sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A Morte de Endy Will Sanders (5a Parte) - Danny Marks





5a Parte


Na infância não estive onde outros estiveram, não vi o que outros viram.
Edgar Allan Poe



            A Enterprises tinha uma de suas mais importantes bases de pesquisa no planeta, o que não era estranho em se tratando de Endy. Nove mundos da Federação tinham leis mais brandas acerca de várias coisas. Oficialmente seguiam os mesmos princípios ditados para o resto da Galáxia, mas em alguns lugares a lei era vista com olhos mais míopes do que nos outros. Em todos esses lugares a Enterprises florescia com suas próprias leis.
Beta Setti era um dos projetos mais ambiciosos de Endy Will Sanders, um planeta com as dimensões da Terra, embora sem nenhuma atmosfera devido a algum tipo de desastre cósmico que não conseguia compreender, nunca gostei muito de planetologia.
Isso não impediu que a Enterprises desenvolvesse um lucrativo centro recreativo no planeta, com suas cúpulas energéticas e toda a parafernália tecnológica que o tornava um paraíso acessível aos que tinham créditos suficientes para bancar os custos astronômicos da estadia. Mas não era isso que o tornava mais importante dentre os mundos da Federação.
Poucos sabiam, mas Beta Setti estava sendo terraformado pela Enterprises, o que era extremamente ilegal, mas Endy era o dono do planeta, conquistado por meio de uma série de manobras legais e rios de créditos gastos em subornos e sabe-se mais o quê.
Meu acesso aos registros da Enterprises me permitiram burlar alguns dos protocolos de segurança. Trabalhar para um homem no limite da paranoia tinha algumas vantagens, consegui informações que valiam milhões de créditos em qualquer ponto da galáxia, seguidos de uma morte brutal, provavelmente.
Isso é o que a grande maioria das pessoas não entende acerca das informações corporativas, ter acesso às informações não era o primordial, mais importante era saber o que fazer com elas depois que fossem adquiridas, na maioria das vezes a resposta era bem simples: Nada.
Um Investigador devia saber lidar com informações altamente sigilosas e valiosas, fazia parte da profissão, não importava para quem você estivesse trabalhando no momento ou para quem trabalharia posteriormente, segredos permaneciam secretos não importava o que fosse preciso fazer para mantê-los dessa forma. Qualquer um poderia vender uma informação de alto nível para um concorrente e ganhar créditos para passar o resto da vida sem fazer nada, mas a única forma de continuar vivo por tempo suficiente para que o “resto da vida” fosse razoavelmente longo era se mudar para algum planeta completamente desabitado, fora de todas as rotas comerciais, sem nenhum tipo de contato com outro ser humano. Do contrário seria encontrado, os próprios compradores o denunciariam no minuto seguinte, garantindo que a prática jamais se voltasse contra eles. O método nunca falhara significativamente.
Por isso, procurei Lady Evelyn Einsenhower sem marcar entrevista, na certeza de que ela me receberia, só não esperava que estivesse em Beta Setti, mais precisamente no interior do Complexo, a imensa cidadela construída pela Enterprises naquele planeta, como centro de pesquisas.
Enquanto me encaminhava para o encontro com ela, atravessando a planície do planeta em um módulo do turbovácuo, fui recapitulando o que eu sabia sobre a moça.
O título de Lady, quase extinto em toda a galáxia, era uma concessão à sua origem nobre. Filha de Demétrio II, o déspota de Gollum que dominou o planeta antes que a Federação fosse criada e ainda influente no meio político, vivia mais nas transmissões de festas da alta sociedade que qualquer outra pessoa conhecida.
Afora o fato de ser considerada uma “embaixadora”, o que na maioria das vezes significava apenas que conhecia pessoalmente os dirigentes planetários e pessoas influentes, não havia qualquer outro registro de sua importância para o cenário político ou científico. Exceto pelo fato de que fora a ultima esposa de Endy, e a primeira a se tornar viúva. Tecnicamente ela era por direito a dona da Enterprises, mas com certeza seria engolfada em breve pelo conselho administrativo que passara automaticamente a dirigir a empresa com a morte de Endy Will Sanders.
O conselho administrativo era composto pelo Circulo Interno de Endy, e supostamente eram os que o aconselhavam em suas decisões. Na verdade eram apenas um dos escudos que o canalha usava para se defender de qualquer tipo de ataque, meros testas de ferro, fantoches e, agora com a morte de Endy, meus principais suspeitos na possibilidade de assassinato.
Meu levantamento dos últimos fatos da empresa, feito pela manhã antes da entrevista, me revelara um fato no mínimo curioso. Lady Evelyn fora nomeada para ser a primeira oradora do conselho administrativo. Um delírio de grandeza? O que uma mulher como ela conseguiria fazer contra um grupo de cientistas canibais?
Tive a minha resposta quando as portas da Sala de Reuniões do complexo 10 foram abertas, o local para o meu encontro com aquela beldade que me tirou o ar dos pulmões mais rápido que um chicote neurônico o faria.
Endy realmente escolhia o melhor do melhor para ter por perto, e a viúva era uma prova viva disso.
