este lugar, embora as coisas por aqui não tenham mudado muito.
            Havia imaginado como seria o refúgio de um homem como Luiz Henrique III, irmão de um ditador, um cientista desprezado pelos seus colegas de forma tão aberta quanto era possível, integrante do Circulo Interno de Endy Will Sanders. Mas jamais poderia imaginar algo como aquilo que estava vendo.
            O cômodo era grande o suficiente para abrigar as inúmeras bancadas e aparelhos diversos, que jamais conseguiria adivinhar a utilidade, mas tudo estava espalhado em um padrão caótico e doentio, com uma lógica irracional, perturbadora pela simples imagem visual.
            O doutor Luiz arrumava o seu laboratório com o mesmo esmero que tinha ao se vestir, ou seja, absolutamente nenhum, o que me fez redefinir o meu conceito de pandemônio.
            O acesso àquela adjacência do complexo oito era feito por um corredor que o interligava ao restante da estrutura, mas parecia ser uma excrescência que havia crescido a partir da parte principal, como um tumor que ainda não fora removido. Havíamos passado por um complexo sistema de segurança, bem mais forte do que o utilizado para acessar o próprio complexo, apenas para entrar naquela câmara blindada. Minha primeira impressão não era de um laboratório particular, mas um bunker montado por um psicótico perigoso. Lembrei-me da descrição que Mary Shelley havia dado para o laboratório do Dr. Frankenstein e fiquei imaginando se todos cientistas loucos possuíam os mesmos decoradores.
            A cama antigrav a um canto chamou a minha atenção. Uma cama de casal, com lençóis limpos e confortáveis, a única peça que poderia se dizer que estava arrumada naquele ambiente infernal. Aproximei-me e senti um leve odor conhecido.
            — Não há retratos em nenhum lugar — disse em voz alta, para que ela ouvisse.
            — Isso é importante?
            Evelyn estava mexendo em alguns equipamentos. Absorta e lidava com a coisa com habilidade. Fingi que não estava interessado.
            — Normalmente os homens que passam muito tempo em seu trabalho acabam trazendo algo que lhes lembre a sua vida particular, uma foto ou mesmo alguma recordação de alguém que goste.
            — Meu tio era um homem muito solitário, ao contrário de meu pai que sempre gostou de ter companhias femininas, muitas. Agora que mencionou o fato realmente não me lembro de algum relacionamento sério que Luiz tenha desenvolvido. Acho que ele acabou se casando com o seu trabalho e isso de alguma forma o satisfazia, se me entende.
            — Talvez ele tivesse um caso e ninguém soubesse. Um homem com a posição dele pode muito bem contrabandear alguém para o seu quarto sem que alguém perceba. Talvez uma pessoa da sua própria equipe que não quisesse ser vista junto com ele fora de um ambiente restrito.
            Ela ficou me olhando durante alguns segundos, um olhar intenso e avaliador. Era difícil sustentar o seu olhar por muito tempo. Aquele não era o melhor caminho para acessar a sua alma, como sugeriam os poetas da antiguidade.
            — Talvez o meu tio estivesse tendo um caso secreto e escondesse isso muito bem. Mas se for verdade podemos descobrir algum indício aqui.
            Ela digitou alguns comandos na máquina e a parede próxima abriu um nicho que não era perceptível antes revelando um Cubo.
            Eu havia lido em algum lugar sobre o Cubo, um computador quântico que trabalha a nível dimensional, acionado por uma inteligência artificial e com recursos que beiram a ficção científica. Forcei a memória para lembrar onde havia visto a referência sobre isso e me lembrei. Era um dos produtos experimentais da equipe de Ernesto Glaubers. Comunicações de Subondas e desenvolvimentos de máquinas de Éter, que existiam em grande parte em outra dimensão apenas “ancoradas” no universo real, eram a sua especialidade.
            O que Luiz Henrique III estaria fazendo com algo do tipo trancado em seu laboratório?
            Evelyn pegou o Cubo e com um tom firme acionou o comando de voz.
            — Professor, ative-se.
            — Lady Evelyn, estou ativo. Em que posso servi-la?
            O Cubo ativado elevou-se no ar, pulsando em escalas cromáticas enquanto fazia pequenas revoluções que davam a ilusão de que mudava de forma constantemente. A “voz” era sintetizada sem uma localização definida. Provavelmente usava a tecnologia de reverberação ambiental enviando algum tipo de energia que transformava qualquer objeto em um emissor sonoro. Talvez estivesse estimulando diretamente o córtex auditivo, não sei.
            — Professor, preciso de informações acerca de Luiz Henrique III. Ele encontrou-se em particular com alguém recentemente?
            — O doutor Luiz Henrique III tem mantido encontros particulares, mas parte dos dados foram removidas do sistema automático de registro. O encontro mais recente foi efetuado na parte externa da câmara prioritária, com o Doutor Ernesto Glaubers.
            — Em que circunstância esse encontro se deu?
            — O doutor Ernesto Glaubers foi solicitado para desativar as defesas de acesso para que o doutor Luiz Henrique III fosse socorrido.
            Interrompi o dialogo, havia algo que me intrigava.
            — Professor, eu sou...
            — Investigador Dannel Shimoda. Está no meu banco de dados. O senhor está autorizado a fazer perguntas.
            — Você disse que o doutor Luiz teve que ser socorrido e que o doutor Ernesto Glaubers é quem teve que vir resgata-lo. Por quê?
            — O acesso à câmara privativa é restrito, pessoas não autorizadas não podem passar pelo sistema de segurança.
            — E o doutor Glaubers é uma dessas pessoas autorizadas?
            — O doutor Glaubers é o responsável pela montagem e manutenção de todos os equipamentos de segurança de Nível 10 ou superior, em caso de emergência ele pode usar suas autorizações de manutenção para desativar temporariamente o sistema de segurança.
            — E neste caso ele fez uso dessa prerrogativa?
            — Sim, Investigador Dannel Shimoda. Quando a equipe do doutor Luiz Henrique III percebeu que havia algo errado, mobilizou o doutor Ernesto Glaubers para que pudessem ter acesso.
            — O doutor Glaubers fez alguma manutenção recente nos escritórios de Endy Will Sanders?
            — Não tenho essa informação disponível.
            Olhei para Lady Evelyn que intercedeu.
            — Professor, você não tem acesso a essa informação ou ela foi apagada do seu banco de dados?
            — Não tenho essa informação disponível.
            — Evelyn, precisamos ver o seu tio com urgência.
            A máquina deu a informação com a mesma objetividade com que apresentaria um cardápio.
            — O doutor Luiz Henrique III veio a óbito há dez minutos padrão.
            Tarde demais, devia ter previsto isso. Evelyn virou-se de costas e cobriu o rosto. Eu a abracei gentilmente, confortando-a. Mas ainda precisava fazer uma ultima pergunta para aquela máquina.
            — Professor, por que não recebemos a notícia do falecimento pelos canais normais.
            — O bloqueio da câmara impede qualquer tipo de transmissão ou recepção normal em seu interior.
            Isso era tudo o que precisava saber. Alguém havia matado Endy Will Sanders e agora Luiz Henrique III, e tinha uma forte suspeita de quem e como, mas ainda faltava saber o porquê?

Próximos Capítulos: 


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