segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A Morte de Endy Will Sanders (Cap 1) - Danny Marks



1 a Parte


Aquele que combate monstros deve tomar cuidado para que ele mesmo não se torne um. E, se olhar muito tempo para o abismo, o abismo te encara de volta.
Friedrich Nietzsche


Havia 53 pessoas no funeral de Endy Will Sanders e apenas uma delas chorava.
            A transmissão da cerimônia foi feita ao vivo, pelos canais de subondas, para todos os oitenta planetas da federação e irradiada para todo o universo pelos canais de radiofrequência clássicos, como forma de arquivo galáctico. A importância de uma persona como Endy Will Sanders exigia isso, não que o merecesse, mas de alguma forma, para os que o conheceram em vida, talvez fosse como uma fonte de prazer inconfessável, por isso ninguém se opôs aos dispendiosos gastos que foram necessários para juntar todas aquelas pessoas de diversas partes da Federação em uma cerimônia daquele porte.
            Obviamente eu estava presente, não ousariam deixar de fora alguém que fora tão intimo de Endy nos seus últimos dias, o medo do que isso poderia significar ainda era muito maior do que qualquer tentativa de oposição, por isso que pude ver da primeira fila em que nos encontrávamos as lágrimas verdadeiras do Dr. Luiz Henrique III, o Farrapo, como o chamavam pelos corredores da ciência, e isso me intrigou como jamais outra coisa o faria.
            Endy era conhecido universalmente pelo seu poder e pelo seu gênio científico, fora pela sua intervenção que as maiores descobertas científicas haviam permitido que a Federação se tornasse algo concreto e funcional, até mesmo a ideia da Federação, nos moldes atuais, era obra sua, ou pelo menos é o que quase todos os cidadãos planetários acreditavam. Eu sabia que isso era apenas mais uma da imensa base de mentiras que formava o “iceberg” de sua figura pública. Endy neste momento se encaminhava, em seu caixão de cristal, de forma que todos pudessem acreditar que estava morto, para as chamas atômicas do crematório.
            Houve quem tivesse cogitado que o funeral deveria ser feito no espaço, o esquife cuidadosamente colocado em um veleiro espacial rumo ao Sol da Terra, um enterro Viking digno de um guerreiro do porte de Endy Will Sanders, ou talvez apenas uma forma de garantir que ele estaria morto sem chance de ser ressuscitado por algum tipo de tecnologia futura ou mesmo cultuado em algum solo que se tornasse sagrado e perpetuasse as suas ideias.
            A incomparável influência de Endy, mesmo após a morte, atestada por nove especialistas diferentes e juramentada sob pena de morte, só era menor do que o ódio que as pessoas que realmente o conheciam sentiam. Mas optou-se por algo discreto, ainda que, como sempre, tudo que envolvia aquele homem se tornava automaticamente espalhafatoso e dramático.
            O orador era nada menos que Roy Régulos, Primeiro Orador da Federação, e suas palavras eram vazias e sem entonação, plagiadas de vários autores desconhecidos, como se isso fosse o maior insulto, ou justa homenagem àquele homem que arruinara tantas vidas em beneficio de si mesmo, e por consequência mudara os rumos da humanidade.
            Chamou-me a atenção às palavras plagiadas de Penélope Garcia, personagem de um arcaico seriado criminal sobre serial killers. Criminal Minds era o meu preferido dos arqueovídeos preservados no Museu Universal da Cultura, a principal influência que me levara a tornar-me um Investigador.
            — Todos nós seguimos nossa própria jornada. Cada um de nós vive sua própria aventura, encontra todo tipo de desafios, e as escolhas que fazemos no caminho é que irão nos definir. Essas escolhas vão nos pressionar e nos testar e nos levar ao nosso limite. E nossa aventura nos fará tão fortes como jamais pensamos que poderíamos ser.
            Não sei o motivo de Roy Régulos ter escolhido algo tão inusitado como essas frases para o discurso, mas ao ouvi-las ditas por outro e conhecendo a pessoa que estava naquele esquife, não pude deixar de perceber certa justiça poética.
            E no momento em que as chamas abraçaram Endy Will Sanders dando um ponto final a sua jornada. Foi quando o Dr. Luiz Henrique III desmaiou.
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