O verde escuro do discreto vestido, que nem por isso escondia a perfeição daquele corpo, era a cor oficial do luto na Federação, mas ela o ostentava como se fosse mais um maravilhoso adorno, entre os poucos que usava no momento.
Ela levantou-se do seu trono, a cadeira antigrav fora magicamente transformada pela sua ocupante, e dirigiu-se majestosamente até onde eu permanecia petrificado, simplesmente para desfazer generosamente o feitiço que me imobilizava ao pegar a minha mão e falar as palavras mágicas.
— Investigador Shimoda, que bom que o senhor veio.
Quem no universo não atravessaria uma supernova ou mergulharia em um buraco negro, só pela oportunidade de encontrar com aquela moça? A forma como ela colocava as palavras, o tom de voz que usava, fazia com que me sentisse lhe devendo um imenso favor, algo que me encantaria ser capaz de realizar e depois morrer feliz.
Internamente a minha mente lutava contra o efeito hipnótico. Eu deveria saber que ela estaria usando algum artifício desmobilizante. Sempre achei que estava preparado para tudo.
Ela pareceu estar satisfeita com a minha bestificação imediata, pois retirou a tampa do diminuto frasco que tinha na mão esquerda e o passou por baixo das minhas narinas. O efeito foi imediato, como se houvesse finalmente acordado para o mundo, o encanto quebrado.
— Sinto muito, precisava saber qual o nível que a minha proteção permitiria. O senhor era o melhor teste que poderia fazer neste curto espaço de tempo.
Ela voltou a sentar na cadeira e me sentei à frente dela. Desta vez consegui notar que os olhos dela estavam inchados de chorar. Seria por causa do falecido Endy?
— Desculpe-me a grosseria, mas não sei exatamente do que estamos falando, Lady Evelyn.
— Vamos deixar os títulos de lado, Shimoda. A questão é importante demais para que nos atrapalhemos com essas bobagens sociais. O senhor foi atingido pelos efeitos hipnopsíquicos do meu perfume, mas não se preocupe, já lhe dei o antídoto, não vai sentir nada, espero.
— Creio que está enganada, ainda não consegui organizar os meus pensamentos de forma coerente.
Ela era linda mesmo sem aquela coisa de perfume, isso podia afirmar, mas resolvi respeitar o verde escuro.
— Você deve entender que para uma mulher como eu não ficaria bem andar armada, embora deva lhe dizer que sou especialista em várias delas. Ser a filha de um ditador não é sinônimo de tranquilidade.
Tive que rever a minha opinião sobre a moça, ela era suficientemente inteligente e direta para fazer frente aos “gênios” da diretoria. Mas o que isso significava? O que estava acontecendo ali, exatamente? Achei melhor continuar com o jogo dela.
— Sim, entendo, uma arma química. Não sabia que existiam nesse tipo específico.
Ela deu um riso encantador, perfeito. O antídoto não devia ser tão bom quanto o perfume, seus efeitos perduravam de algum modo, ou então estava me apaixonando.
— Na verdade não existem, quero dizer, não são produzidas em larga escala. Apenas eu tenho a posse de um pequeno frasco de cada. Luiz a fez especialmente para mim e mesmo assim só a uso em ultimo caso.
Ela notou a minha confusão momentânea e interpretou corretamente a minha dúvida. Eu havia sido um tolo em subestima-la.
— O doutor Luiz Henrique III é meu tio, Shimoda. Foi ele quem me fez deste jeito, se podemos falar assim.
Eu estava levando uma surra intelectual, precisava me controlar o mais rápido que pudesse, minha capacidade mental no limite. O que ela estava me revelando afinal? E por quê?
— A senhora... Evelyn, precisa me desculpar, mas acho que ainda estou sob os efeito hipnóticos e...
— Vou ser rápida porque temos questões mais importantes no momento, mas sinto que posso confiar em você. Will confiava.
Claro que Endy confiava, com um simples estalar de dedos eu seria pulverizado em qualquer canto do universo, mais rápido que a desintegração de um isótopo radioativo, mas fiquei calado ouvindo atentamente.
— Demétrio II, meu pai, desejava que alguém o sucedesse quando não pudesse mais estar no comando de Gollum. Encomendou ao meu tio Luiz, um herdeiro.
— Desculpe, mas achei que essa seria a função da esposa...
— O Dr. Luiz Henrique III, meu tio, é o maior gênio da bioengenharia. Meu pai não iria permitir que o acaso fizesse o trabalho, fui projetada e manipulada desde o momento da concepção, Shimoda, nos mínimos detalhes.
— O doutor Frankenstein... — murmurei para comigo.
Pela primeira vez consegui fazer com que ela ficasse confusa.
— Não se preocupe, fiz um link mental com uma arqueohistória ficcional escrita por uma moça chamada Mary Shelley. Prossiga, por favor.
— O senhor pode me dizer quantos anos tenho?
Havíamos voltado aos títulos então. A coisa estava ficando interessante.
— Dmarks, meu filósofo preferido, disse que um homem de bom senso jamais deve responder a uma pergunta como essa antes de morrer, e depois só em caso de extrema necessidade.
— Eu tenho cento e setenta e cinco anos padrão, Shimoda. Nunca estive em uma câmara de crio-êxtase.
Não sei se foi pelos títulos terem sumido novamente ou se pela informação que ela me dava, mas o fato é que me nocauteara. Em que labirinto de Dédalo eu havia caído?

Próximos Capítulos: 



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