segunda-feira, 25 de abril de 2011

Criação - Anna Amorim

Se vinda do pó sou
E ao pó retornarei ao não ser...
Cola tua boca na minha
Para salvar-me do afogamento
Divino.


Assopra-me as feridas
Tal qual o joelho esfolado foi assoprado
Este não sarou da dor do esfolamento
Do próprio assopro.



Assopra-me pra dentro
E não pra fora.




É tarde para não morrer já que se nasceu
Como é tarde para não viver o resto da vida.
Assopra-me outra vida
Entra em mim outra alma.

Não sou pó, sou barro
E do barro faço escultura
E a escultura dou o dom da fala: a boca
A mão o dom da escrita
Faço de mim eu iminente
Nem pó, nem barro
Sujeito vigente.


Anna Amorim,  1998
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