sábado, 26 de janeiro de 2013

A morte de Endy Will Sanders (2 a Parte) - Danny Marks





Anteriormente:


2 a Parte


Todas as coisas verdadeiramente ruins nascem a partir da inocência.
Ernest Hemingway


            Não há nada que me irrite mais do que ser acordado por uma ideia obsessiva, ainda mais depois de ter passado boa parte da madrugada nos braços da experiente barman do Embaixador Andros, onde estava hospedado. Carina ainda dormia quando me levantei da confortável cama de pseudogravidade, seus cabelos suavemente flutuando sobre as costas nuas, os seios levemente apoiados, sustentados pelo microcampo gravitacional, os lençóis que apenas delineavam a curvatura de suas nádegas esculpidas em horas de academia.
            Peguei uma bebida no bar automático do quarto, tentando resgatar o pensamento que havia me tirado do idílico sonho que estava tendo. O que poderia ser mais importante que a recordação da noite anterior?
            Uma esfera de luz se materializou na minha frente, toquei-a acionando o comando para recebimento da chamada. Imediatamente uma tela tridimensional se formou e uma bela moça apareceu na forma holográfica. Eu a conhecia, a secretária particular de Roy Régulos, só podia ser encrenca.
            Ela não deu qualquer sinal de estar incomodada com a minha nudez ou com o copo em minha mão àquela hora do dia, apenas manteve o olhar diretamente para os meus olhos e falou com a suave e imperiosa voz que todas as secretárias particulares parecem ter.
            — Senhor Shimoda, o Orador Régulos gostaria de encontra-lo o mais breve possível, se o senhor não vir inconveniente.
            — É Investigador Shimoda.
            Eu estava suficientemente irritado naquela manhã para não me importar com os padrões de cortesia comuns. Sabia perfeitamente que “se o senhor não vir inconveniente” era apenas uma forma cortês de dar uma ordem. Quem poderia recusar uma solicitação do Orador Régulos? Mas o que me intrigava era o fato dele ainda estar no planeta.
            — Diga ao Orador que posso encontra-lo. Onde ele está locado?
            — O senhor pode se dirigir ao apartamento 501, ele o aguarda. Obrigada.
            O Embaixador Andros é um excelente hotel, dos mais caros, conta inclusive com o seu próprio espaçoporto particular, mas sei que dificilmente um orador se hospedaria nele junto com outras pessoas, alguma coisa estava muito errada e isso era o que mais me excitava. Olhei novamente para Carina que dormia placidamente, como se o universo fosse um lugar seguro e agradável, onde a inocência seria sempre preservada e valorizada.
            Deixei um recado para ela quando acordasse, tomei um banho rápido, maldizendo Régulos por me impedir de desfrutar o caro prazer da água a escorrer pelo corpo, me troquei e dirigi-me ao tubo gravitacional solicitando o quinto andar.
            O corredor estava vazio, como era de se esperar. Não precisava consultar os registros do hotel ou verificar pessoalmente para saber que todos os apartamentos estavam ocupados por diversos agentes do Serviço de Segurança Interplanetária muito bem treinados e armados, a despeito das leis vigentes. Conhecia os procedimentos do SSI, mais do que gostaria.
            A porta do 501 foi aberta pouco antes de me aproximar dela, o que confirmava a minha suspeita de que estava sendo monitorado por todo o caminho. A esta altura já sabiam até o que havia no meu estômago e como andava a minha saúde física e mental.
            Entrei e me deparei com Régulos vestindo um robe de seda arcturiana com o emblema da Federação sobre o peito direito. Parecia à vontade, mas a farsa era algo comum no ramo em que ele trabalhava, e a capacidade de desmascarar farsas era o que me tornava um Investigador.
            Recebi o copo que me oferecia e sentei-me na poltrona mais próxima, ele foi ocupar a outra que ficava opositora no círculo que centrava o ambiente recreativo do apartamento. Não trocamos cumprimentos ou palavras, ambos sabíamos que as coisas seriam rápidas e diretas.
            — Eu quero que pare o que estiver fazendo. — disse por fim.
            Parei teatralmente o segundo gole e falei.
            — Se não queria que bebesse, não deveria ter-me oferecido.
            — Sabe bem do que estou falando.
            — Desculpe, mas caso não tenha sido informado, telepatia não consta das minhas habilidades, Orador.
            Pontuei o título como uma sutil ironia. Sabia que deveria haver telepatas por perto, e não me importava com isso. Meu treinamento incluía bloqueio mental profundo, mesmo um telepata de nível oito teria dificuldades de entrar na minha mente. Ele teria que contar com o que se sabia publicamente dos meus atos, todos nós temos nossos segredos, apenas alguns mais secretos que outros.
            Sorriu com tom apaziguador, não tocara no conteúdo do copo que segurava, as pernas cruzadas, os braços apoiados nas laterais da poltrona. Estava no domínio da situação e sabia disso, não quis mudar essa perspectiva.
            — O senhor não deixou o planeta após a cerimônia e, pelo que fui informado, procedeu a diversas entrevistas com o Circulo Interno de Endy Will Sanders.
            Notei que ele citara o nome de Endy de forma completa, sem entonação, como se fosse um título qualquer, como caberia a um Primeiro Orador da Federação, mas a sua mão esquerda tremeu ligeiramente ao fazer isso. Havia ódio profundamente enterrado, o que era muito comum em se tratando de Endy.
