quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A Morte de Endy Will Sanders (6a Parte) - Danny Marks




6a Parte


Se é um milagre, algum tipo de evidência dirá, mas se for um fato, a prova é necessária.
Mark Twain


            O crio-êxtase havia sido criado antes do motor de subespaço, quando as viagens espaciais eram um jogo caro, controlado pelas nações do planeta Terra, o berço da humanidade.
            Viajar para fora do planeta, mesmo para o mais próximo deles, implicava no dispêndio de anos padrão; além do incômodo da viagem, os gastos em suprimentos, as dificuldades absurdas que quebravam a vontade dos mais bem preparados astronautas, como eram chamados.
            Um cientista inventara um método eficiente de congelar uma pessoa em estado criogênico e ressuscita-la tempos depois, sem qualquer dano físico ou mental. Isso permitiria que os astronautas fossem congelados durante toda a viagem pelo espaço e retornassem à vida próximo do seu destino, evitando todo o desconforto do interlúdio. Seria um longo sono que, para o crionauta, seria percebido apenas como um breve piscar de olhos.
            Os custos do processo eram astronômicos e as utilidades práticas irrisórias. Quem comandaria a nave durante a viagem? E se algo desse errado durante o percurso? Obviamente a indústria espacial havia se negado a implantar o projeto, mas a notícia vazara para a imprensa.
            A busca pela imortalidade sempre fora a maior meta da humanidade, e o crio-êxtase era o mais próximo da promessa de imortalidade que era possível de ser realizada. O método prometia interromper qualquer processo de degeneração celular pelo período em que se estivesse na câmara. Havia inúmeros questionamentos quanto à ética e consequências desse procedimento.
            Uma pessoa que ficasse congelada durante vinte anos, quando acordasse se depararia com um mundo completamente mudado, o choque cultural poderia levar a loucura, fora o fato de que alguém que se sujeitasse ao processo estaria definitivamente morto para todos os outros que ficassem de fora. Mas isso não impediu que milionários inescrupulosos se aventurassem nesse caminho. Poderiam voltar tempos depois e ver os resultados dos seus planos, poderiam se esconder do tempo e reassumir em qualquer período que desejassem. Obviamente, para o grande público, o que estava sendo vendido era a possibilidade de se congelar uma pessoa com uma doença incurável até que a medicina avançasse o suficiente para descobrir um método de vencer o mal que assolava o seu ente querido.
            Não havia como barrar uma coisa assim, e isso foi o início da mudança da sociedade humana. Quando as primeiras naves de subespaço partiram em busca de novos mundos para colonizar, diversas câmaras de crio-êxtase foram junto para garantir que houvesse um suprimento de material humano em cada colônia, depois que ela fosse estabelecida. O próprio Endy Will Sanders fora um dos que entrara no Sono, por séculos, enquanto a sua empresa era dirigida por alguns escolhidos, o Primeiro Círculo Interno. A prática ainda era usada, em menor escala, pelos poderosos que não se contentavam em viver apenas uma vida e pelos que gostavam de usufruir de forma covarde do tempo que lhes fora destinado, fugindo para o Sono ao primeiro sinal de desastre.
            Evelyn aparentava ter algo em torno de vinte e oito anos padrão, e a alegação dela de que tinha na verdade cento e setenta e cinco anos padrão sem jamais ter entrado em crio-êxtase, significava que a fonte da juventude eterna havia sido descoberta e guardada mais secretamente do que qualquer outra coisa no universo. É claro que isso devia ser uma mentira, tinha que ser.
            — Não é uma mentira, Shimoda. Meu tio levou anos desenvolvendo a engenharia genética e, digamos, fui um efeito colateral interessante.
            — Supondo que isso seja verdade, Evelyn, você é a mais importante experiência da humanidade. Por que o seu tio não revelou à comunidade científica esse maravilhoso feito?
            — Você não entendeu, o efeito foi acidental e levamos anos para perceber que eu havia “congelado” neste estágio. Quando o meu pai percebeu isso, trancou-me e ao meu tio, até que fosse descoberto o que me tornava assim de forma que pudesse ser duplicado.
            Eu tentava absorver as implicações do que ela me dizia o mais rapidamente possível. O melhor a fazer era estimular que ela continuasse falando, enquanto eu pensava.
            — Não vejo grades a sua volta, pelo contrário. O que aconteceu para que fosse libertada?
            — O quê, não, quem. Endy Will Sanders, aconteceu. Quando Will soube de minha existência imediatamente assumiu o controle da situação.