            — Não há crime algum em conversar com as pessoas próximas do seu empregador após o funeral deste. Na verdade, foi para isso que fui contratado, como deve saber.
            — O seu contrato foi cancelado com a morte do seu empregador. Como deve saber.
            — Estou por minha conta, ainda posso gozar de alguns privilégios que me foram concedidos enquanto estou aqui neste planeta. Decidi aproveitar a estadia por mais alguns dias. Alguma coisa nisso o incomoda, Orador?
            Régulos levantou-se e colocou o copo intocado na bandeja automática que desapareceu com ele em algum lugar. Aproximou sua figura de mim, olhando de cima enquanto eu permanecia sentado.
            — Já tivemos dificuldades demais em encobrir o incidente, não desejamos que alguém faça a coisa ficar pior ainda. Essa história pertence aos Registros agora.
            — O “incidente” como o senhor o chamou, foi o suicídio de Endy. Não vejo como algo assim pode ficar pior.
            — Precisa entender, Investigador Shimoda, Endy Will Sanders é uma figura carismática em toda a galáxia, seu simples nome influencia significativamente bilhões de indivíduos. Foi um dos principais ícones de sua época e não gostaríamos que uma ocorrência infeliz, da qual ninguém saberá jamais o motivo, interfira no positivismo que esse ícone tem proporcionado.
            — Endy foi a pessoa mais amada e odiada de toda a história da humanidade, como deve saber senhor Orador, ou não teria feito aquele discurso. Mas jamais, em circunstância alguma, cometeria suicídio. Portanto, se me permite, não diga bobagens.
            — O senhor se arrisca demais para um homem da sua posição.
            Levantei-me e o encarei, a proximidade me dava alguns centímetros a mais de estatura que ele e não deixei de usar o fato.
            — Não, o senhor se arrisca demais para alguém da SUA posição. Ficar em um planeta destes, dias após a cerimônia, hospedar-se em um hotel como este com outras pessoas, a título de quê? O que teme tanto que precisou falar pessoalmente comigo, senhor Orador? A verdade?
            — A verdade é um subterfúgio que serve aos interesses da humanidade.
            — Não me venha com citações políticas, senhor Orador. Conheço bem os clássicos. Quer a verdade? Pois bem, Endy sabia que seria assassinado, por isso ele me contratou, para impedir que isso ocorresse.
            — O que só comprova a sua incompetência então, já que está morto.
            — E a sua afirmação comprova de que ele estava sendo ameaçado.
            — Esse homem era paranoico, todos sabem disso.
            — Exatamente! Nenhum paranoico cometeria suicídio. O que nos leva a crer que, ao menos desta vez, ele estava certo.
            — Não percebe o que a simples sugestão disso pode causar em toda a Federação?
            — Sim, eu sei. Mas talvez o senhor não esteja vendo as outras implicações disso.
            Afastei-me dando as costas para ele. Não é todo dia que se pode fazer algo assim e não resisti à tentação. Joguei-lhe a bomba ainda de costas, observando o seu semblante refletido pela parede de metal polido.
            — Se, e note que estou trabalhando com a possibilidade, alguém assassinou Endy, foi alguém capaz de furar o circulo de proteção que havia criado em torno de si. Alguém tão poderoso e paranoico que tornaria o feito algo impensável como as viagens no subespaço antes da Era Galáctica.
            — As viagens de subespaço já habitavam a imaginação das pessoas bem antes de ser realmente descoberto o princípio do motor de subespaço.
            — Exatamente! — virei-me bruscamente, era o efeito dramático que eu precisava para dobrar a vontade daquele homem. — Foi exatamente a possibilidade imaginativa que permitiu que alguém descobrisse o princípio e tornasse essa possibilidade um fato realizável.
            — Endy Will Sanders descobriu o princípio do motor de subespaço, o que só comprova que era um homem muito inteligente.
            — O senhor sabe que isso é uma mentira. Endy era um ladrão de ideias, um talentoso farsante, mas ainda assim uma fraude. Essa foi apenas uma das muitas coisas ilegais que ele fez. Não precisa fingir que não sabia disso.
            — Ainda assim não vejo...
            — Claro que não vê, senhor Orador. Alguém queria e conseguiu, provavelmente, assassinar o mais odioso ser humano que já existiu. O mais odioso e poderoso ser humano, o mais bem protegido em toda a galáxia. E se alguém conseguiu fazer isso, senhor Orador, eu quero descobrir o motivo e principalmente, como foi feito.
            Uma luz de compreensão começou a surgir no semblante daquele homem, seguida por um filete fugaz de medo profundo.
            — Se alguém conseguiu matar Endy Will Sanders, nada impede que ele o faça de novo. Ninguém está seguro na Federação até que se descubra por que e como isso foi feito. Nem mesmo o senhor, Orador.
            Régulos simplesmente deixou-se cair na poltrona.
            Eu havia conquistado a sua atenção, havia derrotado o homem mais poderoso da Federação em seu próprio terreno, um feito só superado pelo possível assassino de Endy Will Sanders.
            Nunca gostei de ser o segundo em nada do que fizesse, precisava descobrir quem matara Endy.
            Então eu o mataria.

Próximos Capítulos: 



Postar um comentário

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...