            — Bem ao estilo dele, com certeza.
            Ela fez uma careta entre a tristeza e o ódio, estávamos em um terreno pantanoso, e não sabia aonde isso iria me levar.
            — O meu pai não entregaria a mim e muito menos ao meu tio sem que tivesse uma certeza de que obteria o que desejava. Ele seria capaz de matar a nós dois antes de ter que fazer isso. Se ele não obtivesse, ninguém poderia ter.
            — Entendo.
            — Não, você não entende, mas aceite quando lhe digo que Will realmente nos salvou, a mim e ao meu tio, de uma vida infernal e odiosa.
            — Posso lhe perguntar como o nobre Endy conseguiu salvá-la do monstruoso pai que a vida, ou melhor, o seu tio Luiz, havia lhe dado?
            — Will deu a única garantia que satisfaria o meu pai, casou-se comigo. Isso permitia que o meu pai estivesse em contato com o Circulo Interno da única maneira que ele poderia ter, e também lhe daria mais poder que jamais havia imaginado alcançar.
            Sim, podia entender essa barganha. Se um simples funcionário de Endy era mais poderoso que muitos governantes planetários, o que dizer do pai da esposa de Endy Will Sanders. Além do fato de que isso lhe permitiria estar tão próximo do seu projeto particular quanto seria possível.
            — Então você convenceu o seu marido a contratar o seu tio.
            — Não, isso fez parte da barganha. Luiz teria acesso a todos os recursos que precisaria para completar a sua pesquisa. Eu seria a sua fonte de material de pesquisa, por isso mesmo que jamais pude ir para as câmaras de crio-êxtase, para não contaminar o material.
            — De uma prisão de ferro a uma de platina.
            — A princípio também pensei assim, mas aceitei simplesmente para me livrar do meu odioso pai. O que poderia ser pior que a vida que tinha?
            Não respondi, podia pensar em dezenas de formas, mas às vezes é melhor manter-se calado.
            — Will me tratava como uma esposa de verdade, aos poucos conquistei a sua confiança e até assumi o controle de algumas operações dele, enquanto estava no Sono. Talvez você não acredite, mas Will era um homem adorável quando queria.
            Sim, isso é uma coisa que jamais conseguiria acreditar, Endy Will Sanders, um amável marido. Não, sereias espaciais eram mais verossímeis que isso. Mantive-me calado.
            — Obviamente não poderia revelar o nosso segredo, até por uma questão de segurança pessoal.
            — Obviamente.
            — Por isso que de tempos em tempos me tornava reclusa, desaparecia de cena como se estivesse em crio-êxtase.
            — E o que fazia nesse período?
            — Ficava com meu tio no laboratório, trabalhando na formula que permitiria a longevidade, senão a vida eterna.
            — Eu não sabia que entendia de bioengenharia.
            — Aprende-se muita coisa quando se tem bastante tempo disponível e disposição, Shimoda. Eu tinha o melhor professor que se poderia ter.
            — Seu tio Luiz Henrique III, suponho.
            — De certa forma, Luiz foi o único pai que tive de verdade, não era mais uma experiência ou uma possibilidade de conquista insuperável, era a criação dele.
            A filha de Frankenstein me veio imediatamente à cabeça, quanto mais cavava nesse lodaçal, mais sujeira encontrava.
            — Gostaria de continuar a conversa em outro momento, se me permitir. É que preciso encontrar com seu... com o doutor Luiz Henrique.
            Ela abaixou a cabeça, os olhos marejados.
            — Isso não vai ser possível. Meu tio está à beira da morte. Ele foi encontrado ontem, em estado grave. Está na nossa unidade médica, mas não há chances de que possa sobreviver.
            Algo me incomodava no fundo da mente, uma percepção que não conseguia trazer a tona, quando parecia que ia conseguir segurá-la escapava novamente para o fundo lamacento.
            — Eu sinto muito por isso. Deve ser difícil perder dois entes queridos em tão curto espaço de tempo.
            — Obrigada.
            — Evelyn, em qual complexo o doutor Luiz Henrique tinha o seu laboratório?
            — No setor oito, é claro. Está nos mapas do Complexo.
            — Sim, que bobagem a minha, é claro. Agora me lembrei, mas com o doutor incapacitado vai ser difícil obter acesso ao laboratório dele, não é mesmo?
            Ela me olhou diretamente.
            — Não se preocupe, Shimoda, posso levá-lo até os laboratórios do meu tio. Sou dona da Enterprises.
            A forma como ela me disse aquilo me fez sorrir por fora e gelar por dentro, não havia mais inocência nesta parte do universo. Talvez nunca mais houvesse.

Próximos Capítulos: 

   
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